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Paródias no Teatro D. Maria II

por Nuno Castelo-Branco, em 24.04.14

 

Têm sido mornos, estes últimos dias de regresso a um passado já muito distante. Sempre há uma ponta de interesse nas palavras de protagonistas de momentos há muito vividos e sem surpresa deparamos com uma algaraviada de ses ou ameaçadores "agarrem-me!, senão". Senão, nada. Nem outra coisa seria de esperar.

 

Em boa hora feita a maior parte da reconstrução ainda antes da queda do anterior regime, o Teatro D. Maria II tem oferecido o seu discreto esplendor dourado sobre creme, a uma série de palestras protagonizadas por algumas personalidades hoje na retraite e praticamente desconhecidas por quem ainda não tenha completado meio século de existência.

Os oradores, normalmente leitores de folhas onde escreveram pontos de vista bastas vezes de difícil compreensão para quem assista às sessões, são agora gente absolutamente anónima, mesmo para quem dispense alguma atenção às coisas da política nacional. É confrangedor o espectáculo oferecido militares que tendo sido, sem qualquer dúvida, exímios no exercício do seu dever nas frentes de combate, são contudo incapazes de convencer o mais crédulo acerca das suas capacidades na gestão dos negócios públicos. A ignorância da história implica sempre uma errónea interpretação da mesma, até daquela que por ser comummente conhecida por factual, deveria implicar uma menção incapaz de ocasionar qualquer tipo de crítica. A sensação com que ficamos é sempre a mesma: pueris jactâncias próprias de repastos na messe, corridas verbais atrás de momentos históricos que surgem agora como lendas ao sabor da mais conveniente interpretação, deliberada e quase patética apropriação daquilo que todos julgamos ser A Pátria.

 

Segundo as palavras de um contra-almirante que ontem e a meio da leitura reclamou a imperiosa necessidade de meter água, tudo lhes devemos, desde o advento da independência no século XII, até ao 5 de Outubro que contou com a mais abjecta abstenção da esmagadora maioria dos militares no activo! A conhecida e apertadíssima aliança com a Coroa, os Descobrimentos e a Expansão, são tudo coisas próprias e justificam plenamente uma condição especial, de casta.  A partir da menção do tal 5 de Outubro que não foi de forma alguma obra dos dragonados mainstream, na ora surgiram uns tantos incómodos desajeitadamente mencionados à pressa, como se a imobilidade após a tragédia do 1º de Fevereiro de 1908, as desgraças da 1ª república, o golpe de Sidónio, o 28 de Maio e todo, repito, todo o regime de Salazar, não tivessem sido da inteira responsabilidade política dos militares. Não estando em causa a abnegação com que serviram o país nos momentos em que fomos confrontados com ameaças bélicas vindas do exterior, o desempenho político dos militares é confrangedor. Nem sequer os seus interesses corporativos têm sido capazes de defender e a abolição do Serviço Militar Obrigatório consiste num exemplo desse acatar de situações pouco claras ou de discutível conveniência para a defesa do interesse nacional. É a velha questão do oportuno laissez faire dos tempos de vacas gordas, Mercedes de matrícula MX ou ME com chauffeur feijão-verde à porta, Casão Militar à disposição e em exclusividade, etc. São muito liberais! 

Passando sobre a indecente mancha que na mente de muitos ainda resiste à passagem das décadas, como a rápida quebra da disciplina, a deposição das armas sem derrota, o imiscuir na extorsão e abuso de luso-africanos em praticamente todas as parcelas do antigo Ultramar, o abandono dos seus camaradas - os tais pretos que perfaziam a metade dos efectivos e que ficaram à mercê da violência dos "outorgados vencedores"-, os negócios empresariais cujos contornos são convenientemente abafados por uma imprensa medrosa, somos agora colocados perante um punhado de iracundos coronéis de sessenta panzers Leopard e contra-almirantes de quatro fragatas e dois patrulhões oceânicos.

 

E o que dizem eles? Falam de um país passível de ficar orgulhosamente só, talvez naquele mundo ideal que funcionasse num sistema de caixinhas autárcicas e onde não existisse qualquer tipo de interdependência. Quem escute as escassamente doutas opiniões, diria ser viável reduzir Portugal à dimensão da creche onde a rotatividade na desagradável mudança de fraldas e a indicação de voluntários para o ministrar da hora da mama, consistem nas mais importantes actividades que justificam a existência da organização. E assim por diante, desde a "escola autónoma", até à "rua organizada com comissões" e vigilantes, a "fábrica cidade", o "escritório cooperativa"... Todos eles têm exaustivamente mencionado a necessidade de uma sonhada democracia directa, sem que dela ofereçam um modelo compreensível em termos de organização constitucional. Paira sempre a absoluta certeza da tentaçãozinha totalitária, a rejeição do sistema partidário e das eleições que este implica - ou seja, os portugueses são estúpidos e precisam deles, de quem ponha e disponha -, alijando-se a vontade popular para o ecoponto de coisas dispensáveis e susceptíveis de pouco ecológica co-incineração. Às estultas cabeças, talvez jamais tenha ocorrido a mais ténue ideia daquilo que é a situação de Portugal neste mundo real, de nada lhes servindo a apresentação de números ditados pela opção de um modelo de desenvolvimento que a generalidade da sociedade reclamou como urgente e do qual os próprios têm sido claros beneficiários. A dívida, o aparelho produtivo e uma situação financeira tão diversa daquela existente nos tempos da juventude dos militares d'Abril, os vários sistemas que garantem o funcionamento do aparelho estatal, "tudo isto  será coisa de fácil resolução", enfim, aquele "vamos fazer a coisa, depois logo se vê" e que por infalível regra, sai sempre muito caro àquilo que eles próprios gostam de chamar de colectividade. 

 

Já tivemos um exemplo desse "logo se vê" que agora assumem como um facto por eles consumado há quatro décadas. Uma total inépcia na condução da sociedade civil num momento de transição de um regime para outro - que nem os próprios sabiam qual seria -, uma catastrófica impreparação para o exercício da política diplomática que teria evitado a desgraça, a desonra e a vergonha em África e em Timor, a súbita queda da disciplina nas hostes que afinal não controlavam.

 

É bastante evidente, esta calamitosa impreparação destes militares formados pelo regime da 2ª república. De todos eles, dir-se-ia que apenas um daqueles antigos capitães terá lido, aprendido e evoluído. Chama-se Ramalho Eanes. 

 

Imaginemos o que sucederia a Portugal, se amanhã acordássemos com blindados e festarola uniformizada nas ruas de Lisboa. Aceitam-se alvitres. 

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publicado às 18:32

Os inquéritos de opinião, as sondagens e as estatísticas são primos da mesma distorção. É possível, se assim o desejarmos, fabricar resultados e influenciar juízos e percepções. Provavelmente o que resulta deste estudo não andará longe da verdade, mas, na minha opinião, para se comparar a qualidade de vida registada no antigo regime com a do pós-25 de Abril, os únicos que poderão cabalmente responder a esta pergunta já estarão mortos e enterrados. Ou seja, descartemos o que pensam ou deixam de pensar os que se encontram na faixa etária dos 18 aos 34 anos. Esses indivíduos nem sequer eram espermatozóides antes de 1974 - nem sequer sonhavam com a sua própria existência. São dispensáveis para efeitos deste estudo. Quem deveria ser consultado (em dia de visita ao lar de terceira idade), são aqueles cidadãos que efectivamente viveram quarenta anos sob um regime autoritário e outros tantos sob o sol democrática. Esses séniores é que têm autoridade para fazer o boneco de uma coisa e de outra. Os outros têm umas noções e formaram juízos a partir de estudos como estes. Os factos palpáveis na primeira pessoa são escassos. Os sobreviventes de Salazar serão os únicos com credibilidade estatística para avançar com respostas. No entanto, pela amostragem e método empregue na recolha de informação, provavelmente não haveria muito sucesso nas entrevistas telefónicas realizadas aos visados com mais de 100 anos de idade. A probabilidade de serem cegos, surdos (e mudos) é, de facto, muito elevada. Dito de outro modo, não se pode comparar cravos com bugalhos, pelo menos deste modo cru e insonso. Há que cozinhar as percepções com ingredientes de qualidade. 

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publicado às 07:41






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