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A política gangolana de António Costa

por John Wolf, em 17.09.18

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António Costa é europeísta. Por isso decidiu vestir calças de Nimes (Denim, De Nimes, vide origem da ganga, googlem...) para ser recebido no aeroporto de Luanda por Manuel Augusto Domingos, ministro dos negócios estrangeiros de Angola. Mas o primeiro-ministro de Portugal também pode ser atlanticista - as blues jeans tanto podem ser da Levi´s ou da marca Lee - ou seja, nada contra John Wayne e os cowboys americanos. No entanto, o primeiro-ministro quebrou o protocolo. Passou a ferro e deixou queimar o único protocolo que verdadeiramente interessa. A qualidade da abstracção representativa, a dignidade que os Portugueses merecem que seja espelhada no principal e mais importante embaixador de Portugal - os Portugueses não gostaram de ver o desfile na passerelle. Mesmo a família mais remediada de Portugal, quando convidada para o baptizado da vizinha coxa e vesga, veste a melhor camisa que tem e calça o único par de sapatos de ocasião que tem. Mas não, António Costa entrou em modo relax, chill-out, a fazer bluff - a fingir não dar grande importância a Angola e a fatia grossa que pode ser talhada para Portugal e alguns socialistas mais empreiteiros do que outros. Eu entendo que a Geringonça que o colocou em tal posição de autoridade e titularidade pública é, em si, uma manta de retalhos. Nesse caso, serviu mal aqueles partidos que o levantaram em ombros de governação. As calças de ganga têm uma conotação mais UNITA do que MPLA, mais colonizadora do que nativa, e isso já não se usa. O pós-colonialismo é doutrina com falhas conceptuais graves. Se Costa quisesse espelhar as Catarinas e os Jerónimos da sua praça parlamentar, levava consigo alguma "merda na algibeira" e uma tê-shert com a cara estampada de Che ou Maduro. Assim, com a farda a meio-gás, dá ares de pertencer a um gangue com jogadas espertas e truques na manga. Esta política da ganga, gangolana, não serve. Não tem a medida certa. O respeitinho é muito bonito.

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publicado às 18:08

Os manos Robles e a mania da riqueza

por John Wolf, em 29.07.18

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Mesmo que o tanso metesse ao bolso €2M (dois milhões de euros após pagamento de imposto de mais-valias e demais taxas) e a irmã outros €2M, aposto que estoiravam o guito em pouco tempo na senda daquilo que é habitual acontecer a quem ganha o Euromilhões. Que eu saiba, o Robles e irmã não estão habituados a esse tipo de dinheiro, não passando de uns deslumbrados. Ou seja, nem seriam capazes de montar um portefólio de veículos de investimentos saudável (um cabaz com ETF´s, Government Bonds, REITS, Fixed Income Investment Funds, Dividend Yield Funds ou Mutual Funds) porque um não passa de um reles vereador e a irmã aposto uns trocos que é artista. Por outras palavras, seriam (ou são) dois burros a olhar para um museu. O museu do Bloco de Esquerda. O mesmo se aplica a um Barroso que está na Goldman Sachs apenas a vender ligações políticas. De gráficos e mercados percebem pouco. Ou nada.

 

créditos fotográficos: Jornal de Notícias

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publicado às 19:03

Do processo de corrupção moral do Bloco de Esquerda

por Samuel de Paiva Pires, em 28.07.18

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Sobre Ricardo Robles, certamente, e é o mais escandaloso no caso em apreço, podemos falar na distância que vai daquilo que se proclama àquilo que se pratica, no sentimento de impunidade de quem se assume defensor de certas virtudes públicas, mas que na vida privada faz o mesmo que condena em terceiros, numa variante do provérbio “bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz”, apetecendo até invocar Lord Acton, para quem o poder corrompe, ou ainda Montesquieu, que nos ensinou que “todo o homem que tem poder é levado a abusar dele; vai até encontrar limites”.

 

Mas mais interessante até que os negócios de Robles, é assistir às tergiversações bloquistas a seu respeito, particularmente ilustrativas do que é uma certa esquerda que se auto-proclama detentora de uma qualquer superioridade moral que, alegadamente, a diferencia não só dos restantes posicionamentos políticos como de outros partidos e actores políticos individualmente considerados, mas que, na realidade, se tiver oportunidade, toma atitudes idênticas às daqueles que critica recorrentemente. Não é novidade que os parceiros geringonceiros do PS talvez tenham alcançado a maioridade política ao, finalmente, perceberem que a política não pode ser só pregar a suposta superioridade moral e pensar de forma absolutista, sendo muito mais a arte do possível, em que o exercício do poder requer a capacidade de negociar e encontrar compromissos. Os silêncios, nos últimos anos, dos geringonceiros BE e PCP sobre diversas matérias denotam isto mesmo. Mas coisa bem diferente é a tentativa de spin a respeito de factos que, além de reflectirem uma gritante hipocrisia (as posições políticas de Robles sobre o alojamento local e os negócios que realiza neste âmbito), objectivamente considerados, são censuráveis em qualquer pessoa, independentemente do partido em que milite, e que, obviamente, diminuem - e muito - a legitimidade política do político em causa.

 

Sabemos há muito que, como dizia Sir Humphrey Appleby, “where one stands depends upon where one sits”. Só não estávamos habituados a ver esta atitude no BE de forma tão explícita. Está, assim, concluído o processo de corrupção moral do BE, mais uma grande vitória de António Costa e do PS, mas que aproveita especialmente à direita portuguesa. Talvez os bloquistas ainda não o tenham percebido, mas este episódio coloca em causa todo o edifício da sua praxis política e terá notórias consequências no futuro do partido. Mas compreende-se que estejam ocupados com o debate, a decorrer enquanto escrevo este texto, subordinado à temática “propriedade é roubo”.

 

(também publicado aqui.)

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publicado às 15:56

A eutanásia não morreu

por Samuel de Paiva Pires, em 29.05.18

 

Lamentavelmente, por parte de muitos opositores à eutanásia, assistimos nos últimos dias a inacreditáveis distorções, homens de palha e falsidades. É frustrante a dificuldade em debater racionalmente e de forma civilizada na esfera pública portuguesa. 

 

Muitos dos opositores da eutanásia querem obrigar doentes em circunstâncias de dor e sofrimento intoleráveis, cuja morte está no seu horizonte próximo, a prolongar a sua agonia. Fazem-no porque, muitos deles, entendem que, estando os próprios ou os seus familiares em idêntica situação, nunca optariam pela antecipação da morte. Por convicção ideológica ou religiosa, por terem meios para suportar cuidados paliativos, que entendem ser a panaceia para quem se encontra em tamanho suplício, ou por questões de consciência, esta é uma escolha que estão aptos a fazer. Ninguém os condena por isso. No entanto, quando lhes é pedido que pensem e reflictam fora da sua esfera individual, no sentido de considerarem outros seres e enquadramentos éticos igualmente merecedores de consideração, não se esforçam para os compreender e demonstram a mais vil das intolerâncias. E, enquanto o fazem, condenam aqueles que vêem na eutanásia um acto de verdadeira e pura bondade, arrogando-se os únicos conhecedores do sentido desta expressão. Como se esta obstinação, a caracterização dos defensores da eutanásia como "nazis", o ecoar de slogans como "pela vida" e "contra a cultura da morte" e arrogarem-se o monopólio do "amor" e da "compaixão" contribuíssem de alguma forma para a elevação deste debate. Ademais, afirmam a existência de uma rede de cuidados paliativos, quando estes escasseiam no Serviço Nacional de Saúde (destaco o número de 376 camas para todo o país), que, assim, acaba por denegar o tratamento de todos os doentes que deles necessitam. Claro está que este não é um problema (pelos vistos, nem sequer uma preocupação) para quem tem possibilidade de recorrer às unidades de cuidados paliativos oferecidas pelo sector privado - onde, diga-se de passagem, devem ser uma área de negócio bastante lucrativa, mas talvez a deputada Isabel Galriça Neto um dia nos possa esclarecer a este respeito.

 

Esperemos que a continuação deste debate o recentre no que é realmente importante, e que, afinal de contas, consiste na possibilidade de alguém, livre, consciente e esclarecidamente, em circunstâncias legalmente delimitadas, poder solicitar o abreviamento do seu sofrimento físico, sem que isso lhe retire qualquer dignidade, sem que daí advenha qualquer ataque aos beatos princípios de quem, ainda que na política seja frequentemente maquiavélico e pouco ou nada católico, prefere ignorar a dura realidade dos serviços de saúde, na área dos cuidados paliativos, em Portugal, bem como, e acima de tudo, negar a possibilidade de alguém poder escolher a eutanásia. 

 

Uma das virtudes da democracia liberal consiste no facto de as maiorias de hoje serem as minorias de amanhã. Felizmente, a questão da eutanásia não morre aqui. Quer beatos, comunistas e deputados permeáveis a certas pressões gostem ou não.

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publicado às 23:30

O negócio da Eutanásia

por John Wolf, em 29.05.18

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Se me permitem, também gostaria de oferecer alguns considerandos sobre o debate binário que corre em relação à Eutanásia. O interruptor on/off parece ser a única dimensão da discussão. Numa primeira análise e leitura da opinião pública, as hostes dividem-se fervorosamente entre a cessação do sofrimento e o respeito pela ordem natural da vida - sem uma mão humana a desligar a ficha. Esqueçamos essa matriz por uns instantes e concentremo-nos em algo um pouco mais cínico - o negócio. O que sai mais em conta ao Estado e ao Serviço Nacional de Saúde? Cuidados paliativos continuados ou a droga da morte assistida? O debate proposto por bancadas partidárias não é ingénuo - tem razão monetária de ser. Inscreve-se no Orçamento de Estado. Por detrás da verborreia existencial com laivos de filosofia de bolso, choradeiras de liberdades e garantias, o corpo é meu, a vida é minha, lá no fundo dos ministérios, depois daquele longo corredor resfriado pela marmorite aguda, encontramos os gabinetes de cálculo e folhas Excel. Esta história da Eutanásia é uma nova oportunidade do caraças - de negócio. É quase um Simplex. Por quê não pensamos nisto antes? Deixemo-nos de lamechices e atiremos à arena parlamentar e ao executivo do bem comum este caderno de encargos. Eles hão-de encontrar a veia para a execução. Sofrimento. Death and Taxes.

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publicado às 09:49

Cultura Zero

por John Wolf, em 05.04.18

 

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Portugal sofre de pseudo-elitismo crónico. O mito sagrado da cultura tem servido fetiches de diversa ordem, mas sobretudo para invocar poderes sobrenaturais e reclamar dinheiro dos contribuintes. Em nome de causas maiores, do bem público e do dever do Estado, um conjunto alargado de "estruturas" (termo querido da Catarina Martins) tem recebido, a fundo quase perdido, somas interessantes para tirar o povo da sua ignóbil miséria cultural. São estes agentes em missão de salvamento que resgataram Portugal profundo da tirania da estupidez e ignorância. O contínuo endeusamento de uns quantos "grandes", que consubstanciam a máxima "em terra de cegos quem tem olho é rei", é o derradeiro responsável. São esses iluminados, tocados pela magistratura do privilégio da corte de vantagem, das ligações especiais, que foram levados em ombros na luta cultural de classes levada a cabo pelas Esquerdas, ditas titulares exclusivas das artes performativas e do seu integral entendimento. No entanto, o modelo (falido, falhado) não se localiza na régua ideológica ou partidária, nada tem a ver com a Esquerda ou a Direita. É problema de fabrico. É uma patologia respeitante à matriz estatutária do país que distingue despudoradamente a superioridade cultural de uns e afasta a mediocridade avultada de outros. Confirmamos a eternização dos mesmos jogadores. São eles; políticos-poetas, escritores-aclamados, críticos-intocáveis, actores-consagrados, cantoras-diva e encenadores-inamovíveis que degeneram a possível e desejável alteração das regras, do modelo. São esses mesmos, próximos da poltrona do funcionalismo público, que não desejam grandes sacudidelas. Para eles, a cultura deve estar divorciada do mercado, porque o público nada sabe e portanto não saberia distinguir uma ópera bufa de uma simples libertação de gases. Os agentes ditos culturais não entenderam pelo menos duas coisas: a arte é sinónimo de ruptura e desequilíbrio. E os empreendimentos culturais financiam-se de um modo social, sem ser necessariamente socialista, mas intensamente escrutinado em função dos valores investidos e do retorno qualitativo e expectável das obras de arte apresentadas. Neste capítulo das artes e da cultura, da programação e dos modelos de financiamento, poucos o sabem fazer como os americanos. Ora vejam este exemplo e descubram as diferenças. Isto é apenas dinheiro dos contribuintes. Mais nada.

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publicado às 16:23

As Rosas do Fernando

por John Wolf, em 23.03.18

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Já havia tido a ocasião de testemunhar a ortodoxia preconceituosa e irascível de Fernando Rosas há um bom par de anos na apresentação de uma obra escrita a quatro mãos, por si e pelo Prof. Mendo Castro Henriques (sim, despromovi o Rosas - não é professor, é sargento-môr) - "1910 a duas vozes" - na Livraria Buchholz em 2010 (estou ali de blazer claro, e já careca...). Sem o mínimo de fair-play intelectual e sem denotar vestígios de democraticidade e tolerância, Fernando Rosas arrasou a historiografia monárquica apresentada por Mendo Castro Henriques, insultando o co-autor do livro e humilhando o público vindo em paz. Penso que as palavras exactas foram: "recuso debater o que quer que seja para além da República". Portanto, o que agora sucede no que toca à homossexualidade de Adolfo Mesquita Nunes e as palavras proferidas, assenta que nem luvas ao carácter de alguém que não se inibe na demonstração do seu nível ético. Resta saber se a Comissão para a Igualdade de Género actuará juridicamente à luz de afirmações atentatórias à liberdade de orientação sexual, aliás consagrada na Constituição da República Portuguesa. Mas nem precisamos de ir por aí. Trata-se de algo diverso. Rosas já não tem força na verga intelectual para se digladiar com o avantajado Adolfo Mesquita Nunes. O Fernando Rosas tem-nos pendurados. E não falo de suspensórios.

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publicado às 14:13

Pedrógão e parafusos do Tejo

por John Wolf, em 08.03.18

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As notícias avançadas sobre o estado de degradação da ponte 25 de Abril deixam adivinhar um Pedrógão Grande do Tejo. Já começaram as sacudidelas do capote de parafusos, dinheiros e responsabilidade política. Centeno, que já se pôs a milhas da portagem, esclarece que o ministério das finanças não é uma das fissuras nem uma das roscas. Nem sequer será uma porca que precisa de ser apertada. A United Steel Corporation ainda não foi metida ao barulho (ainda vai sobrar para Trump), mas no essencial já estamos na presença de um desastre. A geringonça, que é um artefacto em si, deveria nutrir especial atenção por este caso. Por outras palavras, sem minguar o risco para vidas humanas, a haver uma paragem forçada do uso da ponte, a economia do país será intensamente afectada e o emprego de milhares de pessoas que usam esta via. Não sei se este caso tem alguma coisa a ver com a ânsia ferroviária da Catarina Martins, mas pelo baloiçar do tabuleiro, vai tudo encalhar na barra do tejo, e depois na barra dos tribunais, onde, naturalmente, nada de especial acontece. Gostava de ver o postal turístico que acompanha este excerto: "um parafuso em aço com cerca de 60 centímetros e três quilos quase ia caindo em cima de um casal de turistas e de um português que passeavam numa zona mesmo por baixo da ponte." (leiam bem: wild woman walking, no postal...)

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publicado às 17:08

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Catarina Martins ainda pensa de um modo industrial, ferroviário. Ainda não percebeu que as estações e apeadeiros da Esquerda e da Direita já não existem. A lider bloquista enferrujou e ficou paralisada naquele estado comatoso de instransigência ideológica. Desde quando é que o investimento estratégico é um exclusivo daqueles que estão a leste do diálogo democrático e tolerante? A arrogância que revela quase que viola a constituição da república portuguesa. Para quem depende da legimitidade parlamentar para abrir a boca, também deveria estender essa prerrogativa às orelhas e escutar panoramicamente. O Partido Social Democrata, que mal assentou o arrial do seu novo chefe, deve por todas as razões de interesse nacional ser escutado com o mesmo grau de respeito que o Bloco de Esquerda ainda parece merecer de alguns quadrantes. Num quadro sucessório de alternância de lideranças e fins de mandato, veremos que ditadora substituirá os comandos da nau bloquista quando Catarina se for - nada dura para sempre. A ideia de que a ferrovia vai salvar o país lembra o mapa cor de rosa de outras lides e regimes políticos. Mas nada de isto nos deve surpreender - o ferro fundido concorda com o grau de sofisticação de quem não consegue pensar para além de um sector, de uma partição ideológica. Desnível acentuado, cancela fechada.

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publicado às 18:31

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Não é preciso ser o bruxo de Fafe, nem saber a letra do hino pão, pão, paz e liberdade, para entender que o Partido Comunista Português (PCP) e o Bloco de Esquerda (BE) têm os lugares em risco na selecção da Geringonça. O actual mister dos socialistas anda de olho no avançado Rio, desfazendo-se em elogios à convocação do novo lider da oposição. Para quem sobrevive com as sobras eleitorais de legislativas e transforma derrotas em maiorias e governos, a jogada é um clássico. O esquema táctico pode passar num ápice de um 1-1-1 para um 1-1. O galanteio de António Costa pode até ser considerado uma forma de assédio ao social-democrata Rui Rio. O que o primeiro-ministro deseja, mas nem ao Rato confessa, seria que o camarada do Partido Social Democrata deixasse cair uma parte da nomenclatura dita liberal daquele partido e se convertesse à sua igreja, que fosse adoptado pelos socialistas como se de um orfão se tratasse. Por outras palavras - que se convertesse à religião da Esquerda iluminada. Mas para chegar a tal bloco de notas e realizações falta algo atípico - que Costa se comece a inclinar à Direita e a seduzir uma parte do espectro laranja. Face a estas movimentações e indícios de traição, o PCP e BE poderão sentir o enchifrar de um modo agreste e, em resultado de tal estado político-emocional descontrolado, começar a cobrar caro à Geringonça. Como o PCP e BE continuam a ser o que sempre foram e não têm nem Ruis nem Rios para vender, terão de jogar com a prata da casa. Teremos deste modo uma Catarina ainda mais teatral e um Jerónimo cada vez mais histórico. António Costa sabe que Rui Rio é muito mais intelectual e programático do que a sua persona, por isso terá de reforçar o seu jogo de cintura, apontando alguns golpes de rim aos argumentos económicos e financeiros intransponíveis que cedo irão jorrar do discurso coerente de Rio. O homem do puerto sabe muito mais da poda  do que Costa. Quanto ao traquejo político que falta, lá chegará. O estado de graça de que dispõe é superior ao tempo que remanesce à Geringonça antes que as coisas começem a meter água.

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publicado às 17:28

Ao largo do Rio

por John Wolf, em 14.01.18

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Andaram entretidos a fazer bonecos, a esquiçar desenhos, a apalpar almas gémeas onde elas nem sequer existiam e agora António Costa terá de se revisitar e rever a matriz ideológica que o sustenta, os vícios que o coligam ao Partido Socialista - chegou alguém capaz de o destronar dessa corte colada com o cuspo de uma maioria parlamentar de Esquerda. Rui Rio aí está, e embora ainda se encontre em fase experimental, em versão beta de um sistema político operativo open source, já apresentou credenciais de quem será capaz de buscar apoios e insatisfações daqueles que se iludiram total ou parcialmente com a receita da Geringonça. Existe coerência estratégica da parte do novo líder do Partido Social Democrata, que paulatinamente deixou que o inscrevessem na resistência formada à Esquerda. Rui Rio apresenta-se numa condição híbrida, trans-partidária - como se fosse independente sem descurar atributos liberais, social-democratas ou mesmo de Esquerda. É essa convivência endémica, na relação que mantém consigo mesmo, que o distinguirá das parecenças com António Costa que necessita de se abengalar aos camaradas caducos e prestar homenagem à mitologia de Mário Soares para justificar a acção governativa, como se existissem imperativos de ordem moral, pertença exclusiva da superioridade republicana e socialista. Nessa medida ideológica, devemos considerar Rui Rio como um atéu acabado de chegar, mas que partiu há muito para a mesma travessia da odisseia política de Portugal. Vai haver efeitos de sopro e ondas de choque. No seu partido e no dos outros.

 

foto: OBSERVADOR

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publicado às 14:06

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A caldeirada dos dinheiros partidários e favores políticos em Portugal deve-se a uma causa relativamente benigna - a falta de lobbies transparentes e regulados. Pensar apenas no financiamento de partidos dá azo a que se levantem suspeições e suposições em relação a tudo e todos. Mário Centeno pediu dois ingressos para ver o Benfica, mas tal facto não deve ser explorado usando a métrica do tráfico de influências. Não chega a tanto. Porém, o Presidente do Eurogrupo foi tonto ao servir-se do argumento securitário, pondo em cheque o protocolo regular instituído para figuras de Estado. Adiante, o jogo da bola não tem a ver com a discussão que urge. Há anos que os políticos de todos os quadrantes se servem de ligações especiais e concessões de bastidores. E é isso que deve ser corrigido, criando uma modalidade regulamentar que contemple todos os modos de transferência de meios, financeiros ou de outra natureza. Se o financiamento de forças políticas constar de um mapa obrigatório e de acesso online deixa de haver zonas cinzentas. Os Estados Unidos oferece péssimos exemplos em muita coisa, mas as regras são claras quanto à subvenção de agendas políticas - sabe-se de onde vêm os dinheiros. O que deve ser tido em conta em Portugal é a privatização do financiamento dos partidos. Não faz sentido que os contribuintes paguem a dobrar a acção política. Já basta que paguem os salários parlamentares, do executivo ou do presidente da república. Se o mercado político for privatizado e transparente, o dinheiro fluirá para onde houver mais credibilidade. A ideologia partidária teria, deste modo, de se fazer valer pelas ideias, que nutririam mais ou menos apoio financeiro de acordo com a sua consistência. Os lobbies, organizados em torno de causas, serviriam para disciplinar o caos e banir a prevaricação que ocorre na paisagem política nacional. Mas mais importante do que estas questões administrativas, seria estabelecer a correlação entre o financiamento de partidos e o avançar das causas meritórias que o país exige. O financiamento partidário, nos actuais moldes, parece desenvolver-se numa economia paralela, no sub-mundo da política. Não é líquido que do financiamento partidário resultem melhores soluções políticas para o país. E os portugueses gostariam de ver tudo à tona, à luz do dia e do seu juízo.

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publicado às 10:51

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A cavalo dado não se olha o dente? Olhe que não. Eu teria algum cuidado se fosse um dos recipientes das indemnizações decorrentes da tragédia dos incêndios. As vítimas e familiares das vítimas de Pedrógão  esfregam as mãos de contente por receberem o cheque assinado por Centeno, mas cautela. Como em qualquer apólice de seguro, é importante ler a letra miudinha. Aqui têm a cláusula que diz tudo: "António Costa explicou que o direito de regresso será exercido "se vierem a ser identificadas responsabilidades que possam levar o Estado a exigir o direito de regresso destas indemnizações que adianta." Por outras palavras, os beneficiários recebem o cheque, mas caso se alterem as condições que sustentam a substância e a forma da responsabilidade do Estado, toca a devolver o dinheiro. Podemos então concluir que se trata de um empréstimo político, adequado à época pré-legislativa de campanha. Aposto que apenas pegam no estorno e transtorno da questão se o Partido Socialista (PS) ganhar as eleições de 2019. Até lá a responsabilidade será sempre do Estado, porque convém. Ou seja, seria um tiro no pé enviar o cobrador do fraque ir recolher o dinheiro malparado antes do tempo, durante a legislatura. Se o PS não for tido em conta num novo governo, lá para 2019, então será perfeito - a batata quente passa para outros que farão o favor de ser os maus da fita. Não julguem por um instante que quem vos governa não pensa deste modo. É assim mesmo que funciona. Política é um jogo de atrasos e antecipações, empréstimos e devoluções.

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publicado às 17:34

A falência técnica do PS

por John Wolf, em 03.01.18

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Sempre apreciei sátiras, mas sou mais fã de ironias do destino. Para esta rábula sirvo-me do falido Partido Socialista (PS), porque este assume-se como lider da pandilha, mas a ilustração pode servir de template para qualquer partido político. Pensavam eles que enquanto o português enchia o bucho com rabanadas faziam passar a Lei do Financiamento dos Partidos. Nada de mais errado. Venham de lá mais hérnias para endireitar as costas dos políticos. Bravo Marcelo. Mas adiante. Vamos ao Largo do Rato. Face à falência do PS, vejo alguns caminhos de salvação. Começemos pela austeridade doméstica; o corte nas despesas e mordomias dos dirigentes socialistas; o acesso a empréstimos bancários mediante a concessão de garantias imobiliárias; a angariação de receitas próprias, designadamente a transformação da sede do Rato em alojamento local com direito a tour político e a oferta de um brinde de campanha. Enfim, é absolutamente deplorável que os partidos estejam nesta situação. Para todos os efeitos, a Geringonça é como uma Troika, e eu esperava mais solidariedade e racionalidade na gestão de meios. O Partido Comunista Português, o grande capitalista imobiliário do panorama partidário, poderia, se fosse mesmo marxista, ceder um edifício ao PS ou conceder um empréstimo com juros bonificados aos seus camaradas de governação. Pensava eu que o Mário Centeno poderia ser um belo patrão das contas internas do PS, mas arranjaram mesmo um Patrão, um tal de Luís Patrão. Tecnicamente falido - dizem eles - uma expressão simpática. Faz lembrar a técnica da força ou a força da técnica. Não interessa. Estão falidos. Venha de lá uma execução fiscal, o arresto de bens, o congelamento de contas - aquilo a que está sujeito o zé ninguém, o cidadão anónimo, filiado na ilusão do fim da Austeridade, a fraude vendida por essa mesma casa arruinada. Marcelo devia aproveitar a deixa e propor a elaboração de uma Lei da Falência Técnica dos Partidos. Chega de perdões. Para magoar, tem de doer a todos. A ironia do destino é a Austeridade que o PS vai ter de administrar a si mesmo. Talvez seja boa ideia pedirem ajuda ao Passos Coelho, que sabe como se faz.

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publicado às 11:05

2018 e o lápis azul da Geringonça

por John Wolf, em 01.01.18

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A geringonça decididamente não é a outra senhora; o governo já não tem uma PIDE. Mas eles andam aí, reencarnados, dotados de um sentido, de uma missão - afastar qualquer forma de informação conducente a protesto político. Subrepticiamente, mas efectivamente, o governo tenta colocar em lugares-chave agentes de controlo da comunicação. Não lhes convém que se levantem ondas. A nomeação de Nicolau Santos para presidente do conselho de administração da Lusa faz parte da narrativa que sugiro. A agência noticiosa deveria ser regida por critérios de pureza, de idoneidade e imparcialidade. O director-adjunto do Expresso entra mesmo a tempo (na Lusa) e antes da nomeação de um novo lider do Partido Social Democrata (PSD). O simples facto dos nomes de João Soares e Gabriela Canavilhas terem sido referidos para o cargo em questão confirma algum nervosismo da agência de comunicação do governo. Parece que irão precisar de reforços para aguentar a verdade incontornável dos dados de governação e a liderança do PSD. Este ano será particularmente interessante com o Banco Central Europeu a reduzir o apoio financeiro a países como Portugal. Aliás, não faria sentido outra coisa. Se o sucesso desmesurado da economia e finanças de Portugal é inegável, não vejo razões para que continue a ser subvencionado. Mas eu não me quero afastar do tema central de este post - a censura. Ainda ontem, sem nunca imaginar que tal pudesse acontecer, fui bombardeado com insultos e ofensas por ter atribuído o prémio Flop do Ano às ciclovias da Câmara Municipal de Lisboa. A um ritmo feroz e intensamente ideológico foram chovendo comentários intensamente pendulares, totalmente inclinados para a excelsa governação de Fernando Medina. A maior parte dos comentadores apresentava-se na qualidade de anónimo ou desconhecido, mas era mais que óbvio que trabalhavam para a agência noticiosa da autarquia. O que me valeu foi o lápis azul. A dada altura, face à torrente medíocre de insultos e palavrões, decidimos que grande parte dos comentários não seria aprovado. Recordo aqueles mais distraídos - a internet não é uma democracia. Assim sendo, neste primeiro dia do ano, faço a seguinte promessa. Não nos vergaremos perante tentativas de condicionamento ou coacção seja qual for a casa política ou partidária que os instigue ou os consubstancie. Se querem esgrimir-se de razões, façam-no com a inteligência da argumentação e a volúpia da forma literária. Melhor ainda, dêem a cara, criem um blog (ainda recebem algum do governo) e assinem os artigos de opinião. Não vale a pena ficarem nervosos por causa de umas pedaleiras.

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publicado às 18:40

A grande oportunidade de Marcelo

por John Wolf, em 27.12.17

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Marcelo Rebelo de Sousa, mais do que o Presidente da República com quem temos convivido, tem a oportunidade de ser efectivamente o Presidente de todos os portugueses. Se vetar a Lei do Financiamento de Partidos, e abrir a necessidade de um debate profundo sobre as implicações da mesma, estará a servir a República. Não estará a servir o sistema político nem a matriz partidária do país. Colocar-se-á ao lado de um princípio que deve imperar em Democracias - o princípio da igualdade de tratamento. Iria mais longe até nas consequências a extrair do grande tema do financiamento dos partidos políticos. Não pensar apenas na dimensão do haver - pensar obrigatoriamente na lógica do dever - do dever moral, ético, mas acima de tudo fiscal. Instituiria uma taxa partidária a que estariam obrigadas todas as filiações no sentido de financiar a ideia genérica de participação activa política de cidadãos independentes que em nome da cidadania e da sociedade civil procuram servir o país. Não vejo por que razão o tratamento positivo e discriminatório há-de ser a norma. Marcelo Rebelo de Sousa poderia equilibrar os pratos da balança do seu porte presidencial. O veto elevaria a consideração de tantos portugueses em relação à missão presidencial. Marcelo apenas tem dado a conhecer o mel dos abraços e da solidariedade. Agora falta-nos provar o fel do incómodo que causaria a toda uma classe política versada no parasitarismo, na promiscuidade e no esbanjamento de dinheiros públicos. Simples, Marcelo. É rasurar a proposta de Lei e devolvê-la ao remetente para nova redacção contemplando uma genuína revolução do financiamento partidário. Esta é a grande oportunidade de Marcelo.

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publicado às 14:05

Cartolas à medida, à Medina

por John Wolf, em 26.12.17

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Não se pode celebrar um Natal descansado. Não se pode virar as costas aos políticos. Não se pode confiar. Fernando Medina já fez a encomenda - 60 mil cartolas para festejar a passagem de ano. Pelo que percebi são três lotes de cartolas. Um para cada um dos parceiros da Geringonça. Um de cor vermelha PCP, outro de cor preta BE, e outra remessa, tipo brilhante PS, para a sua gente.  Não nos esqueçamos por um instante que o marketing político é uma arte subtil, dissimulada. Não é preciso ler tratados sobre religiões e símbolos políticos, mas existe muita tese sobre o tema. Aconselho Voegelin, o autor que versa sobre as implicações e as raizes do sagrado político. Mas são sobretudo regimes de massas que fazem uso de brindes e enfeites. O socialismo-nacional não foge à regra. O Padeiro Português pode fazer o que bem entender aos bolos-rei, mas o dinheiro dos contribuintes não pode servir para este banquete de gorros e barretes. Como tudo na vida pública e autárquica, seria imprescindível fazer um rastreio para apurar quem ganhou o concurso de fornecimento de boinas e de que modo foi adjudicada a empreitada. Julga o presidente-camarada de Lisboa que por ser dia de bebedeira a coisa passa sem se dar conta? Não. Isto é particularmente escandaloso. Mas há mais. Sabemos que a Lena d´Água está a passar mal e que já passou de moda, mas alguém puxou cordelinhos e cabos de amplificação para a pôr a mexer no palco das 12 passas a 31 de Dezembro. De nada servem Raríssimas, códigos de ética e tretas pseudo-moralistas. Não faz diferença alguma. As badaladas são as mesmas. São cartolas à medida de Medina.

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publicado às 15:16

O questionário corrupto da Geringonça

por John Wolf, em 26.11.17

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Existem diversas modalidades de corrupção. Algumas envolvem envelopes debaixo da mesa, fotocópias ou despachos favoráveis em troca de certas regalias. Mas existe outra forma de adulteração que não deve ser menosprezada. No âmbito das comemorações do segundo aniversário do governo, a geringonça decidiu comprar aqueles que irão responder a um inquérito-propaganda que organizou em Aveiro. Os recipientes da bolsa de 200 euros (a que acrescem despesas de deslocação e estadia) foram deste modo coagidos a responder favoravelmente a perguntas "alegadamente" desconhecidas sobre a actuação do governo nos últimos dois anos. António Costa parece ter medo da verdade nua e crua. Se efectivamente estivesse seguro do caminho trilhado pela geringonça teria organizado um convívio com os detractores, a oposição, aquela malta desprezível da Direita que nada entende de valores democráticos transparentes. No entanto, não é isso que irá decorrer. Os contribuintes portugueses, sem cor política ou religião oficial, pagarão do seu bolso esta acção de marketing. Sabemos qual o preço da interrogação (?), mas não sabemos quanto vale a exclamação ou a vírgula. Como vem sendo hábito, o governo passa a responsabilidade a outros - a Universidade de Aveiro. E é precisamente numa casa de ciência e suposta intelectualidade que esta afronta decorre. Em vez do primeiro-ministro ser cego, surdo e mudo perante o cidadão anónimo, e a manifestação de opiniões diversas, opta descaradamente por métodos dissimulados, parentes próximos da censura. Será em ambiente de controlo da substâncias políticas proibídas que decorrerá a apologia do não contraditório. Estranho que os campeões da moralidade e da ética republicana nada tenham dito a este propósito. Será que Catarina Martins e Jerónimo de Sousa lá estarão em Aveiro para colocar alguma pergunta inconveniente? 200 euros por resposta - nada mal. É aproveitar.

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publicado às 14:53

Há vida para além da Geringonça

por John Wolf, em 23.11.17

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António Costa, naquela histórica noite de Outubro de 2015, invocou o teor inviolável de democraticidade de soluções governativas extraídas a partir de arranjos parlamentares com maioria de assentos - assim nasceu a geringonça - a fórmula patenteada para governar. Esse princípio fundador, no entanto, não serve apenas  a geração de governos. O que acabamos de registar, a coligação ocasional entre o Partido Social Democrata (PSD) e o Partido Comunista Português (PCP), a propósito da questão da residência universitária de Rio Maior, deveria ser a norma. Os partidos, na sua expressão civil e genuinamente política, não deveriam ter género nem se tornar reféns de ideologias. A coligação que designam de "negativa" é de facto "positiva". Demonstra que o magistério das ideias e da racionalidade deve subalternizar a teimosia ou a ortodoxia ideológicas. Não existe nada, mas mesmo nada, que António Costa possa afirmar para afastar esta solução. A mesma é a expressão plena de diversidade democrática e liberdade de expressão. Este primeiro aviso, deve, no entanto, ser levado a sério pelo Partido Socialista (PS) - o Largo do Rato não é dono nem senhor do Bloco de Esquerda (BE) ou do PCP. O juntar de trapinhos do PSD, CDS e BE na questão das cativações revela matematicamente e parlamentarmente que algumas das soluções do PS já não são aprovadas por Portugal. Os deputados que ali professam a sua fé, bem ou mal, com mais ou menos fervor partidário, sabem que em última instãncia devem servir o povo português. O BE e PCP, numa primeira fase, entusiasmados com a estreia "governativa", começam a perceber que serão deixados na estrada pelo mestre e senhor PS, se não servirem as causas da sociedade, das pessoas que existem para além dos clientelismos que pendulam entre Lisboa e o Porto. O PS foi sempre um jogador político e, nessa medida, o atirar da ficha do Infarmed para o Porto deve ser entendido como uma modalidade de pré-campanha. Podemos deduzir a partir desta decisão que o PS apostou forte na candidatura de Rui Rio. A continuar com estes joguinhos de cativações e transferências oportunas tornar-se-á mais que evidente que começam a faltar argumentos políticos e governativos de vulto ao PS.

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publicado às 10:40

Não são os políticos que nos defendem

por John Wolf, em 17.11.17

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Tenho a maior confiança nas forças de segurança em Portugal. Coloco-me, sem hesitar, ao lado dos seis agentes constituídos arguidos, por correrem riscos em nome de todos nós. No exercício da sua missão lidam continuamente com dinâmicas imprevisíveis e teatros de operação intensamente voláteis. A GNR levou a cabo um simulacro envolvendo todas as polícias, forças armadas e meios de socorro, mas já despontam aqueles que invocam a legalidade do comando da operação - dizem que a Lei de Segurança Interna não foi cumprida. No meu entender, a haver um desvio da titularidade do comando, o simulacro serve ainda melhor o seu propósito. Em ambiente de "fogo real", de conflito estabelecido, de guerra suja, os comandos são dos primeiros visados. A decapitação do topo da cadeia de comando é um modo de desferir um impacto considerável no adversário. Por essa mesma razão, a disciplina de comando das operações não deve ser detida em exclusivo por uma entidade. As situações que exigem respostas tácticas imediatas implicam que as mesmas possam ser geridas por soluções de recurso, que exista um plano B, outras estruturas com o know-how operacional. Nessa medida, o simulacro, ou para todos os efeitos, qualquer treino, deve poder ser integrado em qualquer uma das estruturas de comando e controlo, seja qual for o ramo das forças armadas ou de segurança  Eu iria mais longe na defesa deste princípio - os políticos devem ser os derradeiros envolvidos em questões de ordem táctica, operacional. Devem estar a milhas de distância de considerações parcelares. Quando digo que as forças de segurança merecem a nossa confiança, basta pensar num dos maiores desafios de segurança interna que um país pode enfrentar - a transição de regime. O General Ramalho Eanes consubstancia com louvor esse primado pelo papel que desenvolveu em Portugal. Mas pensemos também nas guerras coloniais e a grande escola de métodos tácticos e operacionais que resulta das mesmas. Para além dos governos, dos partidos e das ideologias, devemos congratular a realização de simulacros desta natureza. O resto é ruído político de gente que nunca pegou numa arma para defender desconhecidos das ameaças reais. O que sobeja são birras de quem se esconde atrás de outrém.

 

foto: John Wolf

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publicado às 11:59






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