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Portugal e as prioridades angolanas

por John Wolf, em 24.10.13

Aqueles que afirmavam sem reservas que Angola precisa mais de Portugal do que Portugal de Angola, enganaram-se redondamente. Pensavam eles que seria apenas uma questão de tempo até aquele país vir comer à mão do paizinho e que a relação de irmãos de língua se iria normalizar. Pelos vistos não é o que está a acontecer; o ministro de relações exteriores declarou de um modo inequívoco que há parceiros mais vantajosos do que Portugal. Os governantes nacionais assentaram a sua política externa na premissa de que os países africanos de língua oficial portuguesa teriam uma inclinação natural para manter viva a relação histórica, mas não é o que está a acontecer. Porque razão deve Angola ser europeísta? Desde a guerra colonial que estabeleceu ligações com actores não europeus. A África do Sul e os EUA sempre tiveram presença económica e financeira em Angola. A URSS também andou lá metida. Os cubanos também. Ou seja, Angola há muito tempo que mantém relações com diferentes interlocutores. China é outro parceiro que necessita daquilo que Angola tem em abundância - petróleo. Este encadeamento de eventos, contrário ao interesse nacional luso, decerto que não irá ficar por aqui. Embora não haja um mapa cor de rosa a ligar Angola a Moçambique, é muito provável que a eclosão de um conflito civil neste último vá produzir o mesmo tipo de efeito nas intenções políticas e geo-estratégicas de Portugal. Por outras razões, fazer negócio em Moçambique poderá se tornar impraticável. Em vez da saída do Euro, Portugal é o elo mais fraco de uma outra utopia e parece estar a ser demovido, removido. Durante anos fomos levados a crer que Portugal era o "homem-forte" da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, mas aquele projecto produziu parcos resultados. O projecto de Acordo Ortográfico é sinónimo da especial virilidade de agentes "estrangeiros" que estão pouco interessados nos valores culturais e nas prerrogativas de Portugal. O Brasil que já bateu o pé aos EUA, não terá problema algum em sacudir um país com um mercado interno de pouco mais de 10 milhões de consumidores. Um país que plantou reticências de mentalidade à vinda de trabalhadores brasileiros e agora antagoniza o seu futuro deve ter algum cuidado nos passos seguintes que tomar. Se formos ver bem a coisa, cada vez que Portugal se coloca em bicos de pé a coisa corre mal. Aos poucos, Portugal parece ir perdendo o espaço vital que afinal nunca foi seu. Embora já tenha havido ilustres a declarar o fim do colonialismo, parece que apenas agora a efectiva materialização desse rompimento está a acontecer. Portugal irá decerto reagir às mais recentes declarações do ministro angolano, mas na minha opinião talvez deva ficar quietinho para não agravar ainda mais a situação. O timing político de Portugal é péssimo. Os angolanos que detêm poder de compra não estão para chegar ao continente. Já cá estão e detêm importantes quotas de representação nas decisões económicas de importantes empresas. Portugal tornou-se refém. Os seus sistemas de gestão já foram infiltrados e tomados por parceiros tidos como convenientes. No fundo, a questão tem a ver com ética. A falta dela. Desde a libertação democrática que a divisa tem tido a voz mais alta. Portugal não quis saber e agora coloca as questões que deveria ter apresentado em sede de due diligence. Uma espécie de inquérito preventivo para acautelar o interesse nacional. A cautela - nos dias que correm-, parece estar na ordem do dia, mas chega tarde. O que está a acontecer tem mais a ver com; depois de casa roubada trancas à porta.

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publicado às 10:52

Conferência de Berlim

por Nuno Castelo-Branco, em 23.09.13

Do nosso leitor José V., residente na Alemanha, um breve resumo deste documentário:

 

"No início dos anos 80 do século 19, o interesse europeu sobre África, um continente quase totalmente desconhecido até à altura, cresceu de forma acentuada. As novas ambições geopolíticas conduziram à chamada "Conferência da África Ocidental“, também conhecida por a Conferência do Congo que teve lugar no Palácio do Chanceler do Império em Berlim. Foi presidida pelo Chanceler Otto von Bismark e teve a presença de diplomatas, juízes e geógrafos de 14 países da Europa (oeste).


Durante três meses negoceiam o futuro de Africa, dividem o continente em zonas de influência e desenham/decidem “de maneira selvagem“(arbitrária?) as fronteiras. Isto tudo sem nunca estar um único africano presente na conferência que pudesse opinar ou tomar parte na discussão. A 26 de Fevereiro, depois de duras e difíceis negociações, deu-se a conferência por terminada. O documento final, conhecido por "Carta do Congo“, confirma (graças ao bom trabalho de lobby do Rei Belga Leopoldo II), a Independência do Congo (Congo Belga), sob o domínio da Bélgica. Para além disso, a bacia do Congo foi declarada neutral.


Esta carta/documento, (Carta do Congo), foi a base para a divisão de África em colónias e abriu assim um dos períodos mais "negros“ da História Mundial. As decisões tomadas na Conferência nunca foram jamais postas em causa e as fronteiras decididas na altura nunca foram mudadas até hoje. Não é por isso estranho que tanto antes como ainda hoje estas decisões sejam a razão de muitas guerras e conflitos na Nigéria, no Chade, Uganda ou Darfur no Sudão, na Costa do Marfim ou no Congo.


Não existem fotos da Conferência (nem filmes, simplesmente por que não existia cinema na época), mas somente alguns esboços feitos por pessoas da altura. Para o filme/documentação, foram encenadas as cenas/fases mais importantes da conferência. A encenação baseia-se/apoia-se em documentos originais de arquivos da época (não de domínio público) e das últimas descobertas de pesquisa colonial. Calmettes, o realizador deste filme, mostra com esta documentação uma imagem "negra/negativa/chocante do Poder" e interesses da história política e convida a pensar nos motivos dos "bastidores“ da colonização e das relações muito conflituosas entre a Europa ocidental (West Europa) e a África.

 

  Um abraço amigo,

 

  José"

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publicado às 17:32

Moçambique: "si tu mi pagas uma Pempsi" eu ti...

por Nuno Castelo-Branco, em 14.06.13

 

Dancing na Rua Araújo dos anos 60 (pintura de Ana Maria Plácido Castelo Branco ©)

 

Bem a propósito deste esclarecedor post do António Botelho de Melo - o nosso campeão Tomané que representou Portugal nas Olimpíadas de Los Angeles -, recordo uma já razoavelmente esfumada lembrança da frescalhota Rua Araújo. Um dos mais conhecidos locais da Lourenço Marques do "ouvi dizer", a sua evocação servia sempre para como um ferrete marcar alguém, ou franzindo o nariz, comentar outrem. Um "vê lá se estudas ou ainda vais parar à Rua Araújo!" era a supra rasca ameaça atirada às preguiçosas filhas, por alguns pais muito maguérres. Demasiadas vezes, uns tantos fulanos protegidos por Ray Ban, comodamente se instalavam à volta de uma mesa da esplanada do Continental, languçando as bifas (1) que em microscópicos hot pants desfilavam sorvendo Coca-Colas por uma palhinha. O que mínimo rosnariam, seria um "ena pá, daquilo nem na Rua Araújo s'arranja"...

 

Obedecendo ao compasso das gerações que correram acompanhadas pelas respectivas épocas de sucessos ou desastres políticos e sociais, a Rua Araújo, estrategicamente colocada nas proximidades do porto e da gare de caminhos de ferro, era o centro nevrálgico dos prazeres reservados aos homens da cidade e à multidão de forasteiros que ali tencionando demorar-se pouco tempo, provisoriamente se fixaram até à sua partida para o há muito previsto Além.

 

Ainda garoto de palmo e meio, lembro-me daqueles fins de tarde e do calor húmido que obrigava o escancarar da entrada dos estabelecimentos e também, como seria bastante previsível, o vai-vem das meias-portas de tabuinhas ao estilo do far-west, timidamente ocultando os antros de perdição que afinal davam cor, ruído e diversidade àquela que por si, já era uma cidade nada monótona. Brancas, pretas e mulatas entravam e saíam dos bares, timidamente acompanhadas por algum distraído cavalheiro que jamais as suporia prestimosas mesteirais de assuntos de zona média. Os tratos intelectuais seriam discutidos numa qualquer pensão não muito distante, ou segundo constava, no abafo de uma viatura habilidosamente camuflada na zona das praias da Costa do Sol. Tornou-se também exageradamente frequente, a visão dos turistas sul-africanos que apenas passada a fronteira em Ressano Garcia, logo esqueciam o ignóbil apartheid, enroscando-se na mulher mais coloured que encontrassem. Portuguesas de 1ª ou de 2ª, essas eram sempre a derradeira, quando não desanimada escolha. Seguindo-lhes generosamente o exemplo, algumas bifas varriam as praias à procura de pescadores negros que regressavam da faina, logo ali mesmo instando ao início de outra. 

 

Durante o período de entre-as-guerras, as casas de lanterna vermelha da capital moçambicana tinham sido ocupadas por italianas, russas, austríacas em sentido lato (2), alemãs, polacas, algumas sul-africanas, umas tantas espanholas de fala esquisita, "achi misjemo", e suprema finesse, por francesas que definiam a profissão através do peremptório mencionar da nacionalidade. Uma francesa era isso mesmo, a Madame que assim reconhecidamente titulada, obrigava a todos os mal-entendidos daquele mundo em rápida mudança. Algumas destas requintadas femmes de guerre, conseguiriam casamentos com embevecidos lusos provenientes de áreas bem próximas dos pináculos da sociedade local. 

 

Na Rua Araújo  (pintura de Ana Maria Plácido Castelo Branco ©)

 

Nos anos 60, a chegada dos contingentes militares desembarcados da Metrópole trouxe algumas novidades na frequência, tornando-se comuns os uniformes dos três ramos das Forças Armadas e tão certo como o material russo e chinês prodigamente distribuído à Frelimo pelos seus mentores, era o gastar dos prés com as tombazanas locais. Uma tarde, regressando a casa no machimbombo tomado nas imediações da Praça Mac-Mahon, verifiquei estar a minha mãe atenta a um mais que provável efémero casal que diante de nós tinha tomado assento. Ela ia-se enrolando no magala e este, aflito no seu fazer de conta de invisível, parecia petrificado pelo espectáculo a que voluntariamente se dispusera. Não havia um único par de olhos que não estivesse voltado para a cena que vertiginosamente se ia desenvolvendo, até que num repente capaz de fazer cair a mais formidável barreira de vergonha, a hiper-vuluptosa marafona lhe garantiu em alto e bom som:

 

- "Si tu mi pagas uma Pempsi, eu ti dô uma bêija néssá bôcá!"


Várias vezes palmilhei a Rua Araújo. Via a minha mãe espreitar os ruidosos locais de diversão onde brilhavam maravilhosos neons dentro e fora de portas, para logo depois riscar alguns apontamentos no seu inseparável bloco. As canetas de feltro trabalhavam de forma quase autónoma, numa muito apressada decisão de um não te esqueças, aquela é assim e veste-se assado. 

 

Tudo isto acabou, varrido pelos seráficos princípios do Homem Novo parido pelo Moisés, imperscrutável e sacrossanto entezinho capaz de todas as bendições a aplicar ao páchiça do lado. A Rua Araújo foi fatalmente silenciada e substituída por uma tremenda infinidade de hoteleiros Quartos Araújos, bem mais caros, exclusivistas e totalitariamente à mercê de uns poucos moralistas.

 

(1) Bifas: genericamente as sul-africanas, fossem elas as mais elegantes de origem inglesa, ou alguns portentosos e rosados coirões, por regra retintamente boers.

(2) Austríacas, ou seja, mulheres provenientes de todos os confins do império austro-húngaro, como as "grandes alemãs", checas, galicianas, rutenas, judias transilvanas, croatas, eslovacas, húngaras, eslovenas, etc.  

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publicado às 15:00

Valha-nos um Xá!

por Nuno Castelo-Branco, em 22.10.11

Não se percebe bem a grande satisfação por este tipo de negócios. O Estado assinou um contrato com espanhóis e alemães - estes andam sempre por perto -, prevendo explorar recursos energéticos no Algarve. Tudo seria bastante promissor, não fosse a declaração de que  9% (nove por cento) das receitas  se destinarão ao Estado, a nós, ao país. Mais ainda, ficámos a saber que este número é cinquenta vezes superior àquele inicialmente previsto. Cinquenta vezes? Calcule-se então, o que anteriormente se atribuía a Portugal.

 

Claro que somos totalmente ignorantes na matéria, mas números são o que são e os 9% parecem uma ninharia. Sabe-se que a Galp anda entusiasmada com as jazidas brasileiras, mas não haveria quem por cá fosse encorajado a tomar uma iniciativa destas? É que para o Estado, os 30 milhões de investimento são uma autêntica bagatela, quase uma das rotineiras renovações da frota de limusinas. Tudo isto tresanda a exploração, mas daquele tipo de que outrora os europeus foram acusados no além-mar: colonialismo.

 

Ainda que a trintona "esquerda de negócios" portuguesa se preste a estas coisas, compreende-se. Mas, a direita? Alguém poderá explicar o que se passa?

 

Não haverá um Xá que nos valha? Esse assinaria o contrato, mas simultaneamente prepararia um decreto de nacionalização para daqui a uns anos.

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publicado às 09:32

"Memórias de Moçambique" (1)

por Nuno Castelo-Branco, em 13.09.10

"Em Movimento"

Existem preconceitos enraizados contra a presença portuguesa em África. Os velhos mitos das Minas do rei Salomão, são acompanhados por uns isolados casos de uma romântica "África Minha" e geralmente, de estorietas acerca de chibatas, sanzalas cheias de tombazanas à disposição do colono, vorazes tubarões à beira-mar, ou megalomanias que cantam o mantra de machambas tão vastas como os dois Alentejos juntos e um pedacinho da Andaluzia, agregado para a caça de elefantes tão altos como qualquer girafa de zoológico.

 

Se a ignorância e o descansado desinteresse pela pesquisa são bem conhecidos, a desinformação grassa, porque torna-se conveniente à manutenção de uma certa moralidade de situação, impedindo o abordar de tópicos incómodos. Curiosamente ou talvez não, aqueles que hoje governam os novos países de expressão portuguesa, são mais abertos em relação aos temas de um passado muito recente e bastas vezes conseguem ultrapassar as vicissitudes de outros tempos. Na realidade, a abordagem de um passado colonial no qual participaram, acaba por legitimar e consolidar os novos Estados e assim, não causa estranheza, a insistência na tentativa do uso extensivo do português, como língua que de imediato identifica uma nação em consolidação. Querem saber mais e olhar com um desapaixonado sentido crítico, para um período que findou há quase duas gerações, mas do qual foram intervenientes.

"Uma banja no mato"

 

Esta exposição serve para demonstrar o interesse que um tema tão esquecido, poderá ainda despertar . Num momento em que as autoridades de todos os governos da CPLP procuram reacender a chama da cooperação - desta vez sem favoritismos de anacronismos de Partido ou de regime -, urge demonstrar que da parte portuguesa, o interesse não se queda pelas transferências de dinheiro, tecnologia, bens de consumo e influência comercial. Para os africanos, sejam eles negros ou brancos, o desconhecimento da sua história, dos seus momentos de felicidade e de tristeza, dos seus costumes e da natureza que não se extingue em reportagens da National Geographic, consiste num problema que impede o seu acesso a um justo lugar no mundo. Não bastam as pedras do Vale do Nilo ou do Grande Zimbabué, para sintetizar em dois exemplos ao gosto euro-americano, aquilo que a África "devia ser". De facto, por ela estamos todos há muito fascinados e desde crianças temos os leões, elefantes, crocodilos ou antílopes, como referência daquilo que é o animal no seu estado selvagem, numa beleza inultrapassável pela fauna de outros continentes. É a África que os de longe imaginam, numa fronteira ténue entre o betão das cidades e a vida animal de uma savana sempre presente e que se imagina tentacular. Mas o que dizer então, daquela outra África que alguns retrataram microscopicamente através de grandes safaris fotográficos, entre os quais destacaria o maravilhoso contributo que Riefenstahl deixou com os seus nubas? Não serve afinal, para um certo aconchego das nossas mentes, sempre à procura do exótico mas refinado meio que uma comunidade pode despertar, sem que isso impeça o negligenciar de outras realidades, bem mais vastas e por isso mesmo comezinhas?

Alguém se lembra de actividades ancestrais como a pesca no Canal de Moçambique, onde um importante sector de actividade encontra a fonte de sustento num passado ancestral e pejado de conhecimentos que se perdem no desfiar do rosário de centúrias? De onde chegaram aqueles panos coloridos que de tão comuns, passam despercebidos, ou a elaborada joalharia de características únicas e que se vai perdendo com o passar do tempo, confinando-a à montra de uns tantos museus e coleccionadores privados? Não importará conhecer melhor aquela gente que bem distante está dos resorts do Bazaruto ou dos fins de semana na Gorongosa ou na Inhaca? O Portugal africano não foi também mais do que aquilo mostrado pelas velhas pedras imperiais da Ilha de Moçambique?

"O M'zingo sulcando o Zambeze"

Os barcos de pás que sulcando o grandioso Zambeze - nome mítico e que por si só, podia ter sido oferecido a um país - ligavam o interior de Moçambique à costa do Índico, ainda  existiam no tempo das nossas vidas. Onde estarão, o que lhes aconteceu? Há notícias da sua presença em alguns pontos de África e entre nós, alguns deles, ainda persistem em velhas fotos feitas por pais e avós, imortalizando-os em albuns de recordações.

"O Feiticeiro"

 

O que tem sido esquecido, é o incontornável factor humano, pois envolve emoções, onde a afectividade anda sempre irmanada pela injustiça, sacrifício, alegrias e tristezas. É disso mesmo que esta pequena exposição trata. Um olhar sobre um Moçambique que bem dentro de si, talvez ainda não tenha desaparecido. A imensa riqueza humana que se espalha em locais tão díspares como a Zambézia, Manica e Sofala ou o Sul do Save, onde as vestimentas, o som da música e a própria organização das gentes, não são "tudo a mesma coisa". Ninguém fala dessas comunidades e muito menos ainda, da sua convivência com a presença europeia naquilo que de positivo ou negativo possa ser apontado. São os eternos ignorados por quem apenas se ocupa da Cidade no seu sentido mais restrito.

"O Lobolo" (acordo nupcial)

 

Foi sem surpresa que verificámos uma genuína curiosidade, onde as dezenas de visitantes procuravam encontrar por si, as explicações para os quadros onde múltiplos aspectos da vida comunitária e familiar iam surgindo, numa sucessão que longe de mostrar exaustivamente uma realidade vivida pela autora - apenas 46 imagens, de uma colecção que quase roça as duas centenas -, oferece uma ideia daquilo que foi o derradeiro período da soberania portuguesa em Moçambique. Os portugueses estão preparados para conhecer o seu passado naquelas paragens, tão importante quanto foram os feitos dos grandes nomes imortalizados em estatuária heróica espalhada pelas nossas cidades. Se Debret deixou uma obra de divulgação do Brasil pré-independência, os portugueses e moçambicanos têm este "novo Debret", uma despretensiosa mulher que possui o profundo conhecimento da terra onde viveu e que para sempre amará. Os documentos não se guardam ou se deixam esquecidos para um futuro longínquo, ou pior ainda, à mercê dos acasos familiares. São um legado para Portugal.

Ana Maria e Tito Iglésias

 

Ana Maria e o neto Nuno Miguel

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publicado às 12:16

Resistir para ajudar.

por Nuno Castelo-Branco, em 24.06.09

  

 

Estas duas últimas semanas têm correspondido plenamente aos anseios seculares da chamada Ummah. De facto, o mundo muçulmano tem preenchido os cabeçalhos da imprensa escrita, enquanto beneficia igualmente da duvidosa honra de abertura de todos os telejornais.

 

Trata-se de uma notoriedade pelas piores razões. A informação global, ao invés de apresentar esta "civilização" com as pinceladas do já há muito fanado brilho do Califado de Córdova, mostra-nos o culminar de um processo já vetusto de uma época em que saídas da camisa de forças do colonialismo - ou mandato - ocidental,  as sociedades de matriz maometana procuraram afirmar uma improvável identidade comum, apenas possível pela crença religiosa. De Marrocos ao Bornéu, jamais existiu essa imaginada unidade que os proselitistas exaltam no fervor dos sentidos, diante das multidões receptivas a uma qualquer mensagem de esperança. Profundamente humilhadas por um longo processo histórico que as conduziu a uma estratificação social - logo político-económica - vexatória a que se resignaram, as gentes recentemente definidas em termos de nação pelas fronteiras de Estados gizados a régua e esquadro pelos nazarin, encontraram num  perdido passado de expansão militar, re-descoberta dos Clássicos e construção de impérios relativamente efémeros, um hipotético modelo orientador para um porvir que emanando directamente do Todo Poderoso, apenas significaria a recompensa pela cornucópia da glória, abundância e superioridade da sua identitária fé. Pouco importariam as realidades apresentadas por uma Turquia em secularização coerciva, uma Argélia satelitizada pela suserania da Santa Mãe do materialismo russo-soviético, ou ainda, a da antiga Pérsia que queria surgir diante da Europa como sua directa antepassada, sem a mediação incómoda  aferrada pelos cavaleiros vindos do deserto do sul e que de cimitarra a tinha subjugado. Pareciam ser aspectos menores diante daquilo que verdadeiramente era capaz de unificar de este para oeste, um novo mundo em formação. Impossível.

 

A realidade internacional saída da II Guerra Mundial e que mergulhando na Guerra Fria dividiu as principais - e até aí hegemónicas - potências  europeias em dois campos, definiu os blocos em liça pela supremacia. Sendo o bloco norte americano um natural prolongamento da Europa, os novos Estados do hemisfério sul continuaram fatalmente a servir como móbil nos jogos de poder, definindo desde a independência qual o dois dos Grandes - os EUA e a URSS - corresponderiam aos desígnios das elites formadas pelo colonialismo e que recentemente chegadas ao poder, esperavam ansiosamente  afirmar-se no palco internacional, por esta forma consolidando  a sua prevalência interna.

 

Embora os europeus e os "árabes" estejam separados por esse mar-de-ninguém que é o Mediterrâneo, desde sempre a História mostrou existir um "amigo e protector" dos muçulmanos. Francisco I de França abasteceu as galeras da Sublime Porta, contrariando a aventura do império mundial de Carlos V. Luís XIV aproveitou o avanço otomano contra Viena, atacando a rectaguarda dos Habsburgo em Espanha, nos Países Baixos, no Franco-Condado e nos mares. Napoleão imaginou uma aliança com o sultão, para poder submeter o bloco austríaco e condicionar os ímpetos do fogoso czar Alexandre. Guilherme II apresentou a Constantinopla a conveniência da assistência prussiana, assumindo-se como protector de um império cujos achaques de "homem doente da Europa" faziam adivinhar um fim próximo. Hitler recebeu o Grande Mufti  de Jerusalém - o único homem a quem permitiu o uso de um cafetã na sua presença - , sancionou o ingresso de combatentes pelo Islão nas SS e no Mein Kampf, afirmava a conveniência que o credo de Mafoma significaria para a organização da sua própria Jihad em direcção a um Lebensraum não apenas material, mas perfeitamente correspondente aos velhos mitos germânicos dos tempos  da vida nas florestas, em oposição à decadência de uma Roma invejada e porque inatingível, tornara-se desprezível e pouco animosa.

 

Uma lista dos chamados grandes homens do século árabe  - na conhecida e errónea vulgarização do termo pelos ocidentais - das independências, demonstra-nos a simples não existência de um único que sendo perfeitamente autónomo relativamente ao odiado Ocidente, pudesse imitar o tolerante e grande chefe que fora o Saladino dos tempos áureos de Bagdade. O líbio Idris, o saudita Ibn-Saud, os egípcios Faruk e Nasser, a plêiade de quase desconhecidos generais que sucessivamente se sentaram no trono do menino Faiçal II do Iraque, os novos Khan-presidentes do artificial Paquistão, os Ben Bella,  Bourgibas, Assads, Kaddafys e tantos, tantos outros que a história apenas reconhecerá em notas de rodapé, nenhum deles foi capaz de oferecer ao seu povo, um modelo definido de ordem, prosperidade e sobretudo, de reconhecimento geral pelo brilho de uma cultura já há muito assimilada pelos europeus. Arrancaram à terra as suas riquezas, desbaratando-as em novéis palácios de Mil e Uma Noites de pesadelos de tortura, guerras, extorsão e preconceitos anacrónicos. Entre todos os "grandes dirigentes muçulmanos", apenas dois perfazem integralmente o arquétipo do homem diligente, moderno e senhor das suas acções que fora de portas é um igual entre os maiores: Attaturk e Mohammad Reza Pahlavi - seguindo o programa modernizador do pai -, estes directos herdeiros de um outro mundo velho de muitos séculos e que compreenderam a necessidade de adequar a sociedade aos tempos da tecnologia, universalidade da Lei e liberdade nacional, bem diferente do complexo e muitas vezes equívoco conceito que a restringe à esfera pessoal do anónimo. 

 

Fracassaram nos seus propósitos, pois ansiosos em ir sempre mais além e de forma acelerada, não conseguiram ser totalmente compreendidos e acompanhados por sociedades resignadas e estruturadas de uma forma conceptual diametralmente oposta à do modelo que lhes ditava a moda, organizava os serviços essenciais a um Estado, criava o consumo e estabelecia os parâmetros de conduta. Se Attaturk ainda permanece hoje como uma referência ciosamente guardada pela vigilância que os militares exercem sobre as sucessivas interpretações do próprio khemalismo, o grande homem que foi o Xá Reza Pahlavi, acabou deposto pela conjugação de factores que não podia controlar. O auge do confronto EUA-URSS no ocaso da Guerra Fria; os choques petrolíferos nos quais procurou ser um elemento apaziguador - que lhe granjeou acirrados ódios internos e entre os "irmãos de fé" -; a oposição de um clero profundamente patriarcal e de uma mentalidade onde prevalecia o espírito da organização rural em contraposto à "prostituída" vida urbana e finalmente, as consequências  inevitáveis do seu desejo de independência e de igualdade entre os grandes, condenaram-no a um fracasso que criou uma inédita situação internacional que hoje parece finalmente evoluir de forma abrupta e inesperada.

 

Esta dualidade amor-ódio pelo Ocidente, pode ser afinal, um grande e poderoso móbil para mais uma e talvez derradeira aproximação do Ocidente, a um "mundo muçulmano" desconfiado, hesitante, mas talvez ainda possível de subtrair à total capitulação perante uma interpretação abusiva de um passado cada vez mais anacrónico. Usam e idolatram a tecnologia nazarin, organizam as suas cidades sob a métrica nazarin, organizam-se em termos legais numa mescla impossível do primado constitucional-legal nazarin, com os preceitos próprios para a salvaguarda identitária das já há muito desaparecidas tribos do deserto do século VI. Encandeados pela luz das nossas urbes são para a Europa atraídos como ferro para imã, mas a coacção moral e física de uns tantos, julga poder convencer a massa expectante, da prometida conquista que vingue a própria impotência.

 

A única fórmula possível de assistência naquela demanda pelo progresso, consiste na manutenção de uma posição firme, inabalável. Qualquer cedência ao capricho de assembleias de homens sábios, condena aquelas sociedades a um desastroso fracasso, do qual nós próprios seremos as preferenciais vítimas. Há que resistir.

 

 

 

 

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publicado às 17:03






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