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Southern Comfort

por Fernando Melro dos Santos, em 17.09.12

Boa noite a todos.

 

Se eu tivesse que resumir, para um estrangeiro ou para um extraterrestre, a condição vigente em Portugal, diria apenas "irreversível". Tão só.

 

Com tal confiança o digo, que somente o filme homónimo de Gaspar Noé, com o seu retrato hiper-realista das mais vis e animalescas vivências - da suma entrega à desesperança - consegue fornecer-me uma referência cinematográfica que aluda convenientemente à repulsa que me acomete quando interiorizo em que ponto, afinal, nos encontramos.

 

Com vossa licença, carrearia para o início deste meu primeiro despautério uma citação, datada de hoje, emanada pelo edil da capital:

 

"É uma situação inesperada. Como a rotunda exterior dá para todas as saídas e as pessoas têm medo de se enganar, estão a ir para essa."

 

E aqui se encerra mais do que à vista é dado destrinçar. Senão vejamos, passe o trocadilho infame.

 

Há uma situação inesperada que ocorre logo no primeiro dia em que exequenda obra é posta à prova. Ninguém é inquirido, e ainda menos punido, mas mais grave, voz alguma se eleva. Porquê? Porque "bacalhau basta". Pode ser por isto, pela atávica necessidade de atender à voz do dono, ainda que os desmandos deste se resumam a exigir contínua, perene, passiva, bovinidade. Pode ser por isto, de facto.

 

Mas ao autarca pode ter fugido, por atavismo de igual porte, a boca para a verdade. As pessoas têm medo.

 

E o maior pavor, tal como o sonho da razão produz monstros, é que seja esta a verdade. Que as pessoas, na verdade, nunca tenham deixado de ter medo, diluindo uma forma de despotismo noutra, nova, tanto ou mais brutal que a anterior, certamente mais insidiosa e torpe, acoitada na aleivosia de quem se faz, há 38 anos, eleger em nome de um bem comum que reiteradamente só a alguns beneficia , e isto às custas de todos - com a inclusão, à revelia, de nascituros e "voluntariamente interrompidos".

 

Contudo, manda a curiosidade, motor para o Mal e para o Bem de todas as transgressões do Homem, que se aclare esta noção de irrevogabilidade.

 

Crime. O sistema de justiça, pilar primeiro de um Estado de Direito, deixou-se inflar como uma cabaça podre, minado a partir de dentro por uma Constituição anacrónica e colectivista, deixando lavrar, a eito, leis que somente ao legislador e seus correligionários podem ser benfazejas. Também isto grassa sem oposição no seio de quem vota.

 

Cui bono?

 

Programas operacionais, obras faraónicas, processos infindáveis ou que se finam num arquivo sumário, autarcas convocados às custas do erário para que neguem gostar de automóveis: o ridículo e a pilhéria cobriram de desgraça, à falta de vergonha, três gerações de portugueses. Onde em tempos o teor das minhas palavras faria soerguer debate, hoje haverá quem me queira empalado por não acrescentar "e as portuguesas", sintoma maior da parvoíce e da leviandade incrustadas no meio de todos, e em cuja senda caminham males ainda maiores.

 

Corrupção. Nos partidos, há já filhos e netos à espera da sua fatia. De entre os que não se abstêm, alguns ainda acreditam, na inocência de quem labora honestamente, que é uma questão de tempo, que Roma não se fez num dia, enfim, que podia ser pior. Que dantes andávamos descalços e sem pão, e como tal devemos fechar os olhos e relativizar o esbulho e o gáudio em que refocilam os mesmos de sempre, que chamaram à União Europeia um figo dourado.

 

Cui bono?

 

A quem favorece a burocracia e a imanente estagnação da sociedade?

 

Ignorância. Infantilização por via do amorfismo cultural e académico, do escárnio para com a dissonância; a promoção subsidiada da puerícia, a salvo de tudo, particularmente de si mesmos. Uma redoma que traduz com o viés necessário qualquer tentativa individual de interpretação da realidade. Jornais, televisões e rádios que complementam a apatia e o catéter anestésico. Jovens promissores reduzidos à boçalidade, crianças nascidas livres mas tornadas em títeres mimados e incapazes de vingar uma vez desligados da máquina estatal.

 

É isto que os portugueses querem para o futuro. Reparem, não falta aqui nenhum ponto de interrogação. Querem-no e estão de boas relações com as suas consciências, pois assim têm votado, livres de coacção, sem que ninguém sobrevenha no acto do sufrágio, coarctando a sua real intenção. E assim o têm, ou pelo menos, certamente que assim o dirá o espelho de suas casas, quando todas as manhãs, na mesma insatisfação modorrenta do dia anterior, se forçarem a encarar mais um dia, ainda outra jornada.

 

Terei mais a dizer. A razão dita-me que cerceie essa vontade agora, para que possa postar isto, mas a emoção manda que escreva mais.

Um verdadeiro liberal, aprendi, é humilde. Não diz que sabe, ainda que saiba. E muitas vezes, a maioria das vezes, dirá que não sabe, por ser verdade. É agnóstico, e senta-se entre os muros ávido do saber, do rigor que advém com o entendimento da própria discussão, do próprio debate. Não advoga o fanatismo e chama uma crença a uma crença e um facto a um facto. Lida com absolutos com a mesma tranquilidade que lhe permite relativizar a comédia e a tragédia.

A lacuna de liberalismo, em Portugal, passou de risível a gravosa, mas para azar dos imperecíveis que teimam sangrar a tudo e a todos, é para eles o princípio do fim.

 

Se vi na manifestação de sábado a herança do PREC, os idiotas úteis, e os meninos bem postos que se charram e querem ser "mitras"? Se vi gente desvairada que pretende apenas mais dinheiro fácil para estoirar em futilidades? Vi tudo isso. Querem saber, contudo, a melhor parte? Eram peduncularmente minoritários. Contar-se-iam dois ou três em cada cem.

 

É aos outros que este post é dedicado, porque a ninguém deve ser permitido, impunemente, que escarneça e apouque daqueles que, finalmente, saíram de casa e começaram a resistir.

publicado às 20:55

O vazio.

por Cristina Ribeiro, em 26.05.10

E porque estou convicta que o Sentido de Estado se enterrou nas areias movediças que nos invadiram há décadas. Nada a acrescentar.

publicado às 21:49





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