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Bruxelas a nu

por Eduardo F., em 04.01.12

Depois de ter lido "The Great Deception: Can the European Union Survive?", livro a que já me referi aqui, fiquei com uma apetência especial por melhor tentar conhecer a história da União Europeia e, em particular, do euro1. Mão amiga, entretanto, fez-me chegar às mãos um pequeno livro da autoria de Marta Andreason - "Brussels Laid Bare" (PDF) -, onde ela relata a sua experiência - que só se pode caracterizar de kafkiana - como Chief Accountant na União Europeia, cargo que exerceu, após um processo de recrutamento que durou cerca de seis meses, entre o dia 3 de Janeiro de 2002 e finais de Maio... do mesmo ano! À data em que publicou o livro, Julho de 2009, o Tribunal de Contas Europeu (European Court of Auditors) tinha recusado, pelo 14ª ano consecutivo, o seu "visto" nas contas da União Europeia! Sabia disto, o leitor? Eu não.

Conta Andreason que se deparou com uma situação em que nem sequer recebeu do seu antecessor as contas do ano transacto (2001) devidamente assinadas mas que, não obstante, se viu pressionada pelo seu chefe directo para que ela própria as assinasse assim se responsabilizando por algo que não conhecia nem podia conhecer; que os saldos finais de um ano não eram iguais aos saldos iniciais do ano seguinte; que não existia sistema informático único nem interesse pela sua introdução, apesar de já ter sido anteriormente comprado; que lhe pediam para dar autorização à efectivação de pagamentos sem que lhe fossem presentes os documentos que os justificassem, etc, etc. Depois de um relato impressionante que revela o total desprezo dos burocratas de Bruxelas pelo dinheiro dos contribuintes, vem a via sacra do processo disciplinar e da sua tramitação, prova duríssima a que foi sujeita. Talvez por isso Marta Andreason, hoje membro do parlamento europeu, eleita nas listas do UKIP, depois de Bernard Connolly, autor de "The Rotten Heart of Europe" (a quem José Manuel Fernandes aqui recentemente aludiu) e Paul van Buitenen, que viria a desencadear o escândalo que daria origem ao despedimento da Comissão Santer, tenha sido a última dos whistleblowers vinda do interior da impenetrável burocracia da União Europeia, responsável perante ninguém.

 

1Já em Setembro de 1957 Monnet sintetizava assim o significado de uma união monetária: "Via money, Europe could become political in five years".

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publicado às 01:05

Grandes Manobras

por Eduardo F., em 05.12.11

Ao que se lê nos jornais online (por exemplo, aquiaqui ou aqui), a França e a Alemanha chegaram a acordo sobre um conjunto de reformas para enfrentar a crise da dívida soberana que irão agora "apresentar" ao Presidente da UE, Herman Van Rompuy. Estas reformas incluem alterações aos tratados da UE e idealmente serão aplicáveis a todos os 27 estados membros, mas, se necessário, dirigir-se-ão apenas aos 17 membros da zona euro. Sem se conhecerem ainda os detalhes, os principais pontos parecem ser:

  • Sanções automáticas para aqueles países que ultrapassem um défice de 3% do PIB.
  • Introdução de maioria qualificada - 85% - em importantes processos de decisão.
  • Os governos da Zona Euro devem trabalhar no sentido de alcançar orçamentos equilibrados.
  • Acelerar a implementação do Mecanismo Europeu de Estabilidade para 2012.
  • O papel do BCE permanece inalterado e, portanto, não assumirá o papel de emprestador de último recurso.
  • Não às eurobonds.

É particularmente interessante cotejar o quer precede, com a crónica de ontem de Vasco Pulido Valente, significativamente intitulada de "Grandes Manobras", de onde roubei o título para o post:

«(...) Uma coisa é certa: os dois poderes dominantes da "Europa" finalmente perceberam o que toda a gente já lhes tinha explicado ou, por outras palavras, que o euro não podia sobreviver sem um governo económico (...) que no fundo implica uma política fiscal comum, um tesouro comum e um banco emissor comum.

E é aqui que as dificuldades começam. Sendo, em princípio, a UE uma associação de Estados democráticos, em cada um deles o Orçamento é da exclusiva competência do parlamento nacional: um ponto que a própria sra. Merkel insistiu em lembrar. Nada garante, por isso, que os 17 países da "zona euro" cumpram sempre e escrupulosamente o que em Bruxelas lhes mandam fazer. Quando ao tesouro comum e ao banco emissor, a Alemanha não os tenciona aceitar, sabendo perfeitamente que os pagaria, em prejuízo doméstico e em prejuízo de uma eventual expansão a leste. Só há uma solução à vista. Fingir, como de resto sempre se fingiu, que a UE respeita a democracia, mas de caminho arranjar um directório que determine e vigie os membros do "clube" que por qualquer motivo se tornem "suspeitos" e, coisa fácil, pôr na ordem com penas "pesadas" quem prevaricar.

 

Isto a sra. Merkel dá o nome simpático e tranquilizador de "união fiscal", um arranjo em que a Alemanha mandará sem risco e a França de quando em quando meterá a colher, para puros propósitos de camuflagem (...)»

____________________

Nota: ainda só li as primeiras cem páginas de "The Great Deception", mas já o considero um livro essencial para a compreensão da génese do que é hoje a União Europeia. Já ouviu o leitor falar de Louis LoucherArthur Salter? Do Manifesto Ventotene elaborado por Altiero Spinelli e Ernesto Rossi? Da tese segundo a qual o Plano Schuman só tem de Schuman o nome?

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publicado às 17:55

9 em cada 10 estrelas (2)

por Eduardo F., em 20.11.11

Espraiando a sua incomensurável vaidade e não menor domínio em matérias económicas, Carrilho recorre à técnica das 9 em cada 10 estrelas (realces meus):

J. M. Keynes
É incompreensível(...) que Pedro Passos Coelho tenha proferido as confusas, inexactas e sobretudo contraproducentes declarações que fez sobre a "missão" do Banco Central Europeu, porque a Europa precisa de facto que o BCE passe a actuar como um banco central normal, que tenha em conta o interesse de todos os europeus e não apenas os traumas históricos da Alemanha. Só este passo - defendido por consagrados economistas como, por exemplo, P. Krugman1, J. P. Fitoussi2, P. de G[r]auwe3, B. Eichengreen4, O. Blanchard5, C. Wyplosz6, K. Rogoff7, J. Attali8 ou J. Sachs9- tornará viáveis e eficazes as outras medidas já decididas, nomeadamente o "pacote legislativo" e o "semestre europeu", e permitirá abrir espaço para a definição de uma nova estratégia global, económica e política, da Europa no mundo. De uma estratégia que esteja à altura de uma União Europeia que ainda tem o PIB mais elevado do mundo (quase triplo do chinês) e continua a ser a primeira potência comercial do planeta. Se não for agora, será quando?

 

Manuel Maria Carrilho, "Sem plano, não vamos lá", 17-11-2011
___________________

Notas:

1 - Falando de Paul Krugman, mais palavras para quê?
2 - Jean Paul Fitoussi - Um título de um trabalho só por si suficiente para situar o autor - "Sustainability, income distribution, and natural resources: The two social crises".
3 - Paul de Grauwe - O seu axioma central é que o "Capitalism is characterized by booms and busts."
4 - Barry Eichengreen : segundo Ben Bernanke (ver Wikipedia), a tese de B. Eichgreen é que "[A] causa próxima da Grande Depressão se ficou a dever ao estruturalmente mal desenhado e pior gerido [sistema monetário conhecido por] padrão-ouro..."
5 - Oliver Blanchard - Actual economista-chefe do FMI. Mais um neo-keynesiano.
6 - Charles Wyplosz - Como em Maio de 2010 o próprio BCE violou os tratados [ao adquirir títulos da dívida soberana grega] [escreve Wyplosz na sua carta aberta ao presidente do Bundesbank] mais vale prosseguir na violação da lei do que "esperar" pela implosão da união. 7 - Keneth Rogoff - Um assumido neo-keynesiano que não nutre grandes simpatias pelas tiradas do Sumo Sacerdote, Krugman.

8 - Jacques Attali - Por exemplo: "[e]uropean leaders must act quickly. They should convene a new eurozone summit, which will finally take the necessary steps toward a federal Europe. And, until this comes into force after a vote by national parliaments the leaders should grant the ECB all powers including less orthodox ones, to defend the value of the euro and the liquidity of the banking system with whatever is at its disposal."

9 - Jeffrey Sachs - Recorrendo à Wikipedia, notamos que Sachs se notabilizou, nos últimos anos nas áreas de "climate change, disease control, and globalization, and is one of the world's leading experts on sustainable development."

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publicado às 00:15

9 em cada 10 estrelas

por Eduardo F., em 12.11.11

Este tipo de afirmações  - "95 percent of active climate researchers agree that humans are contributing to global warming, yet free market fundamentalists continue to deny our responsibility" -, equivale à formulação de que "a ciência está estabelecida" e de que "não há tempo a perder" ou, já no limite, "mesmo que actuemos agora já não seremos capazes de evitar uma grande parte dos perniciosos efeitos do aquecimento golbal, aka alterações climáticas".

 

Esta linha de "argumentação" é muito semelhante, na sua validade científica, à de um célebre anúncio que os menos jovens certamente se recordarão: supostamente, 9 em cada 10 estrelas (de Hollywood?) usariam o sabonete de marca "Lux" o que seria prova bastante da excelência do dito cujo. Ainda que a Gallup já existisse muito antes do início desta campanha publicitária, aquela propaganda comercial não tinha qualquer validade empiricamente comprovada, ainda que o efeito do anúncio junto do público fosse, ou  pretendesse ser (ou fizesse por dar a entender como) significativo.

 

Como é de elementar discernimento, no dia em que fosse declarado a Era do Consenso Científico Estabelecido, nesse mesmo dia, a Ciência teria morrido. Felizmente que, ao contrário do que nos querem fazer querer, esse proclamado consenso não existe: "[T]here is no convincing scientific evidence that human release of carbon dioxide will, in the forseeable future, cause catastrophic heating of the Earth's atmosphere". Números por números contraponham-se estes, por exemplo, referentes a esta petição: 31,487 American scientists have signed this petition, including 9,029 with PhDs. Consenso científico? Deixem-me rir.

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publicado às 19:01

À atenção do Papa Bento XVI

por Eduardo F., em 25.10.11

A propósito desta notícia, recomenda-se que Sua Santidade promova, com carácter de urgência, a leitura serena e atenta por parte dos seus conselheiros económicos de "The Church and the Market: A Catholic Defense of the Free Economy (Studies in Ethics and Economics)", por Thomas Woods Jr.

 

É que o problema não é haver regulação e banco central a menos. É exactamente o contrário, como o mesmo Thomas Woods aqui explica, de forma sintética. O que segue é um excerto desse seu último texto (meus realces):

«(...) In the United States we have 115 agencies that regulate the financial sector, and the Securities and Exchange Commission never had a bigger budget or staff than under George W. Bush. There has been a threefold (inflation-adjusted) increase in funding for financial regulation since 1980. For reasons I’ve explained in my 2011 book Rollback, the repeal in 1999 of one provision of Glass-Steagall had zero to do with the financial crisis. Europe has never operated under Glass-Steagall-style restrictions and is none the worse for it. There is no repealed regulation that would have prevented the crisis consuming the world right now.

 

The banking industry is by far the least laissez-faire sector of the U.S. economyit is a cartel arrangement overseen by the Federal Reserve and shot through with monopoly privilege, bailout protection, and moral hazard.

 

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publicado às 16:14






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