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As câmaras ardentes de Portugal

por John Wolf, em 13.08.13

Porque são as câmaras municipais tão apetecíveis? Porquê é que sentimos tamanha agitação em torno da autarquia? Querem uma fotografia rápida da câmara? Se existe um animal selvagem que também pode concorrer na categoria de mascote da prevaricação política em Portugal, esse bicho é o presidente de câmara e os seus associados. A explosão de alegria que se fez sentir com o desmoronamento do antigo regime e a instalação da Democracia, foi acompanhada pelo fenómeno de disseminação do poder, pelo esfregar de mãos daqueles ávidos por saquear a coisa pública para benefício próprio. As câmaras municipais obedecendo a esse princípio de dispersão de autoridade e administração, foram a fachada perfeita para colocar em campo as preferências locais. Funcionaram como uma camorra desprovida de sangue e suor, mas que são responsáveis por uma torrente de lágrimas, a lamentação daqueles que ficáram a arder. De norte a sul do país, a devassa passou de licenciamento em licenciamento, de director municipal para director municipal, de empresário amigo para familiares, de tias e enteados para afilhados do mesmo conluio de interesses. Ora era um irmão de um presidente de câmara que de repente viu o seu projecto urbanístico aprovado em sede de assembleia municipal, ora era uma adjudicação de um contrato milionário para recolha de lixo à empresa de um compincha que apoiou a campanha - os favores são para se debolber. É isto que está em causa no descalabro nacional, a institucionalização da corrupção em doses maciças, sem vergonha ou pudor. As sentenças transitadas em julgado que serviram para condenar autarcas foram também parar à câmara - à câmara frigorífica-, onde as consequências efectivas pela prática de ilícitos foram congeladas numa espécie de morgue da irresponsabilidade. De um modo geral, salvo raras e deficientes excepções (não se esqueçam de Santana Lopes que saltou da Figueira para fazer figura de banana enquanto primeiro-ministro de Portugal), a câmara municipal é um destino final, a última morada de pseudo-políticos ao serviço de uma falsa nação que faz fronteira com o concelho seguinte que professa a mesma religião de engano e desvio. No patamar político da câmara municipal foi sendo possível passar despercebido, e, quando as falcatruas foram destapadas, houve quem já desse uns passos de samba lá para os lados do Rio de Janeiro. Porque é que mais de setecentos marmanjos colados em outdoors de cores duvidosas querem estender-se ao comprido na câmara? A resposta é simples; é uma profissão muito bem remunerada. As prestações extraordinárias, fora de portas e horas, são pagas a peso de ouro, com créditos para esquecimento futuro. De uma assentada é possível envolver a aranha e a teia de interesses e esperar pelo silêncio dos outros nas horas difíceis. Estão todos enleados, com a corda pelo pescoço, mas não parece. Por esta e outras razões, Portugal está a passar as passinhas do Algarve há muitos anos e não apenas em Agosto. As câmaras são ardentes. E estamos de luto enquanto não chegam os senhores que se seguem.

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publicado às 13:24






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