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Da impossibilidade do amor livre

por Samuel de Paiva Pires, em 24.06.13

 

G. K. Chesterton, Disparates do Mundo:

 

«A família é necessária à humanidade; a família é (se o leitor assim o quiser) uma armadilha para a humanidade. Só se pode falar de «amor livre» - como se o amor fosse um episódio equivalente a acender um cigarro ou assobiar uma cançoneta – ignorando hipocritamente um facto gigantesco. Suponhamos que, sempre que um homem acendia um cigarro, se levantava dos anéis de fumo um gigante altíssimo, que o seguia por toda a parte qual enorme escravo. Suponhamos que, sempre que um homem assobiava uma cançoneta, chamava um anjo à Terra e depois tinha de andar com um serafim atrás de si por uma coleira. Estas imagens catastróficas são débeis paralelos das extraordinárias consequências que a Natureza anexou à actividade sexual; e é perfeitamente claro, logo desde o princípio, que um homem não pode praticar o amor livre; pois ou é um homem comprometido, ou é um traidor. O segundo elemento que gera a família é o facto de as suas consequências, embora colossais, serem graduais; o cigarro produz um bebé gigante, a canção apenas produz um pequeno serafim. Daí resulta a necessidade de um sistema prolongado de cooperação; e daí resulta a família em todo o seu sentido educativo.» 

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publicado às 20:42

Filosofar é aprender a morrer (4)

por Samuel de Paiva Pires, em 11.06.13

 

Alçada Baptista, Peregrinação Interior - Reflexões sobre Deus:

 

«Relato necessário duma peregrinação pessoal, não pretendo com ele ser exibicionista, se bem que viver é também ser capaz de perder um certo pudor. Quando o meu pai morreu, eu já era homem. Já tinha a maturidade que me permitia tirar da sua pessoa todas as cargas míticas e saber olhar objectivamente os seus defeitos e virtudes, e por isso soube avaliar o peso da sua grandeza humana e o significado que ela teve para mim. Algum tempo depois da sua morte, comecei a pensar que nunca lhe dissera nada disso e que a morte o levou sem que eu lhe tivesse abertamente revelado o muito que gostava dele. E se analiso as razões porque o fiz, creio que foi por pudor, por este absurdo que se apodera das pessoas e que não permite que se diga a um pai o muito que se pode gostar dele. Nos meus filhos, passa-se que deixam de me dizer que gostam de mim à medida que não são capazes de me aparecer nus. Assim se prolonga um diálogo insinuado, por suposições, por cálculo, por subjacências, quando nada devia haver de mais simples e aberto do que o diálogo de amor de pais para filhos, de homens para mulheres, de pessoas para pessoas. A literatura está cheia de insinuações veladas de seres que gostaram tremendamente de outros, mas essas vozes de amor transferem-se, curvam-se, corrigem-se, num espartilho vitoriano que nos abafa e comprime e de que a muito custo nos conseguimos libertar. Assim andamos, com o coração apertado na garrafa da vida, a bater timidade pelo gargalo da vida.»

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publicado às 10:56

Do sentido da vida (5)

por Samuel de Paiva Pires, em 29.01.13


Albert Camus, A Peste:


«Ao meio-dia, hora gelada, o médico, que saíra do carro, olhava de longe Grand, quase colado a uma montra cheia de brinquedos grosseiramente esculpidos em madeira. Pelo rosto do velho funcionário, as lágrimas corriam sem interrupção. E essas lágrimas perturbaram Rieux, porque as compreendia e as sentia também no fundo da sua garganta. Também ele se lembrava daquele infeliz noivado, em frente de uma loja de Natal, e de Jeanne voltada para ele para lhe dizer que estava contente. Do fundo desses anos longínquos, no próprio coração desta loucura, era certo que a voz fresca de Jeanne voltava até Grand. Rieux sabia o que pensava neste minuto aquele velho, que chorava e julgava, como ele, que este mundo sem amor era como um mundo morto e que chega sempre uma hora em que nos cansamos das prisões, do trabalho e da coragem, para reclamar o rosto de um ente e o coração maravilhado da ternura.»


Leitura complementar (posts desta série): UmDoisTrês; Quatro.

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publicado às 20:21

O martírio dos Estêvãos

por João Pinto Bastos, em 11.01.13

Cheio de graça e força, Estêvão fazia extraordinários milagres e prodígios entre o povo. Ora alguns membros da sinagoga chmada dos Libertos, dos cireneus, dos alexandrinos e dos da Cilícia e da Ásia vieram para discutir com Estêvão: mas era-lhes impossível resistir à sabedoria e ao Espírito com que ele falava (...) depois à uma, atiraram-se a ele e, arrastando-o para fora da cidade, começaram a apedrejá-lo. As testemunhas depuseram as sua capas aos pés de um jovem chamado Saulo. E, enquanto o apedrejavam, Estêvão orava, dizendo: "Senhor, Jesus, recebe o meu espírito". Depois, posto de joelhos, bradou com voz forte:" Senhor, não lhes imputes este pecado". Dito isto, adormeceu."

 

Actos dos Apóstolos, 6, 8-51

 

A história de Estêvão, o apóstolo helenista martirizado pela sanha farisaica do judaísmo colonizado, tem vários ingredientes que, até certo ponto, assemelham o seu percurso biográfico ao de Jesus Cristo: o mesmo apostolado radical e descomprometido, a Graça divina esparramada na vocalização do exemplo evangélico, o martírio cristãmente arrostado, encarando a Morte como o passamento para a casa de Deus. Estêvão foi, com temeridade e sentido de Justiça, um dos precursores do movimento religioso que doravante cresceria em vigor e dimensão, arrastando o Império Romano na sua vaga ouriçada. A narrativa de Estêvão é, em grande medida, uma metáfora da incompreensão humana. Da incompreensão que tolhe e desquebra, da razão que falha e obscurece. O Homem, o animal racional por excelência, pouco dado amiúde às virtudes da perfeição e da ponderação, é o paradigma mais cristalino da derrota. Talvez não tenhamos sido feitos para a derrota, como disse o derrotado Hemingway, talvez a perda e o temor ao desastre não sejam mais do que um tropo do triunfo iminente, talvez nós sejamos um ameno, e escondido, princípio da Morte, talvez e muitos talvez, porém, a vida, na sua imensidão de veredas e caminhos díspares, dispõe o alvedrio do Homem no seu justo lugar. Nós escolhemos o nosso caminho, mas, nada nem ninguém, é capaz de recolher-nos do Mal. Deus fez-nos com os princípios da Vida e do Bem conglobante, mas o Homem é livre de escolher o seu projecto vital. Fá-lo, e no fundo, é derrotado. Derrotado na dureza encrespada dos desígnios gorados, na perda dos referentes orientadores de todo um percurso, no esgotamento do amor e da amizade. Estêvão, o pioneiro da martirização infligida aos esperançosos, ensinou-nos que, por mais que a derrota imponha o seu véu sobre nós, o livre alvedrio, a escolha conscienciosa e o amor descomprometido, são mais do que uma opção, são uma realidade que cabe-nos a nós agarrar e segurar. Podemos perder a partida, mas não a alfombra de dignidade que ainda nos resta. E essa dignidade é o verbo do amor e da amizade. Puras ilusões ou não, e muitas vezes são-no, com incompreensões e isolamentos inelutáveis, o amor e a amizade são a única ilusão que nos resta, porque, no fundo, a vida é, como dizia Lucas, "mais que o alimento e o corpo mais que o vestuário" (Lucas, 12, 23-24).

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publicado às 12:46

Um bom 2013 para todos

por Samuel de Paiva Pires, em 31.12.12

"The only way to be happy is to love. Unless you love, your life will flash by."


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publicado às 17:25

Hilariante

por Samuel de Paiva Pires, em 26.11.12

Caro Rui, já agora acrescente-se esta à lista. Sabemos que o mundo está perdido quando os candidatos a James Bond se comportam desta forma (via Maradona):

 

A former spy is suing the Metropolitan police for failing to "protect" him from falling in love with one of the environmental activists whose movement he infiltrated.

(...)

"I worked undercover for eight years," he told the Mail on Sunday. "My superiors knew who I was sleeping with but chose to turn a blind eye because I was getting such valuable information They did nothing to prevent me falling in love."

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publicado às 22:07

roger scruton - beauty.jpg

 

Sendo, entre outras coisas, conhecido pela crítica que faz às noções de beleza vigentes nos mais variados domínios, em Beauty Roger Scruton sistematiza magistralmente a sua abordagem kantiana ao conceito de beleza. Rejeitando o relativismo da apreciação estética, considerando que a beleza é um valor universal ancorado na racionalidade humana, Scruton crê que é possível educar o gosto de forma a poder apreciar a beleza e fundamentar esta apreciação na razão. À primeira vista, esta posição pode parecer cair num racionalismo exagerado, mas quem conhece o trabalho de Scruton sabe que não é de todo o caso. A verdade é que, embora a contemporânea corrupção das artes nos leve a celebrar o que é feio, como Scruton não se cansa de assinalar, e esta crise fomentada pelo relativismo intelectual e moral se verifique essencialmente nas Ciências Sociais e Humanas, desde Platão que a beleza se encontra na companhia da verdade e do bem, sendo estes valores o trio que se constitui como centro das preocupações da Filosofia. Partindo desta concepção, o que Scruton faz é recuperar duas ideias de Kant: sendo a apreciação estética individual e, portanto, subjectiva, não deixa de ser passível de ser debatida com terceiros – e daí a possibilidade de se educar o gosto –; e a verdadeira apreciação da beleza é aquela que tem uma perspectiva de interesse desinteressado, sendo um fim em si mesma.

 

É nesta segunda ideia que me quero focar. Scruton afirma que não «avaliamos a beleza de algo apenas pela sua utilidade, mas também pelo que as coisas são em si próprias – ou mais plausivelmente, pela forma como aparecem em si próprias. (…) Quando o nosso interesse é inteiramente tomado por uma coisa, como ela aparece na nossa percepção, e independentemente de qualquer uso que se lhe possa dar, então podemos começar a falar da sua beleza.»1 Desta forma, «consideramos algo belo quando obtemos prazer em contemplá-lo como um objecto individual, por si próprio, e na sua forma apresentada. (…) Estar interessado na beleza é colocar todos os interesses de lado, de modo a atender à coisa em si própria.»2 É isto que é um interesse desinteressado, contrário à abordagem interessada que pressupõe tratar algo ou alguém como um meio para satisfazer os nossos interesses.

 

Feitos os considerandos anteriores, permitam-me procurar aplicá-los a duas situações: a música e a beleza feminina.  

 

Não me recordo onde foi que li ou ouvi que a diferença entre estar apaixonado e não estar é que quando se está a música faz sentido. A ideia parece estar correcta, à primeira vista. Não é preciso realizar um apurado estudo estatístico para chegarmos à noção de que a esmagadora maioria das músicas trata da temática do amor. O que acontece quando estamos apaixonados e ouvimos determinadas músicas é que estas ficam associadas a certos momentos e à pessoa a quem o nosso amor se dirige. Quer o sentimento seja correspondido ou não, quer as músicas nos apareçam por acaso ou sejamos nós a procurar ouvi-las deliberadamente, as composições e as letras parecem feitas de propósito para nós. Quer seja a alegria ou a tristeza que nos invada, parecem realmente fazer sentido. Mas este sentido não decorre da apreciação da música como fim em si mesma. Decorre da condição do sujeito que realiza a apreciação, o que significa que esta tem um contexto do qual o sujeito não se consegue desligar e que não serve o propósito de efectuar uma mais correcta apreciação do valor estético do objecto visado. Por outro lado, quando não estamos apaixonados, por estranho que isto possa parecer a muitos indivíduos, estamos em condições de poder apreciar de forma mais verdadeira – porque inteiramente desprovida de interesse – a beleza de uma música. Não há, contudo, como escapar à temática do amor. Se o tentássemos fazer, provavelmente acabávamos a ouvir uma diminuta porção de toda a música jamais realizada. Mas mesmo que pudéssemos escapar a esta temática, por que o haveríamos de fazer? Juntamente com a verdade, o bem e a beleza, o amor também se constituiu desde a Antiguidade Clássica como temática de eleição dos filósofos, dado que se encontra inscrito na natureza humana e é provavelmente o sentimento mais poderoso que qualquer ser humano pode sentir. Mesmo quando não estamos apaixonados, ou sonhamos em estar ou queremos não cair nesta condição. O amor define-nos, e define em parte a forma como vemos e estamos no mundo.

 

Isto significa também que o amor está ligado à apreciação da beleza. Dado que o amor se revela na concretização do desejo sexual erótico individualizado, tendo precisamente a ver com a intencionalidade da emoção sexual dirigida a um sujeito corporizado e não apenas a um corpo, importa salientar que, citando novamente Scruton, “De acordo com Platão, o desejo sexual, na sua forma comum, envolve um desejo de possuir o que é mortal e transitório, e uma consequente escravização ao aspecto menor da alma, o aspecto que está imerso no imediatismo sensual e nas coisas deste mundo. O amor pela beleza é realmente um sinal para nos libertarmos deste apego sensorial, e de começarmos a ascensão da alma em direcção ao mundo das ideias, para aí participarmos na versão divina da reprodução, que é a compreensão e a transmissão de verdades eternas.»3 Quando os nossos sentidos estão despertos, quando procuramos a beleza como fim em si mesma, por vezes, embora raramente, deparamo-nos com uma mulher que nos deixa com uma sensação de verdadeira admiração por si, sem que tal envolva necessariamente um interesse sexual. Nestes momentos, percebemos realmente o dilema entre os nossos desejos e instintos primários e o nosso eu mais racional. Prevalecendo o segundo, abre-se a porta a todo um novo tipo de sensações. Chega a tratar-se, quando muito, caso conheçamos a pessoa e, portanto, esta não seja meramente uma estranha que se nos atravessa na rua, de um amor platónico – a sublimação do amor erótico, dirigido a algo mais elevado que é o prazer da contemplação de algo belo. Não contém, nem poderia, o desejo sexual, porque tal seria conspurcar um objecto que para nós se torna sagrado.

 

Quando existe desejo sexual, quando se trata da mais comum forma de amor, abre-se a porta à eventualidade de sermos invadidos por sensações bem menos tranquilizantes que as referidas no parágrafo anterior. Fernando Pessoa escreveu que todas as cartas de amor são ridículas. E são-no porque ainda antes de serem escritas têm um propósito definido – conquistar a outra pessoa – que advém de algo tão forte que chega a escravizar quem escreve a carta. Quando o eu irracional, primário e movido pelo desejo, se sobrepõe ao eu racional, o resultado é quase sempre desastroso, ridículo e piroso. Numa carta de amor, é-o necessariamente porque a carta é um mero instrumento que visa a conquista do outro, que é objectificado com vista a satisfazer as necessidades emocionais e sexuais de quem escreve. Amar é um egoísmo totalitário e avassalador. Quando não se está inebriado por este tipo de sentimentos, apreciar a beleza de alguém como fim em si mesmo reveste-se de uma natureza completamente diferente. E se por acaso o nosso espírito o decidir declarar à visada, a sensação de o fazer e após o fazer é completamente diferente. É algo verdadeiramente genuíno e que conforta a alma daqueles que estão despertos para a beleza que se encontra neste mundo. Afinal, o que poderá ser mais poético do que a beleza pela beleza?

 

Como escreveu Oscar Wilde, “Aqueles que encontram belas significações nas coisas belas são cultos. Para esses há esperança. São os eleitos aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza.”



1 - Roger Scruton, Beauty, Oxford,Oxford University Press, 2009, p. 17.

2 - Ibid., p. 26.

3 - Ibid., p. 41.

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publicado às 02:35

Amor e sofrimento

por Samuel de Paiva Pires, em 24.03.12

José Luís Nunes Martins, Crónica do desassossego

 

"O homem é do tamanho do sofrimento que for capaz de suportar por amor. Quando assim é, a chama da esperança que ilumina os sonhos não pode ser apagada por inverno algum. Quanto maior o sofrimento, maior será o interior de quem o experimenta, mais espaço passando a haver para acolher a alegria pura dos dias que estão para vir.

 

A solidão da dor aperfeiçoa o indivíduo na medida em que lhe permite aprofundar-se a partir dessa ferida que à superfície o faz gritar.

 

O sofrimento robustece o esqueleto e mantém o espírito humano erguido. (...)"

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publicado às 11:34

O segredo da vida

por Samuel de Paiva Pires, em 06.03.12

 

Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray:

 

"- Não ouso, Sr. Gray. Ora, ela inventa-me chapéus. Lembra-se daquele que eu levei ao garden-party de Lady Hilstone? Não se lembra, mas é muito gentil em fingir que se lembra. Bem, foi ela quem os fez de nada. Todos os bons chapéus são feitos de nada.

- Como todas as boas reputações, Gladys – interrompeu Lorde Henrique. – Todo o efeito que produzimos gera-nos um inimigo. É preciso ser medíocre para ser popular.

- Não sucede assim com as mulheres – disse a duquesa, meneando a cabeça -; e são as mulheres que governam o mundo. Afianço-lhe que nós não podemos suportar as mediocridades. Nós, as mulheres, como diz alguém, amamos com os ouvidos, precisamente como vocês, os homens amam com os olhos… se é que alguma vez amam.

- Parece-me que nunca na realidade amam, Sr. Gray – respondeu a duquesa, num misto de ironia e de tristeza.

- Minha querida Gladys! – exclamou Lorde Henrique. – Como pode dizer isso? O romance vive pela repetição, e a repetição converte um apetite numa arte. Além disso, cada vez que a gente ama, é a única vez que jamais amou. A diferença de objecto não fragmenta a paixão: apenas a intensifica. Podemos ter na vida apenas uma grande experiência, e o segredo da vida é reproduzir essa experiência o maior número possível de vezes.

- Mesmo quando ela nos tenha ferido, Henrique? – perguntou a duquesa, após um momento de silêncio.

- Especialmente quando ela nos tenha ferido – respondeu Lorde Henrique."

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publicado às 00:38

O Eremita de In Vino Veritas

por Samuel de Paiva Pires, em 31.01.12

Soren Kierkegaard:

 

«Estarei a aconselhar o celibato, já que por alguma razão me chamo Eremita? De maneira nenhuma. Deixemo-nos de celas e de claustros. Este viver solitário ou solteiro não é mais do que uma expressão do imediato aos olhos do espírito que se recusa a este género de expressão. Pouco importa que o dinheiro seja de ouro, de prata ou de papel; compreenderá o meu pensamento somente quem nunca se servir de dinheiro falso. Aquele para quem a expressão imediata não passa de uma falsidade, esse, e só esse, estará mais seguro do que se for viver para a cela; será sempre um eremita, ainda que ande de noite e de dia com as outras pessoas nos transportes públicos.»

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publicado às 21:23

 

Soren Kierkegaard, O Banquete ou In Vino Veritas:

 

«Confesso a verdade quando digo que a minha alma está isenta de inveja e cheia de gratidão para com Deus; antes quero ser homem pobre de qualidades, mas homem, do que mulher - grandeza imensurável, que encontra a sua felicidade na ilusão. Vale mais ser uma realidade, que ao menos possui uma significação precisa, do que ser uma abstracção precisa, do que ser uma abstracção susceptível de todas as interpretações. É, pois, bem verdade: graças à mulher é que a idealidade aparece na vida; que seria do homem, sem ela? Muitos chegaram a ser génios, heróis, e outros santos, graças às mulheres que amaram; mas nenhum homem chegou a ser génio por graça da mulher com quem casou; por essa, quando muito, consegue o marido ser conselheiro de Estado; nenhum homem chegou a ser herói pela mulher que conquistou, porque essa apenas conseguiu que ele chegasse a general; nenhum homem chegou a ser poeta inspirado pela companheira de seus dias, porque essa apenas conseguiu que ele fosse pai; nenhum homem chegou a ser santo pela mulher que lhe foi destinada, porque esse viveu e morreu celibatário. Os homens que chegaram a ser génios, heróis, poetas e santos cumpriram a sua missão inspirados pelas mulheres que nunca chegaram a ser deles. Se a idealidade da mulher fosse positivamente, e não negativamente, um factor de entusiasmo, inspiratriz seria a mulher à qual o homem, casando, se unisse para toda a vida. A realidade fala-nos, porém, outra linguagem. Quero dizer que a mulher desperta, sim, o homem para a idealidade, mas só o torna criador na relação negativa que mantém com ele. Compreendidas assim as coisas, poderá efectivamente dizer-se que a mulher é inspiradora, mas a afirmação directa não passa de um paralogismo em que só a mulher casada pode acreditar. Quem ouviu alguma vez dizer que uma mulher casada tivesse conseguido fazer do marido um poeta? A mulher inspira o homem, sim, mas durante o tempo em que for vivendo até a possuir. Tal é a verdade que está escondida na ilusão da poesia e da mulher. Que o homem não possua a mulher, isso é o que pode ser entendido de várias maneiras. Ou está ainda na luta para a conquista, e assim se disse que a donzela entusiasmou o amante a ponto de fazer dele um cavaleiro, mas nunca se ouviu dizer que um homem se tornasse valente por influência da mulher com quem casou. Ou está convencido de que nunca lhe será possível casar com ela, e assim se diz que a donzela entusiasmou e despertou a idealidade do amante que se manifestou capaz de cultivar os dons espirituais de que porventura era portador. Mas uma esposa, uma dona de casa, tem tantas coisas prosaicas com que se preocupar, que nunca desperta no marido a idealidade. Há ainda outro caso, em que o homem não possui a mulher porque persegue um ideal. Assim vai ele passando de amor para amor, o que é uma espécie de ser infeliz no amor; a idealidade da alma do amante está então no ardor da procura e da perseguição, e não nos amores fragmentários que não valem a soma das aventuras particulares.»

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publicado às 23:52

Hoje foi o dia em que me confessei comunista.

por João Gomes de Almeida, em 30.11.11

Ou melhor, marxista-leninista-trotskysta-morenista. Aqui.

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publicado às 00:44

Da renúncia ao amor

por Samuel de Paiva Pires, em 29.10.11

 

Soren Kierkegaard, O Banquete ou In Vino Veritas

 

«Estais agora a ver, meus caros amigos as razões por que renunciei ao amor. As minhas razões são tudo para mim; o meu pensamento é tudo para mim. Se o amor é o mais delicioso de todos os prazeres, recuso-o; recuso-o sem pretender com isso ofender ou desdenhar alguém. Se o amor é a condição do maior benefício, perco a oportunidade de bem fazer, mas salvaguardo o meu pensamento. Não é que eu esteja cego para a beleza, não é que eu esteja surdo para as harmonias e as melodias. Não. O meu coração não é insensível ao cantar dos poetas que gosto de ler, a minha alma não é destituída de melancolia e não deixa de sonhar com as belas imagens do amor. A verdade é que não quero ser infiel ao meu pensamento, pois, se o fosse, o que lucraria com isso? Quanto a mim, não sinto felicidade quando não sinto o meu pensamento livre; nem quando tivesse de interromper os meus pensamentos para me ligar a uma mulher, para gozar as maiores delícias; porque a ideia é para mim o meu ser eterno, e, por isso, mais preciosa ainda do que um pai ou de que uma mãe, mais preciosa ainda do que uma esposa. Bem vejo que se algo deve ser sagrado, é o amor; que se a infidelidade é algures infame é no amor; que se alguma traição é ignóbil, é no amor; mas a minha alma é pura, nunca olhei mulher alguma que a cobiçasse; nunca andei como borboleta em inconstantes voos até que, cego ou empurrado pela vertigem, fosse cair na mais decisiva das situações. Se eu soubesse em que é que consiste o amável, saberia também com exactidão se estarei ou não isento de culpa por ter induzido alguém em tentação; mas como ignoro o que é o amável, posso apenas ter a convicção de que conscientemente, nunca tal fiz nem quis fazer. Suponde agora que eu tivesse capitulado, que me tivesse resolvido a rir ou que sucumbisse de medo, o que talvez fosse possível. Sim, eu não sou capaz de encontrar a via estreita pela qual os amantes tão facilmente seguem como se fosse larga, imperturbáveis em todas as vicissitudes como se tivessem estudado e aprofundado, no nosso tempo que examinou já, sem dúvida, todos estes problemas, e, portanto, compreende também este meu pensamento: não tem sentido agir segundo o imediato, para ter sentido é indispensável passar pela meditação, por conseguinte é preciso esgotar todos os modos possíveis de pensamento antes de passar aos actos. Mas, que dizia eu? Suponde que eu tivesse sucumbido. Não teria eu então, irremediavelmente, ofendido a minha bem amada com o meu riso, ou não teria eu, pela minha retirada, causado para sempre o desespero dela? Quanto à mulher, vejo bem que ela não pode chegar a tão alto grau de reflexão; aquela que julgasse cómico o amor (usurpando assim o privilégio dos deuses e dos homens; porque é ela, mulher, por natureza a tentação que os incita a tornarem-se ridículos) trairia por isso inquietadores conhecimentos prévios, e seria portanto a pessoa menos apta para me compreender; aquela que concebesse o meu receio teria por isso perdido a amabilidade que era o seu encanto, sem que por isso ficasse apta para compreender; de um ou de outro modo, a mulher seria aniquilada, o que eu não sou nem serei enquanto tiver o meu pensamento para a minha salvação.»

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publicado às 18:32

Das relações humanas na modernidade

por Samuel de Paiva Pires, em 15.10.10

Devem haver poucas coisas mais tristes que oferecer um ramo de rosas vermelhas a uma mulher a quem declarámos o nosso amor incondicional, e ela perguntar, com ar de enfado, "porquê?".

 

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publicado às 23:13

Ramalho Ortigão - Do Amor na Sociedade Portuguesa

por Samuel de Paiva Pires, em 01.10.10

 

 

Em "O Amor na Sociedade Portuguesa - Trechos de um estudo de psicologia nacional", Ramalho Ortigão descrevia assim o homem lusitano acometido da maleita do cupido:

 

«O impulso amoroso no coração lusitano, em vez de impelir a fantasia a voejar por instantes no país do azul, excita apenas o temperamento a marrar a fundo, espesso e resfolegante, nas trevas.


A emoção, que deveria ser acariciadora e risonha, adejante e leve como as asas duma abelha, o português converte-a numa espécie de vesânia de carácter fúnebre, parada e fixa como um espantalho, vigilante e sinistra como uma coruja, pesando esmagadoramente em chumbo irremovível sobre o destino da criatura eleita.


Onde toca o nosso amor fica uma cicatriz ou uma contusão. Desde que nos enamoramos caímos em paixão mórbida. Apodera-se de nós uma espécie de hipocondria erótica, morde-nos o sangue numa ponta esbraseada de satiríase, comprometem-se-nos as funções digestivas, engorgita-se-nos o fígado, vêm-nos olheiras, desenvolvem-se-nos gases e dói-nos a barriga.


Na evolução patológica dos sentimentos o amor é o antraz maligno da nossa raça. Uma vez apaixonado, o português é um enfermo, é quase um irresponsável. Perde a faculdade de estar alegre e de estar atento. Torna-se estúpido e sombrio. Devora-o um ciúme permanente, e para o alimentar promove ele mesmo toda a espécie de crises: mexerica, intriga, mente, calunia; e, para que verdadeiramente se convença de que exprimiu ao objecto amado o sentimento que este lhe inspirou, precisa de lhe ter batido.


Somos inacessíveis à galanteria... Bem sei o que disse Montesquieu: a galanteria não é o amor, é a delicada, a leve, a perpétua mentira do amor. Mas pergunto eu - pobre de mim - o que fica do amor, além das mais profundas e das mais horríveis penas da vida, desde que dele se arranque a leve, a perpétua, a delicada flor de que fala o moralista, e que não é tanto como parece uma mentira, uma vez que é um facto psicológico, uma realidade do espírito, concebida, criada, alimentada e vivida na fantasia do homem?


Amar - como deve ser - sucessivamente e simultaneamente todas as mulheres amáveis - não com toda a alma, que não é preciso e é inconveniente, mas com esse cantinho de alma terno, bondoso e galante de que todo o homem bem conformado tem obrigação de dispor para estas coisas -, amar, rendido interinamente e in partibus pela espiritualidade de um olhar, pela frescura de um sorriso, pela flexibilidade de uma estatura, pela maneira de pôr ao peito uma rosa ou de envolver no pescoço uma renda, por qualquer enfim dessas múltiplas formas superficiais e efémeras em que se revela o mimo e o encanto periférico da mais linda metade do género humano; amar assim, unicamente por amar, unicamente para retribuir, unicamente para agradecer à mulher a contribuição que por cada um dos seus dotes de simpatia ela traz ao aumento da graça e da doçura com que à providência benéfica aprouve atenuar o áspero rigor da existência, sem lhe pedir outra qualquer coisa, além de que se deixe ser o que é, como as demais coisas belas da natureza, como as flores e como as estrelas; amar assim - digo - é negócio inteiramente incompatível com a arrevesada da constituição da nossa natureza sensitiva e cerebral.


A haste de que brota em nossa alma a frágil e delicada flor do afecto é refractária à flexibilidade: tocando-lhe o capricho duma borboleta, ou persiste insensível, inabalável e inerte, ou tem uma convulsão de terramoto. No triste destino extremo do nosso coração, destas duas coisas uma: ou insensiblidade absoluta, ou derrocada completa. Victor Hugo escreveu esta lindra frase: Fremir n'empèche pas la branche de fleurir, mas escreveu a propósito dos tremores de Terra na Andaluzia, nos tremores da sensibilidade no coração português o ramo esgalha e não torna a dar flor; desde que a paixão o sacode e o esteriliza, o mais que ele pode dar é lenha.»

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publicado às 00:11

Amor Líquido na era da Modernidade do Estado Educador Sexual

por Samuel de Paiva Pires, em 28.06.10

Eu que sou terminantemente contra a imposição da obrigatoriedade das aulas de educação sexual - mais uma vez se coarcta a liberdade de escolha dos pais - dei por mim a ler um autor que talvez não fizesse mal aos que de forma muito progressista vão conseguindo banalizar ainda mais aqueles que são alguns dos instintos e actos que de forma mais acentuada caracterizam o ser humano: Zygmunt Bauman, sociólogo que cunhou o conceito de modernidade líquida, considerando que na época em que vivemos tudo é efémero e a vida um amontoado de escolhas fragmentadas e diversos projectos que vamos encetando consoante as circunstâncias e contextos em permanente mudança acelerada. É também o autor de um interessante livro onde aplica o mesmo conceito às relações humanas. Para Bauman, os laços humanos padecem, na actualidade, de uma imensa fragilidade derivada de duas forças contraditórias que levam os indivíduos a criar laços, ao mesmo tempo que os pretendem manter flexíveis. Desta forma, considera que a modernidade líquida, e passo a citar a contracapa, "ameaça a capacidade de amar e os crescentes níveis de insegurança, tanto nas relações amorosas como nas familiares, e até no convívio social com estranhos".

 

 

Aqui fica uma breve passagem de Amor Líquido, editado pela Relógio D'Água, com o subtítulo Sobre a fragilidade dos laços humanos, (páginas 66 e 67) :

 

«Como que antecipando o padrão que iria prevalecer na nossa época, Erich Fromm tentou explicar a atracção do «sexo em si» (do sexo «pelo sexo», praticado separadamente das suas funções ortodoxas), referindo-se à sua qualidade como uma (enganosa) resposta ao desejo, demasiadamente humano, de «fusão total» por meio de uma «ilusão de união».

 

União - porque é exactamente o que homens e mulheres procuram ardentemente no seu desespero de escapar à solidão de que já sofrem ou que temem estar por vir. Ilusão - porque a união alcançada no breve instante do clímax orgástico «deixa os estranhos tão distantes um do outro como estavam antes», de tal modo que «sentem o seu estranhamento de maneira ainda mais acentuada». Neste papel, o orgasm sexual «assume uma função que o torna não muito diferente do alcoolismo e do vício em drogas». Tal como estes, ele é intenso - mas «transitório e periódico».

 

A união é ilusória e, no final, - a experiência tende a ser frustrante, diz Fromm, por ser separada do amor (ou seja, permitam-me explicar, do tipo de relacionamento fürsein: de um compromisso intencionalmente duradouro e indefinido para o bem-estar do parceiro). Na visão de Fromm, o sexo só pode ser um instrumento de fusão genuína - em vez de uma efémera, dúbia e, em última instância, autodestrutiva impressão de fusão - graças à sua conjunção com o amar. Qualquer que seja a capacidade geradora de fusão que o sexo possa ter, ela vem da sua «camaradagem com o amor».

 

Desde que Fromm escreveu sobre a questão, o isolamento do sexo em relação a outros domínios da vida tem avançado mais do que nunca.

 

Hoje o sexo é a própria síntese, talvez o silencioso/secreto arquétipo, daquele «relacionamento puro» (um paradoxo, com certeza: os relacionamentos humanos tendem a preencher, infestar a modificar todos os recessos e frestas, por mais remotos, do Lebenswelt, de modo que podem ser tudo menos «puros») que, como indica Anthony Giddens, se tornou o modelo alvo/ideal predominante da parceria humana. Agora espera-se que o sexo seja auto-sustentável e auto-suficiente, que se «mantenha sobre os próprios pés», para ser julgado unicamente pela satisfação que possa trazer por si mesmo (ainda que, em regra, ela seja interrompida bem antes da expectativa gerada pelos media). Não admira que também tenha crescido enormemente a sua capacidade de gerar frustração e de exacerbar a própria sensação de estrangulamento que se esperava que curasse. A vitória do sexo na grande guerra da independência tem sido, na melhor das circunstâncias, uma vitória de Pirro. Os remédios maravilhosos parecem produzir moléstias e sofrimentos não menos numerosos e comprovadamente mais agudos do que aqueles que prometiam curar.

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"As mulheres são o que são"

por Samuel de Paiva Pires, em 17.05.09

"Roubo" à Eugénia de Vasconcellos o seu postal n.º 49 da magnífica série "As mulheres são o que são". Que continue a presentear-nos diariamente com a belíssima prosa a que já nos habituou:

 

 

As mulheres trocam tudo. Especialmente trocam quando desligam o coração do corpo: impossível cirurgia. Porque a fazem? Querem um amor livre de sofrimento como um iogurte livre de açúcar? Não há. Vão para a cama com um homem, têm um orgasmo e acham que se apaixonaram. Se têm o azar de ser sexualmente compatíveis com esse homem, porque as anteriores experiências do sexo os deixaram a ambos no mesmo patamar performativo, acham que amam, que é a mística da pele ou as feromonas ou outra merda qualquer sentimental e zoológica. Se a isto se junta alguma proximidade de referentes académicos e sociais é, seria se eles deixassem, a predestinação, como não deixam, o drama de ter e perder! Viram a luz, pela vigésima vez, mas já esqueceram as outras dezanove... Os homens têm, no sexo como na linguagem, um coração mais escorreito, menos rasteiro. Andam mais próximo da verdade. Sexo é sexo. É desejo e posse todo o tempo em que o desejo de posse durar. Se é bom, melhor, demora mais do a ao z. Mas não lhe chamam amor por causa disso. Claro que todo aquele maluquedo de serem o senhor irresistível número x/2009 os envaidece. Isto é um desencontro horrível: elas engolem dicionários à procura do brilho da palavra que, enquanto os ofusque, as enalteça, eles andam à procura do primeiro, tão simples, gosto de ti. Em tudo o que é genuíno, do amor à arte, há, não a elaboração, mas o despojamento da carne em espírito vivo.

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