Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Ainda a Guiné Equatorial e a CPLP

por Samuel de Paiva Pires, em 02.08.14

Após o meu post sobre este assunto, e tendo em consideração estes dois posts do Pedro Correia, bem como um outro post de Luís Menezes Leitão, pemitam-me apenas salientar um elemento que não terá ficado claro no meu post, mas que lhe subjaz: a humilhação a que Portugal foi sujeito ao fazer-se representar pelo Primeiro-Ministro e pelo Presidente da República em Timor. É que a este respeito estou de acordo com o Pedro Correia em toda a linha. Foi absolutamente humilhante estarmos representados ao mais alto nível, especialmente quando Brasil e Angola não estiveram. Distancio-me, assim, de alguns opinadores que talvez tenham estômagos de betão, caro Pedro. Mas é precisamente por sentir a humilhação, e atendendo à transformação da natureza da CPLP, que creio que devemos adaptar-nos aos novos tempos de forma a que possamos defender melhor os nossos interesses e não andar meramente a reboque de Brasil e Angola.

publicado às 15:54

Os Senhores do Corisco

por Nuno Castelo-Branco, em 25.07.14

 

Havia de cá voltar o Duarte Pacheco Pereira e logo o seu enervado descendente ficaria com as orelhas a arder.

 

Os comovidos mega cefalópodes do comentório sabe-tudo, têm-se desunhado com o habitual argumento da "não existência de laços históricos" entre Portugal e o território que forma a actual Guiné Equatorial. Várias vezes dei comigo a responder-lhes diante do ecrã, aconselhando-os a uma sumária pesquisa que não demoraria mais que uns escassos minutos. "Toda a gente sabe" que Fernando Pó e Ano Bom foram possessões portuguesas até bem perto do final do século XVIII. Por alguma razão D. João II intitulou-se Senhor do Corisco, venera que hoje em dia pertencerá ao Sr. Obiang. 

 

Para cúmulo do azar dos embarbichados, Portugal alienou a soberania em troca de benefícios territoriais no Brasil, consolidando o domínio sul-americano que hoje é a principal potência da CPLP, o tal Estado sucessor que naturalmente tem a devida proeminência na organização que não pode limitar-se a ser um "centro de afectos" e de charlas saudosistas. Há que ver para além dos sundowns enriquecidos com croquetes, pastéis de bacalhau, chamuças e baji purís. 

 

Embora os nomes de D. Maria I e de Carlos III sejam para os mega cefalópodes, tão estranhos como os de qualquer monarca da Coreia pré-japonesa, nem por isso deixam de ser os que surgem como signatários dos dois Tratados - Santo Ildefonso e do Pardo - que consumaram a transferência daquelas ilhas para a Coroa espanhola e em troca, para benefício de Portugal, de territórios que hoje integram o Brasil. Aqui está um argumento persuasor que graciosamente lembramos aos nossos amigos brasileiros, decerto agradecidos por aquela auspiciosa permuta. 

 

Eis mais uma desculpa airosa para o ingresso da Guiné Equatorial, betões, comes e bebes , gases e petróleos incluídos. Pois sim, berrem à vontade. 

publicado às 17:53

Talvez fosse bom repensarmos a nossa política externa

por Samuel de Paiva Pires, em 24.07.14

Pese embora seja perfeitamente possível e compreensível alinhar tanto pela posição pragmática que enforma este post do Nuno Castelo Branco, como pela posição idealista resumida nestes dois posts do Pedro Correia, sendo já um facto consumado a adesão da Guiné Equatorial à CPLP parece-me que talvez pudesse ser útil atentar na forma como Portugal foi encostado às cordas e acabou por não ter alternativa a pactuar com este desfecho, para o qual contribuiu decisivamente a pressão exercida por Angola e Brasil. E isto porque foi um processo demonstrativo de que a CPLP está, efectivamente, a transformar-se, a alterar a sua essência, não sendo despiciendo referir que possui o potencial para se tornar um importante bloco económico internacional, com os devidos reflexos no que à influência geopolítica concerne.

 

Talvez fosse boa ideia relegar para segundo plano o idealismo de uma comunidade ancorada na língua - o que os restantes membros da CPLP já fizeram -, e concentrar esforços em recuperar alguma influência política no seio da CPLP. E isto pode-se fazer, para contentamento de muitos, recorrendo precisamente à tão propalada - como se fosse novidade ou invenção recente - diplomacia económica. Para não voltarmos a ser apanhados na curva, o mínimo que o governo português - o actual e os próximos - pode fazer é concentrar esforços em alargar a organização a países com os quais temos boas relações económicas e políticas e que poderão ter interesse em fazer parte da CPLP, em particular pelas oportunidades de negócios que a organização representa.

 

Se o Senegal já é observador associado há uns anos, se Albânia, Ucrânia, Venezuela e Taiwan têm interesse em fazer parte da CPLP, torna-se essencial compreender precisamente a oportunidade que a CPLP pode representar para a economia portuguesa. O mesmo é dizer que deixemos de ser anjinhos e joguemos com as mesmas armas de Brasília ou Luanda. Assim de repente, relembraria apenas que há mais África para lá dos PALOP, que há América Latina e Ásia onde somos estimados e que também há países europeus que poderiam perfeitamente ser membros de pleno direito, atendendo ao precedente aberto com a adesão de um país onde não se fala português. Se não o fizermos, Angola e Brasil continuarão a alargar a organização atendendo essencialmente aos seus interesses e negociando o acordo de Portugal com migalhas. Já vai sendo tempo de termos uma política externa que não ande a reboque de idealismos ingénuos ou dos interesses de terceiros.

publicado às 17:12

Meias brancas de pano turco

por Nuno Castelo-Branco, em 23.07.14

 

Apesar do nome, a  CPLP não é apenas uma comunidade liguística. 

 

Aqui estão mais uns tantos preciosismos próprios das entradas e saídas dos embaixadores do Grande Siècle. Sem perucas empoadas, sem moscas cuidadosamente colocadas pelo rosto, sem bengalas de retorcidos castões encomendados em Paris, mas com as mesmas meias brancas - desta vez de pano turco substituindo a seda -, carnicões no nariz, pelo a saltar para fora do pavilhão auricular e dentes amarelos de broa.

 

Apesar do nome, a  CPLP não é apenas uma comunidade liguística. 

 

Para único e exclusivo consumo interno, parece ser este o caso dos amuos, surpresinhas e melindres que os media veiculam para contentamento dos pacóvios do actual regime. Tudo isto serve para preencher uns minutos de "tempos de antena de opinião pública" e algumas vozitas dos barbichas das indignações do "hoje há caracóis". As besteiras saídas da reaparecida boca de José Carlos de Vasconcelos - "a CPLP é uma comunidade linguística", quer acreditar este pobre diabo dos anos setenta! - sintetizam as demais. Ouvirmos o confortado João Soares indignar-se com ditadores, conhecendo-se as efusões com que sempre acolheu sobas que mandaram e à farta massacraram no antigo Ultramar, apenas confirma a excentricidade de toda a panóplia de magarefes das notícias. 

 

Apesar do nome, a  CPLP não é apenas uma comunidade liguística. 

 

Agora, consumado o facto da adesão da Guiné Equatorial à CPLP, os gnomos que regem as nossas vidinhas fixam-se em questões menores, resumindo-se o diplomático chilique a uma foto "antes do tempo" e a uma boliqueimada grosseria protagonizada pelo senhor Cavaco Silva. Pelo que a SIC está a proclamar, o presunto cavalheiro não aplaudiu o ingresso daquele país africano, consagrado na cerimónia. Apenas o "Chefe" do Estado português se eximiu à mais elementar e inócua cortesia. Enfim, é o que temos, esta gente que se beijocou e quis aparecer em fotos com Kadafi, condecorou Ceausescu com a Ordem de Santigo e Espada, elogiou o Gauleiter vermelho Honnecker, emperna com os Castro em todas as Cimeiras Ibero-Americanas, permitiu todo o tipo de dislates ao Samora, a Neto e Luís Cabral, bajulou Brezhnev e tantos outros. Já alguém ouviu Cavaco Silva admoestar os EUA quanto à existência da Pena de Morte, roubalheiras e negócios sujos em África, no Médio Oriente, na América latina, uso e abuso do nosso espaço áreo e outros factos que todos conhecemos? O que terá o belenense comensal dito ao presidente chinês aquando da sua visita? Falou-lhe nas inacreditáveis execuções públicas perpetradas em estádios de futebol, ou a EDP bem vale umas tantas valas comuns? Alguma vez puxou as orelhas ao embaixador dos aiatolás, fazendo-lhe advertências quanto aos enforcamentos em guindastes, lapidações e fuzilamentos a eito? A propósito da aplicação da sharia, terá Cavaco Silva recomendado a Paulo Portas umas conversas com os anfitriões sauditas?

 

Não vale a pena tentarem disfarçar o que sucedeu. Na CPLP, as decisões são tomadas por unanimidade, daí o pouco interesse prático das carinhas contristadas. Fez-se o que tinha de ser feito. Quem tem achincalhado Portugal, é o próprio regime em todas as etapas já percorridas. Ou será necessário lembrarmos as cantorias e hossanas em torno de gente que por disparate metropolitano, foi colocada no poder na maioria dos países  africanos de "expressão portuguesa"? 

 

A Commonwealth britânica tem o seu Mugabe - por mero acaso há uns tempos recebido em Lisboa -, enquanto os franceses pouco se ralam com o espantoso desfilar de títeres espalhados por toda a África central. Títeres que subornaram Giscard, compraram Mitterrand, traficaram com Chirac e que sempre contaram com a zelosa assistência militar de Sarkozy e do pudinesco Hollande. Nós, portugueses, somos especiais e assim há que escorraçar Obiang, ou melhor, a população que ele governa. 

 

Apesar do nome, a  CPLP não é apenas uma comunidade liguística. 

 

Como ontem muito bem disse o embaixador Martins da Cruz (TVI24, pelas 11 da noite), estamos entregues a paroquialismos. Nada que não se resolva com umas concessões de exploração de petróleo, compra de dívida pública, salvação de um ou dois bancos, venda de resorts turísticos e de condomínios de duvidoso luxo pladurado e iluminado a LED, contratos com as betoneiras do regime e outras habilidades cá do burgo. Como se lá fora - e cá dentro - não fosse bem conhecida a única e obsessiva natureza da república portuguesa...

 

Apesar do nome, a  CPLP não é apenas uma comunidade liguística. 

publicado às 11:26

As boas vindas à Guiné Equatorial

por Nuno Castelo-Branco, em 22.07.14

 

Uma tremenda derrota para os sabichões relativistas do "comentoriorismo" televisivo, os das t-shirts do Che e dos cursos de férias em Washington.

 

Aqueles que jamais disseram coisa que se ouvisse acerca de regimes como os dos irmãos Castro e que com toda a bonomia bem convivem com bolivarianismos, daniéis orteguismos dos anos 80 e evomoraleirices, abespinham-se com o regime de Obiang. Não sendo de molde a provocar grandes entusiasmos de partilha de experiências de vida, o sistema vigente naquele país  fronteiro a S. Tomé e Príncipe não se diferencia de sobremaneira daqueles que durante décadas vigoraram nos principais Estados africanos da CPLP. Alguém se recorda hoje do sanguinário, prepotente e totalmente inepto regime de Samora Machel e dos morticínios Por Bem dos governos de Agostinho Neto? Não, não convém recordar essas ninharias, para mais da autoria de grandes libertadores e de excelsos amigos do povo português. 

 

Toda a publicidade televisiva anda em torno do total desrespeito pelos Direitos Humanos e descarado nepotismo do esquema Obiang, dois argumentos suficientes para impedirem o ingresso da Guiné Equatorial na CPLP. Verdade? É verdade. Perguntemos então aos indignados que andam pelo PSD, PS e PC, a opinião acerca do que desde 1975 se tem passado em Luanda e Lourenço Marques, perdão, Maputo. Não é preciso entrarmos em detalhes, todos compreendem o que queremos dizer. Alguns nomes de filhos, filhas e parentes por inerência, sempre efusivamente aguardados na Portela, significam babados negócios e compinchagens com a gente do regime de Lisboa. Veremos se o caso BES não significará mais umas tantas concessões aos aguardados salvadores.

 

A Guiné Equatorial não é um país onde se fale o português, aqui está o segundo argumento do rol. Verdade? É verdade, mas o que dizermos então de Timor Leste, onde decorrida mais de uma década desde a auspiciosa independência, pouco tem sido feito para estender o português à condição de língua franca? Qual o esforço feito pelas autoridades portuguesas quanto a este assunto de interesse nacional? Onde está o aproveitamento da "válvula de escape" para professores jovens e desempregados? Onde? Os indignados que nos esclareçam.

 

A entrada da Guiné Equatorial na CPLP, representa antes de tudo, uma verdadeira oportunidade para o exercício da persuasão das suas autoridades. Os ditadores vão e vêm e como dizia o santarrão Estaline a respeito dos alemães, "o povo fica". A pertença deste país à organização da lusofonia - e correspondentes vertentes da economia, educação, segurança e intervenção poíitica no concerto internacional -, implica a  aceitação de regras aceites pelo regime e decerto não tardarão sensíveis modificações na situação geral, tanto política, como económica e social. 

 

Portugal tem relações diplomáticas com Cuba? Tem, são excelentes e assim deverão continuar a ser, gostem ou não gostem os nossos aliados americanos. Portugal aceita as credenciais dos embaixadores do regime dos aiatolás? Certamente e bem longe vão as indignações contra o governo do grande Xá Reza Pahlavi. Portugal cultiva profícuas relações com a Arábia Saudita, China, Cuba, Qatar, Paquistão? Sim e com todos anseia estabelecer proveitosos negócios. Não existem por aí uns tantos Bernardinos que não estão seguros de a Coreia do Norte "não ser uma democracia"? Pois é mesmo assim. 

 

Seja então bem-vinda a Guiné Equatorial. Contabilizando factos nas imediações da vasta região um dia genericamente conhecida por um certo povo como a Costa da Mina, retoca-se agora mais uma das páginas do nosso álbum de recordações históricas. Desta vez, com uma quase garantida perspectiva de benefícios mútuos, multilaterais. Desta vez e ao contrário de Samora, Neto ou do guineense Luís Cabral, é mesmo Por Bem

publicado às 16:37

Ora vejam só...!

por Nuno Castelo-Branco, em 23.07.10

Bem a propósito daquilo que aqui disse, eis um muito simples, esclarecedor e oportuno post do João Miranda. Ora comparem e vejam as coincidências. A marcar uns pontos mais por Angola*, apenas faltará contabilizar a maciça limpeza étnica pós-1974/75 e a frutuosa guerra civil que chacinou para cima de 1 milhão de angolanos, para nem sequer mencionarmos o que se passa em termos de negocieiras luso-angolanas. Bem privadas, por sinal. Nada de especial...

 

Angola Guiné Equatorial
Tem petróleo Tem petróleo
É uma ditadura com eleições É uma ditadura com eleições
A única eleição presidencial realizada até ao momento foi em 1992. Não houve 2ª volta, ninguém foi eleito. Teodoro Obiang tem sido reeleito de 7 em 7 anos desde 1982
José Eduardo dos Santos está no poder desde 10 de Setembro de 1979. Por um mês não é o ditador mais antigo da África subsariana Teodoro Obiang está no poder desde 3 de Agosto de 1979. Por 1 mês é o ditador mais antigo da África subsariana
A família do presidente controla os grandes negócios. A família do presidente controla os grandes negócios.
Corrupção generalizada Corrupção generalizada
Violação dos direitos humanos Violação dos direitos humanos
Está do lado português do Tratado de Tordesilhas Está do lado português do Tratado de Tordesilhas mas territórios foram cedidos a Espanha
Fala-se português Algures numa ilhota fala-se um crioulo do português
Língua oficial: português Línguas oficiais: espanhol, francês, português
PIB per capita: $6 116 PIB per capita: $31 837

 

* Questão do momento: o sr. Obiang também tem filhas e mulher empresárias de sucesso? Perguntem ao sr. Cavaco, lá saberá.

publicado às 18:47






Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas