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Provavelmente com razão, Vladimir Putin acusa os EUA de terem provocado o actual conflito que opõe em confronto bélico a Rússia e a Geórgia (1). Antigo agente dos serviços secretos soviéticos, o "primeiro-ministro" russo conhecerá profundamente todos os meandros da política que outrora opunha a defunta URSS e os americanos e assim, a sua constatação pode ter alguma razão de ser. Quando da implosão - forçada pela derrota na corrida aos armamentos de tecnologia avançada - da União Soviética, o mundo mudou radicalmente na correlação de forças e se num primeiro momento vivemos o inverno de 1989 sem inimigos, essa doce ilusão da extensão da democracia a todo o planeta, esfumou-se diante da cruel realidade dos interesses da superpotência remanescente e daquelas outras outrora poderosas metrópoles, irreversivelmente relegadas para um segundo plano no âmbito da grande política internacional. Afinal, a hegemonia ou pax americana que se adivinhara quando do estrondear do foguetório diante do Reichstag no dia da reunificação alemã, durou apenas três lustros.
Os erros foram-se acumulando no campo vencedor da Guerra Fria. Embora anexando novos membros para a sua periclitante Comunidade, Europa não se fortaleceu como voz audível nos centros de decisão mundial, nem se prevê que tal possa vir a acontecer, dadas as evidentes clivagens sem solução, um dado irreversível da nossa história já milenar. A Rússia, mantendo intacto e no poder todo o funcionalismo outrora conhecido como Nomenklatura, foi relegada para o estatuto de país de terceiro mundo, fonte propiciadora de apetecíveis matérias primas e de mão de obra barata. Com o petróleo a preços baixíssimos e eclipsada a economia fortemente colectivizada - e em ruínas, diga-se - viu apodrecer a sua magnífica frota inactiva em abandonados portos, desesperou com a fome de milhões e com o ressurgir da praga mafiosa, afinal uma directa herança da organização PCUS que despoticamente esmagou o país durante quase oitenta anos. No entanto, o colosso do Leste tem um peso incomensuravelmente maior que todos os seus antigos satélites em conjunto e sobretudo, manteve intacto um vivo espírito nacionalista que repudiou a evidente falta de respeito e o desprezo que os seus antigos e temerosos adversários passaram a dedicar-lhe.
A administração norte-americana - nossa inevitável aliada -, agravou esses erros, quando pretendeu intervir directamente no território de antigas repúblicas componentes - muito teóricas, em abono da verdade - do Império Russo. Jamais existiu qualquer império do Cazaquistão ou da Quiguízia, na verdade meras conveniências decorrentes das catilinárias do marxismo-leninismo internacionalista, a confortável capa do férreo poder imperial de Moscovo.
Os EUA não só forçaram a entrada na periferia da Rússia, como também pretenderam intervir dentro dos limites da velhas fronteiras pré-1917, uma clara ingerência nos assuntos internos do país, segundo o ponto de vista da esmagadora maioria dos russos. Os erros de 1942-45 repetiram-se e pior, ganharam contornos de opressão e de exploração económica com laivos de colonialismo, num momento em que os próprios aliados da NATO iniciaram uma nítida clivagem interna no apoio ou não, à política gizada por Washington.
A derrota no Iraque e o atoleiro afegão. As delongas no encontrar de uma situação satisfatória para o problema israelo-palestiniano. O clamoroso erro da liquidação das velhas políticas de quotas de importação nos mercados asiáticos, quotas estas que equilibravam mesmo que artificialmente, as permutas e a produção industrial do Ocidente e dos mercados ditos emergentes. A má imagem transmitida a todo o planeta, agora receoso dos falcões do radicalismo protestante-religioso dos neocons da administração republicana. Enfim, a lista de erros, más interpretações da realidade e sobretudo, o escandaloso desconhecimento acerca dos interesses vitais dos parceiros, criaram a actual situação que como tem sido propalado pela imprensa, parece conduzir-nos a uma outra Guerra Fria, precisamente no momento em que os russos podiam finalmente regressar à Grande Europa da qual tinham sido arredados em 1918.
Se George W. Bush está a alguns meses do fim do seu mandato sem honra nem glória, a hipótese - porque se trata ainda de uma hipótese - de Barack Obama, não deverá modificar de sobremaneira a actual situação calamitosa. E isto, porque os interesses das grandes companhias energéticas, de armamentos e financeiras, controlam os mais importantes dossiers do Estado norte-americano. O presidente muito diz, mas como ente solitário na Sala Oval, pouco pode (2). Não tenhamos ilusões, pois a crise continuará dentro de semanas.
(1) Portugal deve rigorosamente seguir a acertada política em que enveredou no caso do Kosovo: não reconhecer qualquer independência, nem negá-la, ignorando os acontecimentos. Estaremos assim preparados para qualquer eventualidade a ocorrer no país vizinho. Os conflitos continentais não têm qualquer relevância ou directo interesse para Portugal e a justiça deverá ser salomónicamente equitativa.
(2) É esta umas das razões, entre muitas, porque fui, sou e serei sempre monárquico.