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A esquerda dândi

por João Pinto Bastos, em 11.12.12

Quando oiço e leio as boutades de São Boaventura de Sousa Santos recordo-me instantaneamente de Vergílio Ferreira. Dizia o célebre escritor, na sua Conta-Corrente, que a nossa política é composta por "uma gentalha execranda, parlapatona, intriguista, charlatã, exibicionista, fanfarrona, de um empertigamento patarreco — e tocante de candura". Boaventura dispõe destas características em doses superlativas. Fala, trombeteia, esperneia e, no fim, não fica nada. Nem uma simples ideia, uma ideia que seja, vá, legível, compreensível ao comum dos mortais. Que ainda haja gente que pensa que o Estado Social é eterno não é nada que seja particularmente surpreendente. A solidariedade forçada, erigida em modelo universal e universalizante, criou um exército de dependentes que não fazem mais nada a não ser exigir a sucção dos recursos da comunidade em prol de devaneios gastos. O que surpreende é a desfaçatez com que certa intelligentsia, fortemente acolitada no Estado, dispara em todas as direcções, dizendo o indizível. Mas, e como eu não gosto de ser excessivamente crítico, talvez Boaventura tenha razão. Afinal de contas se houvesse alternativa ao Estado Providência o intelectualóide conimbricense não poderia dispor do seu tão querido CES. É que o dandismo da esquerda só se manifesta quando o maná do Leviatã despeja o dinheiro, extraído aos contribuintes, em instituições inúteis e estupidificantes. Talvez seja este o preço a pagar pela existência de uma democracia enviesada por complexos de esquerda.

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publicado às 00:26

O humorista Boaventura Sousa Santos

por Samuel de Paiva Pires, em 24.06.12

Alberto Gonçalves, Rio para não chorar:

 

«Recentemente, Ricardo Araújo Pereira seguiu o remoto exemplo de Raúl Solnado e foi mostrar a comédia nacional aos brasileiros. Como o Ricardo é brilhante, é de presumir que a coisa tenha corrido bem. O pior é que, como tantas vezes sucede, o sucesso do bom abre as portas ao mau, ao péssimo, ao atroz e a Boaventura Sousa Santos, que enquanto comediante integra uma categoria à parte. Quer dizer, eu e a maioria das pessoas que conheço rimo-nos feito perdidos de cada intervenção do homem. Aliás, basta o homem aparecer para desatarmos às gargalhadas: ele é o sotaque de BSS, ele é o penteado de BSS, ele são os fatos de BSS para consumo ocidental, ele são as camisas exóticas de BSS para passeios no Hemisfério Sul. Para cúmulo, BSS fala.

 

No Brasil, durante os encontros de vozes "alternativas" que antecederam a Cimeira Rio+20, de resto duas notáveis oportunidades para o humor inadvertido, BSS falou. E explicou que a Europa precisa de aprender com os maravilhosos exemplos do Terceiro Mundo, experiência de que foi privada devido a séculos de colonialismo. Tradução: a menos que a Alemanha e a Inglaterra imitem os fraternais regimes da Bolívia ou da Venezuela, a Alemanha e a Inglaterra estão perdidas. A título de punch line, acrescentou ser necessário lutar contra a concentração de riqueza e o abismo entre ricos e pobres, eventualmente adoptando o modelo "bolivariano" e arruinando toda a gente.

 

É ou não é brilhante? O pior é que este estilo de comédia também é arriscado: muitos brasileiros não percebem o humor de BSS e tomam-no por um pensador de facto e não pela caricatura de uma sátira a uma paródia de um pensador. Ricardo Araújo Pereira apresenta-se como humorista e tem graça. A vastíssima maioria dos restantes humoristas indígenas apresenta-se como tal e não tem gracinha nenhuma. BSS apresenta-se como "cientista social" e suscita a estupefacção dos não iniciados, que hesitam entre levar aquilo à letra ou usufruir do seu potencial hilariante.

 

E o melhor de tudo passa pelo facto de não sabermos se o próprio BSS se leva igualmente a sério. A sério, só isto: sempre que se lamenta a fuga de cérebros do país, convém contrabalançá-la com a fuga de malucos. Infelizmente, estes regressam logo a seguir.»

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publicado às 14:55






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