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"Evitar as barracas" — são algumas das palavras da candidata à Câmara Municipal de Lisboa (CML) Alexandra Leitão. Se não soubéssemos o contexto, diríamos que a língua socialista é muito traiçoeira. Barracas são muitas — o Processo Marquês, o falhanço do camarada Pedro Nuno Santos ou os alegados sintomas de prevaricação de Fernando Medina enquanto presidente da CML. Pois. Sabemos que a candidata necessita de se demarcar dos camaradas como pão para a boca. Carece de uma figura paternal de peso para se inspirar. António Costa está indisponível, a tratar da sua vida em Bruxelas, e o secretário-geral José Luís Carneiro anda perdido num rebanho de fantasias e absurdos políticos. E assim sendo, nada como pedir uma mãozinha ao quase extinto Bloco de Esquerda, à unicórnia do PAN e ao céfalo do LIVRE. Tudo junto, somado, à falta de argumentos próprios, configura uma frente revolucionária para derrotar Carlos Moedas, mas não necessariamente os problemas da cidade. Teremos uma autarquia, se a elegerem, em que todos gritam e ninguém tem latão. Já lá estiveram, em ciclos recentes, socialistas de corpo e alma, e o resultado não foi grande coisa. Transformaram Lisboa num enorme urinol e a Baixa num anexo indistinto. Leitão diz-se fazedora e menos faladora. Mas aponto-lhe outras qualidades. Não tem memória de elefante. Esqueceu-se por completo de que fez parte do governo que gizou as grandes opções estratégicas do país, que naturalmente ajoelharam Lisboa e que colocaram a cidade no estado que se conhece. A candidata quer fazer parte da solução, sê-la. O que joga a seu favor? O que joga a seu favor é a pulsação ideológica que ainda bate na carótida de tantos que dividem os factos e as verdades entre a direita e a esquerda, onde dizem que abril nasceu. Mas convenhamos, já não há remédio ideológico ou partidário para remendar o que está estropiado. Alexandra Leitão, se tivesse juízo, cedia o lugar a alguém com folha limpa. Mas não. Ela insiste em colocar o Rato em Lisboa ou o Rato em Lisboa, não sei bem. Perdido por mil ou perdido por abril, quem se lixa é o concidadão. Alexandra Leitão não soa a futuro. Faz parte do passado. E ainda não percebeu que nada tem para oferecer à capital. Nem que as barracas abanem.

Devemos prestar muita atenção às palavras dos socialistas nos tempos que correm. Têm mau perder. Alexandra Leitão já começou a girar o espeto dos resultados eleitorais, a virar o prego do rombo das legislativas. As suas palavras são uma afronta à democracia, um insulto à ideia de legitimidade eleitoral e sugerem o extermínio do Chega. A ex-ministra (já nem sei de que pastel) já pegou na velha calculadora do Rato para fazer contas à vida de um putativo governo liderado pelos socialistas. A Aliança Democrática deve prestar um serviço ao país e não admitir que o jogo se faça apenas numa das metades do campo. Portugal corre o risco de se manter no mesmo marasmo e em semelhante pasmaceira, se aceitar este golpe palaciano pós-eleitoral. Cada vez mais julgo que Montenegro deve deixar-se de salamaleques e entrar em negociações cruas e nuas com o Chega. Se sabe quais são as linhas vermelhas e os traços encarnados que o Chega transpõe, deve expô-los para que sejam escrutinados, excluídos ou mitigados. Leitão conta com os emigrantes, diz ela. Mas os emigrantes não contam com ela. Deixaram Portugal devido a décadas de falência governativa de socialistas e, em abono da verdade, também de social-democratas. Marcelo Rebelo de Sousa, eminente constitucionalista, deveria saber ler as consequências de atos abonatórios de uma coligação que não tem uma maioria para reger. O que falta aos socialistas é modéstia e respeito pelas regras democráticas. Mas o que têm em demasia é mania de grandeza — um enorme complexo de superioridade moral e saudades de maiorias absolutas. Espero que haja alvoroço a sério. Porque existem limites de decência e de dignidade que não podem ser esfrangalhados por arrivistas que já lá estão há tempo demais. Alexandra Leitão quer assar o Chega à bairrista, à moda do Largo do Rato.