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O Cacete do Vilão

por Nuno Castelo-Branco, em 20.06.09

 

 

Para um inveterado leitor e diletante interessado pelas coisas da história, nada melhor existe, que  aquela documentação propiciada pela mão dos autores de factos mais ou menos distantes  que conformaram ao seu tempo, a vida e a morte de nações.

 

As cartas, os diários e as entrevistas, são testemunhos preciosos para uma avaliação independente de condicionalismos ideológicos e típicos da formatação das sempre passivamente receptoras mentalidades das massas.

 

É sempre um prazer conhecer através das palavras do próprio, factos que de outro modo teriam sido filtrados pelas imperiosas necessidades dos senhores de uma dada situação. É assim que a grande História invariavelmente nos apresenta um arrazoado de fábulas, trechos censurados, fotografias retocadas ou ainda pior, abusivas interpretações ao sabor dos desígnios de legitimização de quem pode e manda. Neste longo processo concomitante com a propaganda, tínhamos até há bem pouco tempo, uma total hegemonização da uma certa forma de interpretar os factos, sempre tendente à valorização de aspectos quantificáveis, anónimos e por óbvia regra colectivos, em detrimento de uma personalidade genial, do escol que liderou ou até, daqueles impulsos e sentimentos que não se baseando no mero aspecto contabilístico da vida, impeliram povos  e nações em direcção à merecida imortalidade de um momento único. Quantos de nós foram forçados a ouvir intermináveis lamúrias dos analles, em que um soberano da dimensão de Carlos Magno era esquecido em benefício da gloriosa luta de uma coorte de ceifeiras de Aachen, oleiros de Ratisbona, oxigenadas barregãs de Veneza, ou cardadores da Nêustria?

 

Quem tenha vivido o chamado período do PREC, jamais terá honestamente acalentado qualquer tipo de ilusões relativas às personagens activas na condução do país. Existem milhares de testemunhos - alguns deles imortalizados pela RTP - onde a ignorância, a prepotência, a mais chã boçalidade se aliavam claramente à cobarde traição, vaidade ou mais abstruso alarde do orgulho pela própria estupidez.

 

O caso Vasco Lourenço, fala por si. Personagem incapaz de pronunciar uma frase sem a entremear de pás, okays ou gajos, tem aquele inconfundível tipo de fácies escolhido por Paula Rego, Goya ou Daumier e que a ninguém faz adivinhar um homem de Estado, escrupuloso dos seus deveres e desinteressado do seu próprio ser, no esperado sacrifício em prol dos seus. Não se trata aqui de acintosamente criticar o aspecto físico da coronel, nem sequer a forma abrupta e arrogante com que encara todos os outros que pensa estarem ao seu redor numa situação de inferioridade. Napoleão era feio, fisicamente grosseiro, de um insuportável temperamento de agressividade pesporrenta, mal-criado e muitas vezes mesquinho, mas tal não invalida o facto de ter sido - e ainda é - um dos grandes homens da História. A sua carreira e o legado, são o testemunho ainda visível da sua genialidade.

 

Nada melhor existe para caracterizar um regime num dado momento, senão a conscienciosa e atenta escuta ou leitura dos testemunhos propiciados pelos seus protagonistas. Tal como a 1ª república pode ser perfeitamente escalpelizada por alguns milhares de linhas escritas por João Chagas - os Diários - ou José Relvas - as Memórias -, hoje o Expresso satisfaz plenamente a curiosidade pública, ao dar à estampa um comentário enviado pelo coronel Costa Martins, exumando os ecos da entrevista dada por Vasco Lourenço a Maria Manuela Cruzeiro. Não valerá a pena  proceder a um exaustivo currículo de Costa Martins, pois na memória de todos os que viveram o período de 1974-76,  para sempre ficará apenas, como o "tal ministro do Trabalho que fugiu com os salários do dia de trabalho oferecido ao país". Deve consistir numa torpe atoarda, uma daquelas calúnias que as revoluções prodigamente produzem  durante o afã do acerto de contas entre os seus coriféus e que que zoologicamente surge sempre na figura daquela serpente que gulosamente devora a sua própria cauda. Nada de novo. 

 

O coronel V. Lourenço, ainda se considera como um dos grandes da nação, a avaliarmos as suas rotineiras prestações junto da comunicação social. Fala sempre no (seu) passado e mostra um supino desprezo por aquele oficialiato superior ao qual aliás, jamais conseguiu de motu proprio ascender. As constantes mofas e falta do respeito hierárquico devido a um general ou a um almirante, denotam bem aquilo que todos adivinham e num meio restrito e profundamente codificado como as Forças Armadas, podemos imaginar o efeito desmoralizante ou de contida revolta que uma ou outra parvoíce pública deverão provocar.

 

De Vasco Lourenço, Costa Martins nada diz que nos surpreenda, pois o país que interessa já há muito se apercebeu do ..."exacerbado egocentrismo e à sua desmedida megalomania, parecendo usá-los como capa para mascarar as suas frustrações. Nem tem o direito de denegrir o bom-nome e a honra dos seus camaradas militares, com invencionices, deturpações e manipulações de factos, mentiras e calúnias, espezinhando tudo e todos, muitas vezes dissertando sobre o que não sabe, ou não conhece, e atraiçoando a própria História do país". Pela caneta de Costa Martins, ficámos ainda a saber que o dito e pastoso herói inflaccionou grandemente a sua participação no 25 de Abril e que naquilo que respeita aos seus colegas militares, os definia como tontos, cobardes, pobres diabos, actores de palco - devia estar a referir-se a Otelo -, bluffs, cambada de incompetentes, inúteis e imbecis. Enfim, um chorrilho de lugares comuns ou nada que não soubéssemos e tivéssemos provado até à saciedade. Mas o mais interessante e já no período da "revolução", consiste nos ardilosos processos de luta pela evidência e vaidade na exibição do poder - que de facto não existia - e onde se usaram todo o tipo de recursos onde medraram a baixeza moral, a mais reles intriga, o engano e a reserva mental, ditando o rumo dos acontecimentos que destruíram um Império, atraiçoaram milhões de indefesos e condenaram outros tantos à vergonha da inacção. 

 

Não existe uma única linha onde se vislumbre um resquício - na verdade impossível - de grandeza numa atitude, num dito, ou num pensamento. Compreende-se, pois naquele meio de beneficiários de economato, jamais existiu a mais leve suspeita da existência do recurso aos anéis-caixa de venenos dos príncipes florentinos. Para esta gente, os pais da situação, ficou reservado o inseparável e seboso cacete do vilão.

 

Leiam o Expresso. O seu ao seu dono. 

 

* Como texto complementar, "O Preço de não Recuar", do João Gonçalves.

 

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publicado às 15:14





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