Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Quando ouvimos mais uma estória sobre uma loja que fecha e deixa mais três no desemprego, sabemos que Portugal está bem e recomenda-se. Quando percorremos os corredores do supermercado e observamos que o número de desdentados cresceu, sabemos que a agência de rating não se enganou. Quando reparamos que algumas pessoas que conhecemos, subitamente apresentam cabelos grisalhos, sabemos que Portugal dobrou a esquina. Quando escutamos o desabafo de um desconhecido choroso que não consegue pagar a renda, sabemos que a retoma é uma certeza. Quando ficamos a saber que aquele idoso simpático deixou de poder medicar-se, sabemos que estamos a salvo. Quando escutamos que os bancos Europeus precisam de ainda mais dinheiro, está tudo explicado.
Ainda há quem tenha os pés assentes na terra, como por exemplo Ricardo Arroja e João Luís Pinto. Deste último, transcrevo o texto na íntegra:
«As notícias que dão como sendo de 50% o valor do perdão da dívida grega parecem, afinal, largamente “optimistas” em relação a esse valor, e aparentemente deixam de lado ou menosprezam alguma informação relevante em relação à natureza desse perdão.
Em primeiro lugar, não referem que foram excluídos desse perdão o BCE, a UE e o FMI, sendo que portanto esses 50% se referem somente ao restante da dívida – o que, ponderando os montantes envolvidos, reduzem esse perdão a 28% da dívida grega. Mais do que isso, cria um estatuto de “credores de 1ª” e de “credores de 2ª” da dívida grega, um novo motivo de alerta para os detentores privados de dívida pública de outros estados europeus.
Em segundo lugar, parece ignorar que uma parte significativa dessa dívida “perdoada” é detida por bancos e fundos de pensões gregos, o que faz pensar em qual será a reacção da “rua grega” quando se aperceber que a bonança do perdão da dívida afinal foi em parte sustentado à custa da viabilidade das suas reformas, e que ainda vão ter que ser os financiadores mais do que previsíveis da recapitalização dos bancos gregos afectados, que simultaneamente são atingidos pelo “perdão” e pela imposição de subida de rácios.
Sinceramente, não sei onde estarão os motivos da satisfação anunciada pelo primeiro-ministro grego com esta decisão, e qual será a natureza efectiva da “nova era” que anuncia.»