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Pagarem pela língua. Ao cubo

por Nuno Castelo-Branco, em 08.05.13

 

Há uns trinta e muitos anos, os linguarudos coça-barbichas gostavam de jocosamente caracterizar a 2ª República pela trilogia Fado-Futebol-Fátima. Do "antigamente" apenas anotavam o facto de sem democracia Portugal não conseguir vencer o festival da Eurovisão - apesar dos Tordos, Tonichas, Carvalhos e Arys -, a fraca industria salazarista e a correspondente aurífera pesada herança, símbolo de todas as misérias. Vejamos então no que deu o apontar do dedo às três parcas do autoritarismo:

 

1. O Fado. 

Agora estouram os regimentais de gozo por poderem apresentar a canção da alma nacional, como um glorioso Património da Humanidade. Há muito se esqueceram dos kiri-ki-kis do Zeca e dos compadres ricos do Sérgio. Onde antes existiam marceneiros, vendedeiras de laranjas e nomes que invariavelmente evocavam outros gostos - a Fé, a Tarouca, a Amália, a Lucília ou a Hermínia -, pontificam agora Cátias com K, Marisas com Z e Camanés, desiludindo aquelas, as indefectíveis fãs do "Não és homem para mim, eu mereço muito mais!" e estes, os guarda-redes e treinadores num país das arábias. Entretanto, a totalmente fascizante Amália foi honrosamente panteonizada e o próprio Jerónimo já garantiu que esta sempiterna estrela dos monárquicos e outros patrioteiros do costume, "também muito ajudou" a gente do PC... Se o Sol da Terra ainda brilhasse, talvez até metesse uma cunha para uma póstuma Ordem de Lenine. Aqui está uma insuspeitada stakhanovista da Adega do Machado. 

 

2. O Futebol.

 

Durante a Longa Noite, os futebóis ocupavam os derradeiros minutos dos telejornais a preto e branco. O Eusébio era um herói nacional do tal Portugal maior, os jogadores ganhavam uns trocados mensais e os clubes resignavam-se ao acolhimento de portugueses, fossem eles de aquém ou de além mar.  O que se passou entretanto? O linguarudo sr. Marcelo tira o compasso à política evocando avançados, defesas, árbitros, transferências, faltas e penáltis e "estar no banco", hesitando entre os cartões amarelos e vermelhos, consoante o cavaqueiro interesse do momento.

 

Enquanto durante uns anos se evocaram "lutas de classe", explorações e "mais-valias" sacadas do compêndio do pesadote alemão tumulado em Londres, hoje em dia não há linguaruda viv'alminha do esquema vigente que não discorra acerca da política caseira, servindo-se do dicionário  compilado  pelos Mourinhos, Faquirás, Cajudas, Nelos Vingadas ou de certos simulacros de Yorkshire Terrier que pontificam algures na 2ª circular. Interrompe-se a entrevista de um ex-1º ministro, devido ao urgente fim de satisfazer-se a curiosidade da chegada à Portela, de um treinador que desembarca para férias à beira Sado. Os jogadores já são comendadores da republicana (!) Ordem do Infante e a própria Monarquia - que jamais teve qualquer tipo de preconceitos para com o mérito dos portugueses que brilham - lhes conferiu a distinção pública, fazendo de muitos deles, Cavaleiros de N. Sra. da Conceição de Vila Viçosa. Já são fidalgos.

 

Futebol na abertura dos noticiários. Futebol antes do intervalo dos mesmos. Futebol no fim das novidades da uma, cinco e oito da noite. Futebol no linguarudérrimo Marques Mendes, na Ferreira Leite e no Galamba, no Eixo do Mal, no Zorrinho, nas mesas redondas de deputados, no Prós e Contras e debates parlamentares. A bola consiste numa roleta russa de infindáveis horas de acaloradas discussões acerca de linhas de passe, assuntos de suores no balneário ou de relvados meio soltos. Enfim, do Infante, do Vasco da Gama, dos Albuquerques - Afonso e Mouzinho - e da gente da Restauração, o regime transitou para os dilemáticos problemas do já eterno pretendente da Irina Shayk e pouco mais. Esse pouco mais é o assunto que consumirá muitas semanas de tempo de antena até ao verão:  os comentadores da SIC, RTP e TVI, já esfregam as mãos de contentes. Portugal e a sua honra, dependem agora da ida de Mourinho para a Inglaterra. É que Fergusson já saiu e há que dar início à contagem das favas.

 

3- Fátima. 

 

O "fascismo, o fá-sismo, feixismo e fácismo, a lembrança do Santo Ofício, o Cerejeira, o clericalismo, os jesuítas-de-uma-figa e o obscurantismo". A isto resumiam os linguarudos, quarenta e oito anos obsessivamente martelados por Fátima. A verdade tornou-se noutra, até porque nesta 3ª República, Fátima já escancarou as portas do seu segundo templo no recinto das aparições e acolhe mais gente que nunca, é uma Compostela do século XXI. A miséria a que as péssimas governanças atiraram o país, conduz infalivelmente à esperança de uma melhor vida à egípcia no Além e sempre será mais conveniente queimarem-se uns tantos milhões de velas votivas, em vez dos automóveis, lojas e casarões do regime. A Cova da Iria também é uma referência que o laicíssimo esquema vigente propagandeia lá fora, sempre na esperança de atrair uns valentões cobres dos turistas. Dizia-se que Soares até "andava de maneira diferente" quando estava na presença de um Papa ou de um Cardeal e há uns anos, um país espantado ficou a saber que um residente de Belém terçara irados argumentos com o Patriarcado de Lisboa, lutando e correndo pela Sé e à vista de todos, por uma precedência protocolar diante de SS.AA.RR., os católicos e fidelíssimos Duques de Bragança. Nos três canais de televisão, pontificam freis que dizem da sua graça e justiça e a nossa obesa esquerda, pela-se por apresentar o exemplo de bispos que aderem aos indignados contra si mesmos. As visitas papais são delírios de correrias país fora, facilmente ultrapassando qualquer vitória do CRonaldo, num qualquer 39-0 infligido pela selecção a uma equipa adversária.

 

O que fazer da supracitada triologia do antigamente? Vamos elevá-la ao quadrado ou ao cubo? Aceitam-se sugestões.

 

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publicado às 18:49

Um conselho a dar aos maias:

por João Quaresma, em 23.12.12

Da próxima vez, consultem uma bruxa antes de anunciarem ao Mundo as vossas profecias.

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publicado às 00:50

O fado é mesmo a canção do carácter nacional português

por Samuel de Paiva Pires, em 28.11.11

Depois de ver por aí algumas críticas ao reconhecimento do Fado (do qual sou apreciador) como Património intangível da Humanidade pela UNESCO, desculpem-me os meus amigos liberais mas como pessoa com alguma experiência em receber estrangeiros e mostrar-lhes o nosso país, e até tendo amigos no ramo turístico que fazem roteiros onde o Fado é um dos pontos altos, tenho a certeza que isto vai servir para publicitar um pouco mais o país. Basta andar por Alfama para perceber que as casas de fado são frequentadas em larga medida por estrangeiros, que obviamente falam com família e amigos e lhes sugerem sítios a visitar em Portugal. Outros três exemplos são Sintra (também classificada como Património da Humanidade pela UNESCO), os Pastéis de Belém e o Bairro Alto, locais internacionalmente conhecidos. Vem algum mal ao mundo por isto? Claro que se pode criticar a UNESCO e dizer que não serve para nada. Mas já que lá estamos, ao menos que façamos alguma coisa pela projecção externa do país, quanto mais não seja numa lógica utilitária (mais turistas, mais dinheiro). Não deixa de ser curioso ver liberais e alguns amigos comunistas a enfastiarem-se com isto. E mais curioso é quando se trata de algo proveniente de uma ordem espontânea (o fado e o movimento que originou a candidatura). No fundo, acabam por dar razão ao que consubstancia o fado, o nosso carácter nacional melancólico e pessimista. Até para verem este carácter reconhecido internacionalmente alguns portugueses são... pessimistas.

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publicado às 01:24






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