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Resposta a indignados "antifascistas"

por Nuno Castelo-Branco, em 20.08.08

 

O tema Salazar continua a sua senda de controvérsias, despertando paixões arrebatadas ou demencial repulsa. Decorridos precisamente quarenta anos desde o fim do seu consulado como Presidente do Conselho de Ministros, é estranhamente difícil proceder a qualquer tipo de consideração - julgamento seria pretensiosamente descabido -  acerca das políticas prosseguidas durante as diversas fases do regime do Estado Novo. Como já suspeitava, o post relativo ao posicionamento de Portugal na II Guerra Mundial, ocasionou algumas reacções via e-mail a que me vejo obrigado a responder de forma sucinta. 

 

1. João Leitão.

Este nosso leitor acusa-me de "criptofascismo", como se a minha pobre pessoa tivesse algo a perder no campo dos negócios ou vida social. Enfim, esse alegado cavernicolismo cerebral é facilmente conectado com hipocrisia ou carácter ínvio e de duvidosa credibilidade. São estas grosso modo, as suas palavras.

O fascismo teve o seu tempo e surgiu num contexto económico, logo político e social, que é bem conhecido. Consistiu numa lógica reacção - e para muitos dos seus entusiastas - , num refúgio perante ameaças que se vinham acumulando desde meados de oitocentos. Como bem sabe, a ordem social do liberalismo, com o seu edifício constitucional de liberdades instituídas por Lei, permitiu a ascensão de sectores sociais ao poder, acelerou as grandes transformações  na indústria e comércio, libertou os espíritos de peias  tacitamente aceites durante séculos. Essa ordem burguesa, garantindo a forma representativa de governo, reconheceu também e de forma bastante clara, a perenidade das instituições tradicionais, das quais hoje, as monarquias belga e espanhola são lídimas representantes. O papel do Chefe do Estado foi salvaguardado, a Igreja - para os crentes e para os não crentes - foi considerada respeitosamente como legado de um passado que permitiu os novos e ansiosamente irrequietos presentes. O negregado "sistema liberal oitocentista" viu eclodirem novas formas de manifestação artística e a sua transposição às grandes oportunidades oferecidas pelas maravilhosas inovações tecnológicas da revolução industrial, desde os químicos, à electricidade ou à construção em ferro. Desta forma, torna-se compreensível a estupefacção perante a emergência de sectores iconoclastas desse alvorecer da Belle Époque - 1848 e 1871 foram alguns dos mais audíveis sinais de alarme - e na profícua sementeira nacionalista do bonapartismo, foram colher o alimento ideológico que evoluindo também mercê dos condicionalismos impostos pela situação política internacional, fizeram irromper o fascismo. Na realidade, este movimento não obedeceu nem surgiu ao  sabor do desejo ou impulso deste ou daquele Chefe, mas sim, foi lentamente evoluindo ao longo de décadas, cristalizando-se sob este nome, na Itália de Mussolini. É certo que os horrores da revolução bolchevique precipitaram a sua tomada do poder como partido organizado aliás, à semelhança dos seus congéneres vermelhos. Não me alongando, o fascismo teve a sua época.

Em Portugal, nunca existiu Fascismo tal como o italiano ou alemão. Mesmo o caso alemão pode ser considerado como uma variante mais identificável pela forma ritual, que pelo verdadeiro conteúdo da ideologia racista ao movimento inerente, ambições de colonização dentro do espaço europeu e total repúdio pela ordem diplomática/internacional consagrada pelos Tratados e pela tradição. O regime do Estado Novo obedeceu à imperiosa necessidade de saneamento de uma situação absolutamente caótica e hoje dificilmente compreensível pela nossa sociedade. Habituados a uma prolongada paz social, à praticamente ausente inflacção e a uma já resignadamente aceite forma de rotativismo - tal como acontecia na Monarquia -, é quase impossível imaginar a situação vivida pelos nossos avós e bisavós, onde a coacção, o medo, as perseguições e uma ameaçadora miséria, faziam-nos desejar a instauração de uma "situação de normalidade".

O caso do posicionamento de Salazar perante a guerra, é paradigmático daquilo que o interesse nacional sempre foi, é e continuará a ser, acima de qualquer luta partidária ou ideológica. Muito provavelmente teria sido a política de uma Monarquia Constitucional que não tinha caído em 5 de Outubro de 1910. Teria sido também a única política de uma 1ª república que tivesse a duvidosa oportunidade de se regenerar e "viver habitualmente", isto é, sem a recorrente violência nas ruas e nos espíritos. A nossa neutralidade perante a Guerra, foi benéfica e honrosa e se o João Leitão se interessar, poderá consultar aquilo que as diversas chancelarias, desde a alemã à britânica e italiana, tinham a dizer da política portuguesa. Quando das negociações do armistício italiano de 1943, Lisboa foi o local privilegiado para os contactos entre a Casa de Sabóia - a soberania - e os Aliados e não são segredo para ninguém, as movimentações lisboetas dos diplomatas do rei Miguel da Roménia e do regente Horthy da Hungria. Se escolheram Portugal como porto seguro para a saída de uma situação catastrófica, isso quer dizer algo, pois poderiam muito bem ter optado pela consagrada neutral Suíça ou pela social-democrática Suécia. Quanto a estes neutrais, sabe bem que foram activos colaboradores do esforço de guerra do Reich, pois a par do vital minério de ferro sueco, a Wehrmacht foi abundantemente servida de munições suíças e suecas, canhões Bofors suecos, etc. Este comércio foi muitíssimo mais comprometedor que o envio de conservas e de umas toneladas de volfrâmio ou de alguns produtos coloniais, aliás com o pleno conhecimento dos ingleses. Não, Portugal foi eleito como ponte entre dois mundos desavindos e a figura austera de Salazar foi uma referência.  Quanto ao alegado - o J.L. diz mesmo Sieg Heil! - de Salazar perante a Alemanha, muito se pode dizer, desde as negociações para as Lajes - um tremendo desastre para os U-Boot -, até às múltiplas distinções de que foi alvo por parte dos britânicos que o condecoraram durante a guerra pelas mãos do próprio irmão do rei Jorge VI  e o nomearam doutor Honoris Causa pela mais prestigiada universidade inglesa. Portugal seria também, um membro fundador da NATO, afinal um prolongamento da Grande Aliança anglo-americana de 1941-45. 

Nasci muito depois do fascismo ter sucumbido em Roma ou se preferir, na Chancelaria de Berlim. É um mundo ou uma forma de estar e organizar gentes e mentes que nos são hoje tão remotas, como o próprio oitocentismo liberal, com o qual, apesar de tudo, ainda temos muitas afinidades nos nossos comezinhos quotidianos de consumismo ou sobrevivência. Estamos aqui a dialogar por isso mesmo e é bom que disso o João Leitão não se esqueça.

 

2. Maria José Lopes 

 

A cartilha da "colaboração portuguesa" com a Alemanha nacional-socialista, tem para si - uma assumida comunista -, algumas características que decerto lhe agradarão. O seu partido, logo após a assinatura do pacto Molotov-Ribbentrop, dedicou-se durante dois anos, aos mais desabridos ataques à posição inglesa no conflito, omitindo convenientemente os intuitos claramente expansionistas de índole imperial do Reich. Se por milagre conseguir encontrar e ler alguns exemplares do Avante! (1939-41), ficará edificada com o conteúdo da prosa claramente pró-Eixo (nas entrelinhas, pois isso convinha aos tutores soviéticos) e com um pouco de sorte,  deleitar-se-á com a opinião de um certo trânsfuga que dá pelo nome de Álvaro Cunhal. 

O seu "partido irmão francês", o PCF,  forneceu o núcleo duro da colaboração durante o drôle de guerre e do seu seio sairiam os fundadores - Jacques Doriot, por exemplo -  do PPF, a sucursal do NSDAP em França. Para não falarmos dos embaraçosos e conhecidos casos de sabotagem comunista nas fábricas de material de guerra, preciosa ajuda moral e material à Alemanha.

Como curiosidade e apesar de se encontrar nos antípodas da sua paixão política, a própria Dinamarca, com um governo socialista, colaborou com o Reich sob o regime de ocupação, sem que as autoridades democráticas de Copenhaga vissem nisso qualquer problema. Pelo contrário, furtaram-se desta forma à administração de um gauleiter  ou de um Reichsprotektor nomeado por Berlim. E muito mais há para dizer e principalmente, quanto à descarada colaboração soviética-alemã antes de Junho de 1941.

 

A sua última preocupação: saber se eu tinha sido membro de alguma "organização fascista" do Estado Novo.  

Como já caracterizou apressada e alarvemente o Estado de Novo de "fascista", terei que ceder nesse ponto tão crucial para o julgamento da minha insignificante pessoa. Sim, de facto fui, como todos os meninos a partir dos seis anos de idade, membro da MP de Moçambique, que, caso lhe seja facto desconhecido, era uma organização de cariz marcadamente cívico e que nivelava pela igualdade todos os seus membros, fossem eles brancos, negros, indianos, mestiços ou chineses. Graças a esse alegado "fascismo", existia a Caixa Escolar para os mais carenciados. Graças a esse "fascismo" tínhamos aquilo a que hoje risonhamente - porque se trata de facto de uma farsa - se chama OTL's. Existiam actividades tão diversas como ginástica, escultura, pintura, música, teatro de fantoches, modelismo, canoagem, aulas de natação, caminhadas, campismo, etc. Jamais tivemos qualquer aula de doutrinação e o mais longe que os monitores foram, consistiu na promoção da ideia de igualdade dos portugueses de todas as raças, como então se dizia. Tudo isto nos remete para um outro universo bem conhecido (?) da Maria José Lopes, para os "Pioneiros" dos países comunistas, onde a par das actividades lúdicas que mantinham as crianças longe da ociosidade, existia a lavagem cerebral e o incentivo patriótico à denúncia dos seus. Mais lhe digo, para seu final contentamento, que ainda possuo alguns elementos daquele uniforme que me ficava tão bem: o cinto e o emblema em tecido, da camisa (pendão de D. João I). Console-se com este crime.

 

* Para conhecer um Salazar inédito para muitos, recomendo a leitura do livro que surge na imagem.

 

 

publicado às 11:34






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