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Pensava eu que Portugal era um país laico. Que a separação entre o Estado e a Igreja estava constitucionalmente consagrada. Acho irónico que o bispo das forças armadas venha a público professar a sua fé na queda do governo. O mesmo bispo deveria servir-se do mesmo confessionário para elencar todos os males da nação e sem excluir nenhuma cor política. Nessa visita crítica ao país deveria recuar aos primórdios das prevaricações e incluir a Inquisição, os governos socialistas e certas presidências da república. Pelo tom da sua missa, os pecadores que votaram no presente governo não são bem-vindos na sua paróquia. Do alto da sua torre de marfim pode espernear à vontade, mas talvez seja sensato substituir o telhado de vidro do seu estabelecimento por uma outra cobertura. Quando se agita o cocktail de política e a igreja católica os resultados podem ser amargos. Em plena época de escandaleiras e castelos que desmoronam, não me surpreenderia se os dinheiros religiosos começassem a ser escrutinados. Sabemos todos que o próprio processo revolucionário em curso, que teve a participação de forças mais ou menos ocultas (por exemplo, a mãozinha dos americanos), foi "condicionado" pela canalização de dinheiros de reacção através da porta da capela. Januário Torgal Ferreira também faz parte do governo. Do governo que opera na sombra de um conceito de impunidade e imunidade. O debate sobre fiscalidade e a Igreja católica deve vir a lume sem demoras, assim como a clarificação de todos os crimes e abusos sexuais cometidos por ministros e padres dessa fé. Apenas um homem de consciência totalmente tranquila pode adiantar-se e postular os caminhos da ressurreição política. Não sei se D. Januário preenche os requisitos.

publicado às 09:34

1 - Como agnóstico, ou seja, não sendo católico, avalio D. Januário como cidadão, não como membro da Igreja - tal como salientou José Adelino Maltez

 

2 - Quanto à forma, discordo e critico o tom incendiário das afirmações de D. Januário. Quanto ao conteúdo, acho que o erro capital foi ter generalizado, em vez de dirigir a crítica. Há quem diga que tem que apresentar provas do que diz. Há um problema que não sei se será exclusivo de Portugal, que é o de toda a gente saber um pouco da vida de toda a gente, mais precisamente, de cunhas, negociatas e afins. Por não se ter provas (num sentido jurídico), não se pode falar nisso? Queremos mesmo enveredar por uma judicialização da política e desatar a entupir tribunais com processos por difamação? Eu prefiro jogar no campo da sociedade e do combate político, crendo que, quando determinadas opiniões são manifestamente exageradas e até patéticas, quem se descredibiliza na opinião pública é o próprio opinador, o que já é castigo suficiente. Por outras palavras, é a ordem espontânea e a selecção natural aplicada à credibilidade dos opinion makers.

 

3 - Há quem aponte a hipocrisia de D. Januário, ao não se ter manifestado em relação ao anterior governo da mesma forma. Claro que é uma barbaridade dizer que os socráticos eram anjinhos se comparados com os actuais, e claro que há uma certa hipocrisia. E também há uma certa hipocrisia em certa esquerda anticlerical, que quando lhe dá jeito já gosta dos homens da Igreja.

 

4 - Há quem exija moderação e até silêncio a D. Januário, em virtude da posição que ocupa de Bispo das Forças Armadas. Ora, como o mesmo apontou e bem, "Aguiar-Branco não é meu superior nem meu ministro." Mais, também não é militar, mas mesmo que fosse, importa salientar que as Forças Armadas devem lealdade ao Estado e à Pátria, não necessariamente ao governo. E mesmo quem seja militar, o que obviamente implica constrangimentos em relação a opiniões políticas, não deixa de ser um ser pensante, que naturalmente observa o descalabro a que vários governos nos trouxeram. As sociedades livres funcionam como panelas de pressão, e quiçá D. Januário serve como válvula de escape daquilo que muitos militares gostariam de dizer e não podem.

 

5 - Prefiro homens de convicções, ainda que discorde deles, ao cinzentismo que tanto nos tolhe. Subscrevo estes dois posts do Professor Maltez:

 

«D. Januário, visto por Aristóteles: a voz do homem não se reduz a um conjunto de sons. Não é apenas simples voz (phone), não lhe serve apenas para indicar a alegria e a dor, como acontece, aliás, nos outros animais, dado que é também uma forma de poder comunicar um discurso (logos). Graças a ela o homem exprime não só o útil e o prejudicial, como também o justo e o injusto. Como dizia Fénelon, "em Atenas tudo dependia do povo e o povo dependia da palavra". Nesta democracia também. Obrigado D. Januário, pela palavra, a que apenas se pode responder com outra palavra. Para podermos continuar a ser animais políticos, isto é, animais de discurso, que, muito siomplesmente, significa razão.»

 

«Mais dialéctica. Porque D. Januário não é propriamente a caricatura do peixinho vermelho em água benta. É um ortodoxo que fala politicamente, da mesma maneira que o Padre Américo escrevia com obras, denunciando com clamor e indignação dizendo em voz alta o que muitos outros apenas vão passando, de ouvido em ouvido.»

 

Leitura complementar: D. Januário, a Relvas School of Political Science e os tiques salazarentos que teimam em não desaparecerSobre D. Januário escreverei mais logo

publicado às 13:33

Sobre D. Januário escreverei mais logo

por Samuel de Paiva Pires, em 18.07.12

Camus: «A liberdade é poder defender o que não penso, mesmo num regime ou num mundo que aprovo. É poder dar razão ao adversário.»

 

Voltaire: «Discordo daquilo que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito de o dizeres.»

 

Chomsky: «Se não acreditamos na liberdade de expressão para pessoas que desprezamos, não acreditamos nela de todo.»

publicado às 10:53

Coisas que aprendemos hoje (ontem) com pessoas da Relvas School of Political Science que detêm opiniões sobre os dois assuntos que se seguem: um bispo das Forças Armadas, ainda que desbocado, não pode exercer a liberdade de expressão, parecendo as suas afirmações, ainda que descabidas, um crime de opinião passível de punição exemplar. Já um Ministro pode fazer ameaças a jornalistas e ser um trapaceiro no que diz respeito ao currículo académico que não há problema algum - vai na volta e isso até é revelador de nobres traços de carácter. Como eu gostava de conseguir sondar os misteriosos critérios que presidem aos juízos de valor de certas cabecinhas...

 

Entretanto, Manuel António Pina é simplesmente certeiro:

 

«A reacção do ministro Aguiar-Branco, tomando as dores dos "alguns" a quem D. Januário insistentemente se reporta, traiu-o: mandou o bispo escolher entre "ser bispo (...) e ser comentador político". O mesmo que Salazar queria que D. António Ferreira Gomes fizesse.»

publicado às 01:17

O Bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, diz uns disparates contra o governo. No dia seguinte, o Correio da Manhã divulga que o Bispo aufere 4400 euros por mês, mostrando o conluio em que os jornalistas andam com o poder, servindo-se de informações pessoais para ataques ad hominem. Sou só eu a achar que isto é nojento?

publicado às 13:49






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