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Filosofar é aprender a morrer (5)

por Samuel de Paiva Pires, em 14.06.13

 

Albert Camus, A Queda:

 

«O que é certo é que o próprio censurado [Jesus Cristo] não pôde continuar. E eu sei, meu caro, o que estou a dizer. Houve tempo em que eu ignorava, em cada minuto, como poderia chegar ao seguinte. Sim, pode-se fazer a guerra neste mundo, macaquear o amor, torturar o seu semelhante, brilhar nos jornais ou simplesmente dizer mal do vizinho enquanto se faz malha. Mas, em certos casos, continuar, somente continuar, eis o que é sobre-humano. E ele não era sobre-humano, pode crer. Gritou a sua agonia e eis porque o amo, a esse meu amigo, ele que morreu sem saber.»

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publicado às 00:34

Do Juízo Final

por Samuel de Paiva Pires, em 04.06.13

 

Albert Camus, A Queda:

 

«Acredite-me, as religiões do mundo enganam-se desde o momento em que pregam moral e fulminam mandamentos. Deus não é necessário para criar a culpabilidade nem para castigar. Para isso bastam os nossos semelhantes, ajudados por nós próprios. O senhor falava-me do Juízo Final. Permita-me que ria respeitosamente. Eu espero-o a pé firme: conheci o que há de pior, que é o juízo dos homens. (…) Vou dizer-lhe um grande segredo, meu caro. Não espere pelo Juízo Final. Realiza-se todos os dias.»

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publicado às 01:10

Pensar é dizer não

por Samuel de Paiva Pires, em 10.02.13

 

José Adelino Maltez, Breviário de um Repúblico, 29 de Janeiro:

 

«Pensar é dizer não. A realidade sempre foi subvertida pelas autonomias, pessoais e comunitárias, quando estas assumem que, no princípio, tem de estar o fim, o tal dever ser que é, das essências que apenas se realizam pelas existências. Todos os decretinos processadores, em nome da ideologia ou do vértice hierárquico, do ministerialismo, com os seus sucedâneos, directoristas, presidencialistas ou rectorísticos, temem os que praticam o pensar é dizer não, como dizia Alain. Ou que a revolta é bem mais fecunda que a revolução, como vai acrescentar Albert Camus (2011).

 

Resistência individual. Quem experimentou as garras do saneamento e do processamento da persiganga não pode admitir que o rolo unidimensional do conformismo nos faça enjoar, sobretudo nesta praia da Europa que sempre foi partida para todas as sete partidas. O sinal do nosso futuro continua a passar pela resistência individual e pelo pensamento crítico da liberdade. A essência do homem ocidental sempre foi o individual do indiviso, que é expressão da fundamental dignidade da pessoa humana. Mesmo quando se rejeitam as normalizações impostas pelos pretensos antidogmáticos, neodogmáticos, como esses que, perante certo situacionismo, proclamam que têm o monopólio da contestação e assim nos desmobilizam. Os bobos da demagogia, da tirania e da mentira podem alimentar-se desses irmãos-inimigos. Quem quiser continuar mesmo do contra tem que procurar o mais além e antecipar o tempo da revolta (2011).»

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publicado às 15:36

Do sentido da vida (5)

por Samuel de Paiva Pires, em 29.01.13


Albert Camus, A Peste:


«Ao meio-dia, hora gelada, o médico, que saíra do carro, olhava de longe Grand, quase colado a uma montra cheia de brinquedos grosseiramente esculpidos em madeira. Pelo rosto do velho funcionário, as lágrimas corriam sem interrupção. E essas lágrimas perturbaram Rieux, porque as compreendia e as sentia também no fundo da sua garganta. Também ele se lembrava daquele infeliz noivado, em frente de uma loja de Natal, e de Jeanne voltada para ele para lhe dizer que estava contente. Do fundo desses anos longínquos, no próprio coração desta loucura, era certo que a voz fresca de Jeanne voltava até Grand. Rieux sabia o que pensava neste minuto aquele velho, que chorava e julgava, como ele, que este mundo sem amor era como um mundo morto e que chega sempre uma hora em que nos cansamos das prisões, do trabalho e da coragem, para reclamar o rosto de um ente e o coração maravilhado da ternura.»


Leitura complementar (posts desta série): UmDoisTrês; Quatro.

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publicado às 20:21

Do sentido da vida (4)

por Samuel de Paiva Pires, em 25.01.13

Em A Peste, Camus coloca a dada altura o intrigante Tarrou a confidenciar ao médico Rieux a tormenta que sofre desde que aos 17 anos percebeu que o pai era responsável por assassinar vários indivíduos, em virtude do exercício da profissão de juíz. Trata-se de um discurso brilhante e em certa altura até arrepiante, de uma alma à procura de paz num mundo onde o assassínio é banal e até alegadamente justificado. A extensão desta passagem não me permite colocá-la aqui, mas revelo apenas o final:

 

«Ao terminar, Tarrou balouçava a perna e batia levemente com o pé no terraço. Depois de um silêncio, o médico soergueu-se um pouco e perguntou-lhe se tinha alguma ideia acerca do caminho que era preciso seguir para se chegar à paz.
- Tenho. A simpatia.»

 

Leitura complementar (posts desta série): UmDois; Três.

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publicado às 19:03

O meu balanço de 2012 e resolução de Ano Novo

por Samuel de Paiva Pires, em 30.12.12

 

Albert Camus, The Rebel:

 

«What is a rebel? A man who says no: but whose refusal does not imply a renunciation. He is also a man who says yes as soon as begins to think for himself. A slave who has taken orders all his life, suddenly decides that he cannot obey some new command. What does he mean by saying “no”?

 

He means, for instance, that “this has been going on too long”, “so far but no farther”, “you are going too far”, or again, “there are certain limits beyond which you shall not go.” In other words, his “no” affirms the existence of a borderline. You find the same conception in the rebel's opinion that the other person is “exaggerating”, that he is exerting his authority beyond a limit where he infringes on the rights of others. He rebels because he categorically refuses to submit to conditions he considers intolerable and also because he is confusedly convinced that his position is justified, or rather, because in his own mind he thinks that he “has the right to...”. Rebellion cannot exist without the feeling that somewhere, in some way, you are justified. It is in this way that the rebel slave says yes and no at the same time. He affirms that there are limits and also that he suspects - and wishes to preserve - the existence of certain things beyond those limits. He stubbornly insists that there are certain things in him which “are worth while ...” and which must be taken into consideration.

 

In every act of rebellion, the man concerned experiences not only a feeling of revulsion at the infringement of his rights but also a complete and spontaneous loyalty to certain aspects of himself. Thus he implicitly brings into play a standard of values so far from being false that he is willing to preserve them at all costs. Up to this point he has, at least, kept quiet and, in despair, has accepted a condition to which he submits even though he considers it unjust. To keep quiet is to allow yourself to believe that  you have no opinions, that you want nothing, and in certain cases amounts to really wanting nothing. Despair, like Absurdism, prefers to consider everything in general and nothing in particular. Silence expresses this attitude very satisfactorily. But from the moment that the rebel finds his voice - even though he has nothing to say but “no” - he begins to consider things in particular. In the etymological sense, the rebel is a turncoat. He acted under the lash of his master’s whip. Suddenly he turns and faces him. He chooses what is preferable to what is not. Not every value leads to rebellion, but every act of rebellion tacitly invokes a value. Or is it really a question of values?

 

An awakening of conscience, no matter how confused it may be, develops from any act of rebellion and is represented by the sudden realization that something exists with which the rebel can identify himself – even if only for a moment. Up to now this identification was never fully realized. Previous to his insurrection, the slave accepted all the demands made upon him. He even very often took orders, without reacting against them, which were considerably more offensive to him than the one at which he balked. He was patient and though, perhaps, he protested inwardly, he was obviously more careful of his own rights. But with loss of patience – with impatience – begins a reaction which can extend to everything that he accepted up to this moment, and which is almost always retroactive. Immediately the slave refuses to obey the humiliating orders of his master, he rejects the condition of slavery. The act of rebellion carries him beyond the point he reached by simply refusing. What was, originally, an obstinate resistance on the part of the rebel, becomes the rebel personified. He proceeds to put self-respect above everything else and proclaims that it is preferable to lie itself. It becomes, for him, the supreme blessing. Having previously been willing to compromise, the slave suddenly adopts an attitude of All or Nothing. Knowledge is born and conscience awakened.

 

But it is obvious that the knowledge he gains is of an “All” that is still rather obscure and of a “Nothing” that proclaims the possibility of sacrificing the rebel to this “All.” The rebel himself wants to be “All” – to identify himself completely with this blessing of which he has suddenly become aware and of which he wishes to be recognized and proclaimed as the incarnation - or “Nothing” which means to be completely destroyed by the power that governs him. As a last resort, he is willing to accept the final defeat, which is death, rather than be deprived of the last sacrament which he would call, for example, freedom. Better to die on one’s feet than to live on one’s knees.»

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publicado às 18:42

Do sentido da vida

por Samuel de Paiva Pires, em 24.10.12

Se Hayek tem razão quando considera que a vida não tem outro propósito para além da sua própria existência, então Camus terá razão em considerar o suicídio como o único problema filosófico verdadeiramente sério. Nestes estranhos tempos em que vivemos, o "perigo de todo os perigos", como assinalou Nietzsche, é "nada mais ter sentido." E talvez seja por a vida não ter sentido que, segundo Oscar Wilde, a maioria de nós limita-se a existir, não vivendo. Se assim é, só podemos escapar ao absurdo da existência da vida pelo suicídio ou pela esperança, como Camus aponta. Não lhe escapando, somos compelidos no sentido da revolta, que surge "do espectáculo do irracional a par com uma condição injusta e incompreensível." "Eu revolto-me, logo existo", escreveu o filósofo francês. Alguns dirão que calar a revolta será sinal de maturidade. A mim afigura-se-me antes como um suicídio do pensamento. E eu ainda prefiro continuar a viver, mesmo que tenha que me submeter para sobreviver. Até um dia.

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publicado às 01:39

Da revolta em Sade

por Samuel de Paiva Pires, em 30.08.12

 

(Marquês de Sade, imagem daqui)

 

Albert Camus, The Rebel:

 

«From rebellion, Sade can only deduce an absolute negative. Twenty-seven years in prison do not, in fact, produce a very conciliatory form of intelligence. Such a lengthy confinement makes a man either a weakling or a killer – or sometimes both. If the mind is strong enough to construct, in a prison cell, a moral philosophy which is not one of submission, it will generally be one of domination. Every ethic conceived in solitude implies the exercise of power. In this respect Sade is the archetype, for in so far as society treated him atrociously he responded in an atrocious fashion. (…)

 

He his exalted as the philosopher in chains and the first theoretician of absolute rebellion. He might well have been. In prison, dreams have no limits and reality is no curb. Intelligence in chains loses in lucidity what it gains in intensity. The only logic know to Sade was the logic of his feelings. He did not create a philosophy, he pursued a monstrous dream of revenge. Only the dream turned out to be prophetic. His desperate claim to freedom led Sade into the kingdom of servitude; his inordinate thirst for a form of life he could never attain was assuaged in the successive frenzies of a dream of universal destruction. In this way, at least, Sade is our contemporary.» 

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publicado às 23:40

Das consciências limpas

por Samuel de Paiva Pires, em 27.06.12

Albert Camus, A Peste: «Em vão eu lhe disse que a única maneira de não estar separado dos outros era, no fim de contas, ter uma consciência limpa. Ele olhou-me com maldade e disse-me: "Então, por esse modo, ninguém está nunca com ninguém."»

 


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publicado às 00:45

Rob Riemen, O Eterno Retorno do Fascismo:

 

«Albert Camus e Thomas Mann não foram decerto os únicos a compreender depressa, mal a guerra terminou, o que todos ansiamos esquecer: o bacilo fascista estará sempre presente no corpo da democracia de massas. Negar este facto ou dar outro nome ao bacilo não nos tornará resistentes a ele. Pelo contrário. Se queremos combatê-lo eficazmente, teremos de o chamar pelo seu nome: «fascismo». Além disso, o fascismo nunca é um desafio, é sempre um problema porque desemboca inevitavelmente no despotismo e na violência. E chamamos perigo a tudo o que provoque estas consequências. Negar a existência de um problema ou, pior ainda, de um perigo é praticar a política da avestruz. Quem não aprende com a história está condenado a vê-la repetir-se.»

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publicado às 13:26

Da série "Coisinhas boas acabadas de chegar pelo correio"

por Samuel de Paiva Pires, em 11.01.12

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publicado às 11:46






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