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A sagração da alergia

por John Wolf, em 06.05.14

A dona flor não tem amores, viaja na corrente de ar à procura de um sinal, a sinusite disponível para parodiar a dor. A sagração da alergia faz ecoar tons, dores lancinantes para uns, leve comichão de elefante para outros. A alergia desenha arcos temporais, do alto do céfalo acorda o olho e desce à cave do maxilar inferior. Lembra mistela diversa, falsas analogias - os pólens e a política não fazem parte do mesmo universo. Nada melhor que clonix - e fica o assunto arrumado -, um ou dois comprimidos conforme as noivas. De miserável, à beira de um fim de aprumo, passo a majestoso sobrevivente de uma armada histamínica. E não é nada. E não é mesmo nada. Não é o mesmo nada que valha a pena mencionar. Nada se passou enquanto lá fora tudo se passa. O digno de nota espojado na cartolina de um vão de escada, pobre, a alma arqueada pelas tenazes que apertam. Sou um pseudo-lastimoso, reclamante pela diminuta dose de mal-estar. Eles sim, os caídos em desuso, padecem de dor transcendental. Sentem-na, mas os que passam e os fitam, apenas tiram as medidas de uma estimativa, uma ideia escassa que não chega a ser dor vaga. Não imaginam. Nem imagino. Há muito que não conhecem as receitas. As da cozinha e as do consultório. Há muito que nunca viram a cadeira reclinante do dentista. E foi há tanto tempo que a mãe passou a mão pela fronte e depois pela fronha para aconchegar uma noite ao luar. A alergia vai nos idos de Junho. Os outros deixam-se estar. Não têm remédio.

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publicado às 14:10

Hipotética Epístola do Adeus

por Fernando Melro dos Santos, em 26.05.13

Tu,

 

Não sei porque me dou ao trabalho de escrever-te.

 

Nestes anos fomos do puro Céu ao viperino Inferno. Tu não dominas o teu feitio. Eu sinto que não me mereces. Tu esperas do alto das tuas certezas que o caminho te seja dado de bandeja, com os caminhantes laudando-te os passos com vénias. Tiveste-os e assim os esbanjaste, a todos sem excepção.

 

Onde havia o desejo e a paixão que me fizeste sentir, salvando-me, ou a ambos, de um destino igualmente mau mas precoce, eu impossibilitado pelos abusos que fui engolindo deixei crescer o carinho, o afecto, a protectividade, a promessa eterna de que os meus dias seriam teus.

 

Não te bastou, como nunca te basta, porque a razão para que nunca peças desculpa é, naturalmente, que só pedes quando achas que deves pedir.

 

Não há volta a dar, nesta nossa última fase eu esperava de ti o que nunca foste capaz de edificar comigo ou com qualquer outra pessoa: a humildade de perceber que o tempo nos leva avanço, que nos dias - quentes ou frios - ter alguém que um dia escolhemos e que se dispõe a finar-se ao nosso lado de peito cheio por ver, na derradeira hora, o rosto amado, isso é impagável.

 

Não se retribui com arremessos escarninhos meia década de verdadeiro sacrifício em nome dos teus desígnios juvenis e malabaristas. É de mau tom.

 

Apesar de tudo, quando saíste ainda diria a quem me perguntasse: sim, claro que a amo. Depois de ouvir na tua voz, hoje, o que ouvi, não poderia sequer pensá-lo.

 

Mas gosto muito de ti, apesar de saberes tão bem como eu que nos pratos da Grande Balança o lote dos estragos causados a todos é da tua quase exclusiva responsabilidade. Não tive forças para apascentar o teu carácter recalcado e controlador. Quis ser aquilo com que sonhavas, e tornei-me uma sombra daquilo com que sonhei.

 

Só te quero Bem. De uma forma muito especial poderás sempre contar comigo, ainda que possas pretender estraçalhar-me em nome dessa ilusão de independência e de juventude que te persegue desde aquele ano do qual nem tu, nem eu, nada percebemos. Um beijinho sincero de boa noite e de boa sorte.

 

Tentei prover ao teu contento. Quiseste outra forma de felicidade. Não nos sentaremos juntos no banquinho que trouxemos, juntos com os nossos braços, quando a pele se enrugar, e já ninguém, filhos diletos da nossa erosão ou queridos amigos que nos dizem aquilo que queremos ouvir, vier contar-nos pela enésima vez a história do homem que foi atropelado em frente ao quiosque.

 

Mas eu, que em ti só procurei sorrisos, sentar-me-ei nele como se estivesses ali, sempre e para sempre, como no dia em que o trouxemos.

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publicado às 15:15

Do sentido da vida (5)

por Samuel de Paiva Pires, em 29.01.13


Albert Camus, A Peste:


«Ao meio-dia, hora gelada, o médico, que saíra do carro, olhava de longe Grand, quase colado a uma montra cheia de brinquedos grosseiramente esculpidos em madeira. Pelo rosto do velho funcionário, as lágrimas corriam sem interrupção. E essas lágrimas perturbaram Rieux, porque as compreendia e as sentia também no fundo da sua garganta. Também ele se lembrava daquele infeliz noivado, em frente de uma loja de Natal, e de Jeanne voltada para ele para lhe dizer que estava contente. Do fundo desses anos longínquos, no próprio coração desta loucura, era certo que a voz fresca de Jeanne voltava até Grand. Rieux sabia o que pensava neste minuto aquele velho, que chorava e julgava, como ele, que este mundo sem amor era como um mundo morto e que chega sempre uma hora em que nos cansamos das prisões, do trabalho e da coragem, para reclamar o rosto de um ente e o coração maravilhado da ternura.»


Leitura complementar (posts desta série): UmDoisTrês; Quatro.

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publicado às 20:21

(imagem tirada daqui)

 

Peter Singer é, alegadamente, um utilitarista, sendo, inegavelmente, um dos filósofos contemporâneos mais respeitados. Contudo, defender a esterilização da humanidade por via a alcançar a extinção, justificando tal ideia com o facto de as próximas gerações virem ao mundo para sofrer, colocando as questões Is life worth living? Are the interests of a future child a reason for bringing that child into existence? And is the continuance of our species justifiable in the face of our knowledge that it will certainly bring suffering to innocent future human beings?”, parece-me uma idiotice de quem já chegou a um patamar em que se pode dar ao luxo de dizer o que bem lhe apetecer.

 

Para mim que, entre as várias influências, tenho uma inspiração randiana, a vida humana é o principal valor. E é inviolável. Creio que para a maioria das correntes filosóficas e religiões se aplica o mesmo princípio. O sofrimento continuará sempre a existir. A dor continuará sempre a existir. Aliás, é parte inegável da vida. Além do mais, é impossível afirmar com toda a certeza que as futuras gerações terão uma pior qualidade de vida que as presentes.

 

Ironicamente, ou não, Singer revela, nesta posição, aquele que é precisamente o principal problema do utilitarismo. Este, tem por objectivo a procura única e exclusiva da felicidade, por via de decisões racionais e utilitárias que visem maximizar o bem-estar - como se fosse possível eliminar definitivamente o sofrimento e a dor. Isto é impossível de alcançar na sua plenitude. Porque não somos completamente racionais e porque por mais cálculos utilitários que se façam, é praticamente impossível determinar qual a escolha/decisão óptima. O utilitarismo, no seu extremo, leva à estagnação e ao niilismo - é este o seu principal problema. No caso de Singer, à defesa da extinção da humanidade.

 

Sou obrigado, portanto, a concordar com Wesley Smith:

 

We have to “justify” continuing the species? Good grief.  Under the influence of anti-human advocates like Peter Singer, we have gone in the West from seeking to “secure the blessings of liberty for ourselves and our posterity,” to seriously questioning whether there should be any posterity at all.  This is not healthy.  But it is the natural consequence of rejecting human exceptionalism.

 

Não deixa de ser um interessante tema de discussão por estes dias. Mais um a juntar ao relativismo moral que grassa no Ocidente.

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publicado às 23:30






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