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Beati pauperes spiritu

por Fernando Melro dos Santos, em 24.04.14

Só para terem uma ideia da angústia que me causa não poder renunciar à nacionalidade portuguesa, aqui ficam as headlines do Jornal de Negócios, ainda assim o menos mau da praça.

 

Numa tarde em que tudo acontece, na Ucrânia, nos mercados, na Índia, na ciência e na tecnologia, os títulos cá na paróquia ficam-se pelo mais confrangedor atraso - no tempo e na relevância.

 

Assim é normal uma pessoa sentir-se bem na pele de renegado e olhar com a mais feroz altivez para a maioria do eleitorado, incluídos os que nunca votaram.

 

19min 
Resultados acima do esperado da Apple e Facebook animam Wall Street Os principais índices bolsistas norte-americanos abriram em alta, com o sector tecnológico a dar o maior impulso do outro lado do Atlântico.

 

19min 
Saiba quem são os jovens executivos mais bem pagos do mundo Finanças e Tecnologias são as áreas em destaque no 'top 10' apresentado esta quarta-feira pela revista "Times".

 

49min 
Finanças garantem devolução de pensões a viúvos em Maio O Ministério das Finanças garante que no mês de Maio vai devolver o dinheiro aos pensionistas viúvos que desde o início do ano estão a sofrer um duplo corte nas suas reformas por via da redução da pensão de sobrevivência e da contribuição extraordinária de solidariedade (CES). As regularizações serão efectuadas no momento em que as pensões forem pagas, disse esta quinta-feira fonte oficial

 

49min
Portos: "Compromisso contínuo do Governo será crítico" Troika espera análise sobre o corte de custos para os exportadores, gerado pela nova lei de trabalho portuário, na próxima avaliação ao programa de ajustamento

 

49min 
Portugal entre os países da UE com menores níveis de satisfação com o trabalho Mais de metade dos trabalhadores da União Europeia considera boas as condições de trabalho no seu país, mas a maioria acha que as mesmas se deterioraram nos últimos cinco anos. Mas em Portugal, apenas 32% da população está satisfeita.

 

49min 
Paulo Portas ouvido como testemunha no âmbito do processo dos submarinos O vice-primeiro ministro Paulo Portas foi ouvido pelo Ministério Público como testemunha no âmbito do processo dos submarinos, informou hoje a Procuradoria-Geral da República (PGR).

 

49min 
Bolsas europeias voltam aos ganhos As principais praças financeiras estão a beneficiar de anúncios de resultados acima das expectativas. O destaque é a especulação de uma oferta da General Electric sobre a Alstom.

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publicado às 15:32

Artigo publicado originalmente no sítio da Juventude Popular do Porto (Fevereiro de 2013):

 

José Clemente Orozco, As massas

 

Uma das grandes pechas da contemporaneidade democrática é a relativa falta de originalidade dos seus intérpretes. As palavras repetem-se e as ideias rareiam. Porém, de quando em vez há alguns assomos de criatividade que ajudam, de certo modo, a melhor interpretar os grandes desafios do presente e do futuro. Colin Crouch, um cientista político relativamente desconhecido pelos indígenas, é um bom exemplo dos curtos lampejos de criatividade que de quando em quando vão surgindo no mumificado panorama intelectual ocidental. Numa obra escrita em 2000, com o presciente título Coping with Post-Democracy, Crouch cunhou o famigerado termo da pós-democracia que, hoje em dia, anda na boca de muito boa gente. O cerne deste conceito gravita em torno da tese de que as democracias contemporâneas combinam um grave défice de representatividade política com um poder adulterado pela simbiose excessiva entre a mecânica do Leviatã e o voluntarismo dos grandes potentados económicos. Deixando de lado a óbvia deriva esquerdista do autor, a que não é de todo alheia a sua verve sociologista, este conceito possui múltiplas virtualidades, mais que não seja pela capacidade demonstrada de desvendar alguns dos bloqueios que perpassam os modernos regimes demoliberais.

 

A teoria de Crouch tem na abstenção um suporte empírico estruturante. É fácil compreender o porquê. Hoje, mais do que nunca, as pós-democracias ocidentais confrontam-se com graves bloqueios na relação entre representados e representantes. Os canais de confiança, que outrora permeavam o funcionamento do sistema, deixaram pura e simplesmente de fluir. Os sistemas políticos representativos perderam, em grande medida, o capital de atracção que contribuiu, ao longo dos últimos decénios, para torná-los num dos últimos redutos de civilidade política, num mundo em constante mutação. A origem do problema não é, como muitos dos hermeneutas da academia  apressam-se a fazer crer, simples e linear. O certo é que a crescente profissionalização das classes políticas, acompanhada, em simultâneo, da pauperização intelectual dos seus protagonistas mais salientes, ajudaram a exponenciar um problema latente nas democracias ocidentais.

 

A profissionalização da política trouxe a jusante um “modus operandi” assente na captura do aparelho estadual pelos profissionais do rentismo desabrido. A política deixou de ser um espaço de debate e discussão, o espaço por excelência da pólis, para ser um campo fértil em transacções de poderes e influências. A política tornou-se, de certo modo, num centro de transumâncias várias, em que os poderes jogam a sua participação no imenso palco da riqueza a redistribuir. O liberalismo social, universalizado no pós-guerra, teve aqui um papel sumamente relevante, e, simultaneamente, contraditório: o novo contrato social, crismado pelo tão adulado Estado Social, criou um catálogo extenso de novos direitos sociais, cuja contrapartida foi a expansão desmedida dos mecanismos coercivos do Estado. O desenlace deste paradigma é observável, hoje, a olho nu: de um lado, temos um Estado pantagruélico, fremente de tributos e prerrogativas, e, do outro, uma cidadania passiva e esbulhada, imersa numa luta hobbesiana pela sobrevivência, em que predomina a indiferença pela coisa pública. A abstenção é o resultado óbvio desta tendência de desresponsabilização.

 

A resposta que a grande maioria dos cidadãos encontra perante a falta de resposta do sistema aos seus anseios é um desinteresse radical, expresso na recusa em confirmar a autoridade dos que detêm as rédeas do poder. Como dizia de uma forma lapidar Arend Lijphart, a abstenção é um fenómeno disfuncional que, em boa verdade, tem efeitos assaz perniciosos na condução das políticas públicas, ao fixar quotas de influência díspares entre votantes e não-votantes. O que antes era medido pela força do voto, com a mobilização das massas ao sabor do apelo de um slogan vertebrador de sentimentos e pertenças, é, actualmente, usado em favor da passividade perante o jogo eleitoral das clientelas partidárias.

 

Portugal, um país esganado pelo rolo compressor da soberania perdida, é um bom exemplo desta doença democrática, basta observar que, nos últimos actos eleitorais, a média percentual da abstenção superou os 40%. Números que assustam e que dariam, em condições normais, que pensar. O cerne do problema encontra-se, pois, num contrato social gasto e falido, que já não oferece soluções credíveis às classes médias que, durante anos, viveram à sombra da sua imensa bonomia. Perante isto, que fazer? Apelar ao voto em branco, como fez Saramago? Aderir em massa aos slogans dos ditos indignados, zurzindo virulentamente nas elites políticas e económicas? Não, a resposta não se encontra nesses ditirambos delirantes, aliás, as respostas definitivas não fazem parte do menu, porque, em bom rigor, a ciência das certezas feitas é um exclusivo da ignorância. O único esboço de resposta possível à abstenção cívica da grande massa de cidadãos inactivos é a refundação do contrato social, contanto que o apego à lei, ao direito, ao contrato, e ao “due processo of law” estejam no cardápio de opções. Em suma, estado de direito, liberdade e autonomia, conceitos que por si só definem um conservadorismo salutar. Porque sem participação na coisa pública não há comunidade de partilha e destino que sobreviva. 

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publicado às 14:34

Selvagens na Noite (Walter Hill)

por Fernando Melro dos Santos, em 15.01.13

Para quem se interroga sobre o destino dos fundos colectados em sede de IRS. Então o SNS não é tão bom? 

 

Os grunhos da AR comem perdiz, e os da RTP não passam seis horas na triagem.

 

É o preço da modernidade que nos possibilita liderar o mercado do ovo estrelado instantâneo.

 

Portanto, em suma: entre estas alarvidades, mais o aborto, os mortos de isolamento e a emigração, o toque a finados da Segurança Social e demais aparelho de Estado passou de 2020 para 2014. 

 

Fome canina, repressão, a sanha dos aldrabados, tudo conjura um mistral interessante sobretudo para os situacionistas de serviço. 


 

 

 

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publicado às 10:41

Cinefilia

por Fernando Melro dos Santos, em 18.09.12

Bom dia a todos.

 

O título do meu post de ontem é de um filme realizado por Walter Hill em 1981. Nele, um grupo de homens americanos, compondo uma patrulha da Guarda Nacional em exercício de rotina, é confrontado com o mais traiçoeiro e imprevisível de todos os inimigos.

 

À semelhança do que acontece quando, na esfera individual, o corpo trai o seu hospedeiro e se vira contra si mesmo, também a terra sobre a qual edificamos sociedades pode albergar, em latência, adversários prontos a demonstrar a fragilidade e o carácter efémero, transitório, de tudo quanto sobre ela se constrói, realçando o paradoxo da condição humana enquanto grãos de poeira cósmica que brilham com fulgor até à sua extinção meros instantes depois.

 

No mesmo ano, na sua apreciação do filme, denotou Roger Ebert a evidente e previsível metáfora em torno da guerra no Vietname, alvitrando, e eu tenderia a concordar, do carácter intencional dessa previsibilidade. De facto, Hill deixa aos actores pouca - se alguma - margem para a composição das personagens, urdindo com mestria o impacto avassalador da Natureza e das cambiantes rítmicas ao longo do filme. Não deve ser desprezada, contribuindo para este efeito, a banda sonora de Ry Cooder, cujas construções atmosféricas realçam a verosimilhança do argumento. Às personagens, assim, é conferido um estatuto estatisticamente plausível, palpável, representativo.

 

As árvores, pântanos, montes e valas assistem serenas ao desenrolar da trama, e dos adversários também ficamos com a ideia que sempre ali estiveram e sempre ali estarão.

 

O civilizadíssimo grupo reage aos doestos que lhes são dirigidos com pânico, perplexidade, descrença e anarquia. Reverbera-me a familiar, de repente, nesta época de entropia acrescida. E foi aqui que a obra me fez querer revê-la pela enésima vez por perceber nela, com ou sem intenção, um carácter visionário.

 

Certos atributos da humanidade, senão mesmo todos, obedecem às mesmas leis da Natureza que regem a estrutura do Universo, às escalas do infinitamente grande e da invisível pequenez. A amostragem das personagens é válida para a América de 1981 como sê-lo-ia para qualquer país ocidentalizado, trinta anos depois. Talvez até com maior correlação na nossa actual portugalidade.

 

O eleitorado nada faz senão seguir o ciclo de Kübler-Ross: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. A fase da negação durou duas décadas, mais ou menos o mesmo período dominado pelo socialismo espertalhaço, preconizado por Soares, Cavaco, Guterres, Durão e Sócrates, e ancorado conforme já referi em sucessivos sufrágios em que foi sempre a inconsequência a maior vencedora.

 

Estamos na fase da raiva, que por definição não pode durar mais vinte anos. Alguns dos instalados já perceberam isto, e tentam apressar a entrada no próximo estágio, o da negociação. António José Seguro, por exemplo, fá-lo com o intelecto de um protozoário. Outros há, em todo o espectro ideológico, que sucumbem a uma falência cognitiva sem retorno, mais valendo calarem-se de vez.

 

Como sempre, a descoordenação é ubíqua e paira no ar a questão acerca do paradeiro dos adversários. De um sabe-se que já assoma novamente com a cabeça de fora: a Besta de Alijó, o filósofo de Paris, Aquele Cujo Nome Não Dizemos, e que fareja o poder como sabujo em manhã de Agosto. Outros afiam as presas na esperança de poderem parasitar a confusão instalada.

 

O eleitorado marca vigílias. Está portanto mais perto da depressão, não podendo negociar.

 

A mim, particularmente, não agradaria que isto terminasse em aceitação.

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publicado às 09:08






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