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Blasfémia jurídica

por John Wolf, em 24.10.17

Eugenio_Lucas_Velázquez_-_Auto-da-fé_-_Google_

 

O bastonário da Ordem dos Advogados está a ser muito suave no tratamento que concede ao magistrado autor da blasfémia jurídica. A invocação de adúlterio para desculpabilizar a violência doméstica revela uma doença ética bastante mais grave. No entanto, o bastonário dos advogados Guilherme Figueiredo afirma que Neto de Moura não reúne as condições para voltar a julgar violência doméstica, mas concede ao magistrado o perdão no que diga respeito a processos de outra natureza. No meu entender, a prevaricação do magistrado é de tal ordem grave que deveria ser suspenso da sua função. O problema, embora resida na aprovação da violência doméstica por força da argumentação descabida e inaceitável da circunstância do adultério, tem ramificações diversas. A citação moral da Bíblia constitui em si um delito que lesa a constituição da república portuguesa. Que eu saiba, o Estado português é laico. Nessa ordem de ideias, colocam-se distintas possibilidades de execução análoga. Qualquer escritura sagrada poderia ser invocada e servir de fundamento para validar decisões judiciais. Teríamos de aceitar a fé budista do magistrado X ou a reverência protestante do magistrado Y. A contaminação moral a que assistimos pura e simplesmente não pode acontecer. A própria hierarquia da Igreja Católica em Portugal tarda em pronunciar-se de um modo categórico. Eu entendo que na mesma escala de valores que omite a pedofilia, nem sequer pestanejem perante o acervo do adultério que agora foi arrastado para o domínio da criminalidade, dos tribunais. Confirmamos, e tornamos a confirmar, que o próprio sistema jurídico, que deveria proteger os cidadãos, tal como a Protecção Civil, deve ser intensamente auditado e recalibrado. Não podemos admitir este atentado, como tantos outros ataques perpetrados pelos bastiões que deveriam ser o garante moral  da dignidade das nossas sociedades. Neto de Moura apela descaradamente à violência doméstica servindo de bandeja aos prevaricadores mais uma arma de arremesso. Regressamos aos tempos do Índice, para alargar o léxico e validar a  prática da violência doméstica - vergonhoso, inaceitável.

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publicado às 07:34

O martírio dos Estêvãos

por João Pinto Bastos, em 11.01.13

Cheio de graça e força, Estêvão fazia extraordinários milagres e prodígios entre o povo. Ora alguns membros da sinagoga chmada dos Libertos, dos cireneus, dos alexandrinos e dos da Cilícia e da Ásia vieram para discutir com Estêvão: mas era-lhes impossível resistir à sabedoria e ao Espírito com que ele falava (...) depois à uma, atiraram-se a ele e, arrastando-o para fora da cidade, começaram a apedrejá-lo. As testemunhas depuseram as sua capas aos pés de um jovem chamado Saulo. E, enquanto o apedrejavam, Estêvão orava, dizendo: "Senhor, Jesus, recebe o meu espírito". Depois, posto de joelhos, bradou com voz forte:" Senhor, não lhes imputes este pecado". Dito isto, adormeceu."

 

Actos dos Apóstolos, 6, 8-51

 

A história de Estêvão, o apóstolo helenista martirizado pela sanha farisaica do judaísmo colonizado, tem vários ingredientes que, até certo ponto, assemelham o seu percurso biográfico ao de Jesus Cristo: o mesmo apostolado radical e descomprometido, a Graça divina esparramada na vocalização do exemplo evangélico, o martírio cristãmente arrostado, encarando a Morte como o passamento para a casa de Deus. Estêvão foi, com temeridade e sentido de Justiça, um dos precursores do movimento religioso que doravante cresceria em vigor e dimensão, arrastando o Império Romano na sua vaga ouriçada. A narrativa de Estêvão é, em grande medida, uma metáfora da incompreensão humana. Da incompreensão que tolhe e desquebra, da razão que falha e obscurece. O Homem, o animal racional por excelência, pouco dado amiúde às virtudes da perfeição e da ponderação, é o paradigma mais cristalino da derrota. Talvez não tenhamos sido feitos para a derrota, como disse o derrotado Hemingway, talvez a perda e o temor ao desastre não sejam mais do que um tropo do triunfo iminente, talvez nós sejamos um ameno, e escondido, princípio da Morte, talvez e muitos talvez, porém, a vida, na sua imensidão de veredas e caminhos díspares, dispõe o alvedrio do Homem no seu justo lugar. Nós escolhemos o nosso caminho, mas, nada nem ninguém, é capaz de recolher-nos do Mal. Deus fez-nos com os princípios da Vida e do Bem conglobante, mas o Homem é livre de escolher o seu projecto vital. Fá-lo, e no fundo, é derrotado. Derrotado na dureza encrespada dos desígnios gorados, na perda dos referentes orientadores de todo um percurso, no esgotamento do amor e da amizade. Estêvão, o pioneiro da martirização infligida aos esperançosos, ensinou-nos que, por mais que a derrota imponha o seu véu sobre nós, o livre alvedrio, a escolha conscienciosa e o amor descomprometido, são mais do que uma opção, são uma realidade que cabe-nos a nós agarrar e segurar. Podemos perder a partida, mas não a alfombra de dignidade que ainda nos resta. E essa dignidade é o verbo do amor e da amizade. Puras ilusões ou não, e muitas vezes são-no, com incompreensões e isolamentos inelutáveis, o amor e a amizade são a única ilusão que nos resta, porque, no fundo, a vida é, como dizia Lucas, "mais que o alimento e o corpo mais que o vestuário" (Lucas, 12, 23-24).

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publicado às 12:46

As liberdades perdidas

por João Pinto Bastos, em 09.12.12

O cursus honorum do político profissional na partidocracia portuguesa é o exemplo mais saliente da gritante ausência da palavra Liberdade na narrativa ideológica oficial. Desde o beija-mão rastejante até à obediência servil às chefias partidárias, que atravessa curiosamente todos os estamentos etários, a carreira política é uma fonte inesgotável de arrivismo. Como explicar, por exemplo, a ascensão do atrevimento ignorante nas juventudes partidárias do centrão? O problema da liberdade em Portugal não se reduz apenas à deficiente concepção dos institutos da propriedade e do contrato. O problema é bem mais agudo e começa na Política. Na política com P maiúsculo. Na incompreensão, perigosa e letal, de que a democracia só funciona se for devidamente temperada pela lei e pelo direito. O principal problema deste "torpe dejecto de romano império" é a fraqueza do Estado de Direito. Sem ele, o despotismo e a corrupção dos costumes serão, inevitavelmente, uma realidade tangível. Já estamos nesse estádio. E digo mais, caso não atalhemos de vez esta putrefacção generalizada acontecer-nos-á aquilo que Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) diz na passagem em baixo, citando Ezequiel: "abençoado é aquele que, em nome da caridade e da boa-vontade pastoreia os fracos pelo vale da escuridão, pois ele é verdadeiramente o protector do seu irmão e aquele que encontra as crianças perdidas. E Eu atacarei, com grande vingança e raiva furiosa aqueles que tentam envenenar e destruir os meus irmãos. E saberão que eu sou o Senhor quando eu tiver exercido a minha minha vingança sobre eles"- Ezequiel 25:17. Os germes do totalitarismo andam por aí, ocultos sob a neblina da ilusão. E por mais que tentemos negar o óbvio, a liberdade encontra-se ameaçada. Seja no estupro económico do país, seja no abastardamento da democracia pela costumeira imundície dos pastores do regime, a liberdade está a sofrer vários abalos. E, mais cedo ou mais tarde, a gana de ter um Pastor que nos comande será infinitamente maior que a vontade de agir e viver em, e com, Liberdade. Cuidado.

 

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publicado às 12:53

Ao cuidado do nosso premier Passos Coelho

por João Pinto Bastos, em 30.11.12

"Quando se abana o crivo apenas ficam as alimpas, assim as manchas de um homem ficam nas suas reflexões. A fornalha prova as jarras do oleiro, e a prova do homem são os seus pensamentos. O cuidado com uma árvore mostra-se no fruto, assim a palavra manifesta o que vai no coração do homem. Não louves um homem antes de ele falar, porque é assim que se experimentam os humanos."


Eclesiástico, 27, 4-7

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publicado às 23:38

A Bíblia nas concepções de Dan Brown e José Saramago

por Samuel de Paiva Pires, em 27.01.10

(Breve ensaio elaborado no âmbito da disciplina de Agenda do Pensamento Contemporâneo, leccionada pelo Professor José Adelino Maltez ao 1.º ano do Mestrado em Antropologia, frequentada pela minha pessoa como disciplina opcional do Mestrado em Ciência Política)

 

 

Se há autor que em Portugal atingiu um estatuto quase intocável é José Saramago. Laureado com um Prémio Nobel, a sua vasta obra encontra-se traduzida e publicada em diversas línguas e países. O seu mais recente livro, Caim, foi acompanhado por declarações polémicas em relação à Igreja e à Bíblia, algo que sempre foi característico no autor – recorde-se a polémica em torno de O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Desta feita, Saramago veio dizer que “a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”[1].

 

Dan Brown, por seu lado, alcançou o estrelato da literatura mundial com o controverso Código Da Vinci, fazendo agora chegar às livrarias O Símbolo Perdido. Sempre com o secretismo, a maçonaria e a religião como pano de fundo, torna-se extremamente oportuna a sua última obra quando analisada em conjunto com Caim, com o objectivo de percepcionar divergentes concepções sobre a Bíblia.

Na realidade, independentemente daquilo que separe as concepções de cada autor, importa realçar, em consonância com o Professor José Adelino Maltez, que a relação do Homem com Deus é o mais premente assunto na Agenda do Pensamento Contemporâneo. Ademais, arriscamos afirmar que sempre o foi. Não é difícil encontrar na História da Humanidade fundamentos religiosos na base da esmagadora maioria dos movimentos políticos, sociais, culturais, artísticos e literários.

Aliás, como veremos, nesta relação, um dos elementos mais importantes é o Apocalipse, o milenarismo e a escatologia, referências de grande parte das tentativas de alteração ou mudança de algo na sociedade, muitas das vezes enformando ideologias comummente designadas por progressistas e, portanto, identificadas com a esquerda – que cai no paradoxo da literatura doutrinária de justificação assente numa oposição a uma religião quando ela própria se baseia em princípios e valores que, mais do que ideológicos, são religiosos.

Em O Símbolo Perdido, recorrendo à fórmula a que já habituou milhões de leitores, Dan Brown leva-nos numa aventura em busca do Mistério Maçónico, um grande segredo que, quando revelado, supostamente trará uma nova e grandiosa época em que o conhecimento sobre os maiores mistérios da Humanidade estará ao alcance de todos.

Através de uma narrativa perpassada por sucessivas descobertas em torno do poderoso simbolismo da cidade de Washington, onde se misturam elementos e símbolos maçónicos, rosacrucianos, alquímicos e católicos com valores filosóficos e princípios científicos, Dan Brown procura integrar de forma holística estas três componentes da vida de qualquer indivíduo, a religião, a filosofia e a ciência, concluindo por uma interpretação simbólica da Bíblia. Esta, não mais é do que uma obra que revela o conhecimento humano em todo o seu esplendor, tendo, alegadamente, para além do significado literal, uma segunda camada de significado que pode ser interpretada apenas por alguns, à semelhança do estilo da escrita maçónica, i.e., com uma interpretação literal ao alcance dos profanos e uma segunda inteligível apenas pelos irmãos maçónicos.

Saramago, por seu lado, reinterpreta a narrativa bíblica com Caim como personagem principal, levando-nos desde o Jardim do Éden até à Arca de Noé, passando por Sodoma e Gomorra, pela Torre de Babel, pelas conquistas de Josué, entre outras alegorias que se encontram no livro sagrado do catolicismo. Para o autor, o machismo e a fome são produto da Bíblia[2], os desaires na vida, nomeadamente, o não ter trabalho, casa, roupa ou comida, no caso, de Adão e Eva, são culpa de Deus[3], e o facto de um irmão matar outro é também culpa de Deus[4].

Não deixa de ser paradoxal, ou mesmo incongruente, que Saramago coloque o ónus de várias vicissitudes da vida e do mundo sobre uma entidade na qual não acredita. Porém, reconheça-se a consideração de Saramago quanto à maldade de Deus, quando este pede a Abraão para sacrificar o próprio filho[5], quando destrói as cidades de Sodoma e Gomorra[6] ou quando mata milhares de pessoas no sopé do Monte Sinai[7].

O erro de Saramago consiste precisamente na interpretação literal que faz da Bíblia, e na concepção utópica que tem de Deus. Para o autor, Deus sendo perfeito deveria fazer com que o mundo fosse perfeito. Esquecendo-se que Deus fez o Homem à sua imagem, e que o Homem é por natureza imperfeito, considera que Deus e a Bíblia são as razões pelas quais o mundo não é melhor, retirando qualquer ónus à acção dos homens – que a mais das vezes agem invocando Deus, acreditando numa entidade mística que responde aos anseios do seu eu mais irracional. A este respeito, em nosso ver, correctamente, Saramago assinala o pretensiosismo daqueles que afirmam que os desígnios de Deus são inescrutáveis, como se eles pudessem percepcioná-los e comunicar directamente com Deus[8].

Já Fernando Pessoa assinalava que “o erro capital de todas as definições perfeitas é a perfeição. Uma cousa perfeita deixa sempre suspeitas de não existência”[9]. A perfeição é utópica, e a utopia resulta de uma racionalização que, na História, encontra no Iluminismo o seu expoente máximo, chegando a acreditar-se que só é verdadeiramente livre aquele que se liberta pela razão.

Os sistemas racionais, assentando numa alegada cientificidade que deu corpo à Modernidade e rejeitou a Antiguidade e o papel central que a religião detinha na vida individual e em sociedade, começam desde logo com o sucedâneo de Rousseau e do que este idealizou, ou seja, Karl Marx, cujos ensinamentos vão servir de base aos revolucionários bolchevistas de 1917 e à experiência do comunismo, no qual Saramago se filia ideologicamente.

A acompanhar o comunismo, refiram-se o fascismo ou o nazismo, sistemas que apregoaram o racionalismo e que nem se aperceberam que eram tão ou mais religiosos que a religião católica ou outras. Isto porque, mais do que baseados na ciência, são baseados numa crença apocalíptica. Deve-se, no entanto, notar que Apocalipse significa revelação, ou seja, não é algo negativo, ao contrário do que o emprego habitual da palavra deixa adivinhar. Significa que, após uma revelação, após uma determinada alteração, como cantam os comunistas, “o sol brilhará para todos nós”.

No fundo, estamos aqui a recorrer aos ensinamentos de John Gray[10], considerando que estes sistemas racionais são baseados nesta escatologia milenarista, uma crença apocalíptica numa revelação ou alteração que fará com que o mundo seja um lugar melhor. O problema que a tentativa de colocar uma utopia em prática levanta é o de que os fins passam a justificar os meios, e todas as atrocidades cometidas em nome de uma ideologia passam a ser desculpadas pelas boas intenções iniciais. Isto é precisamente o mesmo que aconteceu com todas as guerras combatidas em nome de Deus. No essencial, ideologia e religião confundem-se, quando não são exactamente o mesmo, contrariando o que muitos dos mais radicais ideólogos pensam.

Saramago padece do viés da interpretação comunista da História, que é não só uma religião como uma profecia historicista que nada tem de científico. Acontece que as profecias não são susceptíveis de teste, tal como acontece com o marxismo, que, como assinala João Carlos Espada, “profetizou o advento inexorável do socialismo e do comunismo sem lhe atribuir um horizonte temporal definido”[11]. À luz da metodologia e teoria falibilista do conhecimento de Sir Karl Popper, é impossível refutar uma teoria que “anuncia a sua concretização sempre para o futuro”, pelo que se trata “apenas de uma crença ou de uma superstição”[12].

Saramago cai no erro e no paradoxo de criticar algo que é precisamente o mesmo que defende, dando especial relevo aos aspectos negativos da Bíblia, de Deus e da religião, esquecendo-se do importante papel que estes elementos desempenham na vida de milhões de indivíduos e das diversas sociedades, e preferindo salientar os ideais utópicos comunistas, esquecendo-se das atrocidades cometidas em nome destes. Se tem noção deste erro, só pode, então, ser considerado como intelectualmente desonesto.

Dan Brown, tendo uma interpretação mais simbólica, alude a um sincretismo universalista, reconhecendo os limites da capacidade racional do Homem, dado que a vida é precisamente uma mistura dos três elementos já referidos (religião, filosofia e ciência/razão), onde não há lugar à perfeição utópica, constituindo-se a Bíblia como uma das mais belas obras da Humanidade.

A divergência entre as duas concepções advém precisamente da concepção da natureza humana que dá corpo às respectivas obras. Só podemos concluir que se Deus fez o Homem à sua imagem, ele próprio só pode naturalmente ser imperfeito, pelo que a Bíblia reflecte precisamente essa natureza imperfeita, com os seus aspectos positivos e negativos.

Resta-nos concluir como principiámos, afirmando que a relação do Homem com Deus continua a ser uma das problemáticas mais prementes no pensamento contemporâneo -  e provavelmente continuará. Em especial, aquilo que preocupa ambos os autores aqui tratados, a existência, ou não, de Deus, continuará a ser um mistério. Entre o jacobinismo anti-clerical e o fanatismo religioso, assinale-se o paradoxal provérbio popular que nos diz que Deus existe, apesar de nós próprios podermos não acreditar nele. Simplesmente, porque milhões de indivíduos acreditam em Deus. É, tão só, um facto sociológico, com o qual temos que lidar.

Referências Bibliográficas

Livros

Brown, Dan, O Símbolo Perdido, Lisboa, Bertrand, 2009.

Espada, João Carlos e Rosas, João Cardoso, orgs., Pensamento Político Contemporâneo – Uma Introdução, Lisboa, Bertrand, 2004.

Gray, John, A Morte da Utopia, Lisboa, Guerra e Paz, 2008.

Maltez, José Adelino, Princípios de Ciência Política – Introdução à Teoria Política, 2.ª Edição, Lisboa, ISCSP, 1996.

Saramago, José, Caim, 7.ª Edição, Alfragide, Editorial Caminho, 2009.

Webgrafia

“"Bíblia é manual de maus costumes", diz o escritor José Saramago”, in Público Online, 18 de Outubro de 2009. Disponível em http://www.publico.clix.pt/Cultura/biblia-e-manual-de-maus-costumes-diz-o-escritor-jose-saramago_1405681. Consultado em 17/01/2010.

 


[1] Cfr. “"Bíblia é manual de maus costumes", diz o escritor José Saramago”, in Público Online, 18 de Outubro de 2009. Disponível em http://www.publico.clix.pt/Cultura/biblia-e-manual-de-maus-costumes-diz-o-escritor-jose-saramago_1405681. Consultado em 17/01/2010.

[2] Cfr. José Saramago, Caim, 7.ª Edição, Alfragide, Editorial Caminho, 2009, p. 20.

[3] Cfr. Idem, ibidem, p. 25.

[4] Cfr. Idem, ibidem, p. 38.

[5] Cfr. Idem, ibidem, p. 82.

[6] Cfr. Idem, ibidem, p. 101.

[7] Cfr. Idem, ibidem, p. 106.

[8] Cfr. Idem, ibidem, p. 39.

[9] Cfr. Fernando Pessoa, Cinco Diálogos sobre a Tirania, in Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, introdução e organização de Joel Serrão, Lisboa, Ática, 1980, p. 320 apud José Adelino Maltez, Princípios de Ciência Política – Introdução à Teoria Política, 2.ª Edição, Lisboa, ISCSP, 1996, p.24.

[10] Cfr. John Gray, A Morte da Utopia, Lisboa, Guerra e Paz, 2008.

[11] Cfr. João Carlos Espada, “Karl R. Popper: A Sociedade Aberta e os seus Inimigos” in João Carlos Espada e João Cardoso Rosas, orgs., Pensamento Político Contemporâneo – Uma Introdução, Lisboa, Bertrand, 2004, p.24.

[12] Cfr. Idem, ibidem, p. 25.

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publicado às 00:07

Saramago em entrevista

por Nuno Castelo-Branco, em 21.10.09

 

 

"Quem vai ler um livro daquela dimensão?" Numa entrevista ao estilo do caranguejo, um passo atrás, outro para a frente e ainda um para o lado, o sr. Saramago deitou uns cubos de gelo na fervença que levou ao lume do fogão do lucro publicitário. Ficámos também a saber que o Corão - e o que dali podia sair -, "não interessa" como matéria de inspiração. Percebe-se...

 

O único argumento que J.S. apresenta nesta controvérsia, cai por terra à primeira solapada: alega que a esmagadora maioria dos católicos não leu a Bíblia, coisa que não deixa de ser uma previsível verdade. No entanto, o que está em causa não é a leitura da mesma, mas o fingimento da não percepção das hipérboles, alegorias  e especificidades históricas, sociais - e até económicas - da época em que os textos foram surgindo. É essa reserva mental que irrita, porque surge como  absolutamente consciente.

 

Patético! Na sua abordagem sobre Caim, também recorre ao "fazer de conta" não perceber a condenação e simultânea protecção divina ao pérfido irmão, condenando-o apenas à expiação mundo fora. Logo depois, denuncia Deus como vingativo e rancoroso e de pouca confiança, não conseguindo Saramago tirar o sentido daquilo que biblicamente se entende por perdão, afastamento da vingativa pena de morte e necessário arrependimento pelo mal cometido. Enfim, o homem não mudou e de Estaline - ou de Alfred Rosenberg, dada a similtude de posições no que à Bíblia diz respeito -, pouco esqueceu ou renegou. Quanto a este tipo de seitas, continua um membro devoto.

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publicado às 20:48

Saramago e São Caim do Kapital

por Nuno Castelo-Branco, em 19.10.09

 

 

A Eneida, A Odisseia, Os Doze Césares, Gilgamesh, O Livro dos Mortos ou o Hino a Aton, são alguns daqueles textos que para sempre ligarão o Ocidente  a um passado que em termos civilizacionais não se encontra assim tão distante, nem no espaço - o cadinho do nosso ethos, o Mediterraneo e a Mesopotâmia - e muito menos ainda, no tempo.

 

A Bíblia consiste numa amálgama de textos, uns destinados a contar a experiência do povo de Israel, outros que foram assimilando aspectos considerados geralmente aceites, como absolutas verdades originárias da história oral dos povos que habitaram a vasta área marginada a oeste pelo Nilo e a este pelo Tigre e Eufrates. O Dilúvio, o sonho da Terra Prometida - este nosso Shangri-la do Ocidente indo-europeu -  e toda uma série de relatos edificantes que estabeleceram um primado ou conceito de ordem moral,  procuravam uma identificação unificadora dos ainda relativamente escassos contingentes humanos, em alguns casos dispersos por um território que à época era infinitamente mais vasto e de difícil acesso para aqueles que quiseram criar raízes, sedentarizando-se. O Êxodo consistiu na lendária base fundamental que uns milénios mais tarde, justificaria a criação de um Estado que se formatou em torno dessa acreditada gesta. Pouco importa se Gilgamesh já tivesse experimentado a enxurrada que dos céus inundou aquele todo o mundo que os semitas, egípcios e até mais a norte os anatólios, consideravam como completo e único. Se o Pai Nosso é fruto da fervilhante criatividade e imaginação de Amenófis IV trasmutado em Akhenaton, a verdade é que hoje surge como a suprema oração, o fio condutor da conversa, ou melhor, do implorar do comum mortal de qualquer uma das religiões do Deus Único .

 

Vestes sagradas, cerimoniais complexos e carregados de fumos de incensos, chamas purificadoras, águas milagrosas e livros erguidos em direcção à luz solar - talvez aquele deus que ainda resiste no subconsciente da maior parte dos homens -, fazem parte de uma tradição que ininterruptamente se adaptou a novos espaços, realidades étnicas - adequando os ritos e a crença ao passado pagão - e geográficas. Loucos de Deus sempre existiram e sempre existirão, numa quase sempre solitária interpretação de um mundo ao qual, soberbamente se julgam destinados a servir como vingadores de um ente superior, basicamente austero e avesso ao negregado hedonismo. Grosso modo, as histórias edificantes focam contextos muito específicos, onde invariavelmente a fixação da hierarquia, a morigeração de costumes, ou a simples necessidade de zelar pela perfeita saúde física das comunidades, impunham as regras a acatar universalmente. Os cataclismos naturais  impuseram  algumas semelhanças entre textos de culturas tão distantes quão diversas em vários continentes. A própria necessidade e expressão artística - muitas vezes fortemente condicionada pelo engrandecimento do poder -, levou à adopção de soluções técnicas que os mais crédulos ainda hoje, pensam ser um elo muito longínquo de um passado comum, outrora ligado por um fabuloso continente perdido pleno de super-homens, afinal, a perdida ponte entre nós e o divino.

 

Bíblias foram queimadas em fogueiras, assim como homens também o foram apenas por acatarem uma versão errónea à luz do oficialismo imperante num certo espaço político e social. O que parece bastante anacrónico e causa perplexidade, é o constante acirrar de posições que de tão irredutíveis se tornam merecedoras da indiferença mais ou menos generalizada. Aqueles que não compreendem - ou fingem não entender - os contextos históricos em que os textos surgiram como uma necessidade para a conformação social, acabam por equivaler-se aqueles outros que à semelhança de autoproclamados filhos de uma das Tribos Perdidas de Israel, vociferam contra os "ímpios" de uma modernidade que não aceitam e querem ver destruída. No fundo, o fanatismo Saramago equivale-se ao de um Menino de Deus, de um Mormon ou de um Hamisch.

 

O caso deste escritor que nestes dias acaba por preconizar o fim da sua própria pátria de nascimento, parece intencional, decorrendo normalmente de um percurso de vida pautado pelo endurecimento da convicção  num destino de predestinado e ao encontro daquele que afinal foi o verdadeiro Mito do Século XX. Pouco lhe importam as histórias, os contos, as experiências e desejos individuais ou colectivos - estes stricto sensu, há que frisar - dos homens que fizeram a pequena e a grande História. O devir de uma supersticiosa certeza, numa constante e maniqueísta liquidação de "inimigos de classe" - descurando assumida e completamente as realidades da inter-permeabilidade entre algumas ou todas -, conduz ao dogma que impõe a destruição do outro. Um dos derrotados do século - e aqui já o alçamos a um muito contestável estatuto que pouco interessa reconhecer ou não -, Saramago finge não ter compreendido a vastidão imensurável de um legado que antes de tudo tenta impor regras onde o conceito de Bem pode ir-se adaptando aos novos tempos e realidades que a sucessão de gerações infalivelmente estabelece.

 

Para Saramago, a Bíblia parece ser um ...manual de maus costumes, crueldade e do pior da natureza humana... Curiosa conclusão que não atende à realidade de outras épocas e á própria necessidade de afirmação da certeza de pertença a um determinado grupo. Apesar disto,  não existe vivalma sobre este planeta, que alguma vez tenha escutado uma só palavra do escritor, acerca dos manuais de brutalidades, das cartilhas que impõem pela mais iconoclasta violência,  a "construção científica" de um outro homem, tão desumano como Moloch ou tão escravizado a uma quimera como os ilotas.  Saramago nem sequer dá conta da clara cópia do preceituado necessário à construção  do seu Novo Templo, de uma religião tão tingida de vermelho como as escadarias sacrificais dos aztecas. Pouco lhe importam que as estórias - disso não passam - edificantes da sua religião versem a denúncia, a opressão do imaginado inimigo ou a acefalia geral em benefício de um imposto dogma. A visão da certeza, do Bem estabelecido pelo Caim da sua Verdade, exclusivamente pertencerá aos eleitos, aos poucos que escolhidos inter-pares, decidem pela amorfa e anónima soma de números em que a humanidade obrigatoriamente se torna, anulando-se como motor da continuidade da própria História.

 

Agarrado ao encharcado lenço de uma derrota que jamais esperou ver chegar, pouco mais resta ao escritor premiado com o Nobel, senão aferrar-se à sua grande certeza: a metálica matéria. No seu caso, o ouro, não em forma de bezerro, mas da vaidade que lhe garante um final confortável e feliz.

 

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publicado às 18:43






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