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Alvarás numa Lisboa Arruinada

por Nuno Castelo-Branco, em 19.01.14

Uma das situações mais estranhas nesta cidade a saque, consiste na obsessão pela construção de edifícios destinados ao terciário. Por regra substituem antigos prédios de habitação - nomeadamente aqueles construídos na viragem do séc. XIX-XX - e depois permanecem longos anos vazios, sem inquilinos. Por outro lado, muitos daqueles que durante anos serviram como sedes de empresas, subitamente ficam devolutos e fechados sine die, num estiolar evidente a qualquer transeunte.

 

A zona das Avenidas Novas - a Av. da Rep. incluída - , Duque de Loulé e perpendiculares, Avenida da Liberdade e anexas - entre outras zonas da capital -, possuem muitíssimas dezenas de prédios de escritórios completamente vazios, sem préstimo. Contudo, a CML teima, não se sabe qual a razão, em conceder alvarás de demolição de prédios de habitação e consequentes alvarás de construção para o terciário.

 

Nos Paços do Concelho, decerto ter-se-ão apercebido da iminência de Portugal se tornar num país cobiçado por todo o tipo de empresas internacionais, ansiosas por aqui definitivamente se estabelecerem. Os impostos são baixíssimos, não existem taxas, concedem-se benesses ao investimento estrangeiro, a justiça funciona, existe pleno emprego, é um país onde a inveja é coisa estranha, e mais importante que tudo isto, Portugal é o novo Kuwait, rebentando de petróleo que jorra pelas torneiras e de gás natural que sai pelos bueiros de todas as ruas. É assim mesmo, escritórios, precisam-se!

 

Para quem queira um investimento de estalo, aqui está um maravilhoso mamarracho situado diante da Embaixada da Rússia, ao Arco do Cego.

 

Se este blog se dedicar exclusivamente à postagem de fotos de edifícios de escritórios ao abandono, teremos serviço para um ano inteiro. Não procure mais, pois na sua rua decerto existe um.

publicado às 17:23

O "Corredor Verde" de Monsanto

por Pedro Quartin Graça, em 12.12.12

publicado às 09:45

Terreiro do Paço: devolvido aos lisboetas

por Nuno Castelo-Branco, em 10.05.09

 

 

Ainda a propósito  da proposta de remodelação do Terreiro do Paço e no seguimento de algumas infundadas críticas à "falta de propostas" dos monárquicos, será necessário deixar algumas reflexões acerca daquele histórico local lisboeta.

 

Na semana que viu uma absurda tentativa de construção de um terminal de contentores cair, mercê da decidida intervenção cívica de um homem nada conotado com a "república", ressuscitou-se um antigo projecto de recuperação daquela maltratada área de Alcântara, devolvendo um importante sector da faixa ribeirinha ao povo de Lisboa. O projecto é de Ribeiro Telles, conhecido opositor do bambúrrio saído do 5 de Outubro de 1910. Homem que não cede a interesses escusos e que desde sempre tem pautado a sua actividade profissional e política pelo escrupuloso cumprimento daquilo que considera ser o dever de Servir, conseguiu pelo seu prestígio, uma importante vitória do povo de Lisboa sobre a lamacenta amálgama do instalado situacionismo que está a corroer o regime.

 

Todos nós entendemos a cidade como parte nossa e que nos foi confiada para conservarmos o seu incalculável mas tão delapidado legado patrimonial. Cidade antiga pelo nome e nova pelo terramoto que a fez renascer, Lisboa tem no Terreiro do Paço, o símbolo máximo da sua passada grandeza de opulento porto e urbe de "muitas e desvairadas gentes" que colocaram o nome de Portugal nos anais da história universal. 

 

A  submissão desta praça aos quizilentos apetites de uma ínfima minoria que vê no regime de 1910 a razão de ser das suas actuais e fulgurantes carreiras político-financeiras, raia a provocação. No que respeita à mitologia republicana, o Terreiro do Paço para sempre ficará ligado à tarde de 1 de Fevereiro de 1908, momento decisivo para a violenta imposição dos ditames do bando messiânico que na demagogia encontrou a sagrada escritura, impressa com o sangue, fel e lágrimas das suas vítimas. Qualquer tentativa em associar o Terreiro ao centenário da república, indica claramente a plena confirmação do vergonhoso voto de recusa na condenação do Crime de 1908, escusa essa que ainda recentemente desprestigiou o Parlamento e lhe retirou qualquer legitimidade moral para condenar actos terroristas ou penas de morte passadas além fronteira. Se insistirem na afronta, esta servirá de exemplo numa inevitável retaliação futura. Será um ponto de chegada sem retorno possível.

 

Não recuando muito no tempo, o Terreiro do Paço foi o cenário ideal que bastas vezes espelhou o prestígio que mercê da acção da dinastia reinante, trouxe a Portugal os mais importantes homens de Estado  de um mundo onde a Europa ainda ditava a lei.  Para sempre sepultadas no sarcófago de betão do Museu de Marinha, jamais voltarão as galeotas e o bergantim real a dar no Tejo o refulgente brilho às cerimónias de boas vindas de estrangeiros que enquadrados pelo impressionante conjunto arquitectónico, as sumptuosas carruagens, berrantes uniformes  de serviço de gala e guardas de honra de um exército antigo e poucas vezes vencido, testemunhavam um passado sem igual. O Terreiro foi concebido numa época em que o prestígio do Estado revia-se e era confirmado pela sumptuária que estabelecia a norma na avaliação da categoria das potências. Era toda uma concepção do exercício do poder, tal como encenação teatral a que poucos podiam almejar equiparar-se. É certo que os tempos são outros e a actual classe dirigente tem um total desconhecimento da história pátria, dela escutando apenas distorcidos ecos provenientes de uma perdida galáxia além do tempo: estamos em plena época de anãs vermelhas, frias, quase inertes.

 

Esta praça viu os seus derradeiros dias de glória na consagração pública de actos de heroísmo, num país hoje industriado em concebê-los como passadas e inúteis vergonhas por quem jamais soube o que era o sacrifício pessoal em prol do nem sempre abstracto interesse colectivo. Vivemos numa absurda época que oblitera feitos e reputações daqueles que naturalmente responderam ao chamamento do dever. Hoje, as paradas são coisa incómoda que atesta a frágil legitimidade de muitos que a elas forçosamente teriam de assistir como entidades tutelares. Não existe razão para a atribuição de condecorações por actos de uma bravura caída em desuso, quase apontada como escândalo vetusto e o país habituou-se à invisibilidade de umas Forças Armadas às quais são exigidos serviços em locais distantes e que pouco significam para a defesa da integridade nacional. Devem servir, sem se fazerem notar.

 

Como cenário de manifestação do espírito cívico e da grandeza do passado histórico, o Terreiro do Paço já não existe.

 

Liquidada a sua ancestral função de enquadramento da magnificência da identidade nacional, o local encontra-se há muito abandonado. Urge devolvê-lo ao seu proprietário - o povo de Lisboa -  para que dele usufrua e lhe dê utilidade. As cidades são entidades vivas, nessa simbiose entre a perenidade das pedras e as gerações que renovam o sentimento de uma portugalidade que evoluiu ao longo de muitos séculos. Para a praça existir de facto como marco primordial da cidade, é necessário povoá-la de habitantes permanentes e circunstanciais que a ela acorrerão pela beleza do espaço, oferta de serviços e aprazível ambiente circundante.

 

Uma das razões para o deserto em que o Terreiro se tornou, consiste sem dúvida, no clima inóspito que fustiga os seus visitantes, desencorajando-os a uma prolongada permanência. A ausência de bancos, impede  a fruição do grandioso espectáculo monumental, na perfeita complementaridade com a natureza que o espelho de água impõe. Não existe uma árvore que acolha à sua sombra os que no local flanam no tórrido verão lisboeta. Não se vislumbra um quiosque de gelados ou refrescos. O ambiente encontra-se poluído pela luxuosa sucata de aparato dos ministérios, num loquaz testemunho de insolência diante da pobreza daqueles que saindo dos barcos da Outra Banda, cruzam apressadamente a praça, a caminho dos empregos ou de regresso a casa. 

 

Um plano de reabilitação do Terreiro do Paço, terá forçosamente de se incluir da muito urgente recuperação de toda a Baixa pombalina. Ocupação de dezenas de prédios devolutos com novos moradores; recuperação de fachadas térreas adulteradas nas últimas décadas por um comércio hoje em decadência; proibição de novas construções desintegradoras do conjunto arquitectónico, como é triste exemplo o péssimo exemplar "europeu" erguido à beira Tejo, no Cais de Sodré. Sem essa intervenção integradora, as obras na praça serão apenas mais uma iniciativa condenada ao fracasso e que apenas terá cumprido um transitório serviço eleitoral.

 

Os projectos mais duradouros, são exactamente aqueles  que seguem a racionalidade, sempre inseparável do que é simples.

 

Uma placa central discreta, sem linhas que indiciam claras mensagens de determinado conteúdo político-esotérico, sobre-elevações, enfim, neutra, poderá voltar a ser enquadrada por árvores criteriosamente escolhidas para um efeito cénico que se coadune  com a utilidade. Um elemento de vida - o vegetal que já foi tradição -, trará inevitavelmente a presença humana que dinamizará negócios e estabelecerá uma nova moda, ditada pelo hábito. O previsto esvaziamento dos ministérios - não foi afinal concebida como uma Praça do Comércio ? -, estimulará a procura de conquista de um espaço de prestígio e afastado do cada vez mais caótico centro da capital. O alargamento das placas laterais onde se instalarão as esplanadas e a ocupação das arcadas com lojas, restaurantes, galerias e polos culturais, poderão transformar aqueles milhares de metros quadrados num centro de prazer, dependentes claro está, do necessário crivo da lei da oferta e da procura. Em Paris, as praças da Concórdia e de Vendôme, encontram-se parcialmente ocupadas por unidades hoteleiras de grande prestígio e não se percebe a relutância perante a mesma hipótese de revitalização do Terreiro. O progresso é isso mesmo e a garantia de preservação do património, advém da sua utilidade. Ocupado, utilizado e propiciador de empregos e de negócios viáveis, o Terreiro naturalmente sobreviverá á passagem do tempo. Aqueles que dele se servirão como fonte de sustento, serão os principais interessados na sua conservação.

 

 

Não somos contra a contemporaneidade e a adequação dos espaços à realidade que vivemos. Podemos modificar e aproveitar, sem profanar a concepção primordial do espaço pensado e construído pelos nossos antepassados. Torná-lo útil, é a maior homenagem a quem nos legou algo que hoje jamais poderíamos sonhar em erguer.

 

Uma placa central praticamente invisível, complementada por um passeio lateral muito alargado; o enquadramento de toda a praça por árvores e bancos que convidem a uma prolongada visita; o perfeito restauro da estátua de D. José com o inevitável dourar a folha do impressionante conjunto do bronze de Machado de Castro; a total proibição das habituais barracas temporárias com exposições de duvidosa qualidade; a limitação drástica do trânsito rodoviário e finalmente uma criteriosa escolha dos candidatos à ocupação dos edifícios do Terreiro do Paço, eis um programa comedido, viável, politicamente descomprometido e capaz de reconciliar os lisboetas com o mais impressionante conjunto monumental da capital portuguesa. O Rossio é um bom exemplo.

 

 

 

publicado às 23:07






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