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Indecências fúnebres

por Nuno Castelo-Branco, em 09.12.13

 

O tema da semana reporta-nos às lutas de abutres ferozmente se debicando na disputa pelos despojos encontrados na savana. A morte física de Nelson Mandela trouxe um cortejo de indecências para todos os gostos, desde aqueles que apenas nele querem ver alguém que jamais tolerariam por significar um intransponível obstáculo aos seus delírios de exclusão, até a outros que apoucam o homem que centenas de milhar de portugueses gostariam de ter visto multiplicado pelo menos por cinco, cada um deles na respectiva parcela do luso Ultramar africano.

 

Para alguns dirigentes internacionais, a cerimónia fúnebre consistirá num longínquo mas obrigatório frete. Desembarcando numa África que apenas conhecem via Tintim no Congo, outros aproveitarão para os expectáveis encontros informais, estabelecendo contactos, gizando futuros negócios e quiçá delimitando novas frentes a ocupar pelos interesses. Não faltarão súbditos de Obama, oportunamente esquecidos dos ainda bem presentes anos sessenta, quando ao contrário da lei estabelecida em países como Angola e Moçambique, a situação no sul dos EUA não era assim tão distinta daquela que se vivia em Nelspruit, Komatipoort, Joanesburgo ou na Cidade do Cabo. Chegarão também delegações africanas, homenageando a memória de um homem que apesar de tudo o que se possa dizer dos seus companheiros que gizaram políticas de escondida mas nem por isso menos refinada nova segregação racial, representou o oposto daquilo a que se assiste desde as margens do Mediterrâneo até ao Cabo da Boa Esperança. Mugabe ousará apresentar-se nas exéquias, sentando-se lado a lado com representantes de países da U.E., dos EUA, da Índia que de Gandhi foi confiscada pela gente de Nehru? É provável. A China já exigiu a proibição da presença do Dalai Lama e isto sintetiza o demais, o acessório. Que relevância terá a presença ou a ausência do primeiro ministro checo, quando o homem do Tibete é excluído sem que a comunidade internacional ansiosa por aparecer na foto, saia em defesa do direito? Tudo isto é grotesco, ridículo. 

Em Portugal, a morte de Mandela não passa de um simples evento que bem serve a luta política, colocando-se a incendiada questão dos estaleiros numa prateleira onde se vão acumulando assuntos pendentes.

 

As relações internacionais jamais se resolveram com irados rebuços à roda de uma mesa onde se acumulam chávenas de café ou garrafas de cerveja. Pois é assim que alguns por cá as entendem, preferindo a retórica balofa, aos actos bem pensados que devem ditar o normal procedimento dos estados. No caso sul-africano e no que a Portugal dizia respeito, existiram múltiplos factores que aconselharam a adopção da prudência como única via para o lidar de uma situação sobre a qual não tínhamos o menor controlo. As guerras civis que imediatamente se seguiram ao catastrófico e apressado abandono dos dois mais importantes territórios ultramarinos nacionais, tiveram consequências terríveis para as populações vítimas de todo o tipo de reeducativos abusos perpetrados por iluminados pretensamente revolucionários. Imperaram as matanças indiscriminadas, a fome generalizou-se, volatilizaram-se os cuidados médicos básicos, a economia reduziu-se ao resíduo. Em suma, Angola e Moçambique caíram para os últimos lugares na lista de países com assento na AG da ONU. Pessimamente resolvido o Caso dos Retornados, a Portugal surgia então a hipótese do desencadear de um novo processo que tinha um potencial de violência incomensuravelmente superior. Ninguém desconhecia a presença de uma numerosa e influente comunidade portuguesa e luso-descendente na África ddo Sul e qualquer posição oficial do governo de Lisboa - fosse ele qual fosse - inevitavelmente teria em conta este dado incontornável. A verdade que os nossos escribas da gauche bem instalada não querem dizer, é que foi precisamente esse prático obstáculo à "luta armada" que possibilitou o advento do Mandela conciliador que conhecemos. Companhando os EUA e o Reino Unido, Portugal fez o que devia ser feito. A mensagem enviada pelo voto português na AG da ONU, foi antes do mais, um sinal aos nossos compatriotas que muito bem conheciam os ainda bem presentes desastres ocorridos em Angola e Moçambique. Devido à cegueira e preconceito dos seus carcereiros, Mandela cumprira um longo e penoso cativeiro e já nada poderia corrigir esse erro, essa prepotência. O que poderíamos então ter feito ou dito?

 

Por muitos artifícios que apresentem, os loucos da revolução sem fim, decerto sonhariam com uma queda de Pretória à imagem da tomada de Saigão, pouco importando qualquer orgia canibal que se lhe seguisse. Se o extermínio também atingisse portugueses, paciência, era mais uma brisa da estória, cumprindo-se o figurino julgado como único, aquela justeza de uma história invariavelmente injusta. No caso do jornalismo nacional, apenas se marca o calendário julgado atempado para o atingir de objectivos políticos internos. Tudo o mais não passa da mais rasteira e asquerosa hipocrisia do conhecido politicamente correcto. 

 

Estamos novamente num daqueles momentos em que devemos proceder com uma cautela equiparável àquela que felizmente os governos portugueses tiveram na década de oitenta e início dos anos noventa. A situação interna sul-africana é má, parecendo rapidamente caminhar para péssima. Os indicadores são negativos, a incompetência governamental não escapa à mínima análise crítica, por muito condescendente que esta possa ser. A liderança do ANC é bem conhecida pela ganância devorista, pouco se interessando em passar além da cada vez mais exacerbada retórica. Sabemos que o caminho Mugabe é sempre uma hipótese a considerar, distribuindo fartamente o odioso do descalabro para a responsabilidade de quem hoje se encontra com poucos meios de defesa. Há uns meses, uma quase despercebida reportagem publicada pelo Expresso mostrava ao mundo uma África do Sul jamais suspeitada, a dos brancos miseráveis e sem futuro, sem destino de acolhimento. O Soweto das canções mobilizadoras já tem émulos dos quais não conhecemos o nome. Daquele mega-bairro da lata apenas se diferenciando pela etnia dos despojados, estes novos ghetos talvez também podem contar com a presença de alguns luso-descendentes.  

 

Tenham as nossas autoridades bem presente a ameaça de um cataclismo racial na África do Sul. Estando a situação completamente fora de qualquer tipo de intervenção nacional, podemos contudo prever algumas situações bem possíveis de ocorrerem. Não se trata de querer ou não querer, pois o nosso país não poderá alhear-se deste problema e de pouco valerão protestos, moções ou votos nas Nações Unidas. Sobretudo, há que não prestar demasiada atenção aos patetas oportunistas que debitam inanidades nas colunas dos jornais. 

publicado às 10:38

Após as solenes exéquias

por Nuno Castelo-Branco, em 09.03.13

A delegação cubana parte de Caracas...

 

...e prepara-se para aterrar, sobrevoando Havana

 

 

publicado às 18:56

Guimarães assistiu ao funeral de Portugal

por Pedro Quartin Graça, em 08.09.12

publicado às 08:29

A gaita no funeral

por Pedro Quartin Graça, em 20.01.11

O deputado socialista Sérgio Sousa Pinto considerou hoje "absolutamente desnecessária" a proposta do Governo de criminalização da violência escolar, considerando que "faz tanta falta às escolas e ao ordenamento jurídico como uma gaita num funeral". "Bonito"!

publicado às 19:38






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