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Das relações entre o Ocidente e o Islão

por Samuel de Paiva Pires, em 22.03.16

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 Samuel Huntington, The Clash of Civilizations:


Some Westerners, including President Bill Clinton, have argued that the West does not have problems with Islam but only with violent Islamist extremists. Fourteen hundred years of history demonstrate otherwise. The relations between Islam and Christianity, both Orthodox and Western, have often been stormy. Each has been the other's Other. The twentieth-century conflict between liberal democracy and Marxist-Leninism is only a fleeting and superficial historical phenomenon compared to the continuing and deeply conflictual relation between Islam and Christianity. At times, peaceful coexistence has prevailed; more often the relation has been one of intense rivalry and of varying degrees of hot war. Their "historical dynamics," John Esposito comments, "... often found the two communities in competition, and locked at times in deadly combat, for power, land, and souls." Across the centuries the fortunes of the two religions have risen and fallen in a sequence of momentous surges, pauses, and countersurges.

publicado às 14:43

A pacifista Marisa Matias

por John Wolf, em 04.01.16

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Marisa Matias não tem a mínima ideia de como os EUA perderam a guerra do Vietname. Existe algo mais poderoso do que o financiamento de máquinas de guerra. Chama-se a isso a "vontade guerreira". Quando a candidata a presidente da república portuguesa se opõe veementemente à intervenção militar contra o Estado Islâmico (EI), esquece que militares nacionais já estão presentes em mais de 20 cenários de conflito. Por outras palavras, Portugal já é campeão da defesa dos valores democráticos, e, nessa medida, já está envolvido na derrota dos ideais totalitários do EI. Para se abster de participar na construção securitária do mundo livre, Portugal teria de se retirar de todos os cenários de guerra ou conflito em que participa, nas várias modalidades operativas ou de treino. Se existe país com um património militar assinalável, esse país é Portugal. Embora a lógica de remoção dos meios de financiamento do EI faça parte da grande estratégia, por si só não bastará. Não conheço a estirpe de idealismo perigoso que se infiltrou no espírito ingénuo da pequena Marisa, mas existe algo a que já assisti inúmeras vezes. Geralmente os pacifistas de inspiração woodstockiana são os piores quando a coisa corre mesmo mal. Viram o disco muito rapidamente para tocar outra música. Por outro lado, as revoluções de veludo do Leste Europeu, as transições de regime que ocorreram sem grandes incidentes com o descalabro da União Soviética, aconteceram desse modo suave com dinheiros. E não foi um dinheiro qualquer. Sabemos que o grande especulador George Soros esteve por detrás da construção democrática em países como a Húngria ou a República Checa. Talvez a Marisa Matias queira ir mais longe na exploração do seu conceito de saldo bancário nulo do EI. Talvez possa propor, quando não for primeira-dama, o financiamento da transição do regime de genocídio do EI para uma modalidade colectivista de Esquerda social. Marisa Matias esquece que foram guerras de libertação que lhe concederam o dom da palavra e da liberdade de expressão. Churchill não era membro do Bloco de Esquerda. Mas poderia ter sido.

publicado às 09:05

13-15 de Fevereiro de 1945

por Nuno Castelo-Branco, em 13.02.15

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No momento em que a memória parece esbatida, Dresden* - e Varsóvia, Roterdão, Londres, Coventry, Colónia, Dusseldórfia, Frankfurt, Hamburgo, Bremen, Mainz, Kiev, Sebastopol, Carcóvia, São Petersburgo, as cidades do norte de França e dos arredores de Paris, Königsberg, Budapeste, Manila, Nanquim, Tóquio, Osaka, Hiroshima, Nagasáqui, Berlim, Hanoi, Haiphong, Bagdade, entre centenas de outros centros urbanos - representa aquilo que devemos e podemos evitar. Após o furacão de fogo ateado pelo napalm, a cifra de baixas humanas é hoje muito discutida, mas a alegação de 25.000 vítimas, mais parece uma patetice pintada de insulto. 

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*
 Vejam o filme no link acima indicado.

 

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publicado às 17:24

A Entente Greco-Russa e a Europa

por John Wolf, em 30.01.15

Russia-Greece

 

Nos dias que correm é muito fácil ser atirado para um dos campos da discussão - either you´re with us or you´re against us -, é conveniente simplificar o intrinsecamente complexo, usando para o efeito, códigos caducos, linguagem ideológica fora do seu prazo de validade. Assistimos na Europa, ou se quiserem na União Europeia (UE), a grandes dificuldades interpretativas. A Entente Cordiale que está a ganhar forma entre a Grécia e a Rússia é motivo de alarme. Pela primeira vez na história da UE um estado-membro rejeita servir-se das instituições formais que foram criadas, para, em última instância, preservar a paz. Yanis Varoufakis diz por outras palavras que já não reconhece autoridade à Troika, que aquele mecanismo não tem legitimidade para decidir sobre o destino de um Estado soberano que "por acaso ainda" é membro da UE. Não é apenas Putin que não quer perder a face. Tsipras também não irá esbanjar o que alcançou oportunamente numa Europa polarizada pela extrema direita e extrema esquerda, por anti-americanismo, assim como pelas entidades pragmáticas como a austeridade, o terrorismo, enquanto extensão ou não do Estado Islâmico.  A Europa, refém dos seus processos formais e em plena crise económica, está a tornar-se presa fácil para outra "pária". A Grécia está geopoliticamente encravada numa zona de cultura ortodoxa à mão de semear dos interesses estratégicos russos. Chipre ou a Bulgária  podem ser também magnetizados pela dissensão intencional russa. Enquanto milhares celebram efusivamente a libertação dos gregos das directivas alemãs, um outro eixo de substituição está a ganhar forma, uma outra estrutura de poder conhece já a sua cúpula. Neste contexto, e por analogia ao descalabro e à guerra a que já assistimos, a Grécia pode ser entendida como uma pré-Ucrânia. Um espaço vital onde talvez não se vislumbrem tanques de guerra e colunas de infantaria russos, mas onde outra dimensão de projecção de poder, está, efectivamente a acontecer. Os libertários europeus serão confrontados com vários dilemas existenciais, mas para já, desenham de um modo claro, um certo fundamentalismo cego, de libertação do ónus da dívida a qualquer preço. O problema é que o valor não é determinado por vontades internas, por comissões políticas nascidas nos salões de uma Europa civilizada. Quem demonstra intenções claras e inequívocas é a Rússia. Seria bom se a Europa das liberdades e garantias calibrasse sem demoras a sua posição no contexto de ameaças que já não são externas. O triângulo das Bermudas da Europa desenha-se com duas pontas agudas que não tarda irão furar as expectativas utópicas de uma comunidade europeia de crentes que ainda acredita num regresso faustoso ao estado social e às subvenções vitalícias. O nosso futuro pode muito bem estar nas mãos de Putin e Tsipras. Os primeiros passos são sempre os mais difíceis.

publicado às 18:06

Extrapolações a partir de Tsipras

por John Wolf, em 29.01.15

Greek-Philosophers

 

A crise europeia acabou, e o emprego vai crescer exponencialmente em todos os Estados-membro da União Europeia.

A Dívida Grega vai ser perdoada e a Troika vai conceder um bónus de 500 mil milhões de euros aos helénicos por terem tido uma ideia tão boa.

A Austeridade vai acabar dentro de 10 minutos e cada cidadão europeu vai receber um cheque de 500 euros para estoirar no Carnaval com a garantia de que receberá outro no Natal.

A Rússia vai retirar-se da Ucrânia e compensar aquele país pelos danos causados e oferecer  gás natural durante 20 anos.

O Estado Islâmico vai converter-se em centro ecuménico de reflexão e paz.

Os EUA vão deixar a Rússia desmontar a NATO.

A União Europeia vai ter, a partir de amanhã, uma União Fiscal e uma Política Externa e de Segurança Comum.

Portugal vai ser salvo por um novo partido de inspiração tsiprarista fundado por António Costa, Mário Soares e José Sócrates.

Os ataques terroristas, tal como acontece com as greves, deverão ser marcados com antecedência mínima de 24 horas pelas uniões sindicais que representam os suicídas.

As receitas da venda de armas dos EUA, França, Reino Unido e Alemanha vão reverter integralmente para a Cruz Vermelha, a Amnístia Internacional e o Banco Alimentar contra a Fome, que cessarão de existir e tornar-se -ão desnecessários.

O Euro irá ser adoptado por todos os países africanos descarrilando o Dólar Americano como moeda de referência no comércio internacional.

Todas as Empresas Privadas portuguesas serão nacionalizadas para compensar a Privatização da TAP e a perda de controlo sobre a PT.

Os bancos vão passar a ter filiais dentro da casa de cada família portuguesa para pôr em prática soluções de poupança e oferecer salários aos reformados e delinquentes.

As semanas laborais vão ser sujeitas a uma reforma humanitária que implicará não mais de 15 horas semanais de trabalho.

As dívidas vão passar a ser entendidas como um valor positivo civilizacional e promovidas no programa curricular das escolas.

Os partidos políticos da Extrema Direita e da Extrema Esquerda vão deixar de existir para dar destaque a uma força moderada nascida a partir de uma sociedade civil que não sabe o significado de ideologia.

E por último, eu deixarei de ter ideias tão realistas quanto estas e outras que me escapam de um modo tão flagrante...

 

 

 

publicado às 10:31

A entrevista de Durão Barroso

por Nuno Castelo-Branco, em 02.11.14

 

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Sem o incómodo da apreciação daquilo que é a chamada União Europeia e sem veicular qualquer pró ou contra esta existência de múltiplos cambiantes, aqui ficam alguns dos pontos mais importantes focados pelo ex-presidente da C.E.

1. A questão da situação portuguesa nas vésperas do resgate de 2011. Gostem ou não gostem os baladeiros das  narrativas dominicais, a verdade era mesmo aquela que sabemos, ou seja, a da iminente bancarrota.

 

2. A  clara assunção de Portugal não ter uma política europeia. A nosso ver, não tem porque não pode e intimamente ninguém a quer como exclusiva. Para isto decisivamente pesam outros relacionamentos plurisseculares e qualquer programa de estado-unificação continental, consiste numa negação daquilo que este país sempre foi e quis ser, posição esta consolidada pelo nosso alinhamento com a nossa antiga e agora, de forma decisiva, com os países da CPLP.  A dualidade da política externa portuguesa deve ser para alguém como Durão barroso, uma constante que o próprio demonstrou como ministro dos negócios estrangeiros e mais tarde, como 1º ministro. 

 

3. Angela Merkel.

Neste país demasiadamente habituado a chefes de governo que não liam dossiers e preferiam cantarolar o bem-bom e jogar na chicana politiqueira, alheando-se do profundo conhecimento dos verdadeiros assuntos do Estado - houve quem por isso mesmo tivesse chegado ao Palácio de Belém - , a Chanceler alemã surge sempre como uma oportuna válvula de escape da nossa incompetência e desleixo, mesmo recorrendo-se a intragáveis argumentos revolvidos naquelas décadas em que os nossos avós ainda eram muito jovens. Segundo Barroso, Merkel é mesmo a chefe de governo mais atenta aos problemas globais da Europa e aquela que tem uma visão para a União Europeia, concorde-se ou não com o modus operandi ou o projecto alemão. Mais ainda, D.B. diz algo que embora seja uma evidência diária, a quase todos escapa por mero oportunismo ou estupidez: a Alemanha cumpre o seu papel e tornou-se preponderante por mérito próprio e pela incapacidade, falta de organização e nula vontade dos demais parceiros europeus. Esta é a verdade. Se em vez de Soares, Cavaco, Sócrates e outros, tivéssemos beneficiado da frieza e capacidade de trabalho de uma Merkel caseira, a nossa situação seria bem diferente. Note-se que não sendo a Chanceler uma águia política comparável a Adenauer, Schmidt ou até Kohl, é sem dúvida muito eficaz no seu relacionamento com a França, Itália, Espanha e demais países componentes do grupo continental. Qual é então a dúvida?

4. Rússia. 

Mesmo considerando o seu regime que nos surge como exótico no contexto para parte central e ocidental da península europeia, Putin é infinitamente mais benigno do que todos os caídos secretários-gerais que o PCUS arrogantemente exibia ao mundo como oráculos da única verdade plasmada no velho  Pravda, essa verdadeira alucinação colectiva  encarada como dogma de papel. O relacionamento com uma super-potência - estatuto que a Rússia jamais deixou de ter, apesar das ilusões cultivadas por muitos incautos e sad sweet dreamers com quem nos relacionamos em aliança - , será sempre um dos primordiais problemas da liderança europeia, seja ela a exercida pela Comissão ou aquilo que um dia lhe sucederá, ou pelo país em melhor situação para falar em nome da Europa. 

Barroso disse algo que é muito importante, pois provem de alguém que não é suspeito de anti-atlantismo ou anti-americanismo. Não soubemos ou não quisemos aproveitar as oportunidades apresentadas pela fragorosa queda do Muro de Berlim e do regime soviético.  Pelo contrário, a Rússia foi ostensivamente humilhada, alijada da sua legítima participação e consulta nos assuntos da grande política internacional. Hoje reduzida às fronteiras grosso modo correspondentes às do reinado de Pedro o Grande - quase coincidindo com as da capitulação em Brest-Litovsk -, já não é nem de longe o grande império de Nicolau II e muito menos ainda, a expansionista e agressiva União Soviética de todos os justificáveis medos. O ex-presidente da C.E. teve ainda a coragem de apontar o nome do principal responsável por esse catastrófico programa de rebaixamento de uma Rússia com quem, independentemente do regime ali vigente, imperiosamente teremos sempre de contar: nada mais nada menos, senão os Estados Unidos da América. Talvez agora os mais insistentes red-necks apostadores da política do tudo ou nada - ou por outras palavras, da guerra -, comecem a aperceber-se do verdadeiro perigo que esta política gizada além-Atlântico representa para a própria manutenção de uma NATO sem brechas. 

publicado às 19:19

No, Sir!

por Nuno Castelo-Branco, em 13.09.14

 

Andamos todos amnésicos de uma história que a maioria dos actualmente vivos não conheceu, mas sem dúvida bastante documentada e à disposição da sua descoberta por quem nela se interessar. Se o pós-II Guerra Mundial foi registado por milhares de documentários para sempre testemunhando a miséria e o sofrimento, imaginemos então o que seríamos forçados a passar, no caso de sobrevivermos, após um conflito entre os EUA e a Rússia. 

 

Nestas danças da chuva que em tan-tans e círculos anuncia a mobilização, há que recorrer a expressões em inglês, pois consiste numa boa forma de vincarmos bem  a urgência da situação. Por muito que tentemos resistir ao patético sacrifício, este é o mundo em que vivemos.

Ninguém conhece concretamente quais os objectivos russos, pois a queda da União Soviética implicou a rápida desagregação do império construído pelos Romanov e ciosamente conservado pelos seus sucessores do PCUS. O estabelecimento da Comunidade de Estados Independentes, poderá ter parecido como um anúncio de uma correspondente russa da Doutrina de Monroe, mas a realidade da volátil política internacional nos anos noventa, bem depressa implicou o total ignorar dessa clara delimitação de uma esfera de interessas. Logo foram surgindo bases aliadas em territórios outrora integrantes do império russo-soviético, assim como convites endereçados a alguns dos novos Estados - algo até agora sem efeito -,  fazendo-os crer nas inegáveis vantagens de pertença à NATO. Conhecem-se bem as dificuldades vividas na Rússia pós-comunista, também não sendo estranhas as notícias acerca da crescente frustração local perante o ostensivo desprezar dos seus interesses, por parte de um ocidente que inicialmente se apresentava como um horizonte de esperança. Não valerá a pena repetirmos a longa lista de eventos que progressivamente foram separando os parceiros do desanuviamento, hoje em quase aberta hostilidade.

 

No verão de 1939, o ministro Ciano visitou o seu homólogo alemão. Ribbentrop recebeu-o em casa e numa conversa no jardim, o italiano, confundido pelas evasivas e manobras de diversão do seu colega, perguntou-lhe frontalmente:

- Mas afinal o que querem vocês? O Corredor? Dantzig?

 

Olhando-o friamente, Ribbentrop foi lapidar:

- Wir wollen den Krieg!

 

O governo do Reich queria a guerra e não se contentaria com qualquer reedição de Munique. Um ano antes, Mussolini tinha impedido Hitler de atacar a Checoslováquia e tal contratempo não se repetiria.

 

A quem se aplica hoje a expressarão Wir wollen den Krieg? A John Kerry, a Sergei Lavrov ou a ambos? Se esta suposição poderá ser abusiva e anacronicamente transportada para os nossos dias, ficamos tão confundidos como o ministro dos Negócios Estrangeiros da Itália, não sabendo apontar o dedo a quem verdadeiramente pretenderá despoletar um conflito. Os sinais parecem de difícil destrinça e o subir da parada uma constante, aplicando-se tanto a americanos como aos russos. Além de serem conhecidas as dificuldades internas que Putin parece estar a enfrentar - cercado por falcões ao estilo de Jirinovski e correspondentes relíquias do infelizmente mal-soterrado passado comunista -, também teremos então de atender ao democrático rufar de tambores cujo eco nos chega do lado de lá do Atlântico. Passando sobre o grotesco de certas pretensões que visavam transformar Sebastopol numa espécie de Subic Bay do Mar Negro, a verdade é que ainda poucos de nós entenderam até onde os nossos aliados pretendem chegar, quando anunciam a colocação de forças militares num possível cenário de conflito, a tal deterrence force da salvação. Ninguém acredita na eficácia da criação de um dispositivo militar na Polónia, um dos países da NATO, pois tal exercício de segurança seria naturalmente encarado pelo possível contendor. Algo de muito diferente será a presença de forças militares da Aliança dentro do próprio território ucraniano, seja essa presença devida a um súbito impulso justificado por garantias a caridosamente concedermos - sim, somos aliados na NATO -, seja ela decorrente de um daqueles habituais pedidos de assistência hipoteticamente enviados a partir de Kiev.  Se querem a guerra, então esta é a melhor forma de a obterem: coloquem tanques, soldados, canhões, mísseis e aviões na Ucrânia e de preferência, utilizem-nos nos combates contra os rebeldes.

 

Há quem pense poder iniciar um conflito de forma controlada, nem por isso temendo o epíteto de warmonger. É praticamente inevitável o rápido descambar para uma escalada envolvendo armamente táctico nuclear, relegando as trocas de granadas entre os Abrahms e os T-90, para a condição de algo bastante irrisório, previsível e rotineiro. Mesmo sendo esta uma infeliz eventualidade talvez já considerada pela gente do Pentágono e do correspondente edifício ministerial russo, há sempre que contarmos com a esperança do lamentável incidente se circunscrever ao espaço europeu, deixando a parte mais importante da aliança fora do raio de acção retaliatório. Por muito pueril que tal coisa nos possa parecer, é mesmo um wishful thinking despreocupadamente cultivado. Aparentemente, a Sra. Palin pode hoje ser considerada como uma genial visionária digna de todos os encómios. Dadas as circunstâncias, a dita personagem  poderia mesmo ser a directa candidata a sucessora republicana de Obama. Para os mais entusiastas pelo início de uma Operação Barbarossa 2, o actual mapa proporciona-lhes o ponto de partida numa frente tal como ela surgia nos inícios de 1943. Dali a Kursk, é apenas um salto. 

 

Não é necessário ou desejável qualquer mútuo appeasement, mas tão só o conhecimento de quais os limites pretendidos por russos e americanos. Quem hoje poderá indicá-los de forma concreta e credível? Ninguém. Quanto aos europeus que aparentemente beneficiaram do estiolar dos seus deveres de auto-defesa, russos e americanos arriscam-se seriamente a não encontrarem simpatizantes ou alinhados numa Europa sumamente preocupada consigo própria e por aquilo que vai acontecendo a sul.

 

Já não estamos nos tempos do "Yes, Sir!"

 

publicado às 14:37

A guerra faz parte da condição humana

por Samuel de Paiva Pires, em 13.09.14

Rui Ramos, Nenhuma guerra acabará com a guerra:

 

Nenhuma campanha militar acabará alguma vez com as disputas de influência dos grandes Estados, nem com os choques das comunidades em que a humanidade gosta de se dividir. Depois de Putin, outro líder russo procurará rever as fronteiras desenhadas no momento do colapso soviético. Depois do ISIS, outra seita tentará realizar violentamente outras profecias. Nenhuma guerra será a última. Para um Ocidente envelhecido, endividado e humanitário, pode não ser a perspectiva mais conveniente. Mas é assim.

publicado às 11:08

Death and Taxes, Portugal and Syria

por John Wolf, em 11.09.13

Aprecio uma boa comparação, mas é na analogia que está o ganho. Também sou apreciador da ideia rebuscada, aquelas elaborações do caneco que não lembra ao diabo cego, surdo e mudo. Cá vai: Poiares Maduro está para os impostos como Obama está para a intervenção militar na Síria. Vamos lá por partes e devagarinho para ver se isto funciona, se não me engano. O que Maduro diz em bom português (proferido no International Club) é que o Estado deve entregar parte do arsenal, reformar alguns dos equipamentos e funcionários que têm servido para chupar o tutano aos contribuintes, ou zás, vem aí uma série de novos impostos. De acordo com o ministro, a Reforma do Estado tem mesmo de acontecer ou então vai haver um bombardeamento tributário da população civil, já de si indefesa, muito perto do desfalecimento. Esta conversa de ministro nacional soa a nova diplomacia de Obama. O presidente americano usa mais ou menos a mesma fórmula; a Síria deve reformar o aparelho militar ou ainda leva com uma catrefada de Tomahawks. Face a estas declarações devemos realmente ter algum cuidado. Lembram-se do cherne, perdão, daquela expressão portuguesa? - Pela boca morre o peixe? Em ambos os casos, no nacional e no americano, as palavras precedem os actos. De certa forma o que estão a dizer é: quem te avisa teu amigo é (e daqui a nada estás a levar umas mocadas). Esta forma de comunicação política é subtil, mas não o suficiente. Nem é preciso ser candidato autárquico para perceber a conversa. Para bom entendedor meia palavra basta (caramba! Estou farto de puxar pelos galões dos provérbios e dizeres populares!). Significa isto, que no caminho penoso em direcção ao cada vez mais que provável segundo resgate, ainda teremos tempo para uns encores de austeridade. O Maduro usou o palco do International Club de Lisboa para exercer esta magistratura do aviso de cobrador. No caso do Obama ainda estou para ver se a Rússia consegue obrigar Assad a entregar o material químico. Em ambos os casos algo vai acontecer. E não me parece que seja coisa boa para os objectores de consciência leve ou pesada. A expressão inglesa - Death and Taxes - serve na perfeição para o que pode acontecer a breve trecho na Síria e em Portugal. 

publicado às 21:12

Era uma vez uma moeda, o Euro

por Samuel de Paiva Pires, em 22.03.13

Há uns anos ajudei a fundar o Pacta, jornal do Núcleo de Estudantes de Relações Internacionais (NERI) do ISCSP. Agora, em formato revista, a actual direcção do NERI teve a simpatia de me convidar a escrever um artigo para esta. É sempre bom voltarmos a casa e vermos como há ideias que se tornam tradições e são transmitidas em corrente, dando corpo à ideia de escola. Quanto ao meu artigo, tem como título "Era uma vez uma moeda, o Euro":

 

 (Rembrandt, O Rapto de Europa)

 

Estávamos no início dos anos 90 do século XX. O Muro de Berlim acabava de cair e a União Soviética colapsava espectacularmente. O Pacto de Varsóvia dissolvia-se, a NATO emergia como aliança vencedora da Guerra Fria e acreditava-se generalizadamente na tese do Fim da História desenvolvida inicialmente por Hegel, ressuscitada no século XX por Alexandre Kojève e popularizada após a Queda do Muro por Francis Fukuyama. A democracia liberal e o capitalismo apresentavam-se como as formas finais de organização política e económica nas quais o processo histórico culminaria. Até a Rússia, sob a liderança de Boris Yeltsin, parecia aderir a estas, enquanto as Comunidades Europeias se transformavamem União Europeiae preparavam a introdução da moeda única.  

 

Com bases económicas frágeis, que o próprio Chanceler Helmut Kohl conhecia1, o Euro é essencialmente um projecto político e constituiu-se como o principal preço que a França acabou por conseguir cobrar à Alemanha pela sua reunificação. Na perspectiva de François Miterrand o Euro deveria servir o propósito de refrear o poder da Alemanha unificada – em conjunto com a redução das suas forças armadas e a renúncia à posse de armamento biológico, nuclear e químico – que Margaret Thatcher também temia2. Mas enquanto a Dama de Ferro se opunha à moeda única e alertava para os perigos desta, prevendo que tornaria a Europa menos democrática e seria o princípio de uma Europa federal pela porta dos fundos, a França viu na moeda única a oportunidade de voltar a assumir uma posição de liderança política do Velho Continente.

 

A História tem uma forma peculiar de revelar, com contornos tragicómicos, as ironias que nos reserva. Não só o Euro serviu precisamente para reforçar o poder alemão como permitiu finalmente à potência germânica dominar a Europa – desta feita sem disparar um único tiro.

 

Desaparecida a ameaça soviética, continuando a NATO a depender largamente dos esforços norte-americanos, a UE reforçou entretanto a sua posição enquanto potência normativa e civil, predominando as preocupações e políticas relativas à esfera económica. Se, inicialmente, foram os ideários liberal e democrata-cristão que inspiraram as Comunidades Europeias, a partir dos anos 90 o projecto europeu assumiu progressivamente contornos de cariz socialista e autoritário, tendendo para um constante reforço do processo de centralização de poder, que aumenta o défice democrático – que, como Roger Scruton evidencia, não é uma deficiência a ser colmatada pela UE, mas sim uma característica estrutural do funcionamento das instituições europeias3 – e que produz cada vez mais legislação que já ninguém pode entender no seu todo, regulamentando cada vez mais aspectos da vida dos indivíduos e acabando por realizar uma espécie de planificação económica através da via monetária que se tem revelado particularmente ruinosa, como a crise das dívidas soberanas tornou evidente. Como afirmou Ronald Reagan num célebre discurso, "the more the plans fail, the more the planners plan."4

 

O planeamentismo económico da UE, a crise financeira de 2008, a crise das dívidas soberanas e a crise do euro acabam também por ter como efeito o predomínio da perspectiva da economia no debate público, que por sua vez absorveu entretanto a ideia partilhada pelos líderes da zona Euro de que a moeda única é absolutamente fundamental e vital para a Europa. Citando Ulrich Beck, "Quem considera a Europa igual ao Euro, já desistiu da Europa. A Europa é uma aliança de antigas culturas mundiais e superpotências que procuram uma saída da sua história bélica."5

 

Os quase 70 anos de paz na Europa resultaram em larga medida dos esforços da NATO e do processo de integração europeia que tinha como pilares fundamentais a democracia liberal, a liberdade individual, a propriedade privada e o mercado livre. Mas a crise do Euro e os resgates financeiros de vários países deixaram a nu a arrogância autoritária de Bruxelas, que não só coloca a democracia em causa como agora também ameaça o direito de propriedade privada, como a recente medida de confisco dos depósitos bancários em Chipre ilustra exemplarmente. Entretanto a Rússia de Vladimir Putin não apreciou a medida, muito menos a justificação de que assim se atingiria os depósitos de dinheiro russo ilícito, tendo, através da Gazprom, oferecido um pacote de resgate ao governo cipriota, que por sua vez, até ao momento em que escrevo este artigo, declinou a oferta. Certo é que todos os cipriotas e estrangeiros ali residentes se encontram neste momento sem conseguir aceder às suas contas bancárias, o que parece quase impensável acontecer no seio da UE, que além do mais parece ter perdido qualquer visão estratégica ao dar uma oportunidade à Rússia de alterar o equilíbrio geopolítico do Mediterrâneo a seu favor.

 

Somos, assim, presenteados com uma segunda ironia: a UE a procurar aplicar uma medida digna de um regime comunista, enquanto a Rússia, outrora bastião mundial do comunismo, oferece um pacote de resgate que porventura poderá melhor servir os interesses cipriotas – da mesma forma que já o havia feito com a Islândia.

 

Entretanto a crise que vivemos na Europa tornou evidente, citando novamente Beck, que "A Europa e a sua juventude estão unidas na raiva por causa de uma política que salva bancos com quantias de dinheiro inimagináveis, mas desperdiça o futuro da geração jovem."6 A contestação vai também tendo repercussões políticas, no que concerne ao descrédito em relação aos regimes democráticos, ao reforço da retórica anti-germânica e anti-Euro e também à dispersão eleitoral provocada por partidos políticos como o Syriza, na Grécia, o United Kingdom Independence Party, no Reino Unido, e movimentos como o de Beppe Grillo, em Itália, que têm alcançado bons resultados eleitorais em virtude das suas posições contra as políticas impostas pela UE.

 

Vivemos uma crise sem precedentes largamente resultante da defesa cega e obstinada da moeda única, o que nos apresenta a terceira e última ironia: o Euro, que deveria ser o pináculo simbólico da paz na Europa, ameaça tornar-se a causa principal de um novo conflito armado no Velho Continente.

 

Muitos ainda hoje se perguntam como foi possível, num clima de prosperidade e domínio político europeu à escala mundial, que as potências europeias se tenham precipitado para a I Guerra Mundial. Esperemos que as futuras gerações não venham a colocar-se questões do mesmo género a respeito dos estranhos tempos que vivemos.



1 - Sven Böll, Christian Reiermann, Michael Sauga e Klaus Wiegrefe, “Operation Self-Deceit: New Documents Shine Light on Euro Birth Defects” in Spiegel Online, 8 de Maio de 2012. Disponível em http://www.spiegel.de/international/europe/euro-struggles-can-be-traced-to-origins-of-common-currency-a-831842.html. Consultado em 19 de Março de 2013.

2 - Philipp Bagus, A Tragédia do Euro, Lisboa, Actual Editora, 2011, pp. 101-110

3 - Roger Scruton, As Vantagens do Pessimismo, Quetzal Editores, 2011, pp. 120-121.

4 - Ronald Reagan, “A Time for Choosing”, 27 de Outubro de 1964. Disponível em http://www.reagan.utexas.edu/archives/reference/timechoosing.html. Consultado em 19 de Março de 2013.

5 - Ulrich Beck, A Europa Alemã – De Maquiavel a «Merkievel»: Estratégias de Poder na Crise do Euro, Lisboa, Edições 70, 2013, p.37.

6 - Ibid., p. 20.

publicado às 17:13

O espectro da guerra

por Samuel de Paiva Pires, em 10.03.13

Passar o fim-de-semana a ler sobre a História europeia permite reforçar a preocupação com as sementes de uma nova guerra no Velho Continente, que curiosamente Jean-Claude Juncker salientou hoje. Adormecidos por quase 70 anos de paz, muitos europeus dão-na por adquirida mas esquecem-se das dezenas de séculos em que a guerra perpassou todo o continente. Nas vésperas da I Guerra Mundial estava tudo muito bem - bem melhor que agora - e foi o que se viu. Ou recordemos que antes do Crash de 29 tinham assento no Reichstag 54 comunistas e 12 nazis, que com as eleições de 1930 passaram a ser 77 e 107 respectivamente, com as consequências que se conhecem para o reforço do partido nazi, que viria nas eleições seguintes a obter 230 lugares.

 

Entretanto, na Alemanha surge agora um partido anti-euro. Depois do paradoxo da moeda única que deveria servir para refrear o poder alemão acabar a reforçá-lo, podemos vir a assistir a um conflito em resultado das divisões causadas por esta mesma moeda que deveria servir para unir os europeus.

 

O homem faz a História sem saber que História vai fazendo. Quinze minutos antes do fim do jogo ainda podemos estar todos vivos e a cantar alegremente. Ignorar a História, a conflitualidade que está na base da natureza humana e a guerra como extensão desta, assim como as realidades que dão pelo nome de nações e advogar uma maior centralização de poder em Bruxelas, como Juncker e outros eurocratas fazem, pode ser fatal. Isto não vai acabar bem.

publicado às 23:39

Sobre a Retaliação de Israel

por João Teixeira de Freitas, em 20.11.12

Antes de mais, e não obstante aos esquerdismos sempre gritantes e à facciosidade do espetáculo pela metade com que se nos apresentam os meios de comunicação e muitos dos seus (pouco) doutos comentadores, é necessário ter alguns elementos em consideração quando olhamos para qualquer conflicto entre um Estado e um agente protótipo de Estado inegavelmente clandestino e ilegítimo (Hamas):


1) Como a própria nómina deveria indicar de forma dolorosamente evidente, uma análise deve ser analítica, nunca prescritiva e muito menos revisionista. A análise opera-se nos elementos do agora e o anacronismo apenas se deve estender até ao ponto do estritamente relacionado com/em seguimento de.

2) Os julgamentos de valor e moralidade de matriz devem vir no fim. Infiltrando-se na análise apenas dão azo a pressupostos falsos, incompletos e, muitas vezes, absolutamente ignorantes. Como se costuma dizer e bem: é preciso ser-se frio para se ter razão.

Procedendo ao meu ver sobre as críticas inanes à retaliação Israelita:

Quando um Estado dotado de valores, legislação e cultura largamente ocidentais se vê numa situação em que tem que retaliar com violência, não há obviamente nenhum prazer nisso. Achar que jovens adultos de 21 anos gostam de ir para o deserto colocar a sua vida em risco por causa de um conjunto de terroristas com demasiados apoios Estatais (nomeadamente o Irão e uma parte da própria sociedade palestina), é um pensamento tão ignorante como atroz.

No entanto, a retaliação é essencial. Em qualquer outra situação nem seriam colocadas dúvidas, mas o mediatismo impõe o debate. A verdade é que o direito à retaliação e à auto-defesa é um direito consagrado e muito bem formulado em termos de objecto no DIP. Israel sofreu um ataque proveniente de um grupo albergado por forças administrativas de um território vizinho, logo a retaliação tem e deve de ser, de acordo com o próprio Direito, focada contra essa proveniência.

Claro que, e aqui surge a problemática maior, o Hamas recorre a uma técnica muito típica dos grupos Islâmicos fundamentalistas: a infiltração em populações e localidades civis; neste caso a utilização de escudos humanos por via do disparo do armamento de longo alcance ser feito a partir de zonas civis. Afinal de contas, a ideia de nação Muçulmana (a Umma) impõe a conscrição não voluntária de todo o povo "fiel" à Jihad de qualquer grupo fundamentalista, e isso inclui crianças que são incentivadas a continuarem a frequentar a creche enquanto agentes do Hamas utilizam a mesma como base para lançamento de rockets e outros projécteis explosivos contra Israel.

Ora, é muito fácil ao cidadão ocidental típico - habitante a distâncias consideráveis destas realidades - emitir o seu pobre e precoce julgamento moral, acusando os Israelitas de "estarem a massacrar palestinianos". Na realidade, quem os está a massacrar é o próprio Hamas, o qual muito depressa se oferece ao sacrifício de civis palestinos como escudo humano para subverter o apoio legítimo e expectável à retaliação de Israel, e para desmoralizar as tropas israelitas. 

O Hamas é, objectivamente, o maior destruidor de vidas palestinas - a realidade dos factos fala por si. Não se pode tolerar a proveniência constante de ataques à distância, sabendo muitas vezes o perigo da trajectória dos mesmos para alvos civis e afins - a reacção imediata é a retaliação, e o Hamas conta muito conscientemente e estrategicamente com isso, de uma forma nojenta e insidiosa.

Isto constitui o complexo moral bélico. O retaliar de imediato para evitar mortes do nosso lado, sabendo da potencial utilização de escudos humanos pelo lado inimigo, levanta diversas questões morais que poucas pessoas se dão ao trabalho intelectual de tratar apropriadamente. 

O dilema é de uma brutalidade e desumanidade tremenda, mas a decisão é necessariamente a de responder com moralidade relativa à imoralidade absoluta do inimigo que utiliza escudos humanos: a protecção dos que nos são culturalmente, nacionalmente e identitariamente próximos evidencia-se como a acção instinctiva; mesmo sabendo o que isso poderá significar para as vidas inocentes reféns dos devaneios fundamentalistas do Hamas – o qual não parece claramente ter o mesmo apego à vida vizinha, mas esse é um dos critérios do fundamentalismo islâmico. Que decisão tomaria? Conseguiria sequer tomar uma? Duvido, é claro, que tomando uma, esta envolvesse sacrificar os seus compatriotas civis.

Claro está, esta complexidade tem implicações humanitárias tremendas, mas, mais uma vez, a mão de Israel é forçada pelo Hamas. E, diga-se de passagem, em nenhuma guerra houve ou alguma vez haverá charme ou civismo. Apenas podemos exigir o básico: o não sacrificar vidas inocentes com propósitos de avançar agendas políticas e estratégias paramilitares (como, devo sublinhar, o Hamas fez e faz com estas técnicas).

A minha insistência em delinear bem a culpa factual do Hamas tem uma razão muito simples: os meios de comunicação exploram a culpabilização total de Israel pelas mortes civis porque isso é o que vende mais em termos de audiência e ideologia ‘mainstream’. 

Infelizmente, a maior parte das pessoas, ora por ignorância destas questões ora pelo complexo de culpa branca, ignora o facto gritante e claro da culpa residir nas acções subversivas, provocadoras, nefastas e imorais do Hamas; acções contra tanto a população palestina (muitas vezes refém da influência destruidora do Hamas no futuro do seu povo) como com a população israelita (que ‘oferece’ centenas de mortes civis aos ataques terroristas do Hamas).

Israel é um bastião do Ocidente inserido num caldeirão de ódio religioso e frustração antiocidental. Apesar das suas tensões étnicas e rácicas internas (por vezes entre etnias judaicas), a sua legislação é clara e o sistema judicial penaliza de facto todas as situações de racismo e incitamento ao racismo, inclusive julgando casos de racismo incitado em contexto de claques de desporto (algo que Portugal ainda não fez). 

Aliás, Israel "prohibits discrimination by both government and nongovernment entities on the basis of race, religion, and political beliefs, and prohibits incitement to racism.[2] The Israeli government and many groups within Israel have undertaken efforts to combat racism (...)". 

Surgiram e surgem alguns casos de violência rácica nas comunidades, os quais foram de facto (e continuam a ser) punidos e julgados de acordo com a regulação e legislação mencionadas; o que significa que Israel, como Estado, segue em todas as dimensões o seu rumo de luz ao fundo do túnel numa região de outra forma obscurecida pelo Islão fundamentalista.

Livrem-se do complexo de culpa; assumam-se como Ocidentais que são em todas as vertentes da vossa vida e não tenham vergonha da vossa cultura. É tempo de apoiar Israel, e é tempo de apoiar o povo palestino condenando não Israel, mas sim o Hamas pelas acções subversivas que conduz.
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PS: Apenas deixo também uma breve adenda de alguns factos históricos e políticos que são muitas vezes esquecidos no discurso geral e produzem vários erros de análise:


1 – A Palestina nunca foi um estado soberano (ficará claro em breve o porquê de mencionar este facto). A Palestina era um protectorado de mandato Britânico, pelo que não tinha nenhuma vontade expressa em termos de relações de política externa e matérias complexas de administração interna – assim o ditava a legislação da época, sublinhe-se.


2 – Por conseguinte, exceptuando a crise do Suez em que Israel desenvolveu acções efectivamente preventivas/preemptivas (depende da perspectiva válida de cada um), Israel nunca foi o agressor em conflictos com Estados Árabes. Todas as outras operações militares não incluídas nestes casos constituíram acções defensivas e expedições de prevenção securitária no sul do Líbano – cujo Estado respectivo não quer e/ou não consegue policiar de forma eficaz.

 

 

publicado às 00:41

Sunday Morning

por João Quaresma, em 17.11.12

Noite em Beersheba, Israel.

Rockets disparados pelo Hamas caem dos céus, invisíveis. As pequenas luzes que sobem lentamente pelo céu são mísseis israelitas, disparados automáticamente e guiados por radar, para interceptar os atacantes. As explosões são os rockets que são atingidos. As sirenes da Protecção Civil avisam a população para correr aos abrigos. Cá em baixo assiste-se à guerra robotizada que, na noite, mais parece fogo de artifício.


«That may be all I need
In darkness, she is all I see
Come and rest your bones with me
Driving slow on Sunday morning
And I never want to leave»

 

publicado às 03:00

Next, please!

por Eduardo F., em 23.10.11

Há mitos cuja extraordinária persistência, apesar de há muito terem sido cientificamente arrasados, se revelam bem perigosos. Por exemplo, o gráfico abaixo, é apresentado por alguns como "A Prova" de que uma intervenção estatal a grande escala - a II Grande Guerra - permite "resolver" os problemas associados a uma grande e profunda recessão económica (como a que atravessamos). Este senhor - não por acaso muito admirado pela anterior troupe socratina, pela actual equipa dirigente do PS, na forma mitigada de "austeridade inteligente", e permanentemente incensado no Público (como voltou a acontecer na edição de hoje) -, não tem andado a escrever nos últimos anos outra coisa que não isto.

 

Pacheco Pereira, na sua crónica de ontem no Público, tentou prescrutar as razões de ser da intervenção da NATO na Líbia sem todavia fornecer uma interpretação conclusiva. Com o devido respeito, creio que a resposta está na intersecção das doutrinas wilsonianas do nation building (de que Clinton foi um activo praticante) e do complexo militar-industrial de que falava Eisenhower no seu discurso presidencial de despedida, que constituem o sustentáculo do imperialismo americano que toma como seus "interesses" tudo o que se passa nos quatro cantos do mundo. A igreja keynesiana, entretanto, encarrega-se de justificar que tudo afinal ocorre a bem da actividade económica americana .

 

 

Curiosamente, esta senhora, candidata à nomeação presidencial pelo partido republicano, e nos antípodas ideológicos de Paul Krugman, acha que o Iraque e a Líbia deveriam agora reembolsar o governo americano das despesas incorridas na sua "libertação" pelos pressurosos EUA. Já John McCain, candidato republicano derrotado em 2008, acha que o dia em que Obama anunciou a retirada do Iraque (será mesmo desta vez?) marcou "um nocivo e triste revés para a posição dos Estados Unidos no mundo". Next, please! O Irão parece ser um "excelente" candidato.

 

Informação adicional: aqui, por Jon Stewart.

publicado às 19:47

O Pearl Harbour português: seis páginas alucinantes

por Nuno Castelo-Branco, em 16.03.11

Ao contrário daquilo que querem fazer crer, Portugal ergueu-se em fúria, após uma autêntica declaração de guerra.

 

Uma história escondida e que poderia cair no total esquecimento. É a vergonhosa nódoa original do sistema , mas que alguns começam a ter a coragem de desvendar. Eventos que jamais algum Tribunal Internacional ousará julgar.

 

Bem fez Cavaco Silva em prestar homenagem aos soldados portugueses. É para isso mesmo que serve o cargo que ocupa. 

publicado às 07:32

Há 49 anos: as imagens inconvenientes

por Nuno Castelo-Branco, em 16.03.10

publicado às 00:03

Sobre os ataques do Hamas e de Israel

por Samuel de Paiva Pires, em 28.12.08

 

(imagem picada daqui)

 

Apesar de ser um estudante de Relações Internacionais há assuntos da realidade internacional pelos quais não nutro especial interesse. Um deles é o conflito israelo-palestiniano. Embora as questões relacionadas com a segurança se constituam como primordiais nas minhas preocupações/interesses, este conflito dura há demasiado tempo e ao longo de 60 anos transformou-se numa escalada irracional de ataque, resposta a esse ataque, tréguas, rompimento das tréguas, novo ataque, nova resposta a esse ataque, novas tréguas, e aí por diante. Imensos acordos foram firmados, todos eles com pouco ou nenhum efeito. Tornou-se por isso previsível e banal, sem fim à vista. E é por isso que, ao contrário do que aqui fiz em Agosto durante o conflito entre Rússia e Geórgia, não me vou debruçar muito sobre estes novos ataques. Noto apenas que o Hamas já tinha anunciado o fim das tréguas (via Blasfémias), e que Israel respondeu aos ataques do Hamas, embora, como nota o JCS, de forma desproporcional, se bem que a regra da proporcionalidade em Direito Internacional Público é difícil de observar e respeitar, como tantas outras prerrogativas desse e, neste caso, é um argumento cada vez mais incoerente porque sempre utilizado contra Israel, como nota Carlos Botelho. Por isso sou forçado a concordar com o António de Almeida, todos os governos têm o direito e dever de proteger os seus cidadãos, e concordo até por uma questão de coerência para comigo próprio, pois considerei esse argumento como acertado e justificável quando utilizado pelos russos no caso do conflito georgiano. Aconselho ainda a leitura da súmula realizada por Alexandre Guerra.

 

É triste notar que dois milénios depois de Jesus Cristo, séculos depois das cruzadas e imensas transformações na hierarquia das potências e sistema internacional, a religião ainda continua a ser responsável pela instabilidade e flagelo da guerra naquela região. E creio que assim continuará, por muitos e longos anos.

 

No entanto, para finalizar, gostaria de deixar uma sugestão irónica para acabar de vez com um conflito que em conjunto com muitos outros no Médio Oriente e Ásia Central se apresenta como potencialmente desestabilizador da ordem internacional, sugestão essa que já há uns tempos tinha lido algures e que não é, portanto, originalmente minha: porque é que os Estados Unidos não dão aos Israelitas um estadozeco qualquer e deixam-nos ser independentes? Aliás não são também os Estados Unidos também propagandeados  como a "terra prometida"?

publicado às 13:58

Geórgia, Israel e a propaganda Ocidental

por Paulo Soska Oliveira, em 21.08.08

Torna-se interessante ler o seguinte artigo:

 

Georgian minister tells Israel Radio: Thanks to Israeli training, we're fending off Russian military
By Haaretz Staff

Georgian Minister Temur Yakobashvili yesterday praised Israel for its role in training Georgian troops and said Israel should be proud of its military might.

"Israel should be proud of its military, which trained Georgian soldiers," Yakobashvili, who is Jewish, told Army Radio in Hebrew. He was referring to a private Israeli group Georgia had hired.

Yakobashvili, Georgia's minister of reintegration, said this training enabled Georgia to defend itself against Russian forces in the warfare that erupted last week in the separatist region of South Ossetia, Georgia.

Yakobashvili said a small group of Georgian soldiers were able to wipe out an entire Russian military division, thanks to the Israeli training.

"We killed 60 Russian soldiers yesterday alone," said Yakobashvili. "The Russians have lost more than 50 tanks, and we have shot down 11 of their planes. They have sustained enormous damage in terms of manpower."

Yakobashvili warned that the Russians would try to open another front in Abkhazia, another separatist region in Georgia, and he denied reports that the Georgian army was retreating. "The Georgian forces are not retreating. We move our military according to security needs," he said.

He also denied that Russian troops had struck Georgia's international airport.

"There was no attack on the airport in Tbilisi. It was a factory that produces combat airplanes," said Yakobashvili.

"The whole world is starting to understand that what is happening here will determine the future of this region, the future price of crude oil, the future of central Asia, and the future of NATO," the Georgian minister added. "Every bomb that falls over our heads is an attack on democracy, on the European Union and on America."

 

Algo está podre no reino do Ocidente...
 

publicado às 09:20

Desde o fim da II Guerra Mundial, com a consequente afirmação dos Estados Unidos como superpotência ocidental, que a ideologia da democracia tem vindo a ser amplamente difundida nos países que se convencionou designar por "ocidentais". Talvez pela institucionalização dos conflitos de que falava Aron, talvez pela regra até hoje em vigor de que Estados democráticos não entram em conflito armado, o que é certo é que a legitimação do poder no Ocidente vive em torno da ideologia da democracia.

 

É também certo que se tornou praticamente impossível contestar essa mesma ideologia, numa espécie de novo totalitarismo encapuçado que se tem inculcado nas mentes da maioria dos povos do Ocidente. A tal ponto que muitos achamos que o que é bom para nós é bom para os outros, e até se inventam disciplinas académicas para tratar da "exportação da democracia", por forma a disfarçar aquilo que se poderá chamar de neo-colonialismo sob a capa da resolução conjunta de problemas colectivos, levando a novas formas de cooperação e integração entre os Estados.

 

Não me interpretem mal, até acho que em muitos casos o Ocidente devia ser mais proactivo e assertivo nas relações com países africanos, asiáticos ou latino-americanos, e onde o é muitas vezes é quando não o deveria ser, como em casos relacionados com a alegada protecção de direitos humanos, o tão badalado "right to protect".

 

Mas o que interessa aqui tratar não é desse tal neo-colonialismo mas sim, analisando apenas as sociedades ocidentais, ter em consideração a irónica deriva totalitária do pensamento único da ideologia democrática que não permite alternativa nem contestação, e que todos assumimos como sendo o melhor para todos, até porque a democracia será o pior regime excluindo todos os outros.

 

E se assim é, há que relembrar Platão e Aristóteles e a teorização em torno dos ciclos dos regimes políticos, quanto ao papel que a educação desempenha nas mudanças de regime. Se o actual conceito de democracia for o mais aproximado que conseguimos chegar ao regime dos Deuses, ou seja, a kallipollis ou politié, então restam-nos apenas dois caminhos: ou o Fim da História como preconizado por Hegel e reafirmado por Fukuyama, ideia que me parece tem vindo a invadir grande parte das sociedades ocidentais através da tal deriva ideológica totalitária, ou então iremos desvanecer pela degenerescência educacional.

 

Infelizmente,  e porque sou um realista normalmente pessimista e céptico nas minhas visões ou análises do mundo e da sociedade, estou em crer que a segunda hipótese será mais crível, na senda da queda de todos os impérios que existiram até hoje, e ainda se tomarmos em consideração as graves falhas em termos educacionais de que padecem as gerações em formação, que dificilmente farão face às crises cada vez mais frequentes, as tais novas gerações que de acordo com Graham Allison mais facilmente recorrerão à força armada do que as gerações que experienciaram fenómenos conflituais de larga escala.

publicado às 02:32






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