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A perda como essência do conservadorismo

por Samuel de Paiva Pires, em 20.09.16

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Andrew Sullivan, A Alma Conservadora:

 

Todo o conservadorismo parte de uma perda.

 

Se nunca soubéssemos o que é a perda, nunca sentiríamos a necessidade de conservar, e isso é a essência de qualquer conservadorismo. As nossas vidas, uma série de momentos desconectados de experiência, simplesmente mover-se-iam sem esforço, deixando o passado para trás quase sem nenhuma retrospectiva. Mas o facto de o ser humano ter autoconsciência e memória força-nos a confrontar o que já passou e o que poderia ter sido. E nesses momentos de confrontação com o tempo somos todos conservadores.”


(..)

 

Há um bocadinho de conservadorismo na alma de toda a gente – mesmo na daqueles que orgulhosamente dizem que são liberais. Ninguém é imune à perda. Todos envelhecemos. Podemos observar o nosso próprio envelhecimento e declínio; vemos como as novas gerações nos suplantam e nos ultrapassam. Cada vida humana é uma série de pequenas e grandes perdas – perdemos os nossos pais, a juventude, o optimismo fácil dos jovens adultos e a esperança incerta da meia-idade – até que nos confrontamos com a última perda, a da nossa própria vida. Não temos maneira de o evitar; e a força e a durabilidade do temperamento conservador parte deste facto, e também lida com ele. A vida é impermanente. A perda é real. A morte é certa. Não há nada que possa mudar isto – nenhuma nova aurora da humanidade, nenhuma maravilha tecnológica, nenhuma teoria, ideologia ou governo. Intrínseca à experiência humana – aquilo que nos separa dos animais – é a memória das coisas passadas. E é também a transformação dessa memória numa identidade consciente de si mesma. Por isso a perda imprime-se nos nossos espíritos e almas e forma-nos. É parte daquilo que somos.

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publicado às 22:27

O segredo para a tranquilidade

por Samuel de Paiva Pires, em 12.09.16

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Consiste meramente em aceitar as leis da estupidez humana enunciadas por Carlo Cipolla, o princípio de Peter e a selecção negativa nas organizações. Qualquer um que aceite estes princípios como inerentes à condição humana conseguirá reconciliar-se com a mediocridade que o rodeia. Afinal, apesar de tudo, o mundo pula e avança. 

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publicado às 22:50

A guerra faz parte da condição humana

por Samuel de Paiva Pires, em 13.09.14

Rui Ramos, Nenhuma guerra acabará com a guerra:

 

Nenhuma campanha militar acabará alguma vez com as disputas de influência dos grandes Estados, nem com os choques das comunidades em que a humanidade gosta de se dividir. Depois de Putin, outro líder russo procurará rever as fronteiras desenhadas no momento do colapso soviético. Depois do ISIS, outra seita tentará realizar violentamente outras profecias. Nenhuma guerra será a última. Para um Ocidente envelhecido, endividado e humanitário, pode não ser a perspectiva mais conveniente. Mas é assim.

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publicado às 11:08

2014 e o tempo que deixou de contar

por John Wolf, em 30.12.13

Não existe tal coisa como a mudança que acontece com a passagem de ano. Não existe o virar de página para um mundo eminentemente novo. Não existe o balanço de algo que finda para relançar à virgindade. Não existe a tábua rasa. Vivemos aquém e além dos nossos desígnios. E nesta antecâmara onde refrigeramos o espumante da celebração, damos conta da continuidade. Não saímos dos nossos corpos, mas abandonamos uma parte das nossas convicções. Deslocamo-nos sem sair do mesmo cruzamento, onde habita um semáforo caprichoso, aberto e cerrado no mesmo instante, no embate coincidente. Em política sabemos de antemão que foram, e serão todos, vitoriosos. Que não admitem a derrota num concurso de penhoras, de expectativas e engodos, de talismãs e regressos triunfais. Em epígrafe, na margem rasurada da grande história, as assinaturas serão manchas menores, meras rubricas de um testemunho que passa pelas mãos de estafetas cansados. Os homens, os grandes, os pequenos, e aqueles que se arrastam como invertebrados, aprendem de um modo doloroso - a lição da inconveniência de um tempo prolongado, retardado, atrasado pelo destino que nunca o será. Um predestino que foi vilipendiado, assaltado por saldos de ocasião, palavras coniventes e verdades preteridas. Faça-se a lista do deve e haver, inscrevam-se nas colunas  a soma e a distracção que a acompanha, e verão que a conta não passará na auditoria da consciência colectiva. Os contribuintes foram liquidados pelo depósito na falsa guarida, pela glória de um campeão que se anuncia redentor, na receita que morde a cauda do seu falso esplendor. As palavras, estas, aquelas e as demais, são um perfeito embuste que não nos servem, que não me servem. Existem como espuma bárbara de um delírio cronológico, das badaladas que ainda faltam, que servem para lançar figurantes em falsas estreias, repetidas à exaustão. Se há algo que aprendemos nestes anos que já são alguns, que já estão algures - é que os mesmos já não servem para contar. Façamos uso dessa sabedoria parcimoniosa para aceitar que nos encontramos no emaranhado de temporais. 2013 estará em 2014, e todos os anos que os antecedem e que se seguem estarão nessa volúpia que queremos amestrar para memória futura. Porque as recordações do passado não cabem na geometria de um relógio estilhaçado. Não percamos mais energia com ninharias, porque nada disto tem cabimento na simples batida de um pulso, no peito aberto vergastado pelos ventos que sopram.

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publicado às 19:40

A liberdade implica limites

por Samuel de Paiva Pires, em 18.09.13

Mark T. Mitchell, Roots, Limits, and Love:

 

«In a world where limits are seen as an affront, a willingness to accept limits seems to represent a retreat from the freedom of unfettered autonomy. Yet, most humans throughout history have been aware of and willing to submit to social, natural, and divine limits. We are bound by conventions that provide meaning and context to particular human communities. We are bound by norms rooted in nature that inform us, if we pay attention, to ways that humans can flourish in an uncertain world. We are bound by commands of God who is the ultimate source of all good things.

 

When we properly conceive of place and limits, our understanding of liberty will be constituted in a way that is both sustainable and liberating. While the autonomous individual seeks absolute freedom but unwittingly promotes the growth of the centralized state, a person deeply committed to a particular place and willing to acknowledge the many ways humans are limited, will, ironically find that liberty emerges in the wake of these commitments. A liberty worthy of human beings is one where individuals act freely in pursuit of goods that can only be realized in the context of a healthy, human-scaled community. In other words, only when human lives are oriented to local communities can a sustainable and rich conception of liberty be secured.

 

To pay lip service to liberty but to denigrate particular places and to shun limits is to undermine the possibility of liberty itself. Only when those claiming to be conservative re-commit themselves to their places and willingly submit to the limits that are proper to human beings will their pursuit of liberty have a chance of lasting success.»

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publicado às 18:18

Da impossibilidade do amor livre

por Samuel de Paiva Pires, em 24.06.13

 

G. K. Chesterton, Disparates do Mundo:

 

«A família é necessária à humanidade; a família é (se o leitor assim o quiser) uma armadilha para a humanidade. Só se pode falar de «amor livre» - como se o amor fosse um episódio equivalente a acender um cigarro ou assobiar uma cançoneta – ignorando hipocritamente um facto gigantesco. Suponhamos que, sempre que um homem acendia um cigarro, se levantava dos anéis de fumo um gigante altíssimo, que o seguia por toda a parte qual enorme escravo. Suponhamos que, sempre que um homem assobiava uma cançoneta, chamava um anjo à Terra e depois tinha de andar com um serafim atrás de si por uma coleira. Estas imagens catastróficas são débeis paralelos das extraordinárias consequências que a Natureza anexou à actividade sexual; e é perfeitamente claro, logo desde o princípio, que um homem não pode praticar o amor livre; pois ou é um homem comprometido, ou é um traidor. O segundo elemento que gera a família é o facto de as suas consequências, embora colossais, serem graduais; o cigarro produz um bebé gigante, a canção apenas produz um pequeno serafim. Daí resulta a necessidade de um sistema prolongado de cooperação; e daí resulta a família em todo o seu sentido educativo.» 

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publicado às 20:42

Filosofar é aprender a morrer (5)

por Samuel de Paiva Pires, em 14.06.13

 

Albert Camus, A Queda:

 

«O que é certo é que o próprio censurado [Jesus Cristo] não pôde continuar. E eu sei, meu caro, o que estou a dizer. Houve tempo em que eu ignorava, em cada minuto, como poderia chegar ao seguinte. Sim, pode-se fazer a guerra neste mundo, macaquear o amor, torturar o seu semelhante, brilhar nos jornais ou simplesmente dizer mal do vizinho enquanto se faz malha. Mas, em certos casos, continuar, somente continuar, eis o que é sobre-humano. E ele não era sobre-humano, pode crer. Gritou a sua agonia e eis porque o amo, a esse meu amigo, ele que morreu sem saber.»

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publicado às 00:34

Filosofar é aprender a morrer (4)

por Samuel de Paiva Pires, em 11.06.13

 

Alçada Baptista, Peregrinação Interior - Reflexões sobre Deus:

 

«Relato necessário duma peregrinação pessoal, não pretendo com ele ser exibicionista, se bem que viver é também ser capaz de perder um certo pudor. Quando o meu pai morreu, eu já era homem. Já tinha a maturidade que me permitia tirar da sua pessoa todas as cargas míticas e saber olhar objectivamente os seus defeitos e virtudes, e por isso soube avaliar o peso da sua grandeza humana e o significado que ela teve para mim. Algum tempo depois da sua morte, comecei a pensar que nunca lhe dissera nada disso e que a morte o levou sem que eu lhe tivesse abertamente revelado o muito que gostava dele. E se analiso as razões porque o fiz, creio que foi por pudor, por este absurdo que se apodera das pessoas e que não permite que se diga a um pai o muito que se pode gostar dele. Nos meus filhos, passa-se que deixam de me dizer que gostam de mim à medida que não são capazes de me aparecer nus. Assim se prolonga um diálogo insinuado, por suposições, por cálculo, por subjacências, quando nada devia haver de mais simples e aberto do que o diálogo de amor de pais para filhos, de homens para mulheres, de pessoas para pessoas. A literatura está cheia de insinuações veladas de seres que gostaram tremendamente de outros, mas essas vozes de amor transferem-se, curvam-se, corrigem-se, num espartilho vitoriano que nos abafa e comprime e de que a muito custo nos conseguimos libertar. Assim andamos, com o coração apertado na garrafa da vida, a bater timidade pelo gargalo da vida.»

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publicado às 10:56

Filosofar é aprender a morrer (3)

por Samuel de Paiva Pires, em 03.06.13

 

(Jacques-Louis David, A Morte de Sócrates)

 

Platão, Apology:

 

«Not much time will be gained, O Athenians, in return for the evil name which you will get from the detractors of the city, who will say that you killed Socrates, a wise man; for they will call me wise even although I am not wise when they want to reproach you. If you had waited a little while, your desire would have been fulfilled in the course of nature. For I am far advanced in years, as you may perceive, and not far from death. I am speaking now only to those of you who have condemned me to death. And I have another thing to say to them: You think that I was convicted through deficiency of words - I mean, that if I had thought fit to leave nothing undone, nothing unsaid, I might have gained an acquittal. Not so; the deficiency which led to my conviction was not of words - certainly not. But I had not the boldness or impudence or inclination to address you as you would have liked me to address you, weeping and wailing and lamenting, and saying and doing many things which you have been accustomed to hear from others, and which, as I say, are unworthy of me. But I thought that I ought not to do anything common or mean in the hour of danger: nor do I now repent of the manner of my defence, and I would rather die having spoken after my manner, than speak in your manner and live. For neither in war nor yet at law ought any man to use every way of escaping death. For often in battle there is no doubt that if a man will throw away his arms, and fall on his knees before his pursuers, he may escape death; and in other dangers there are other ways of escaping death, if a man is willing to say and do anything. The difficulty, my friends, is not in avoiding death, but in avoiding unrighteousness; for that runs faster than death. I am old and move slowly, and the slower runner has overtaken me, and my accusers are keen and quick, and the faster runner, who is unrighteousness, has overtaken them. And now I depart hence condemned by you to suffer the penalty of death, and they, too, go their ways condemned by the truth to suffer the penalty of villainy and wrong; and I must abide by my award - let them abide by theirs. I suppose that these things may be regarded as fated, - and I think that they are well.

 

And now, O men who have condemned me, I would fain prophesy to you; for I am about to die, and that is the hour in which men are gifted with prophetic power. And I prophesy to you who are my murderers, that immediately after my death punishment far heavier than you have inflicted on me will surely await you. Me you have killed because you wanted to escape the accuser, and not to give an account of your lives. But that will not be as you suppose: far otherwise. For I say that there will be more accusers of you than there are now; accusers whom hitherto I have restrained: and as they are younger they will be more severe with you, and you will be more offended at them. For if you think that by killing men you can avoid the accuser censuring your lives, you are mistaken; that is not a way of escape which is either possible or honorable; the easiest and noblest way is not to be crushing others, but to be improving yourselves. This is the prophecy which I utter before my departure, to the judges who have condemned me.

 

Friends, who would have acquitted me, I would like also to talk with you about this thing which has happened, while the magistrates are busy, and before I go to the place at which I must die. Stay then awhile, for we may as well talk with one another while there is time. You are my friends, and I should like to show you the meaning of this event which has happened to me. O my judges - for you I may truly call judges - I should like to tell you of a wonderful circumstance. Hitherto the familiar oracle within me has constantly been in the habit of opposing me even about trifles, if I was going to make a slip or error about anything; and now as you see there has come upon me that which may be thought, and is generally believed to be, the last and worst evil. But the oracle made no sign of opposition, either as I was leaving my house and going out in the morning, or when I was going up into this court, or while I was speaking, at anything which I was going to say; and yet I have often been stopped in the middle of a speech; but now in nothing I either said or did touching this matter has the oracle opposed me. What do I take to be the explanation of this? I will tell you. I regard this as a proof that what has happened to me is a good, and that those of us who think that death is an evil are in error. This is a great proof to me of what I am saying, for the customary sign would surely have opposed me had I been going to evil and not to good.

 

Let us reflect in another way, and we shall see that there is great reason to hope that death is a good, for one of two things: - either death is a state of nothingness and utter unconsciousness, or, as men say, there is a change and migration of the soul from this world to another. Now if you suppose that there is no consciousness, but a sleep like the sleep of him who is undisturbed even by the sight of dreams, death will be an unspeakable gain. For if a person were to select the night in which his sleep was undisturbed even by dreams, and were to compare with this the other days and nights of his life, and then were to tell us how many days and nights he had passed in the course of his life better and more pleasantly than this one, I think that any man, I will not say a private man, but even the great king, will not find many such days or nights, when compared with the others. Now if death is like this, I say that to die is gain; for eternity is then only a single night. But if death is the journey to another place, and there, as men say, all the dead are, what good, O my friends and judges, can be greater than this? If indeed when the pilgrim arrives in the world below, he is delivered from the professors of justice in this world, and finds the true judges who are said to give judgment there, Minos and Rhadamanthus and Aeacus and Triptolemus, and other sons of God who were righteous in their own life, that pilgrimage will be worth making. What would not a man give if he might converse with Orpheus and Musaeus and Hesiod and Homer? Nay, if this be true, let me die again and again. I, too, shall have a wonderful interest in a place where I can converse with Palamedes, and Ajax the son of Telamon, and other heroes of old, who have suffered death through an unjust judgment; and there will be no small pleasure, as I think, in comparing my own sufferings with theirs. Above all, I shall be able to continue my search into true and false knowledge; as in this world, so also in that; I shall find out who is wise, and who pretends to be wise, and is not. What would not a man give, O judges, to be able to examine the leader of the great Trojan expedition; or Odysseus or Sisyphus, or numberless others, men and women too! What infinite delight would there be in conversing with them and asking them questions! For in that world they do not put a man to death for this; certainly not. For besides being happier in that world than in this, they will be immortal, if what is said is true.

 

Wherefore, O judges, be of good cheer about death, and know this of a truth - that no evil can happen to a good man, either in life or after death. He and his are not neglected by the gods; nor has my own approaching end happened by mere chance. But I see clearly that to die and be released was better for me; and therefore the oracle gave no sign. For which reason also, I am not angry with my accusers, or my condemners; they have done me no harm, although neither of them meant to do me any good; and for this I may gently blame them.

 

Still I have a favor to ask of them. When my sons are grown up, I would ask you, O my friends, to punish them; and I would have you trouble them, as I have troubled you, if they seem to care about riches, or anything, more than about virtue; or if they pretend to be something when they are really nothing, - then reprove them, as I have reproved you, for not caring about that for which they ought to care, and thinking that they are something when they are really nothing. And if you do this, I and my sons will have received justice at your hands.

 

The hour of departure has arrived, and we go our ways - I to die, and you to live. Which is better God only knows.»

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publicado às 13:00

Da condição humana

por Samuel de Paiva Pires, em 01.06.13

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publicado às 21:12

Filosofar é aprender a morrer (2)

por Samuel de Paiva Pires, em 30.05.13


(Autor desconhecido, Vanitas. Museu Municipal de Beja. Foto daqui)


Montaigne, Essays, "That to philosophize is to learn to die":

«All the whole time you live, you purloin from life and live at the expense of life itself. The perpetual work of your life is but to lay the foundation of death. You are in death, whilst you are in life, because you still are after death, when you are no more alive; or, if you had rather have it so, you are dead after life, but dying all the while you live; and death handles the dying much more rudely than the dead, and more sensibly and essentially. If you have made your profit of life, you have had enough of it; go your way satisfied.»

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publicado às 07:51

Filosofar é aprender a morrer

por Samuel de Paiva Pires, em 28.05.13

 

(Caravaggio, Saint Jerome Writing)

 

Montaigne, Essays, "That to philosophize is to learn to die":

 

«Let us learn to meet it steadfastly and to combat it. And to begin to strip if of its greatest advantage against us, let us take an entirely different way from the usual one. Let us rid it of its strangeness, come to know it, get used to it. Let us have nothing on our minds as often as death. At every moment let us picture it in our imagination in all its aspects. At the stumbling of a horse, the fall of a tile, the slightest pin prick, let us promptly chew on this: Well, what if it were death itself? And thereupon let us tense ourselves and make an effort. Amid feasting and gaiety let us ever keep in mind this refrain, the memory of our condition; and let us never allow ourselves to be so carried away by pleasure that we do not sometimes remember in how many ways this happiness of ours is a prey to death, and how death's clutches threaten it. Thus did the Egyptians, who, in the midst of their feasts and their greatest pleasures, had the skeleton of a dead man brought before them, to serve as a reminder to the guests. 

 

Look on each day as if it were your last,

And each unlooked-for hour will seem a boon.

(Horácio) 

 

It is uncertain where death awaits us; let us await it everywhere. Premeditation of death is premeditation of freedom. He who has learned how to die has unlearned how to be a slave. He who has learned how to die has unlearned how to be a slave. Knowing how to die frees us from all subjection and constraint. There is nothing evil in life for the man who has thoroughly grasped the fact that to be deprived of life is not an evil.»

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publicado às 17:12

Ontem não fui um homem bom

por Samuel de Paiva Pires, em 02.02.13

 

(Pablo Picasso, Poor People on the Seashore)


Quando era criança, sempre que passávamos pela Rotunda do Relógio perguntava aos meus pais porque viviam aquelas pessoas ali nas escadas por baixo do viaduto. Tinha para mim que “quando fosse grande” construiria uma grande casa onde poderia abrigar as pessoas que não têm um tecto. Entretanto cresci e percebi que as coisas não são assim tão simples.

 

Há dias, enquanto aguardava por uma pessoa à porta dos Armazéns do Chiado, fui abordado por um rapaz com um ar envergonhado que, começando por afirmar que não pretendia dinheiro, logo me fez saber que tinha fome, perguntando-me se lhe poderia comprar algo para comer. Repliquei que estando a aguardar uma pessoa, não o poderia acompanhar, acabando por tirar do bolso algumas moedas que lhe entreguei. Isto quando um pouco mais abaixo, sensivelmente a meio da Rua do Carmo, costuma estar um pedinte sentado no chão com uns cartões diante de si a servir de repositórios da colecta, indicando em cada um deles o destino a dar a esta – álcool, droga, tabaco, comida etc. Porventura este putativamente humorístico pedinte, que por acaso tem um ar um pouco lunático, estará em crer que a sinceridade o ajudará, e a verdade é que lhe são atiradas bastantes moedas.

 

Entre a vergonha de uns e a loucura de outros, registe-se a ideia, que é do senso comum, de que a maioria dos pedintes que encontramos nas nossas ruas destinam aquilo que conseguem essencialmente a álcool e droga. Já desprovidos de qualquer vergonha, muitos acabaram a contribuir involuntariamente para a formação de uma certa carapaça que instintivamente faz com que se tenha banalizado a resposta “não tenho nada” perante qualquer pedido que nos façam pelas ruas.

 

Mas entre os loucos e os desprovidos de qualquer vergonha, há também os que envergonhadamente se vêem na contingência de ter que pedir para sobreviver. Há cerca de um ano, estive por várias vezes numa sala de espera do Hospital de S. José. De um lado para o outro arrastava-se em passos lentos e a medo uma senhora com uma expressão tão envergonhada que se tornava incomodativa e chegava mesmo a transmitir como aquela situação a estava a destruir psicologicamente. Abordava quem por ali aguardava a sua vez, resumindo a sua situação ao facto de se encontrar desempregada, tal como o marido, que estava doente.

 

Ontem, a caminho de casa, estavam dois pedintes na carruagem do metro em que seguia. Um deles, bastante conhecido por quem anda de metro, lá ia batendo com aquele ferro na bengala e na caixa que traz ao pescoço, no seu habitual ritmo alucinante, cantando o célebre “Ora podem crer que eu continuo a agradecer a quem tiver a bondade ou a possibilidade de me auxiliar”. O outro era uma senhora, que embora até abordando as pessoas com uma expressão facial amigável, foi encontrando a habitual resposta: “não tenho nada”. Após receber esta resposta da minha parte e de mais umas pessoas que se encontravam próximo de mim, o metro parou, tendo entrado uns jovens, rapazes e raparigas, que não teriam mais que 19 ou 20 anos. Um deles ficou em frente da senhora assim que entrou, tendo por ela sido abordado. Replicou que não tinha dinheiro mas que lhe podia oferecer a sandes embrulhada que trazia na mão. Provavelmente já esperando a resposta habitual, a senhora ficou um pouco surpreendida com a oferta, e com uma expressão de genuíno agradecimento, talvez a mais genuína que alguma vez presenciei, a primeira reacção que teve foi de uma generosidade tocante: pediu ao rapaz que pelo menos dividissem a sandes, o que ele obviamente recusou. Voltando a agradecer, aproveitou ainda para dizer que infelizmente se via naquela contingência porque tem que pagar o quarto em que vive com a filha, e que tem que a alimentar e vestir como conseguir, para que pelo menos não a achincalhem na escola.

 

Alguns dizem que encontram Deus em situações de contacto com o sublime e o belo. Eu não encontrei Deus. Mas de repente a minha alma e o meu corpo pareceram ter sido rasgados não por uma revelação divina, mas por uma revelação demasiado humana que me quis mostrar como é possível manter uma generosidade indescritível e ao alcance de muito poucos, numa situação em que provavelmente já não se consegue manter qualquer réstia de dignidade própria e cujas circunstâncias tenderiam mais a levar-nos no sentido oposto.

 

Ao mesmo tempo, senti-me envergonhado. Porque respondi instintivamente e não tive a capacidade de perscrutar aquele rosto e tentar compreender o que lhe subjaz. Quando me levantei, dirigi-me à porta onde se encontrava a senhora. Antes de sair, dei-lhe umas moedas, talvez procurando redimir-me, talvez procurando egoisticamente sentir-me um pouco melhor. Não o merecendo, fui presenteado com um simpático agradecimento de uns olhos cansados e um sorriso de uns dentes que já conheceram um estado bem melhor, de alguém com uma tez que denota alguma falta de saúde, mas que foram mais comoventes e me transmitiram mais conforto que muitos dos olhares e sorrisos que já recebi na minha vida. Não o suficiente, contudo, para evitar as lágrimas que me correram pelo rosto após sair do metro. Ontem, não fui um homem bom. E ainda que a minha mente não pare de pensar naquela cena a que assisti, pelo menos fico contente por ter visto um e por ter presenciado tamanha demonstração de generosidade.

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publicado às 19:57

Imaginação, perfectibilidade, literatura e política

por Samuel de Paiva Pires, em 26.01.13

Da introdução de Louis Menand a The Liberal Imagination de Lionel Trilling:

 

«For a key perception of the book is that most human beings are not ideologues; intellectual coherence is not a notable feature of politics. People’s political views may be rigid but they are not necessarily rigorous. They tend to derive from, or to be reflections of, some mixture of sentiment, custom, and moral aspiration. Trilling’s point is that this does not make those views any less potent in the political world; on the contrary, it’s the unexamined attitudes and assumptions – the things that people take to be merely matters of manners or taste, and nothing so consequential as political positions – that require and repay critical analysis. “Unless we insist that politics is imagination and mind”, as he puts it in his essay on Partisan Review, “we will learn that imagination and mind are politics, and of a kind we will not like.”

 

In Trilling’s view, the assumption all liberals share, whether they are Soviet apologists, Hayekian free marketers, or subscribers to Partisan Review, is that people are perfectible. A liberal is someone who believes that the right economic system, the right political reforms, the right curriculum, the right psychotherapy, and the right moral posture will do away with unfairness, snobbery, resentment, prejudice, tragic conflict and neurosis. A liberal is a person who thinks that there is a straight road to health and happiness. The claim of The Liberal Imagination is that literature teaches that life is not so simple – for unfairness, snobbery, resentment, prejudice, tragic conflict and neurosis are literature’s particular subject matter. This is why literature has something to say about politics.» 

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publicado às 12:22

Brutti, Sporchi e Cattivi

por Fernando Melro dos Santos, em 06.11.12
Almada, 11h00. Carros mudam de faixa acelerando, travando, guinando, marcando o asfalto. Condutores com muita pressa, indo a lado algum.

Palmela, 08h05. Condutores com o campo de visão estrangulado em pináculos de estupidez. Carros que entram nas rotundas a direito, desafiando quem lá circula.

A vida é um erro de paralaxe.

Setúbal, 18h15. Minipreço. Pessoas que envergam a mesma roupa de toda a semana, comprando a medo, alheias ao próprio cheiro. Funcionários por quem só pode sentir-se simpatia, não pela amabilidade mas antes pela aura de total e insanável esgotamento com que se aguentam de pé, hirsutos à terça-feira, registando, entregando trocos.

Saio com as compras e posto-me uns metros adiante para tirar uma foto a qualquer coisa em que reparo. Sinto uma pancada no lombo e passa por mim uma senhora, cinquentas, pequena, sixpack de leite magro na mão direita e um saco na outra. Digo alto, "perdão!", e depois penso que talvez seja chinesa, por não acusar qualquer efeito do som que emiti e por estar, quiçá, habituada a dar encontrões a transeuntes em Nanking ou noutro antro qualquer de formigas. Mas não, a dez segundos de onde me encontro a pessoa estaca, pousa o fardo e vira-se, distante de toda a minha realidade, e abre a porta de um carro. Tornar-se-à uma condutora dentro de breves instantes. Circundará rotundas, sem medo de levar encontrões por saber que também ali quem passa primeiro passa melhor. Para lado algum.

Potente veneno esse que tolda a natural tendência humana para a evolução, produzindo criaturas simiescas em vez de gente.

Ainda consigo ter paciência para apreciar outros dois ecos na memória recente: os artistas estão preocupados por ja não haver quem lhes pague espectáculos. O que faz o violinista ao cair das moedas? E haver quem diga que o dinheiro não lhe chega, despachando quotidianamente sessenta cigarros, cinco quilos de comida para cão, encargos com três carros, ginásio para toda a família, cabeleireiro em semanas ímpares, e o que mais a estrada oferecer.

Não tenho pena nenhuma de Portugal.

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publicado às 21:32

O capitalismo é inerente à condição humana

por Samuel de Paiva Pires, em 22.08.11

Um excelente post do João Távora:

 

«Há quase quatro anos que o liberalismo foi julgado, culpado e anunciado em extinção, apesar da crise ter sido causada em boa parte pelo socialismo europeu e seus congéneres americanos que, com a ajuda dos bancos, despejaram dinheiro sobre o povo como se não houvesse amanhã. Hoje, os mesmos arautos anunciam, alto e bom som o fim do capitalismo, um Wishful thinking da canga revolucionária pseudointelectual dominante.

Eles não aprendem. O fim do capitalismo é um pouco como o fim do mundo: estão condenados a acabar ao mesmo tempo. Porque o capitalismo é intrinsecamente humano, inseparável da liberdade, condição essencial da sobrevivência da espécie. Acontece que o homem, e por inerência o capitalismo são senhores duma extraordinária resiliência: adaptam-se para sobreviver. O mundo não acaba amanhã: por muito que nos custe, temos é muito que padecer e batalhar. É a nossa condição.»

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publicado às 23:01






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