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Portugal e o coração autárquico

por John Wolf, em 21.09.13

A proximidade física e afectiva dos militantes em campanha é uma coisa assustadora. Os afectos levados a este extremo são uma hipocrisia. Findo o período de propaganda acaba-se a intimidade, a possibilidade de esfregar na cara do proponente reclamações ou considerações de outra ordem. Deixa de haver a mercearia de esquina onde tal possa acontecer, para incómodo ou não do candidato. O político sai à rua, distribui panfletos, beijinhos e abraços, e passadas algumas semanas deixa cair por terra o papel representado com tanta arte. Mas convém analisar outros contornos da relação hierárquica em Portugal. Passemos às empresas, que à semelhança da sociedade, se organizam em torno da hierarquia de comando. Não conheço estórias de meros operários que tiveram a possibilidade de partilhar o que lhes ia na alma com o CEO ou o presidente do conselho de administração. Experimente, à laia de curioso, bater à porta de dirigentes de empresas. Na maior parte dos casos nem sequer lhe abrem a porta ou respondem a um pedido especial entregue pelo carteiro. Esta ilusão de amor pelo próximo que emana do sovaco autarqueiro colide com a prática quotidiana durante o resto do mandato. A excessiva estratificação profissional de Portugal, que seguiu o modelo da ordem social, também é um dos anticorpos do crescimento económico e social do país. Enquanto o pequeno laboreiro não puder dialogar com o patrão e oferecer soluções ou reclamações o país ficará preso à formalidade fechada e retrógrada. A alteração do quadro mental e do sistema operativo das empresas tem de acontecer com urgência. A excessiva verticalidade do poder em Portugal tem minado o fluxo de propostas e respostas. Os portugueses ora olham para cima ora olham para baixo, mas raramente para os lados, para o companheiro de missão. O espírito de equivalência ainda não eclodiu no organigrama político, económico e social do país. Enquanto não se incutir na sociedade um sentido de apreço pelo próximo, na prossecução das suas tarefas maiores ou menores, Portugal eternizará noções corporativas que tanto mal fazem à nação. Os eleitores, decisivamente não são elefantes. As promessas feitas no calor da campanha são esquecidas rapidamente. Tomara que todos eles, que correm pelas estradas de Portugal, fossem tão promíscuos e compreensivos nas horas difíceis. Quando o alcatrão novo assentar, já eles estarão na pré-reforma ou a caminho de um outro freguês carente, disponível.

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publicado às 13:52

Apagão televisivo das campanhas

por John Wolf, em 10.09.13

Se as Televisões desistem mesmo de acompanhar as campanhas autárquicas temos motivo para celebrar. Não precisamos de acompanhar as sessões brejeiras que correm as feiras de mangas arregaçadas e cabelo ao vento. Não necessitamos de ouvir a mesma conversa de sempre, de escutar as vozes alteradas daqueles que profanam o acervo da verdade. Não queremos ver as bandeiras de um mesmo caos, e testemunhar a oferta de esferográficas e porta-chaves. Que maravilha não termos de assistir a esse triste espectáculo que não acrescenta valor, que não ajuda ao discernimento - à decisão a tomar. O único problema que vislumbro neste black-out das estações de televisão serão os efeitos secundários que iremos sentir. Os partidos políticos não se irão contentar em colocar uma mira no ar. Os candidatos não vão deixar de apontar as armas e barões aos visados de sempre que enchem as praças de alegria de norte a sul do país. Irão procurar a sua sorte por outros meios de comunicação. Aguardem a  ressonância. As rádios que nunca estiveram desligadas dos eventos, têm aqui uma oportunidade de ouro para regressar de um modo saudosista ao tempo das declarações de guerra e paz, anunciadas sobre a onda média. As emissões radiofónicas podem servir para afastar o efeito enganador das imagens. Os destinatários, embora não possam baixar o volume, podem-se concentrar nas ideias dos proponentes ou na sua ausência. As redes sociais vão ser também alvo da ira dos mais de setecentos candidatos a lugar comum que também reclamam os seus quinze minutos de fama política. Vamos ter videos a dar com o pau, literalmente. Os blogues vão servir para fornecer indecisos, comprometidos, ausentes e presentes (posso falar à vontade, não voto em Portugal) com chavões como estes que estou prá aqui a vender. Se a SIC, a TVI e a RTP não dão conta do recado, os candidatos da Amadora e arredores irão encontrar meios alternativos para chegar às gentes. Já vimos os lindos cartazes e outdoors das diversas e criativas campanhas autárquicas. Agora imaginem o pior. Imaginem o que não farão estas encomendas para ganhar as atenções dispensadas pelas estações de televisão. Nas próximas semanas seremos testemunhas de estranhas ocorrências. O espírito do desenrasca também faz parte das sedes de campanha. Pelo que percebi, e por forma a que haja motivo de reportagem, a matéria deve ter um cariz declaradamente nacional. Ora não vos parece um absurdo? Não era suposto as eleições autárquicas se centrarem nas questões locais, os problemas do concelho? Querem ver que daqui a nada temos um candidato da terra a mandar bitates com relevência nacional? Não querem ver que no meio da confusão ainda aparece alguém com uma ideia de jeito para o país? Querem ver que isto ainda acaba a bem.

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publicado às 20:19






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