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Idiossincrasias

por Samuel de Paiva Pires, em 18.03.11

 

(imagem daqui)

 

Somerset Maugham, Servidão Humana:

 

«Depois do desentendimento houve uma rápida reconciliação mas os poucos dias que ainda faltavam foram um enfado para Philip. Ele só queria falar do futuro e o futuro levava Miss Wilkinson invariavelmente às lágrimas. No início, o seu choro incomodava-o e, sentindo-se uma besta, redobrava as declarações de eterna paixão; mas agora irritava-o. Estaria tudo muito bem se ela fosse uma jovem, mas era ridículo uma mulher adulta chorar tanto. Ela insistia em lembrar-lhe que tinha uma dívida de gratidão para com ela tão grande que nunca a poderia saldar. Ele estava disposto a concordar, já que ela fazia questão, mas não percebia por que razão deveria ele estar mais grato a ela do que ela a ele. Era esperado que ele mostrasse um sentido de obrigação em moldes que o aborreciam bastante. Estava muito habituado à solidão e às vezes sentia essa necessidade. Mas Miss Wilkinson achava que era uma falta de consideração ele não estar sempre à sua disposição. As irmãs O'Connor convidaram ambos para um chá e Philip gostaria muito de ter ido, mas Miss Wilkinson disse que já só tinham cinco dias juntos e queria-o só para ela. Era lisonjeador mas uma chatice. Miss Wilkinson contou-lhe histórias sobre a extraordinária delicadeza dos homens franceses quando mantinham relações semelhantes à deles. Elogiou-lhes a cortesia, o gosto pela abnegação, a perfeita diplomacia. Miss Wilkinson parecia muito exigente. 

 

Philip ficou a ouvi-la enumerar as qualidades que um amante perfeito deve possuir e não pôde deixar de sentir uma certa satisfação por ela viver em Berlim. 

 

- Vais escrever-me, não vais? Escreve-me todos os dias. Quero saber tudo o que fazes. Não me escondas nada.

- Vou estar imensamente ocupado - respondeu. - Escreverei sempre que possível. 

 

Ela pôs-lhe os braços apaixonadamente à volta do pescoço. Por vezes ficava embaraçado com estas demonstrações de afecto. Teria preferido que ela fosse mais comedida. Chocava-o um pouco que ela lhe sugerisse normas de comportamento. Não correspondia de todo aos pressupostos que ele possuía sobre a modéstia do temperamento feminino.

 

Finalmente veio o dia da partida de Miss Wilkinson. Ela desceu para o pequeno-almoço com um ar pálido e cabisbaixo trazendo um funcional vestido de viagem de xadrez preto e branco. Dava-lhe um aspecto de preceptora competente. Philip também estava silencioso, porque não sabia muito bem o que dizer nestas circunstâncias. Tinha um medo terrível de dizer alguma coisa inconveniente e de Miss Wilkinson se ir abaixo e fazer uma cena à frente do tio. Tinham feito as últimas despedidas no jardim na noite anterior e Philip sentia-se aliviada por já não haver mais oportunidades de ficarem sozinhos. Ele permaneceu na sala de jantar depois do pequeno-almoço para o caso de Miss Wilkinson poder insistir em beijá-lo nas escadas. Não queria que Mary Ann, agora uma mulher perto da meia-idade e de língua afiada, os apanhasse numa posição comprometedora. Mary Ann não gostava de Miss Wilkinson e chamava-lhe bruxa velha. A tia Louisa não se sentia bem e não podia ir à estação, mas o vigário e Philip acompanharam-na. Quando o comboio estava prestes a partir ela inclinou-se para fora e beijou Mr. Carey.

 

- Tenho de lhe dar um beijo também, Philip - disse ela.

- Está bem - disse ele corando.

 

Subiu um degrau e ela deu-lhe um beijo rápido. O comboio começou a andar e Miss Wilkinson deixou-se cair num canto da carruagem a chorar inconsolável. Philip fez o caminho de regresso ao vicariato com uma clara sensação de alívio.»

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publicado às 21:20





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