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Loucuras de crianças

por Nuno Castelo-Branco, em 13.09.12


Primeira cena, de manhã

 

Num cemitério de Lourenço Marques, uma jovem mulher debruça-se sobre a campa de reluzente mármore branco onde jazia o seu pai, falecido há pouco mais de três lustros. Todos os anos e invariavelmente num sábado quente, as letras eram retocadas com tinta da China, aproveitando-se para compor os jarros de flores e fazerem-se as limpezas necessárias. Ali mesmo ao lado, dois miúdos distraíam-se, percorrendo as ininterruptas fileiras de túmulos, lendo os nomes, olhando e comentando caras que as fotografias esmaltadas diziam pertencer a alguém para sempre desaparecido. 

 

Naquele dia, um rotineiro levantamento de campa despertou a curiosidade das crianças. Os coveiros tratavam duma exumação e foi com o sempre vivaz interesse pela morte alheia que foram sendo retirados os ossos, criteriosamente colocados numa caixa cujo destino seria o gavetão ou um jazigo familiar. Chegada a hora do almoço, os diligentes técnicos de desenterro foram proteger-se da canícula, decerto saboreando o sempiterno puré de farinha de mandioca, acompanhado pela carne guisada suculentamente boiando num molho ocre e picante.

 

Segunda cena, à tarde

 

Os fins de semana, os crepúsculos no nº 40 da Rua Dr. J. Serrão, foram sempre momentos muito agradáveis. As visitas chegavam, preparava-se um lanche que de tão prolongado, acabava sempre como um jantar até às tantas. Era a esperada oportunidade  para as habituais conversas sobre a política que alguns ainda hoje, noutro compartimento da história e a milhares de quilómetros daquelas paragens, insistem em dizer que fora "matéria da qual não se podia pronunciar palavra". Bem pelo contrário, pronunciavam-se nomes, dissecavam-se reputações, aventavam-se intenções mais ou menos esperadas. Em África falava-se e lia-se, o inverno da política era muito ameno. Se a coisa pública consistiu o sacramento tão certo como para alguns sempre fora a missa e domingo, por vezes as conversas enveredavam para as novidades do momento, fossem elas alguns ditos mais ou menos roçando a intriga, concertos, os filmes em exibição, ou longas, muito longas discussões sobre um ou outro autor que as estantes acolhiam como corpo presente em papel.

 

Lá para o fim daquele dia, a sala estava cheia, falava-se animadamente em dizeres cruzados. Subitamente, o silêncio impôs-se pela pachorrenta entrada do cocker spaniel Barine, um lindo cão de família, de pelo louro torrado, longas orelhas quase rentes ao solo e coto de cauda sempre a dar-a-dar. Trazia na boca um osso longo, amarelado e que só os muito distraídos poderiam não conseguir identificar a pertença.

 

- "Chiiii, Barine, dá cá essa porcaria! Onde é que foste buscar isso? Que nojo! Este cão é terrível, passa a vida a trazer lixo da rua! Mas que raio de osso é este?


- Grrrrrrrrrr-ão! ão! ão! Grrrrrrrrrrrrrrrrrr! Nhac!

 

Metia medo. Aquela pacífica criatura era conhecida como impiedoso guardião de ossos,  malgas  com comida ou quaisquer guloseimas que lhe pusessem à frente, mesmo tratando-se de fraldas de bebé pouco limpas. Uma temível e imprevisível fera.

 

A dona da casa desistiu do injusto confisco e poucos minutos depois, daquela já bem descalcificada ruína, apenas restaram umas pobres migalhitas bem depressa varridas e depositadas na lata do lixo.

 

Acto contínuo, uma trovoada de risotas. Alí estavam os dois miúdos rebolando na alcatifa, corados e de alegres lágrimas escorrendo livremente pelas faces.

 

Subitamente, incredulamente contabilizando os momentos do dia, a mãe entendeu o que se passava e a contragosto quis confirmar a razão daquela explosão de alegria.

 

- "Mamã, havia tantos... e trouxemos um para o Barine" 


Profanação de cadáver, lá dizia a a Mrs. Marple. Não se ralem, o crime prescreveu. Apenas esperamos que os antigos egípcios não tivessem razão nas suas crenças acerca da integridade dos corpos destinados à segunda oportunidade de vida. Mas isso fica lá para as bandas de Orion. 

 

publicado às 13:57

O Corno do almoço

por Nuno Castelo-Branco, em 22.02.09

 

O Domingo é geralmente reservado para o almoço em casa dos meus pais, ficando a tarde para um passeio nos mercados de velharias ou longas conversas na sala. Há sempre alguém que aparece para o lanche, cumprindo-se assim uma rotina que connosco veio de Moçambique.

 

Dias há em que a política é o sacramental motivo para furibundas discussões, confirmando fidelidades partidárias, dissecando-se as notícias do momento ou conjecturando acerca daquilo que um preocupante futuro nos reserva. No entanto, hoje foi uma daquelas tardes de recordações de momentos, onde o insólito e o pitoresco oferecido por um certo tipo de gente habituada a outros costumes, chocou uma vizinhança habituada a bons dias sem resposta audível, mas com curtos e enigmáticos assentimentos cranianos ou a meios sorrisos que denotavam um protocolar frete ou a aborrecida europeia e lusitana timidez.

 

O meu pai falou-me naquele grande corno de cudo, hoje pendurado na varanda da casa em Caxias. Espécime de espantosa beleza e robustez, o cudo era um dos alvos favoritos desta subespécie de caçadores-recolectores tardios que de espingarda em riste, procuravam regressar a casa com estórias de suspeitos heroísmos numa selva controlada a ponto de mira e cartuchos de caça grossa. Enfim, sei que aquele corno de cudo sempre esteve lá em casa e faz parte do património familiar. 

 

Relembrando o uso que o Miguel e eu lhe dávamos em África, fazíamos dele trombeta de guerra, nas nossas brincadeiras de cruzados à conquista de Lisboa ou de peões de Aljubarrota. Quantos arranhões, nódoas negras ou contusões, mercê de confrontos com amigos que ao fim de dez minutos se tornavam pela força da adrenalina, em ferozes e momentaneamente implacáveis adversários. O corno do cudo era uma preciosidade que soava para dar instruções ou como simples som de alerta.

 

Pois bem, o meu pai trouxe como curiosidade da nossa adolescência, um episódio que de tanto ser repetido se banalizou, levando a minha prodigiosa memória  - modéstia à parte -, a olvidá-lo.

 

De facto, andava ele a preparar com o seu amigo dr. João Soares - esse mesmo que todos conhecemos - a reedição das Memórias de Bulhão Pato e invariavelmente, marcavam as reuniões de trabalho em casa do dirigente socialista. Vivíamos a uns dois centos de metros, mas do lado exactamente oposto do parque, tendo a piscina municipal do jardim do Campo Grande, interpondo-se entre as residências. Chegando a hora do almoço, a minha mãe convocava o meu irmão e pedia-lhe para chamar o nosso pai. Lá ia o Miguel para a varanda do 4º andar e com o corno fazia atroar nos ares o velho chamamento africano, pelo que o pai lá regressava a casa para o repasto. Isto, para grande espanto dos vizinhos e gáudio dos nossos amigos. Outros tempos, nos anos oitenta, quando o telemóvel ainda fazia parte da ficção científica. Garanto-vos  que o som é impressionante, potente e estranho, mas bem digno da imagem que retemos dos filmes de Cecil B. DeMille. E creiam-me que era audível a muito considerável distância, pois cheguei a escutá-lo um dia, quando sentado na escadaria da faculdade de letras, expliquei a embasbacados colegas, a razão do meu repentino riso.

 

E hoje lá o experimentei outra vez, soprando o corno com força e voltando por breves momentos a um outro tempo e ao inconfundível som que afinal posso fazer soar sempre que me apetecer. 

publicado às 20:14






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