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Pensar é dizer não

por Samuel de Paiva Pires, em 10.02.13

 

José Adelino Maltez, Breviário de um Repúblico, 29 de Janeiro:

 

«Pensar é dizer não. A realidade sempre foi subvertida pelas autonomias, pessoais e comunitárias, quando estas assumem que, no princípio, tem de estar o fim, o tal dever ser que é, das essências que apenas se realizam pelas existências. Todos os decretinos processadores, em nome da ideologia ou do vértice hierárquico, do ministerialismo, com os seus sucedâneos, directoristas, presidencialistas ou rectorísticos, temem os que praticam o pensar é dizer não, como dizia Alain. Ou que a revolta é bem mais fecunda que a revolução, como vai acrescentar Albert Camus (2011).

 

Resistência individual. Quem experimentou as garras do saneamento e do processamento da persiganga não pode admitir que o rolo unidimensional do conformismo nos faça enjoar, sobretudo nesta praia da Europa que sempre foi partida para todas as sete partidas. O sinal do nosso futuro continua a passar pela resistência individual e pelo pensamento crítico da liberdade. A essência do homem ocidental sempre foi o individual do indiviso, que é expressão da fundamental dignidade da pessoa humana. Mesmo quando se rejeitam as normalizações impostas pelos pretensos antidogmáticos, neodogmáticos, como esses que, perante certo situacionismo, proclamam que têm o monopólio da contestação e assim nos desmobilizam. Os bobos da demagogia, da tirania e da mentira podem alimentar-se desses irmãos-inimigos. Quem quiser continuar mesmo do contra tem que procurar o mais além e antecipar o tempo da revolta (2011).»

publicado às 15:36

É já amanhã, dia 31 de Janeiro, pelas 18:30, na livraria Ferin, no Chiado, que será lançada a mais recente obra do Professor José Adelino Maltez, Breviário de um Repúblico. A apresentação ficará a cargo da Professora Cristina Montalvão Sarmento. Trata-se de um sublime exercício estilístico com um conteúdo inimitável, em que nos são revelados diversos escritos públicos dos últimos anos, organizados por dias, introduzidos por deliciosas efemérides criteriosamente escolhidas por quem domina como poucos a ironia, e a que o Professor retirou a carga efémera da espuma dos dias, fazendo-os alcançar aquele domínio das coisas eternas, o que tornará esta obra numa ferramenta intemporal para compreender Portugal. Podem ler algumas entradas no site da Gradiva e aconselho também a leitura deste post no Macroscopio.

 

Deixo ainda uma das primeiras entradas, de dia 17 de Janeiro, escrita em 2006:

 

«Símbolo e cultura. A pátria não é apenas a ideologia que justifica a ordem estabelecida, ou a utopia que a subverte, mas a terceira potência da alma (Platão), a imaginação, que vai além da razão e da vontade. Porque o tal imaginário atravessa o discurso racional, ordena o respectivo simbolismo e desconstrói a sua pretensa lógica. Porque quando penso que penso, não sou apenas o eu que pensa, mas também os que pensaram antes de mim, para que eu me sinta pequena onda de uma corrente que me ultrapassa.»

 

publicado às 22:29






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