Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Crescimento e depressão de mãos dadas

por John Wolf, em 09.12.13

Já repararam que o termo desemprego já não faz parte do discurso dos que mandam? O Instituto Nacional de Estatística anuncia o fim da recessão, mas não é referido de que forma esse facto produz efeitos na geração de emprego. Os governos de Portugal, e dos demais países europeus, sabem que o pleno emprego jamais tornará a ser o que era. Os dias de desemprego na ordem dos 5% acabaram. Assistimos, deste modo, à residência definitiva de uma nova realidade dissimulada e por revelar nas palestras daqueles que estão no poder ou daqueles que sonham em lá chegar. Os "bons" resultados económicos são bons para o bottomline das empresas, para os fluxos de caixa, mas não para o trabalhador. Eu iria até mais longe. Há largos anos que os gestores de empresas aguardavam o momento certo para realizar o layoff, os despedimentos em massa e com justa causa. A pergunta que deve ser colocada aponta no sentido de saber quando haverá inversão da tendência no desemprego. Há escassas semanas foi divulgado que o desemprego em Portugal rondará os 17,4% em 2014, embora presentemente tenha caído para os 15,8%. Este anúncio de sucesso das exportações apresenta uma ligeira contradição, ou a corroboração da ideia de que há sérias dificuldades pela frente. A necessidade de emissão de dívida a 5, 10 ou 30 anos significa que a economia ainda não se aguenta nas suas pernas. O roll-over, o empurrar para a frente das obrigações de dívida, não altera a dinâmica económica substantiva, a geração de emprego. A demise dos estaleiros de Viana acaba por confirmar a ideia de desfalecimento, de que mais despedimentos seguir-se-ão. A situação económica e social, já de si incomportável pelos cidadãos, poderá agravar-se ainda mais se houver um processo simultâneo de declarações de insolvência ou inoperacionalidade. Temos os CTT e as Páginas Amarelas em pé de guerra. Temos professores na rua. Temos trabalhadores de todos os sectores económicos em profundo desconforto. Temos gente que caiu fora das estatísticas e que já não conta nas considerações governativas, porque não existe matematicamente. O fim da recessão é uma expressão muito desejada em termos económicos, mas uma nova figura conceptual nasceu com esta crise - a possibilidade de coexistência de depressão social e crescimento económico. Esta contradição, nunca como antes, desafiou todos os modelos e conceitos de desenvolvimento das nossas sociedades. O fosso entre os detentores de capital e os trabalhadores parece ser cada vez maior. Seria simpático se o INE apresentasse em tandem as duas partes da fórmula - o crescimento económico acompanhado pelo crescimento do emprego. 

publicado às 18:51

Portas e a força da técnica

por John Wolf, em 28.10.13

O anúncio da possibilidade de Portugal estar a poucas semanas da saída da recessão técnica deve ser lido como um aditivo para justificar as previsíveis medidas cautelares, mas o problema é o mesmo de sempre - os bons números económicos não traduzem a dimensão qualitativa da vida das principais vítimas da crise - as pessoas. Aliás, foi precisamente o advento e a consequente consolidação da econometria que ditou a ruína do homem. Em termos académicos a recessão define-se por dois trimestres consecutivos em que não se regista crescimento económico. Mesmo que haja inversão da tendência, longe estamos de poder registar uma significativa melhoria das condições do mercado laboral. Mesmo sendo um lagging indicator o primeiro indício de um processo positivo a registar no médio e longo prazo, a verdade é que o nível de desemprego não acompanha a par e passo as vitórias técnicas e administrativas. Eu entendo que o governo queira aproveitar todos os detalhes de optimismo para justificar as políticas de austeridade e as decisões a tomar ao abrigo de um programa cautelar, mas a vida do cidadão português não se modifica com um simples estalar de dedos - o acenar adeus à recessão. Há danos que perdurarão por anos. Paulo Portas fala nos oito meses que ainda faltam para cumprir o programa de resgate, mas esse período de tempo é traiçoeiro - não permite alterar os elementos substantivos que definem a realidade económica e social. Oito meses é em muitos casos o tempo de gestação suficiente para dar à luz outras considerações negativas. É no fim do ano económico que as empresas e governos de todo o mundo aperaltam os principais indicadores, douram a pílula, para poder lançar o ano novo como se tratasse de um novo mandato político resultante de eleições. Esse magistério de réveillon económico é utilizado para aproveitar um certo entusiasmo natural que reside na psique colectiva - ano novo vida nova. Mas os portugueses já pressentem que o que aí vem não é muito bom - já declararam a sua quebra de confiança, a sua falência motivacional. Seria tão bom que todas estas declarações técnicas correspondessem à melhoria efectiva das condições de vida dos portugueses. Mas convém lembrar que não se trata de um jogo de monopólio por mais que sejam regras impostas pelo regime da Troika. Seria preferível que gritássem e esperneássem de um modo honesto - Portugal, para mal dos seus pecados, vai necessitar de muita ajuda nos meses e anos que aí vêm. O PS, e o seu jogador de tabuleiro António José Seguro, estão a tentar perceber qual o melhor modo de capitalizar nesta situação de cautela ou sem cautela. Se avançam agora ou se permanecem espectadores da tragédia, para dizer depois - "estão a ver, tínhamos razão". A taluda que pretendem, acaba por escamotear a verdade, a mesma verdade inconveniente - querem o poder, e depois a seu tempo lidarão com as mentiras ou as meias-verdades económicas e sociais. Qualquer que seja o senhor que se segue, vai ter as mãos a arder - a pasta quente do processo de recuperação de Portugal que não se extingue com a substituição dos titulares do poder. O desafio transcende, e muito, a força da técnica ou o seu contrário - é algo mais simples e ao mesmo tempo intensamente mais complexo - chama-se sobrevivência de um povo, sofrimento e esperança. Por isso, toda e qualquer "conversa técnica", pode ser considerada indecorosa para quem não tem emprego - a técnica adequada para dar a volta por cima.

publicado às 12:03






Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas