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As grã bestas que chegaram a grã cruzes.

por Nuno Castelo-Branco, em 05.03.09

 

Na imagem, o grupo de comandos portugueses de Marcelino da Mata

 

 A propósito do brutal assassinato de Nino Vieira, convém recordar alguns factos de um passado não muito distante e que para nossa vergonha - de todos os portugueses, sejam eles políticos, militares ou ou gente comum - oportunamente foram relegados para o conveniente tugúrio do esquecimento.

 

Após a independência da Guiné-Bissau (Setembro de 1974), o ajuste de contas do partido pró-soviético PAIGC, fez-se de forma célere e radical, seguindo fielmente a cartilha estalinista dos manuais  onde o terror se torna a arma ideal e total para a consolidação do poder. Desta forma, o regime do senhor Luís Cabral, é responsável pelo assassinato de um monstruoso número de antigos soldados africanos do exército português. Apenas culpados por terem envergado o uniforme da potência de que muitos consideravam ser a Guiné parte integrante, não tiveram o direito a qualquer tipo de julgamento, ou como seria ideal, de regressar aos seus afazeres da vida civil.  As circunstâncias em que ocorreu a matança tem contornos dantescos e bem típicos daquela zona do planeta, onde a vingança sobre elementos de outras etnias  ou tribos, é exercida com o recurso a qualquer forma de tortura prévia. Membros decepados em vida, chacina de famílias inteiras, imolação pelo fogo, eis alguns dos processos detectados neste escandaloso episódio com poucos paralelos na história das nossas forças armadas. Enterrados aos milhares em valas comuns, aqueles que conseguiram escapar a sucessivas levas da morte, foram marginalizados e excluídos da sociedade guineense, conseguindo uns poucos vir para Portugal. Curiosamente, os pressupostos igualitários que deram forma ao novo regime de Lisboa, não incluiu estes homens no quadro da cidadania, deixando-os na miséria e sem sequer reconhecer aqueles que pela sua bravura se distinguiram durante a guerra, recebendo por isso as mais altas condecorações de valor militar. Uma ignomínia tão aviltante, como o sonegar dos bilhetes de identidade portugueses a milhões de infelizes, sem sequer lhes ser dado o inalienável direito a opção. Evidentemente, eram negros e como tal, não contavam para as estatísticas, tornando-se até incómodos para uma situação política que antes do mais procurava afanosamente apagar cinco séculos de um passado para alguns inconveniente.

 

Hoje parece verificar-se a habitual catarse que geralmente ocorre após o desaparecimento de uma figura política incómoda. Se durante anos o nosso país dignamente protegeu a vida de Nino Vieira, hoje, após o assassinato levado a cabo por um grupo de magarefes armados, já podemos ler alguns artigos na prestimosa imprensa portuguesa, apodando o infeliz presidente de "ditador, bandido, corrupto, traficante", etc. É mais uma forma de purgar as responsabilidades, absolutamente semelhante e válida nos seus propósitos, tal como aquelas eternas teses da "melhor descolonização possível" que habitualmente os senadores da nação bolsam à hora dos noticiários ou das mesas redondas da corrente propaganda. Há sempre uma idiota de tacha arreganhada, olhos em alvo e microfone em riste, pronta a escutar embevecida, todo o tipo de banalidades, aldrabices e exercícios de onanismo "político". E torna-se ainda mais chocante esta arrogante canalhice, quando as ditas excelências tinham o perfeito conhecimento acerca do tipo de gente a quem entregavam o poder naquelas paragens. Consistiu num crime premeditado, assumido e ainda hoje orgulhosamente exibido como grande feito.

 

Nino Vieira teve o mérito de denunciar os massacres dos seus antigos e valorosos adversários no campo de batalha. Honra lhe seja feita. O que se torna incompreensível é este meio em que vegetamos, onde a captura de um quarteleiro sérvio ou croata, tem direito a parangonas nos jornais e a processos levantados pelo Supremo de Haia. Aqui em Portugal, convivemos diariamente com gente profundamente implicada neste tipo de crimes e que nem por isso deixa de ser convidada para eventos sociais, sejam eles de índole cultural ou política. Pior ainda, surgem periodicamente na própria televisão do Estado, comentando a actualidade política dos países que decisivamente ajudaram  a destruir e a transformar em antecâmaras do inferno. Estão bem e recomendam-se,  preciosamente protegidos por outros - civis e ex-militares portugueses - que orgulhosamente insistem no erro histórico e negam a responsabilidade da ascensão da chã malvadez à categoria de sistema de governo. 

 

No nosso país não há gente talhada à medida de um Baltazar Garzón. Temos, isso sim, uma assustadora  infinidade de páchiças  e mamparras  alçados ao nada invejável escalão de "luminosas inteligências" e autoridades da moral e da memória recente da nação. É a velha história das grã bestas que chegaram a grã-cruzes... Sabemos quem são. Coerentemente, até há quem continue a desenvolver negócios miliardários, pouco se importando agora com questões de neo-colonialismo ou escravatura infantil. Assim, tudo faz sentido.

publicado às 23:21






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