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Caçadas Alegres no Alentejo profundo

por Nuno Castelo-Branco, em 18.03.09

 

 O Partido Socialista anda todo encanitado com a ameaça Manuel Alegre, o novo bicho papão do ano, o terrível Adamastor da época eleitoral que se avizinha. Não creio que a coisa seja tão séria e assim sugiro uma airosíssima saída para o Secretariado Nacional do PS.

 

Contactem um proprietário de uma grande quinta no Alentejo, de preferência velho "ex-monárquico de cepa", especialmente se for dado a reposteirismos-mor e correspondente abertura de espírito colaborador com a "situação".  Se usa aventais fora da cozinha, melhor. Acordem com ele na organização de um  longo fim de semana de seis meses com um vasto programa de entretenimento. Aqui vai uma sugestão:

 

1. Caçada diária à tapada, com garantido resultado de sucesso, através da prévia e criteriosa selecção das espécies a abater no mais próximo Pingo Doce da área: perdizes, lebres, javalis, ou à falta de melhor, um ou dois frangos do aviário do Freixial.

 

2. Boa pinga (veni, vidi, vinhaça!) sempre à mão. Evidentemente, para que a coisa corra bem e pareça a sério, deve ser vinho Alentejano e de excelente categoria, dado os gostos refinados do bardo dos pobrezinhos. A garrafeira deverá incluir toda uma panóplia de rum, brandy, whisky velho, vodka e para o desjejum quotidiano, Moet et Chandon.

 

3. Trajes em conformidade e naturalmente disponíveis, como que "por acaso".  Botas altas, chapéu com pena ou à Zapata, uma jaqueta com dez bolsos, calça de bombazine castanho terre brulée, cartucheiras, camisa à príncipe de Gales e sobretudo, muita charutaria Cohiba para qualquer eventualidade. Um capote alentejano emprestará alguma autenticidade, podendo encomendar-se  uma dúzia no Rosa e Teixeira ou no Pestana e Brito.

 

4. Gajame sempre a rodar. Vasculhar a imensa lista de disponíveis spinsters da alta, moderadamente benzocas-progressistas, aptas para umas baldocas à volta da fogueira. Duas ou três morenas e a maioria louras após os quarenta, de preferência. Usuárias de jeans  D&G justos, botas com franjas, chapéu à JR,  pulseiras de prata (muitas), baton cor de rosa claro e metalizado. Obviamente, todas elas com três nomes próprios. Por exemplo, Maria de São Patrício e pelo menos seis apelidos (de Bettencourt Cuernavaca y Saavedra Menezes de Cinfães e Vilhena de Portallegre). É claro que para efeitos práticos de comunicação, usar-se-ão os diminutivos adoptados nos anos sessenta, como Xaxão, Chichinha, F'lipa, Nené, Sunsum, Gabi, Janica, Xanica, Chéninha, Anica, Mitó, Patxi, entre outros. Para um perfeito casting, deve dar-se a primazia a habituais usuárias dos genuflexórios da Capela do Rato.

Um dos temas incontornáveis a debater num seminário semanal em cada mês do retiro espiritual, será o da condição feminina, com a criteriosa presença de participantes internacionais, seleccionadas no Elefante Branco, Gallery, Tamila, Dollar, Hipopótamo e como curiosidades extra-catálogo, residentes sazonais do Viking. Os serões poderão ser animados com discos do Leo Ferré, Joan Baez, Edith Piaf (fascista, mas come-se, é francesa...), Juliette Greco, Serge Lama,  Jacques Brel, Zé Mário Branco, António Cília, Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho, Madredeus (monárquicos mas fixes...) Mísia e Bob Dylan. Para deleite das spinster e escondido gáudio dos intelectuais, convém não esquecer uma colectânea com os sucessos do Festival da Canção de antes do 25 de Abril: tudo aquilo que é do Tordo, Tonicha, Simone, Madalena Iglésias. O Eduardo Nascimento não, porque tem reminiscências do pretismo imperialista do Estado Novo.

 

5. Livralhada em barda. Ponderada escolha de clássicos nacionais, alguns franceses do costume (Vitor Hugo, Zola e Sartre, por exemplo), muito revistismo estrangeiro informativo, entrega atempada do Le Monde Diplomatique e do Jornal de Letras.  Não esquecer uma tertúlia quinzenal sobre  a Guerra e Paz do Tolstoi, a Anna Karenina, o Crime e Castigo. Para dar um certo ar de tolerância, é aconselhável uma mão cheia de livros made in USA and UK, especialmente se forem da autoria de Sommerset Maugham, Hemingway e como exorcismo, as fábulas político-sociais de Noam Chomsky. Uma palestra sob o tema "As Vinhas da Ira", condiz perfeitamente no título, com o estado de espírito dos convivas após a degustação das especialidades providas pelo alambique, no diário contexto da animada reflexão acerca do porvir do proletariado europeu. Uma ou duas vezes por semana, a leitura em voz alta de algum "realismo socialista" de Illya Ehrenburg é sempre susceptível de afastar suspeitas de elitismo cortesão.  Cosmopolitismo campestre dá um certo tom de abertura de espírito, bom homenzismo e amiguismo do amiguismo.

 

Nota: Não esquecer uns almanaques do Tio Patinhas na mesinha de casa de banho, mesmo ao lado da sanita. Para leitura prolongada, após os repastos.

 

6. Acendalhas, carvão, meias grossas de lã tricotadas pelas camponesas, umas mantinhas Armani Home para disfarçar o empernanço durante as sessões de baladas, fados e guitarradas. Um ou outro convite ao Fanha, Camané ou Tordo, ajudam sempre a animar as noites de tédio e a recordar o tempo das lutas, das companheiras de clandestinidade para todo o serviço, conspirações no Tour d'Argent, etc.

 

7. Vinte cavalos mansos para as fotos do albúm de souvenirs, quatro ou cinco Land Cruisers  da Rover (verde seco de preferência e previamente enlameados à hora  da entrega), para fazer de conta que são utilitários da herdade.

 

8. Trinta caseiros latagões e sempre nas imediações,  vindos directamente de Lisboa e postos à disposição pelo Ministério da Administração Interna. Com pistolas Sig ou Magnum para afastar qualquer caçador furtivo,  não convidado e previsivelmente fascista.

 

Nota: o prestimoso serviço público será debitado na conta corrente da Comissão para a Comemoração do Centenário da República. Vão ver como ficam desenrascados e se livram dele até 2010!

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