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Há com cada uma...

por João de Brecht, em 07.02.09

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publicado às 01:18

Che Guevara - O condottiere revolucionário

por João de Brecht, em 31.12.08

 

Há algum tempo que procurava um trabalho de investigação biográfica que fiz no 12º ano para a disciplina de História A sobre a vida de Che Guevara. Apesar de ter tido 19 valores no mesmo, este ficou algo de incompleto, é simplesmente impossível fazer uma análise total da obra de alguém tão genial e tão controverso, com tantos simpatizantes e opositores…
Deixo-vos aqui apenas um pequeno resumo da conclusão.

 

 

 

 

A 9 de Outubro de 1967 tombou em La Higuera, nas selvas bolivianas, Ernesto Che Guevara morto pelo exército boliviano Tinha 39 anos.
Hoje em dia continua a ser defendido por uns e atacado por outros. O certo é que ninguém consegue ficar indiferente à sua vida revolucionária. O que representa Guevara? A máquina de matar, friamente movida a fanatismo ideológico? Ou o jovem sonhador, compadecido pelos pobres? Um Hitler de boina e barbas, ou uma Madre Teresa de metralhadora?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para uns, a sua morte marca o fim da grande ilusão de Fidel Castro de revolucionar o continente americano. “Esta é a história de um fracasso” – assim começou Guevara o seu relato da expedição ao Congo, em 1965. De facto, para alguns, esta é a história fracassada de quase tudo em que se meteu. Para começar, a sua administração da economia cubana, como presidente do Banco Nacional e Ministro da Indústria. Em 1959, Cuba era o segundo maior produtor mundial de açúcar. O papel de Guevara, no seu novo país, foi o de Mugabe no Zimbabué: lançar as bases para fazer de Cuba uma ruína, que só os subsídios soviéticos aguentaram. Além das estatizações em massa, decidiu abolir todos os incentivos económicos ao trabalho. Em 1965, quando abandonou o governo, o PNB per capita afundara-se. Tudo faltava e havia filas para tudo.
Em 1975, no 1º congresso do Partido Comunista de Cuba, Castro admitiu que, no tempo de Guevara, a liderança cubana desprezara a “ciência económica”. Mas o seu desprezo não se ficara por aí: chegara também à história. E se no primeiro caso pagaram os cubanos, no segundo foi Guevara quem pagou, quando saiu de Cuba como caixeiro-viajante da revolução. A doutrina soviética da conquista do poder passava então por arranjar um partido, fazer propaganda, dirigir sindicatos e infiltrar o estado. Guevara veio vender ao mundo um método novo. Dispensava partidos e sindicatos. Era assim: no estado a subverter, de preferência uma ex-colónia tropical, estabelecia-se um grupo de comunistas armados em parte remota do território, e mal estes provassem que o exército regular não era capaz de os exterminar, as massas camponesas iriam engrossando o “foco” guerrilheiro inicial, até este avassalar as cidades. Tinha sido assim, segundo Guevara, que ele e Fidel haviam conquistado Cuba entre 1956 e 1959.
Depois de 1956, do XX Congresso do PCUS e da invasão da Hungria, ninguém que quisesse ser levado a sério entre os intelectuais ocidentais podia entusiasmar-se com URSS, como acontecera no tempo de Estaline. Falou-se então da “morte das ideologias”. A revolução cubana mudou tudo isto. Subitamente, o comunismo renascia como uma epopeia ao ar livre, num país de praias exóticas, sob o comando de jovens literatos barbudos, sem partido nem burocracia. Ameaçada pelas invasões e embargos dos EUA, a simpatia pela revolução cubana ia além do comunismo, abarcando muitos nacionalistas ocidentais, ressentidos com a liderança americana.
Finalmente, este comunismo latino assentava numa versão moderna do mito do “bom selvagem”: o do “bom guerrilheiro”, igualmente puro. Guevara, jovem (tinha 31 anos em 1959), bonito, vestido de maneira diferente, fumando enormes charutos, foi uma das primeiras encarnações do “cool”. Mais do que comunismo, foi o novo consumismo da década de 1960, focado na juventude, na irreverência e no exotismo, que fez dele uma celebridade. Ao novo sistema de consumo, interessava vender Guevara como um romântico desalinhado. Em 1966, partiu para a Bolívia acompanhado por quadros importantes, e em comunicação com Castro. A aventura não era um capricho, mas parte da estratégia de impor Cuba como a vanguarda revolucionária da América Latina. É verdade que Guevara deu a entender que apreciava mais a China do que a URSS (a quem nunca perdoou por não ter usado armas nucleares contra os EUA em 1962).
Para muitos cubanos, Guevara é apenas um dos fundadores de uma das maiores prisões do mundo, a ilha de Cuba. Assim o relata o livro de Reinaldo Arenas, Antes que anoiteça. O “povo” foi a grande companhia imaginária de Guevara. “Sem o apoio da população” nada podia ser feito, repete vezes sem conta. Mas essa população não era a das pessoas que existiam. Era um povo teórico, que o próprio Guevara se propunha criar submetendo a população à hierarquia e disciplina rígidas do exército revolucionário.  Fora da hierarquia e da disciplina revolucionária, o povo não lhe interessava: “a democracia revolucionária não se exerce na condução dos exércitos em nenhuma época e em nenhuma parte do mundo, e onde isso foi tentado, acabou em fracasso”. Fala muito dos “camponeses pobres”. Mas diante deles, no Congo e na Bolívia, percebeu que não podia comunicar com eles. No Congo, porque os revolucionários cubanos que o seguiam nunca levaram a sério os nativos: “Os nossos eram estrangeiros, seres superiores, e faziam-no sentir com demasiada frequência”. Ele, porém, não era melhor, quando escrevia que viera para “cubanizar os congolenses”, impor ao seu desleixo a regra ascética do exército revolucionário (ficando furioso quando julgou assistir à “congolização dos cubanos”, contaminados pela anarquia local).
Na Bolívia, os camponeses que o viram e ao seu bando chamaram-lhes, como Guevara notou no diário, “os gringos”. Era o nome dado aos brancos dos EUA. Guevara, o inimigo dos gringos, era um gringo. O apelo de Guevara, como reconheceu Debray em A Guerrilha do Che, esteve sempre confinado à “pequena burguesia democrática das cidades” - de facto, aos estudantes, filhos das classes média e alta.
No Livro Negro do Comunismo, Stéphane Courtois dedicou duas páginas ao “reverso do mito” de Guevara, denunciando os fuzilamentos que ordenou em Cuba. Guevara ter-se-ia divertido com esta acusação. Ele próprio descreve os fuzilamentos, inclusivamente as reacções das vítimas no momento final, com palavras de apreço por aqueles que mostraram “serenidade”. Tudo para ele estava justificado desde que feito, sem outras intenções, em nome da criação de “um homem novo”.
Guevara queria transformar as pessoas. Nunca lhe interessou percebê-las.
No entanto, para muitos outros, Che Guevara é lembrado pelo exemplo de desprendimento, idealismo e determinação em sua luta pela justiça social e liberdade e na construção do “homem novo”. A sua vida, as ideias e, sobretudo, a acção revolucionária são recordadas no mundo inteiro por todos aqueles que continuam a indignar-se contra as desigualdades sociais e contra as opressões de todos os tipos.

 

 


 


 

 

 

 

Nascido na Argentina, quase meio século depois da sua morte, continua a despertar simpatia e admiração em todo o mundo. Por que é que a sua imagem insolente continua viva, como a desafiar ainda aquela ordem que um dia ousou derrotar?
Parece-me que três razões mantêm viva a memória de Che Guevara: os valores, o exemplo e sua trajectória de revolucionário latino-americano.
Os valores do Che representam o vigor e a rebeldia que tanto caracteriza milhões de jovens em todo o mundo. A imagem do Che está presente em t-shirts, bonés, bandeiras, em tatuagens nos braços e no corpo dos jovens, num dos maiores fenómenos políticos de que se tem notícia. Mas, isso não é o principal. Apesar de se tornar uma “marca conhecida” em todo o mundo, Che não tem nada a vender. O seu único “produto” são os seus valores, as suas ideias, o seu exemplo. Ainda hoje é isso que desperta o sonho e a rebeldia de milhares de pessoas em todas as latitudes.
Che viveu concretamente e ousou levar os ideais até as últimas consequências. O que Che deixou foi uma combinação entre a teoria e a acção prática, a formulação e o exemplo. Como ele mesmo disse: “quando o extraordinário se transforma em quotidiano é a revolução”. O filósofo francês Jean Paul Sartre disse que “Che viveu como o homem mais completo do século XX”.
Nas tarefas da revolução Che Guevara foi também um estadista. Nesta condição, foi responsável pelo Instituto Nacional de Reforma Agrária, pelo Banco Nacional de Cuba sendo depois Ministro das Indústrias.
É nessa condição, que viaja pelo mundo, no combate para romper a sabotagem e o cerco económico, político, diplomático, militar, ideológico e cultural movido pelo imperialismo contra a revolução. É também nesse quadro que ele comparece à famosa Conferência da OEA em Punta del Este, convocada para condenar Cuba e distribuir financiamentos americanos aos governos leais. É nesse evento que mostra sua habilidade e firmeza, passando de acusado a acusador do imperialismo.
É amplo o leque de assuntos aos quais o revolucionário Ernesto Che Guevara procurou responder. Um dos aspectos mais importantes - e certamente um dos que lhe conferem uma marca mais nítida entre os maiores revolucionários que a humanidade produziu - diz respeito à sua preocupação com o que tem sido denominado "humanismo revolucionário".
Nesse terreno, Che Guevara não foi somente o militante que não se intimidou em sublinhar: "deixe-me dizer, com o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor". Ele foi entre os grandes socialistas deste século um dos que se preocupou por destacar a necessidade da construção do homem novo como parte do processo de revolução da sociedade em direcção ao comunismo. Ele negava que esse objectivo pudesse tornar-se tangível com base nos interesses individuais herdados do capitalismo. Era por isso que valorizava a educação como elemento decisivo na transição socialista e atribuía a valores como solidariedade, disciplina, honestidade, integridade pessoal, importância central nessa caminhada. O Che mais do que ninguém destacou a superioridade humana daqueles que dedicam suas vidas à revolução, frente àqueles que só cuidam de seus interesses particulares. E o poder de convencimento desse discurso moral elementar repousou sempre na franqueza transparente de suas palavras: tratava-se de alguém que nada possuía e nada pedia a não ser melhores condições para continuar lutando.
Che Guevara não se contentou em ser um dos mais prestigiados membros do Estado de Cuba. Como consequência do seu combate revolucionário e da necessidade de expandir o processo transformador na América Latina e no mundo, foi ao Congo, e mais tarde à Bolívia, para por em prática os seus ideais. Um militante revolucionário, que certamente cometeu erros, precisamente porque "ousou lutar, ousou fazer e ousou vencer". Justamente por isso e por ter perseguido com tanta intensidade as grandes causas, ele cometeu erros políticos, incorreu em avaliações que posteriormente revelaram-se falhas e assim por diante. Características pois de uma personalidade e de uma obra políticas (e não de uma figura e de uma doutrina místicas) que permanecem vivas, como produtos humanos.
A luta do Che continua actual. É o seu exemplo e, sobretudo, a possibilidade de “fazer o caminho no caminhar” que deixa viva a sua trajectória exemplar. Che Guevara ousou inventar um mundo e um homem novo. O lugar de Che Guevara é do homem que dedica sua vida ao combate contra todas as formas de injustiça e opressão que possa  manifestar-se ontem e hoje. O seu humanismo libertador e revolucionário não deixavam dúvidas. E foi esse seu principal legado, escrito como mensagem em carta aos seus filhos e às futuras gerações: “a mais bela qualidade de um revolucionário é sentir profundamente qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo.”
 

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