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Elmo de D. Sebastião regressa a Portugal

por Nuno Castelo-Branco, em 09.02.11

Notícia publicada no blog Família Real Portuguesa

publicado às 11:00

Alcácer Quibir, 4 de Agosto de 1578

por Nuno Castelo-Branco, em 04.08.08

 Alcácer Quibir é para os portugueses, o acontecimento que simboliza o desastre supremo que conduziu o país para o inevitável e indesejado desaparecimento como entidade independente.  Numa história  quase milenar, a batalha é ainda nos nossos dias, um marco que concita o interesse e estudo da época em que se travou e consequentemente, suscita paixões, alimenta rivalidades anacrónicas e é seguro manancial de ingressos para os editores que publicam obras a ela dedicadas.

 

O que parece ser claro para todos, consiste no facto de a partir de 4 de Agosto de 1578, Portugal ter dado por finda a tentativa de penetração no reino xerifino, desistindo de um hipotético Algarve de Além Mar que engrandeceria o reino e a Cristandade.  Ceuta, Tânger ou Mazagão, permaneceriam durante algum tempo como possessões da coroa portuguesa, mas sem a verdadeira expressão de polos dinamizadores de testas de ponte para futuras expedições de conquista e ocupação de Marrocos.

 

Um dos aspectos geralmente menosprezado por muitos, é a não exclusividade  do ímpeto expansionista português naquelas paragens, pois anteriormente, o avô do rei D. Sebastião - Carlos V do Sacro-Império e I de Espanha -, ter organizado expedições às principais cidades portuárias  do norte de África, onde a epopeia da campanha de Tunes - na qual os portugueses participaram de forma ostensiva -, preencheu o imaginário de uma importante camada da população da Europa que nesse momento estava directamente ameaçada pelo avanço terrestre otomano em direcção às planícies da Hungria e no mar, às Colunas de Hércules, a porta do Atlântico. A fervilhante actividade da pirataria barbaresca que mantinha laços de vassalagem com o sultão de Istambul, perturbava a segurança do comércio que se alargara a todos os oceanos do planeta, mercê da inauguração da época das grandes descobertas portuguesas - e mais tarde espanholas -, da alvorada do século XV. A insegurança das rotas marítimas mediterrânicas, ocasionará a progressiva transferência das praças comerciais e financeiras para a orla do Atlântico, onde Lisboa e as cidades da Hansa e das imediações do Canal da Mancha, substituem os ameaçados empório italianos de Veneza, e Florença, já em lento mas irreversível declínio.  Os reinos cristãos, onde o Império vivia a hora da união pessoal com a Espanha recentemente unificada por Fernando e Isabel - os Reis Católicos -,  reagem na medida das possibilidades oferecidas pelos hiatos que ocorrem episodicamente entre uma ou outra guerra com a França que se expande em direcção ao Reno, ou por provisórias tréguas entre as potências cristãs que encontram na Reforma, um novo pretexto para a luta pelo engrandecimento territorial, firmar de independências relativas à vaga suserania do imperador e consolidação do poder e das finanças dos príncipes da Era Moderna. A Santa Liga  que sai vitoriosa de Lepanto, insere-se nesta tentativa de contenção da invasão turca e muçulmana do Ocidente  e na liquidação do despontar de uma talassocracia que conduziria a um novo e prolongado período de fecho do Mediterrâneo à livre navegação e progresso mercantil que décadas antes, despoletara a riqueza na península itálica, irradiando o experimentalismo, a nova arte da Renascença e as inéditas concepções de organização dos Estados, para toda a Europa ocidental e do norte.

 

Paralelamente ao nascer desse mundo novo que conhecia novos continentes, navegava em novos oceanos e via estrelas até então ignoradas, continua a persistir o espírito cavaleiresco de antanho, onde a honra, a glória  que se encontrava na rija e leal peleja entre iguais, mitigava a rudeza do som do metal das moedas que eram agora o centro das atenções de todos os agentes políticos que conformavam e confirmavam a vertiginosa ascensão de uma burguesia enriquecida que almeja exercer directamente o poder do Estado, ligando-se à velha nobreza da terra, da vida militar e do funcionalismo do Paço.  Em pleno século XVI, veremos Francisco I de França e Henrique VIII de Inglaterra no campo de justas do Drap d'Or, onde alianças de ocasião se gizavam, tendo como pano de fundo o cumprimento do ideal de cavalaria dos seus maiores. É a época das espectaculares armaduras alemãs, executadas por artesãos que a pretexto das necessidades de protecção militar, exaltavam o príncipe à semelhança dos deuses pagãos da desaparecida Roma imperial e pré-constantiniana. Assim, as encomendas a armeiros como Seusenhofer de Insbruque, Kunz Lochner de Nuremberga ou Anton Peffenhauser de Augsburgo, evidenciavam o esplendor  do reencontro do luxo que prestigiava Estados e príncipes, numa silenciosa procura da proeminência. Aliás, D. Sebastião usou uma rutilante armadura cerimonial de Peffenhauser - presente hoje na coleção da Real Armeria de Madrid -, profusamente decorada com motivos alegóricos e até pouco consentâneos com a figura do monarca paladino da Cristandade (ver imagem alusiva a este texto).

 Este revivalismo medievalesco tem sido uma constante nas sociedades europeias, pois reemerge periodicamente, adaptando-se ao gosto de um dado momento histórico e social e em conformidade com o rescaldo de turbulentas épocas de profundas e revolucionárias mutações políticas, sociais e económicas. Assim, em pleno século XIX da Revolução Industrial, assistimos à construção de novas catedrais ao gosto gótico e as casas abastadas decoram os salões com mobiliário pastiche daquilo que julgavam ter sido, uma agora longínqua época de ideais nobres e estrita moral cristã. Por toda a Europa erguem-se novos e fantasiosos castelos de torres altaneiras, onde em grutas com lagos artificiais, os anfitriões deslumbram os convidados com curtos passeios em luxuosos batéis que remetem para os tempos arturianos. Os artistas enchem telas com imagens de Ophelia, Joana d'Arc e temática de cariz historicizante, onde o chamados pré-rafaelitas dão largas à imaginação daquilo que entendiam ser o mundo nebuloso e sagrado da cavalaria. Em Portugal, a influência do rei romântico Fernando II de Saxe-Coburgo-Gotha, vinca entre nós o pendor medievalizante que Herculano também exaltara - e por vezes abusivamente interpretara - nas letras. Nos anos trinta do século passado, a Europa viveu um conturbado período de reordenamento das hegemonias e na Alemanha, surgem movimentos onde o ocultismo se conjuga com o apelo aos grandes mitos pré-cristãos, amalgamando-os com o legado medieval do antigo I Reich. Um dos paladinos de Hitler, o chefe da Ordem Negra, Heinrich Himmler, patrocina e financia a demanda de um nebuloso passado perdido e reconstitui a Távola Redonda, agora imbuída do espírito rácico e secretista do nacional-socialismo. Uma grande mesa num reconstruído castelo ao gosto da "época das trevas", um complexo cerimonial iniciático e a Nova Bíblia do Reich, o Mein Kampf, consagram este assumido desejo de regresso ao passado de uma sonhada Idade do Ouro que regressaria como obra do ferro e do sangue dos puros e novéis Cavaleiros Tetónicos, agora montados em corcéis de aço e com as lanças substituídas por canhões.

 

A batalha de Alcácer Quibir pode também ser considerada, como a primeira tentativa consistente de modificação do eixo de intervenção portuguesa na geopolítica mundial, num momento em que despontam potenciais rivais ao predomínio luso-espanhol das grandes rotas de comércio marítimo. O comércio oriental triangular, as grandes distancias a percorrer por frotas que enfrentam todo o tipo de mortais perigos e finalmente, os escassos recursos demográficos de um reino que não podia almejar a uma conquista territorial no subcontinente indiano, ou mais para leste, no Império do Meio, consistiram em factores não negligenciáveis para a viragem nas prioridades portuguesas, onde o Brasil, pelo seu gigantismo e já suspeitado potencial como base de fixação de gentes geradoras de riqueza, carecia de uma decidida política de ocupação da costa e do reconhecimento do hinterland. Paralelamente, as necessidades da navegação e o comércio africano, impunham a manutenção dos entrepostos que desde as portas do Mediterrâneo - Tânger e Ceuta -,  até S. Paulo de Luanda, pontilhavam toda a costa ocidental do continente negro, fazendo do Atlântico Sul, um lago português durante as derradeiras décadas de quinhentos. À época, já há muito eclodira a revolta holandesa contra o domínio espanhol e a aliança das potências do norte  protestante - Inglaterra, Países Baixos e mais para leste, a Dinamarca e a Suécia -, podia num futuro não muito longínquo, ameaçar o monopólio ibérico das riquezas propiciadas pelos novos mundos recém-descobertos ou conquistados. Na opinião de alguns historiadores e economistas, Marrocos surge também como um fértil terreno propício ao fornecimento das necessidades cerealíferas de Portugal e até, do conjunto peninsular, mas o aspecto estratégico-militar deverá ser considerado como a razão primeira da passagem a África, há muito anunciada desde os tempos de D. Manuel I e de D. João III.

 

A personalidade do rei é um vasto campo de suposições  muitas das vezes em absoluta e mútua dissonância. A sua educação e o importantíssimo legado cultural e espiritual do passado da sua grei, davam-lhe o pretexto ideológico para a decidida intervenção em Marrocos, no preciso momento da grande viragem e deslocação da política portuguesa - até aí centrada no Índico e Pacífico Ocidental - para o Atlântico.

 

É este o verdadeiro contexto a considerar para o apuramento das causas de Alcácer Quibir e das incógnitas inerentes, que para um mero exercício de história comparada, possamos hoje estudar.  Se a batalha conduziu a uma momentânea perda da independência nacional - aliás mitigada pela existência de jure de uma Monarquia Dual, historicamente apanágio da Casa de Áustria -, marcou também o progressivo desvanecimento dos fumos dos incensos e perfumes indianos, substituídos pelas novas preciosidades da economia Moderna, como o açúcar, as madeiras e os metais do verdadeiro El Dorado lusitano, o Brasil.

 

Como episódio militar, Alcácer Quibir continuará a suscitar ao longo dos séculos, a controvérsia própria dos grandes acontecimentos. Se foi mal conduzida e organizada, se obedeceu a uma errónea desadequação do planeamento e movimento militar num ambiente hostil e de  clima e topografia adversos, isso é o objecto reservado à especialidade das academias castrenses, pois os seus pressupostos são ainda hoje repetíveis por animosos e talvez bem intencionados novos cavaleiros. Mas isso é outra história.

 

 

publicado às 22:47






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