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Outra conclusão

por Samuel de Paiva Pires, em 30.09.15

A que também cheguei no decurso da investigação que tenho vindo a conduzir, é a de que muitas das discordâncias ideológicas com amigos e conhecidos resultam de andar algures entre o liberalismo clássico, não libertário nem igualitário, e o conservadorismo secular, ancorando o meu pensamento no tradicionalismo, acreditando que o indivíduo é um artefacto social cuja identidade e liberdade decorrem da participação nas tradições da comunidade em que é socializado e sendo agnóstico no que concerne a crenças religiosas. Sou, portanto, uma espécie exótica entre tantos libertários fundamentalistas do mercado livre, socialistas, comunistas, sociais-democratas e conservadores religiosos.

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publicado às 17:08

 

  • O interesse nacional nem sempre é do interesse das populações.
  • O interesse nacional é sempre invocado.
  • O interesse nacional é uma prerrogativa do governo.
  • A projecção de poder e o interesse nacional são quase a mesma coisa.
  • A percepção é tão ou mais importante do que a realidade.
  • As percepções constroem-se para validar ou negar os factos.
  • A produção de percepções não é um exclusivo dos governos.
  • Os média antecipam-se ou estão atrasados em relação aos factos.
  • Os média nunca estão em sintonia/sincronia com os acontecimentos.
  • Os média são uma extensão dos actores políticos.
  • A propaganda é um conflito continuado e praticado por todas as partes envolvidas.
  • O status quo ou a estabilidade são construções ilusórias.
  • A ameaça do uso de força implica ciclicamente o seu uso para se validar.
  • A contenção é a mesma coisa que a ameaça do uso de força.
  • A ameaça do uso de força e a cooperação não estão a grande distância uma da outra.
  • A força das ideologias foi sendo substituída por outras formas de crença.
  • Domínio territorial e ocupação efectiva encontram-se no mesmo plano de importância de outros modos de expressão de poder imaterial.
  • A geopolítica também é movida por dimensões psicológicas como a memória colectiva e sentimentos como o rancor.
  • É mais fácil a fundamentação da decisão política baseando-se na história do que tentar a construção de novos modelos.
  • A linguagem do passado serve apenas uma parte da narrativa do presente.
  • As ameaças pequenas não são diminutas, são efectivas e potenciais.
  • As respostas dadas são sempre grosseiras, ou seja, nunca são do grau adequado.
  • A iniciativa política é apenas a extensão de um corolário.
  • Os corolários ou os axiomas são contradições genéticas, ou seja, a intuição e o instinto, são igualmente importantes na construção de modelos tendencialmente racionais.
  • As intervenções militares, de natureza quase sempre temporária, procuram desalinhar construções políticas de cariz mais duradouro.
  • É possível interpretar factos que ainda não aconteceram.
  • A ética é retrospectiva, mas eminentemente prospectiva.
  • A ideia de ordem nem sempre é legalista ou de natureza ética.
  • As aspirações filosóficas e existenciais do homem talvez sejam as mais difíceis de satisfazer.
  • O materialismo das nossas sociedades produz assimetrias desejadas.
  • As democracias já foram beligerantes entre si.
  • A auto-determinação dos povos nem sempre é um meio para justificar os fins.
  • O auto-existencialismo das nações pode ser acordado e estimulado para fins diversos.
  • Não existem mentiras em geopolítica: é tudo uma questão de timing.

(a continuar)

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publicado às 08:16

Isto é mesmo a sério?

por Samuel de Paiva Pires, em 14.11.13

Faço uma breve pausa no interregno a que me tenho forçado quanto ao comentário da espuma das dias, em virtude da necessária disponibilidade horária e mental que os trabalhos de doutoramento exigem, apenas para perguntar se a seguinte citação de João Vilela, resultante da guerra civil que vai pelo 5 Diasé mesmo a sério ou se estamos perante uma espécie de humor da mais refinada estirpe:

 

"Ser de direita é o refúgio natural das mentes preguiçosas. À direita não se discute, não se teoriza, não se reflecte, não se elabora pensamento. Isso das teorias, das doutrinas, das ideologias, é tudo uma grande treta com que só a esquerda perde tempo."


Dando de barato o óbvio, que parece escapar ao autor, está à vista de todos que é a esquerda que tem prazer na discussão - particularmente a discussão racional e animada apenas pela libido sciendi -, de tal forma que uma discussão sobre Álvaro Cunhal leva a cisões num blog. Isto para não falar desses paraísos para a discussão pública, teórica e ideológica que foram e são os regimes comunistas. 


De resto, talvez se compreeenda que, em não se tratando de humor, a afirmação enferme de uma certa ignorância, porquanto estamos em presença de um "Professor de História da Arte algures na cidade do Porto, licenciado em História e mestre em História e Educação." Tendo apenas em consideração a realidade portuguesa contemporânea, desafiava esta mente nada preguiçosa a revelar-nos alguns trabalhos sérios à esquerda sobre história das ideias políticas, doutrinas e ideologias - está, naturalmente, excluída a propaganda comunista. Assim de repente, em termos de obras de referência, lembro-me apenas dos trabalhos dos Professores Adriano Moreira, António Marques Bessa, Jaime Nogueira Pinto, José Adelino Maltez e António de Sousa Lara. Seguindo a lógica nada falaciosa de João Vilela, partindo da premissa que não são mentes preguiçosas, conclui-se que são todos de esquerda, como é público e notório.

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publicado às 12:51

Apocalipse

por Samuel de Paiva Pires, em 21.12.12

A crença no fim do mundo é tão velha quanto a própria civilização ocidental, embora não tenha apenas raízes ocidentais, estando presente desde sempre nas religiões, e tendo inclusivamente sido transposta para a política por via do Iluminismo que produziu versões secularizadas das religiões - as ideologias - , pelo que a política moderna, como aponta John Gray, não é senão apenas mais um capítulo da história da religião. Para quem queira compreender melhor o assunto, recomenda-se a leitura da obra de Gray A Morte da Utopia, pelo menos do primeiro capítulo, de que deixo umas breves passagens:

 

 

«A política moderna é um capítulo da história da religião. Os maiores levantamentos revolucionários que tanto moldaram a história dos últimos dois séculos foram episódios da história da fé - momentos de prolongada dissolução do cristianismo e da ascensão da moderna religião política. O mundo em que nos encontramos no início do novo milénio está cheio de detritos de projectos utópicos que, embora enquadrados em termos seculares que negavam a verdade da religião, foram, de facto, veículos de mitos religiosos.

 

O comunismo e o nazismo afirmavam que se baseavam na ciência - no caso do comunismo, na falsa ciência do materialismo histórico; no do nazismo, na salgalhada do «racismo científico». Estas afirmações eram fraudulentas mas o uso da pseudociência não travou o colapso do totalitarismo que culminou com a dissolução da URSS em Dezembro de 1991. Continuou nas teorias neoconservadoras que afirmavam que o mundo estava a convergir para um tipo único de governo e de sistema económico - a democracia universal, ou um mercado livre global. A despeito de ser apresentada com os arreios das ciências sociais, esta crença de que a humanidade estava à beira de uma nova era foi apenas a versão mais recente das crenças apocalípticas que remontam aos tempos mais antigos.

 

Jesus e os seus seguidores acreditavam que viviam num Tempo Final em que os males do mundo estavam para acabar. Doença e morte, fome, guerra e opressão, tudo deixaria de existir após uma batalha que abalaria o mundo e em que as forças do mal seriam completamente destruídas. Foi essa fé que inspirou os primeiros cristãos e, embora o Tempo Final tenha sido reinterpretado por pensadores cristãos posteriores como uma metáfora de uma mudança espiritual, a vida ocidental tem sido perseguida por visões de Apocalipse desde esses tempos recuados.

 

Durante a Idade Média, a Europa foi abalada por grandes movimentos inspirados pela crença de que a história ia acabar e nasceria um novo mundo. Esses cristãos medievais acreditavam que só Deus podia conduzir ao novo mundo, mas a fé no Tempo Final não se desvaneceu quando começou o declínio do cristianismo. Pelo contrário, enquanto o cristianismo vacilava, a esperança de um Tempo Final iminente tornou-se mais forte e mais militante. Revolucionários modernos como os jacobinos franceses e os bolcheviques russos detestavam a religião tradicional, mas a sua convicção de que os crimes e as loucuras do passado podiam ser ultrapassados numa transformação omniabrangente da vida humana foi uma reencarnação secular das crenças cristãs primitivas.  

 

(...)

 

Não foram só os revolucionários que sustentaram versões secularizadas das crenças religiosas. Também os humanistas liberais, que vêem o progresso como uma lenta luta gradual, o fizeram. A crença de que o mundo vai acabar e a crença no progresso gradual parecem contrárias - uma à espera da destruição do mundo, a outra à espera do seu melhoramento -, mas, no fundo, não são tão diferentes como isso. Apregoem elas a mudança parcelada ou a transformação revolucionária, as teorias do progresso não são hipóteses científicas. São mitos que respondem à necessidade humana de sentido. 

 

(...)

 

Seja onde for que esteja a acontecer, o renascimento da religião está misturado com conflitos políticos, incluindo uma luta que se intensifica por causa das reservas de recursos naturais da Terra, que estão a diminuir; mas não pode haver dúvida de que a religião é mais uma vez um poder por direito próprio. Com a morte da Utopia, a religião apocalíptica reemergiu, nua e sem adornos, como uma força na política mundial.

 

(...)

 

Na linguagem vulgar, «apocalíptico» significa um acontecimento catastrófico, mas, em termos bíblicos, deriva da palavra grega que significa revelar - um apocalipse é uma revelação em que os mistérios que estão escritos no céu são revelados no fim dos tempos, e, para o Eleito, isso não significa a catástrofe mas a salvação. Escatologia é a doutrina das últimas coisas e do fim do mundo (em grego, escathos significa «último», ou «mais distante»). Como já indiquei, inicialmente o cristianismo era um culto escatológico: Jesus e os primeiros discípulos acreditavam que o mundo estava destinado à imensa destruição, de modo que pudesse passar a existir um novo e perfeito.»

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publicado às 02:25

Ao correr da pena

por Samuel de Paiva Pires, em 25.08.09

 

Porque estou demasiado ocupado em termos de trabalho e de finalização do relatório de estágio/tese, até à próxima semana pouco, para não dizer mesmo nada, andarei por aqui. Aproveito apenas para responder muito brevemente ao Tiago e ao Afonso Miguel.

 

1 - Tiago, utilizei o mesmo texto apenas porque me pareceu adequado ao artigo do Daniel Oliveira. Este, obviamente, nem sequer se dignou responder. De qualquer das formas apraz-me registar e agradecer o excelente contributo do Manuel para este debate.

 

2 - Afonso, respondendo directamente ao que está latente na sua pergunta: a democracia não é uma ideologia, é uma forma de regime. Já agora, essa coisa do crepúsculo das ideologias pode ter efeitos devastadores em certas ideias. É que como explica John Gray, as ideologias não são mais do que meros sucedâneos da religião.

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publicado às 00:28






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