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Portugal e a armadilha das comparações

por John Wolf, em 16.04.14

Acho péssimo o jogo das comparações. Portugal não é a Grécia. Portugal não é a Irlanda. Portugal não é isto. Portugal não é aquilo. Nem os silogismos servem a causa (argumento formado de três proposiçõesa maiora menor (premissase a conclusão deduzida da maior, por intermédio da menor). Portugal é igual a si e já basta. Este género de notícia eterniza a ideia de que Portugal deve usar a régua dos outros para medir a sua envergadura, a sua virilidade. E depois subsiste uma outra dimensão corrosiva. Assim que se transmite a ideia de que Portugal passou a ser um país de aforristas, os cidadãos, embalados pelo prémio de desempenho, começam a dar largas à imaginação. Já podemos observar as campanhas hedonistas apresentadas nos escaparates mediáticos. Ele é férias na praia dominicana. Ele é festa temática no verão que se aproxima. Ele é campeonato do mundo de futebol. E, assim, sem se dar conta, a boa notícia da poupança morde a própria cauda, come-se. É uma armadilha.


"silogismo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/silogismo [consultado em 16-04-2014].

publicado às 08:02

Premio Nobel da Austeridade

por John Wolf, em 08.10.13

Várias nações estão em competição para ganhar o mais deprezado troféu do desenvolvimento económico e social do mundo. Grécia, Chipre, Portugal e Irlanda são os principais concorrentes que disputam o galardão máximo: o prémio Nobel da Austeridade. O júri composto pelo FMI, a Comissão Europeia e pelo Banco Central Europeu, está a debater há mais de dois anos, e à porta fechada, a atribuição do prémio. Contudo, a decisão a tomar não será fácil, dada a grande qualidade dos seleccionados. A short-list de países pode ser curta, mas os concorrentes querem provar que são os melhores na corrida ao fundo. Convém acrescentar que, embora de um modo formal, não façam parte do colégio de juízes, a Goldman Sachs, a Standard & Poors e a Fitch também participaram no processo de selecção dos países candidatos de um modo muito expressivo. Os Óscares do prejuízo arrastam consigo uma torrente de opinião pública desfavorável e, por essa razão, o prémio a atribuir poderá ser partilhado entre o país ganhador e os seus governantes - a promessa de juros de dívida cada vez mais elevados, despedimentos em massa, cortes na segurança social e falências extraordinárias das funções do Estado. A menos de uma semana da apresentação pública da decisão, as casas de apostas dão como certa a vitória da Grécia ou Portugal. Mal posso esperar pelo evento. Pode ser uma das únicas chances que Portugal tem para levantar a taça. Dizem que nos anos que se seguem o número de candidatos duplicará na Europa e arredores.

publicado às 20:43

 

Nesta infausta e felizmente já "descomemorada" data, nada melhor tenho para fazer, senão publicar uma carta escrita nos finais do já longínquo ano de 1974.

 

Tendo ficado em Lourenço Marques até 1976, a minha avó assistiu a todo o processo de debandada que culminaria com o forçado abandono de Moçambique por parte de toda a sua familia. O seu pai, estabelecido em Lourenço Marques desde o início do século,  ali morreu em 1975 por altura da independência e a sua mãe que jamais visitara o Portugal Continental, também viria para a antiga Metrópole. Como era seu hábito, trata-se de uma longa missiva por vezes quase telegráfica e que ainda caía na tentação do uso do português de outros tempos. Nestes papéis apercebemo-nos da catástrofe que se verificava nos serviços públicos já a mercê do oportunismo de muitos, da incompetência dos neófitos e de uma total desorganização tornada inevitável pela abrupta partida de quadros da administração do ainda Estado de Moçambique. O papel das Forças Armadas Portuguesas foi aquele que bem se conhece, sumariamente podendo ser classificado como prepotente, escandaloso e cobarde. A mencionada requisição de navios que procederam à evacuação de militares e respectivas famílias - não esquecendo os preciosos teres e haveres, muitos destes adquiridos ao desbarato aos "colonos" - é apenas um dos tristes episódios que salpicaram a reputação de uma instituição até então por todos considerada sagrada.

O Miguel, a minha mãe, a Angela e eu, com a avó (L.M. Moçambique, 1966)

Alguns nomes foram por mim deliberadamente ocultados, evitando a reabertura de pequenas feridas - que hoje não têm qualquer relevância - perpetradas por gente excitada pelos acontecimentos e que talvez não tenha querido hesitar antes da tomada de algumas atitudes desnecessárias. 

 

Existem muitas dezenas de cartas deste período, ciosamente guardadas pelo meu pai, um felizmente incorrigível arquivista. Estes papéis são verídicos testemunhos de muitos acontecimentos completamente desconhecidos pela sociedade portuguesa. Convém guardá-los e dá-los a conhecer, pois a preservação da memória é o que nos resta. 

 

 

"Lourenço Marques, 8/11/74

Meus queridos filhos e netinhos

Anteontem pouco antes do meio dia foi quando escrevi as últimas linhas da carta que enviei via "Expresso". Não sei se me expliquei claramente, assim volto a dizer agora o mesmo.
Na CCN (1) dizem que a "sede aí é é que tem de mandar aviso Telex para a filial aqui com ordem de pagamento a ser feita cá". Eu já levava dinheiro para o fazer e nada adiantei. Tratar quanto antes do assunto que eu para a semana vou passando pela CCN a saber se já mandaram a ordem de pagamento. Meu Deus, tantas arrelias juntas. Disseram-me que a culpa foi de quem mediu os contentores, é melhor ir sempre a mais e pagar cá. Estava lá uma senhora a dizer que sabia como era. Mediam a menos para se valerem e mesmo receber gorjeta e os interessados que se arranjassem aí. Que sabia de muitos casos. Só penso que se já têm casa (2) devem estar mortinhos para a ter arranjadinha, o tempo como está? Já deve fazer frio. 
Fui à Inspecção de Crédito falar com a D. Irene Santos. Foi ela quem tratou da renovação do cartão da mesada da Prazeres (3) (ainda não lhe mandei o cheque de Setembro, não tenho cabeça nem disposição para escrever). Disse-me que as transferências estão suspensas e é verdade. Que os funcionários que foram "via turismo" não têm direito mesmo que houvesse dinheiro porque foram à sua custa, e é o teu caso, não é assim, Ana Maria? Deram-te a licença graciosa mas não as passagens. Pode ser que eu esteja enganada, mas lembro-me de ouvir qualquer coisa sobre isto antes de embarcarem. Mesmo no BNU estão as transferências suspensas. Não sei quantas vezes eu lá fui e quando lá chego antes de abrir as portas já a bicha é enorme. Enquanto estiver o aviso afixado na porta a dizer que estão suspensas as transferências, nada feito sobre as pensões. 
Se não me engano já mandei dizer qual o dinheiro vosso que tenho. Em caixa deixado por vós antes de partirem = 700$00 mais 25$50 em moedas 2.000$00 pagos por M. Graça Fernandes = 2.725$50.
A XXXXXXXX veio pagar domingo passado 14.000$00 pelo aparelho de ar condicionado. Quando lhe telefonei disse-lhe que preferia em dinheiro em vez de cheque como queria pagar. Que não podia fazer. Lá tive que ir depositar o dinheiro e assim quando preciso de dinheiro só posso levar dez contos por semana, um dia = 4 contos, outro dia = 4 contos e no terceiro dia = 2 contos. É uma bicha tremenda. Quando estranhei serem só catorze contos e lhe mostrei a factura que tinha mesmo ao lado da mesinha do telefone disse-me logo que lhe tinhas falado em catorze e não em catorze e quinhentos. Sempre quero ver se dará o que falta. Também me disse que os 4 contos não eram divida dela mas sim do irmão e da cunhada, que tinha ficado acordado contigo pagar mil escudos por mês. Que quando eu fosse novamente com a tia Mimi à consulta (vou na terça dia 12), a cunhada me pagaria qualquer coisa. Eu que ando a pé e sou velha é que tenho de lá ir. Esta gente não é nada atenciosa. A YYYYYYYY está na África do Sul, só para o fim de semana é que virá. Foi o que me disseram quando telefonei. O Sr. Inácio Ribeiro foi mais cortez, mas é pouca coisa o que tem para me entregar.
Agora vende-se tudo ao desbarato, por este andar só quem mesmo não pode é que não procura novos horizontes. No mercado negro dizem que para receber 100$00 daí temos que dar 300$00. Quando se pergunta quem o faz ninguém sabe e qualquer dia estará a 400%. Anda tudo louco. Não há navios para passageiros e carga. Até Março é para militares e famílias e material de guerra. Estamos abandonados. Não é costume nestas ocasiões fretarem navios e mesmo aviões para quem quer ir embora? Coitado do Avô (4). Diz que da sua casa não sai, mas está tão abalado que não sabemos quanto mais viverá. É a velhice. Vai-se apagando pouco a pouco. A Avó tendo que sair prefere ir para a A. do Sul que é clima mais quente, o Carlos, a Bolívia e a Mimi (5). A Maria Jesus (6) diz que vai com os filhos para lá, só está à espera do emprego que lhe prometeram em Durban. Mais ou menos o mesmo que cá faz. O Zeca (7) começa a trabalhar lá em Janeiro, a Laura (7) já está a desmantelar a casa. Enfim, a família vai cada um para seu lado. A Loti (8) conta embarcar no fim de Dezembro. Eu que faço? A Adélia (9) embarcou domingo passado com os miúdos e a mãe. Estão a viver em Portimão. O Mário (9) para o mês que vem embarca a gozar férias. Conta ficar uns tempos por cá e prefere então ir para o Brazil. Já está a tratar para ali se fixar. Fala em Porto Alegre. O Mário vai passar o natal aí e volta para cá até ir para o Brazil. O mobiliário já está a ser encaixotado e segue no fim de Dezembro para o Brazil. Vai junto com bagagem de uma família amiga. 
Eu ando a tratar da minha pensão de sobrevivência. A Adélia andou lá mas tudo agora é muito moroso. mandaram-me ir para a semana. Quero ver se ainda tenho chance de a transferir para aí antes de vinte e cinco de Junho, tenho até morrer. Assim não perco tudo, bem basta a casa ficar cá. Pena tenho eu de não a poder levar às costas. Eu ando muito nervosa (quem não anda?) quantas vezes não digo que era preferível morrer, tanta cousa triste neste último ano! Não sei se leve a tralha (caso haja navios de carga) e venda aí mesmo ao desbarato mas o dinheiro corre no mercado e o de cá só se for (10) para limpar o...! As lojas estão vazias, as pessoas que foram, como não dão transferências gastaram todo o dinheiro que cá tinham. Foi uma das razões porque os bancos agora só deixam levantar dez contos por semana. Mandem dizer o que na minha casa vale a pena levar. Parece-me que há gente da A. do Sul interessada em mobílias de talha, pagam em rands. Sendo assim vendia a mobília de quarto. Para mim um divan faz de cama e o resto do quarto a fazer de salinha com as minhas recordações já me chega. Ao que a gente chega. Nem se pode morrer em paz. 
Esta semana fui ter com o Jorge (11). Disse-lhe também que já tinha vindo a minha casa, ao sábado e domingo na verdade nunca estou.  Ao sábado casa da tia Bolívia e Avós e ao domingo com a Adélia e Mário. Ontem à noite o Mário veio buscar-me e fomos ao cinema ver uma comédia. Nunca julguei que pudessem fazer filmes tão cómicos, sem ser as parvoíces de outrora. Agora metem política e é cada uma. Olha, fartei-me de rir. O filme de bonecos animados era mesmo bom. Passado numa escola. Como estava dizendo estive a conversar com o Jorge. Diz que vai haver barulho lá mais para diante. Como a Vira (12) também passou e ficámos a conversar, não adiantou mais nada, de maneira que não sei o que conta fazer. Sobre a tua mãe, Ana Maria, nada sei. Uma senhora que estava ao balcão é que perguntou se eu era a mãe do Vítor e que quando fosse à Caixa para lá passar, pois tinha uma encomenda para ti. O Jorge falou em cheque... mas nada havia. O contrário é que seria de admirar. É a tal Margarida de que falaram numa carta.
Sobre o emprego estão satisfeitos? Aparecendo cousa melhor é aproveitar. Escuta aqui, escuta acolá e olho vivo poderá ajudar para cousa melhor. O que interessa é na verdade ganhar para comer, para a casa e para os estudos. Como está a Angelinha? O Miguel e o Nuno, bons? A Ana Maria não diz nada sobre a saúde, bem agasalhados por causa do frio é o que eu peço para fazerem. Fui agora à caixa do correio mas não tenho correspondência. A semana passada recebi duas cartas em dois dias seguidos ou foi no princípio da semana? Desculpem a minha cabeça anda tão cansada. Isto é uma baralhada medonha! Quando estou sozinha farto-me de chorar, e quando quando ando na rua melhoro mas, o pior é que quando chegou a casa está tudo por fazer. Não encontro tempo para tudo.
Todas as pessoas amigas vos mandam muitas saudades. Mais uma vez o seguinte: (quanto antes têm que ir à sede CCN pedir para mandar para a filial de cá um Telex a confirmar o pagamento cá. Não vindo a ordem da sede aqui não recebem o dinheiro) Entendido?
Muitos beijinhos e muitas saudades da mãe e avó muito e muito amiga
Irlanda"


(1) CCN, Companhia Colonial de Navegação.


(2) Vivemos no Parque de Campismo de Monsanto até ao verão de 1975.


(3) M. dos Prazeres, a irmã do meu avô, residente em Valença do Minho.


(4) O meu bisavô. Vivia em Moçambique desde o início do século XX.


(5) Carlos, Bolívia e Mimi, irmãos da minha avó.


(6) Maria Jesus Branquinho, cunhada da minha avó.


(7) Zeca e Laura , irmão e cunhada da minha avó.


(8) Leontina (Loti) Tenreiro, irmã da minha avó.


(9) Adélia e Mário, a nora e o filho da minha avó, meus tios paternos.


(10) Uma conhecida expressão de desânimo que a minha avó substituiu por reticências.


(11) O tio Jorge, irmão da minha mãe.


(12) Elvira, uma prima do meu avô.



publicado às 19:20

Há muito pouco a fazer a não ser continuar,  socraticamente, a conduzir as pessoas a perceberem o que está mal, a parirem raciocínios e a fazê-las tomarem consciência das múltiplas formas pacíficas que têm ao seu dispor para, nas suas condutas diárias individuais, fazerem a diferença que querem ver no mundo. É um processo lento por natureza e que exige paciência de santo. Pelo caminho, vamos sendo roubados. É aqui que entra uma qualidade imprescindível para o processo de transformação: a abnegação. Talvez faça algum sentido, afinal, o ensinamento de Cristo, ao render-se à injustiça e à bruteza, deixando-se matar na cruz. Revelou com este acto aparentemente incompreensível, uma forma pacífica e inovadora de fazer uma revolução. O esbulho fiscal e a opressão pelos políticos talvez seja a cruz, a crença na justiça e liberdade, a salvação. Pelo meio morre o corpo mas fica o ideal.

Durante a pausa "sabática" que fui forçada a usufruir observei, com uma certa frieza, os muitos episódios saloios da vida política portuguesa. Vou abster-me de quaisquer comentários porque, tendo falado com novos e velhos, instruídos e analfabetos, a maioria deles analisa, de forma acertada, a actual situação portuguesa e diagnosticam com um rigor por vezes surpreendente a raíz do problema. Esta crise tem pelo menos este grande mérito: pôs a generalidade dos portugueses a pensar. Aqueles que são independentes do estado são muito clarividentes quanto às razões que nos trouxeram e mantêm neste lodaçal. No fundo todos sabíamos que chegaria o dia de pagar a conta das obras públicas, do “investimento” do estado e dos muitos excessos socialistas da esquerda e da direita ao longo de quase duas décadas: todos esperávamos o dia do acerto de contas. O que os portugueses não esperavam era que a Justiça deixasse escapar por entre as malhas da sua inoperância os responsáveis máximos por esses excessos; e o que os portugueses também não esperavam era ver os bancos enfileirarem-se para recolher os frutos de tantos anos de amizade promíscua com o estado.
Tivessem os portugueses de pagar apenas e só o que devem - vendo  fazer-se em praça pública uma reflexão profunda da importância de um sector público reduzido em tamanho e poder - e tudo estaria menos mal.

E é tudo o que me apraz dizer neste sábado chocho. Estou sem forças e sem crença. Sinto que o vigor e ânimo que outrora habitaram o meu espírito me são sugados pela energia negra do aparelho do poder. Continuarei a pregar, junto dos que me querem ouvir, o valor da verdade e da justiça. Continuarei a apontar soluções, continuarei a fazer "partos difíceis", ficarei por cá, resistirei à tirania, enfrentarei a perda, a mágoa, a dor. Perante o tamanho do problema em que Portugal está metido, há muito pouco que possamos fazer. A classe política portuguesa (e a europeia) está empenhada em destruir a vida dos seus cidadãos. Só o sonho, a ideia e a palavra conseguirão sobreviver à ruína final.

publicado às 16:58

No Público:


«Vítor Gaspar afirmou que a extensão dos prazos para o reembolso dos empréstimos a Portugal e Irlanda será certamente inferior a 15 anos, acrescentando de seguida que basta uma solução “mais modesta”.

Em declarações prestadas no final do encontro do Ecofin desta terça-feira, o ministro das Finanças disse que a possível extensão de 15 anos “antecipada” na véspera pelo ministro das Finanças irlandês é “inconcebível” e que se trata apenas de “uma posição negocial, e não uma previsão do que será o resultado dessa negociação”.»


Quando os mais troikistas que a troika se acham no direito de espoliar toda uma nação e arrastá-la para a miséria, quando os governantes eleitos são mais "exigentes" que aqueles de quem dependemos externamente, já não sei ao certo o que isto é, mas certamente não será bem um regime de protectorado. Noutros contextos, noutras épocas, ocorre-me que uma posição destas era bem capaz de ser apelidada de traição. Mas como temos sido desgovernados por traidores, faz apenas parte do normal anormal estado a que chegámos.

publicado às 16:30

Sobre o "sim" Irlandês ao Tratado de Lisboa

por Samuel de Paiva Pires, em 03.10.09

O Luís Naves diz tudo o que há a dizer. Uma análise desapaixonada e realista:

 

 

"Apesar do referendo irlandês não passar de uma palhaçada patética, penso ser uma excelente notícia a ratificação pela Irlanda do Tratado de Lisboa (que parece iminente).
Em Portugal, sobre este tema, julgo haver pouca opinião desapaixonada. Na realidade, o Tratado acelera o processo de integração e cria condições favoráveis para a União Europeia funcionar em momentos de crise.
O novo Tratado altera o equilíbrio institucional e aproxima o processo de decisões dos cidadãos, simplificando regras bizantinas. Ao dar mais poder à Alemanha e ao limitar as possibilidades de bloqueio por uma coligação de pequenos, o documento permitirá que se desenvolvam novas políticas comuns. O mecanismo melhorado das cooperações reforçadas viabiliza as áreas da defesa e segurança, ao mesmo tempo que a possibilidade de expulsão assegura o bom comportamento de todos os membros.
A qualidade da presidência fixa dependerá da primeira escolha para o cargo e o parlamento terá novos poderes, mas a arquitectura política da UE fica nítida e torna-se mais eficaz.
Falta remover alguns obstáculos para a entrada em vigor do tratado, mas julgo que a UE (tal como a conhecemos) evitou a sua fragmentação em círculos concêntricos. Sem este Tratado, alguns países iriam avançar com uma UE de patamar mais elevado e Portugal corria o risco de ficar fora deste núcleo.
No futuro, o grande desafio será tornar a organização mais transparente e democrática, para que as pessoas votem em eleições europeias e possa realizar-se um referendo europeu.
Outro desafio para as potências será o de dar verdadeiros poderes à UE, permitindo um orçamento mais robusto.
"

publicado às 15:06

Porreiro, pá!

por Cristina Ribeiro, em 04.09.09

Isto de estranhos quererem decidir por um povo, que melhor do que ninguém sabe do seu interesse nacional, tem muito que se lhe diga; é que lhes pode sair o tiro pela culatra.

publicado às 21:59

Irlanda até dizer Yes!

por Nuno Castelo-Branco, em 12.12.08

 A magna reunião de chefes da cada vez menos União Europeia, decidiu obrigar a Irlanda a repetir o referendo ao Tratado de Lisboa. Confirma-se assim, aquilo que há meses dissemos quando da rejeição popular da primeira tentativa de ratificação.  Os irlandeses serão forçados coercivamente a ir às urnas, até o resultado ser favorável aos desígnios de gente dificilmente identificável, uma vez que estas metas são traçadas não por Estados que partilham um projecto comum de progresso, mas por interesses muitas vezes divergentes da própria lógica da União.

 

Sem um único estadista de referência - daqueles que a Europa sempre teve em todas as épocas da sua já longa história  -, o abuso e a falta de respeito para com as populações banalizaram-se. Nem sequer mencionar o caso português, no continente não temos alguém que de longe ombreie com Carlos Magno, Richelieu, Luís XIV, Maria Teresa, Pitt, Metternich ou Bismarck. Até os controversos de Gaulle, Adenauer, Kohl e Mitterrand nos parecem hoje, poucos anos decorridos após o fim dos seus mandatos, como protagonistas de uma idade de ouro de uma Europa que parecia ter um futuro e um rumo. Toda esta prepotência e errância à procura de recursos financeiros cada vez mais escassos, conduz a uma desesperada tentativa de tudo esmagar pelo rolo compressor da uniformização prevista pelos gabinetes de Bruxelas. Perde a democracia e perde a credibilidade desta comunidade já mais que cinquentenária, cada vez mais parecida a um velho trust de outros tempos.

 

A falta de visão acerca da realidade perigosa em que hoje vivemos e o encolher de ombros perante a evidência do descontentamento, parece ter-se tornado norma na já complexa teia de contradições em que se atola a UE. Com o poder a ameaçar cair na rua em Atenas e existindo claros indícios do alastrar deste tipo de "movimentos" a outros países, corremos sérios riscos de um inverno anormalmente quente. Os episódios de desobediência civil vão subindo de intensidade e os governos não encontram uma resposta eficaz para os debelar. Sem poderem refugiar-se num aumento de produção de matérias primas - os europeus não as têm -, continuará a escassear o dinheiro necessário para mitigar a insatisfação. Até onde a raiva poderá chegar, isso ninguém pode prever.

publicado às 11:18






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