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A bolacha integral republicana

por Nuno Castelo-Branco, em 28.02.09

 Ao Sábado, tenho por hábito ir ao café logo pela manhã e hoje tive sorte. Sentou-se ao meu lado um casal que quebrando a tradição de circunspecção da nossa gente, entabulou conversa. De Expresso na mão, o homem lá começou a comentar aquilo que todos ouvimos e sabemos e soube despertar a minha curiosidade com apenas duas frases pronunciadas. Aparentemente contraditórias, contêm em si aquilo que o dito senhor pensa ser uma solução para todos os nossos problemas.

 

Assim, antes de afirmar a necessidade da instauração de um sistema presidencial forte e com plenos poderes executivos, procedeu a uma longa tirada anticapitalista com contornos claramente patrioteiros, clamando por disciplina, culto aos símbolos nacionais, valorização do trabalho e imperiosa necessidade de controlo da imprensa e da televisão por gente capaz de discernir o que tem ou não tem interesse colectivo. Confesso que a certa altura e já bastante confuso, decidi ir ao encontro dos desejos do casal que queria  uma audiência participativa. Duas ou três palavras, um assentimento com a cabeça e um sorriso, operam maravilhas. Fiquei então a saber que a única saída para situação actual, consistirá na atribuição da totalidade dos poderes do primeiro ministro ao presidente da república. Como é evidente, a presidência do conselho de ministros seria garantida pelo Chefe do Estado, desaparecendo aquela outra, tornada excrescência sem efeitos práticos. Apontando para o exemplo soviético e criticando os "erros de cálculo político" do Estado Novo, lá iniciou a parte substancial da ora, oferecendo a sua visão de uma economia sólida e sustentada. Imediata nacionalização de toda a "banca burguesa portuguesa" - como se isso existisse - , estabelecimento de uma lei eleitoral que beneficiasse os partidos que recebam mais de 30% dos sufrágios, podendo concorrer às eleições, aqueles que assinassem a plataforma para a reconstrução do Estado (!); suspensão dos Acordos de Schengen; comunicação a Bruxelas do "início de um período de adaptação da economia nacional", através do estabelecimento de pautas aduaneiras; não cumprimento dos acordos de pescas, quotas de produção no sector agrícola, etc; criação de um Conselho Económico e Financeiro que decida acerca da legislação a ser apresentada ao parlamento (!), no qual terão assento as agremiações sindicais e patronais; fim do limite de mandatos presidenciais; saída de Portugal da estrutura militar da OTAN. Foram estas, algumas das ideias apresentadas, numa plena demonstração de total irrealismo e desconhecimento do mundo em que vivemos. Devo acrescentar que o recurso às palavras socialismo, nacionalismo, autoridade, decência, transparência e serviço público, preencheram qualquer lacuna no discurso. Mais, disse-me "conhecer bem" a doutrina Integralista que apenas peca por ter sido obra de monárquicos, pois em si mesma e no seu ponto de vista, é contraditória (?) nos seus pressupostos, dada a questão da sucessão hereditária. Nem Cavaco, nem Soares, nem Eanes, mas sim um homem "comum, sensato, honesto, amigo do seu amigo (...), modesto, mas sobretudo, distante ". É este o perfil ideal para o salvador, aquele que por simples passe de mágica, será capaz de nos resolver todos os problemas. Olhando provocatoriamente para a minha bandeirinha azul e branca à lapela, rematou: que melhor forma temos nós para comemorar os 100 anos da república?

 

Perante o dilúvio de sandices, respondi: o senhor acabou de provar que o melhor caminho é acabar com ela de vez!

 

Levantei-me, cumprimentei e dirigi-me ao balcão para pagar.

 

Por hoje já chega, pois  participei num longo e exclusivo sketch ao estilo Monty Python.

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publicado às 17:44






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