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A propósito da saída da troika e das eleições europeias

por Samuel de Paiva Pires, em 18.05.14

Marcel Prélot e Georges Lescuyer, História das Ideias Políticas, vol.II, Lisboa, Editorial Presença, pp. 370-374:

 

"O «fim das ideologias» pode significar duas coisas. Em primeiro lugar, uma perda externa de influência sobre a opinião; nesta acepção, a desideologização corresponde ao mesmo tempo à despolitização das massas e à personalização do poder. Em seguida, num mundo governado por uma elite votada ao ecumenismo, segundo um molde asséptico que ultrapassa as aparências de uma distribuição por estrebarias políticas concorrentes, pode significar o «fim dos conflitos ideológicos»; no «extremo-centrismo» do pensamento ideológico que assim se instala, os homens estão intelectualmente de acordo e já só exercem opções técnicas ou pessoas. As palavras «convergência», «negociação», «compromisso» ou «avaliação» resumem a nova ordem moral, baça na aparência, e até soporífera, mas de vocação totalitária, baptizada de «consenso». «O pior ópio dos intelectuais consistia anteriormente em imaginar que possuíam o segredo do mundo» (Alain-Gérard Slama, L’angélisme exterminateur, essai sur l’ordre moral contemporain, Paris, Grasset, 1993); doravante, a sociedade exige do perito o que ontem esperava do intelectual. Pouco preocupada com os riscos do corporativismo que a sua atitude implica, confia a uma quantidade crescente de comités e comissões a definição de escolhas que, por sua própria natureza, decorrem da Política. Governar já não é escolher, mas, ao abrigo cómodo de um pragmatismo promovido a virtude, confiar a «especialistas» a missão de o fazer.


(...)

 

Com efeito, cada geração gosta de gabar a sua lucidez e o seu realismo; declara recusar a doutrinação; rejeita a paráfrase retórica; torce o pescoço à eloquência; reclama informação sólida e séria; pretende ter influência directa sobre o mundo e organizá-lo de acordo com as suas leis. Para o historiador das ideias, estas aspirações, longe de serem novas, revestem-se de uma monotonia lamentável.

 

(...)

 

Se alcança o poder, o técnico deixa de o ser, pois não há acção governamental sem opções, e a técnica não pode determiná-las por si só. O que os inevitáveis «sábios», nos seus comités e comissões, podem descobrir, através dos seus relatórios e livros brancos, são, de acordo com o neologismo na moda, «fazibilidades» técnicas (cujo rigor nunca está garantido), e nada mais. Julgados em função dos resultados concretos, os conselhos dessa eminente variedade de peritos, que são os economistas, sublinham cruelmente os limites do procedimento.

 

Isto vale para todos os técnicos e para todos os tempos. Em 1940, a pretensa impossibilidade material da passagem das Ardenas pelas unidades blindadas foi ultrapassada por uma vontade política, a de Hitler. Dezoito meses mais tarde, pelo contrário, esta foi vencida pelo Inverno russo. As soluções técnicas nunca constituem imperativos positivos (a não ser que disfarcem uma usurpação insidiosa do poder de decisão). Ao elaborar o plano europeu, Jean Monnet afirma claramente que não é um técnico, querendo com isso dizer que obedece a opções morais e políticas, as quais não podem resultar apenas da técnica. A Europa não teria conseguido impor-se, certamente, sem uma visão política (v. René Lejeune, Robert Schuman, une âme pour l’Europe, Paris, Éd. Saint-Paul, 1968). A doença que, desde Maastricht, parece afectar a ideia europeia, deixada à discrição da eurocracia bruxelense, mostra a força desta verificação.

 

(…)

 

Com efeito, seria temível uma ilusão que emprestasse a «todos os povos e a todos aqueles que os governam uma só racionalidade, a dos economistas, que comparam custo e rendimento» (Raymond Aron, Penser la guerre, Clausewitz, Paris, Gallimard, 1976).”

 

(…)

 

A sociedade contemporânea não é favorável às ideias porque elas incomodam."

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publicado às 17:49






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