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Ambiente Mental
Para lidar com a primeira entrada do abecedário, teremos de reconhecer os diferentes significados e aspectos do conceito de ‘ambiente’. Por exemplo, efectuar uma distinção entre ambiente natural, natureza ou ecossistema, e ambiente humano. As dimensões a que nos referimos são indissociáveis, pelo que em Portugal tem sido difícil estabelecer a relação de parentesco entre o indivíduo e o ambiente. A natureza em Portugal é um filho bastardo e mal amado. A natureza não é assumida enquanto propriedade colectiva ou património nacional, de forma activa e inquestionável. Talvez o nascimento de cada indivíduo e a consequente atribuição de nacionalidade deveria implicar a propriedade de um qualquer enésimo do território do país. Esta forma de cidadania proprietária teria um efeito psico-simbólico intenso, gerando uma espécie de auto-estima territorial. Não reconhecer o valor do espaço de inserção geográfico, significa praticar uma forma de ‘geo-fobismo’, expulsando a terra, tornando cada indivíduo um membro voluntário de um movimento sem-terra. Talvez devido ao seu passado histórico colonial, Portugal tenha subvertido a importância do conceito de espaço vital imediato, com a excessiva disponibilidade além-mar a incutir uma nefasta atitude perdulária. Nem mesmo a Conferência de Berlim de 1884, que instituiu o princípio de ocupação efectiva dos domínios coloniais, e que retirou territórios e capacidade de projecção de poder a Portugal, terá servido para um ‘regresso’ a limites geográficos proporcionais à dimensão nacional. Poderemos legitimamente perguntar: como e quando se inicia um processo de desrespeito pela dimensão física e natural de Portugal? Não encontraremos na literatura ou na pintura a exaltação da geo-pátria? Terá sido o antigo regime um solitário proclamador do alto da montanha? Não será possível aproveitar alguns elementos edificantes em detrimento de outros com forte carga política? E será que o 25 de Abril libertou o homem para este voltar a ser um bom selvagem? Assistimos ao tabu do domínio da terra sobre o homem, porque, de forma deturpada, o cuspir sobre o passeio ou a queimada incendiária serão expressões da interpre-tação desequilibrada do sentido de poder ou liberdade, fortemente entranhado na prática quotidiana. A análise do fenómeno anti-natureza em Portugal tem de seguir um critério mais estrutural e sociológico. A modernidade, promovida pelos governos pós 25 de Abril, apoia-se em imagens de betão armado, carros velozes e roupa de marca. Ironicamente, a imagem exterior dos indivíduos alcançou uma expressão notável em detrimento da preservação do ambiente. Mesmo perseguindo um idealizado parcelamento da propriedade latifundiária, tal não serviu a salvaguarda de um sentido ecológico. Esta indiferença em relação ao ambiente reflecte um desapego pelo abstracto, na medida em que os vínculos afectivos não se estabelecem em relação a um ideal de espírito livre ou natureza selvagem. Assim, a floresta é apropriada enquanto fenómeno de massas, colectivo e irracional, mas não por uma vontade individual. Um olhar possível sobre um processo de evolução (que obedece alternadamente a mecanismos de auge e declínio, êxito ou tragédia) pode limitar-se à aceitação do destino, sem intervenção humana praticável. Ou seja, o cidadão é um mero espectador do fenómeno natural ou, no limite, um interventor negativo. Outra leitura admissível diz respeito ao modo como a rejeição da procedência provinciana pode significar o cortar de relações afectivas com o atraso estrutural do interior não-urbano. Uma vez que os centros urbanos são habitados pelos que abandonaram as suas origens humildes e campestres à procura de melhores condições de vida, verifica-se uma tomada de consciência deturpada de modernidade, através da qual se procura dissimular a proveniência, simulando sofisticação. Os eventos que afligem a floresta não comovem porque já representam factos distantes da neo-urbanidade adquirida pelos migrados do campo. A única forma de corrigir comportamentos eco-destrutivos parece ser através da instituição de um sistema sancionatório implacável, em simultâneo com mecanismos que contemplem os esforços de reposição do equilíbrio ambiental. Os filhos menores devem reconhecer nos pais o esforço que estes desenvolvem para separar o lixo e respeitar os eco-pontos. A adopção de uma ‘agenda ambiental’ significa co-responsabilizar governos, indivíduos, crianças e proprietários que deixam aos seus cães lançar os seus dejectos nos passeios. A promoção de objectivos concretos poderá representar uma janela de oportunidades para converter adversidades em mais-valias. Por exemplo, à semelhança da recente legislação que promove as novas construções a instalar sistemas de energia solar, a instalação de redes de cisternas ou depósitos para aproveitamento de águas das chuvas poderia representar uma primeira solução para o problema de escassez de água, que terá de ser confrontado seriamente e a breve trecho. Esta solução, não original, foi concebida e instituída pelos árabes durante a sua permanência na Ibéria. Um ‘plano tecnológico’ não significa necessariamente novidades sofisticadas, e por vezes o próprio traçado histórico oferece algumas soluções. A tecnologia comporta na sua génese uma ideia de optimização e simplificação. Uma sociedade desenvolvida garante a sua continuidade pela manutenção dos seus elementos naturais, através de um status quo que em certa medida contradiz a ideia de alteração dinâmica, mudança e progresso. Nesta acepção, o desenvolvimento corresponde à capacidade de manutenção dos factores de equilíbrio herdados do passado. Associamos a esta noção uma outra, de historicidade natural, através da qual poderemos aceitar a evolução política que altera profundamente a configuração mental e cultural da população, mas que não afecta dramaticamente a expressão física ou geográfica do território. A ideia de reserva natural em Portugal assemelha-se a uma wasteland, sem utilidade perceptível para as populações. A qualidade de vida não integra o factor natureza enquanto um elemento determinante. O ‘cidadão-tipo’ prefere eleger a propriedade de um bom carro ou casa, os fins-de-semana no Algarve do betão, ou um horário laboral flexível como elementos definidores de qualidade. Parece ter-se tornado um síndrome nacional o vínculo a matérias ou factos que representem novidade, daí que a natureza ‘eternamente silenciosa’ não consiga oferecer nenhum estímulo adicional relevante. Este quadro ainda se torna mais negro pela ausência de debate sobre a protecção ambiental, sendo que me refiro àquele desenvolvido espontaneamente pelos indivíduos, e não pelas associações de defesas do ambiente ou autoridades nacionais. Enquanto a ‘consciência do ambiente’ não se democratizar e popularizar, no espírito de cada um, não se vislumbra uma evolução favorável para a paisagem natural. Do mesmo modo que cada contribuinte tem a noção do imposto ou taxa que paga pela propriedade de uma viatura ou casa, seria conveniente integrar nessa consciência fiscal a quota devida ao ambiente. A operacionalidade de uma ‘polícia do ambiente’, eficiente e percepcionada como tal pelas populações, constitui uma obrigação moral dos governos. Uma forma de contrariar a primitiva prática de abandono de frigoríficos ou baterias no matagal, seria instituir um sistema de registo de propriedade dos equipamentos, que delimitaria os tempos de vida útil, comprometendo os proprietários com o depósito no termo da sua utilidade. Uma espécie de banco ambiental contra a poluição. O mais importante será socializar e politizar a questão ambiental, para que entre no domínio doméstico das preocupações existenciais de cada indivíduo. A lei do frigorífico, enquanto exercício exemplar, poderia servir de nota de lembrança para as transgressões ambientais, e gerando um efeito de spill-over, estaríamos a contribuir para a tomada de consciência sobre a importância do ambiente. Outra forma poderia materializar-se na criação de um cadastro ambiental que registasse as transgressõesem relação ao ambiente, perpetradas por cidadãos ou empresas. Depois, num segundo momento, a informação resultante do cadastro seria cruzada com o sistemafiscal no sentido de penalizar os prevaricadores em sede de IRS ou IRC. Uma das grandes dificuldades que Portugal encara, prende-se com um sentido de orgulho nacional fortemente dependente da expressão física da riqueza. A intelectualidade em Portugal é rejeitada porque integra uma dimensão não materialista e porque colide com aquilo que poderemos designar por ‘expressionismo’ físico. A afirmação social pode no entanto levar a que se faça a dupla demonstração do nível cultural e dograu de riqueza, através da compra de tomos de enciclopédias com lombadas lustrosas que têm lugar cativo nas estantes das salas de estar, e que fazem o regalo de observadores pouco exigentes. Uma interpretação parcial do próprio significado ou alcance da era de informação pode conduzir-nos a um juízo reducionista definido em termos de atributos logísticos ou de transporte de informação, através do qual se atribui maior importância à rapidez da entrega de mensagens. Os excessos de velocidade que se registam nas estradas portuguesas, e que conduzem a acidentes desnecessários, encontram analogia na forma como se transportam conteúdos na era de informação. Uma noção ecológica e cultural poderia estabelecer uma hierarquia na escala de valores de informação, o que significa que os produtores de informação devem procurar obedecer a critérios de qualidade, objectividade, veracidade e não necessariamente a rapidez. Nessa medida, um país ecológico investe no terreno fértil do conhecimento e cultura, e na educação dos seus cidadãos, que representa sempre um processo lento e geracional. A era da informação poderá tornar-se numa era de conhecimento se um plano tecnológico não for vendido como destino final, mas um elo de um processo muito maior. O esforço de prossecução de equilíbrio ambiental associa-se inequivocamente à ideia de paridade entre as dimensões intelectual e cultural, relegando para segundo plano a tecnologia e a ideia de vanguarda. A excessiva estratificação social do país é também responsável por vários desequilíbrios estruturais e ambientais, incluindo o desnível cultural e intelectual, pela forma como as elites se apropriam dos meios de desenvolvimento à custa do progresso colectivo. Este fenómeno observável noutras sociedades, assume contornos especiais em Portugal, porque o ‘povo’ não demonstra capacidade para produzir factores de contrapeso. A não partilha de conhecimentos na sociedade portuguesa constitui uma prática contraprodutiva e geneticamente comprometedora pela forma como contraria a teoria de evolução das sociedades, construída sobre a premissa da comunicação entre os diferentes segmentos ou classes da sociedade. Uma noção, porventura herdada do corporativismo, instigou uma actuação compartimentada, sem trocas ou comunicação efectiva. A experiência de um sector ou domínio dificilmente transborda para um ecossistema distinto, apenas porque subsiste uma atitude conservadora pouco aberta a códigos diferentes. Questionamos ainda se Portugal aproveitou a experiência histórica da multiculturalidade, das línguas e costumes distintos do império colonial. E nesse contexto observamos uma forma de desequilíbrio ambiental histórico. Neste momento o quadro mental de defesa do círculo restrito de conhecimento implica desconfiar continuamente de qualquer tentativa de incursão da parte de elementos excêntricos ou imigrados. Esse quadro social de defesa de interesses específicos compromete um sentido de desenvolvimento alargado e colectivo, capaz de integrar a diferença e a mudança, o que em última análise implica o progresso da sociedade. Na natureza, as novas espécies resultam da evolução genética forçada pelas condições adversas do meio envolvente. As sociedades, que são macróbios (grandes formas de vida), evoluem através de processos de ruptura e equilíbrio entre os diferentes agentes que as integram. Nessa medida, enquanto a prática da dialéctica entre indivíduos não ocorrer em todos os fóruns enuma sociedade aberta, a ideia, conceito ou as práticas, nunca atingirão um grau de maturação suficiente para se converterem em matéria de desenvolvimento para uma sociedade. As ideias, ao contrário dos ideais, que nascem na intangibilidade do espírito humano, são também fruto da experiência dos outros, transcritas em obras metodologicamente organizadas e que podem ser alvo de leitura e interpretação. Apenas uma fundamentação sólida do conhecimento poderá permitir ulteriores desenvolvimentos de um ideal de progresso. Se uma sociedade não promove a inteligência e a cultura de forma sustentada estará a contribuir para o desequilíbrio ambiental, pelo défice e peso da representação de uma população inculta ou analfabeta. Ter a expectativa de que a ferramenta tecnológica poderá preceder e estimular o aumento do nível cultural da população é contrário à lógica de desenvolvimento humano, em Portugal ou qualquer outro destino.
(in Portugal Traduzido, Edições Cosmos 2008; primeiro capítulo "Ambiente Mental")

Eis-me, John August Wolf. Eis — Tristeza não tem fim, felicidade sim. O meu pai, John Howard Wolf, partiu a 20 de fevereiro deste ano. Mas antes, em Novembro de 2024, tive o privilégio da sua presença na defesa da minha tese de doutoramento (Ph.D.) na Nova School of Law em Campolide, Lisboa. A toga que trajei, a mesma por si utilizada na sua defesa de Ph.D., há mais de 50 anos na Universidade de Pittsburgh, havia também sido envergada pelo meu avô e seu pai, Howard August Wolf, quando fora agraciado com um doutoramento honoris causa nos anos 60 do século passado. Este cordão académico é mais do que um mero laço de (con)descendência e de titularidade, de geração em geração. É uma corrente ética e moral, com firmes alicerces na ideia da superação da nossa insignificância perante um mundo que se nos avassala sem misericórdia. E o senhor meu pai partiu intensamente amargurado pela paisagem disfuncional de uma ordem global em célere desagregação. O défice de civilização não é um fenómeno de pertença exclusiva a uma nação. O mal é uma doença degenerativa, um choque existencial que obriga à reescrita de pressupostos tidos como sagrados, intocáveis. Conceitos como ideologia, paradigma, crença, humanidade ou verdade perderam o seu valor intrínseco e a sua expressão facial. O mundo obitou-se, desistiu da genética positiva, como se o fim da história coincidisse com a perversão do futuro. Os atos vis oscilam numa balança que não corporiza a ideia de justiça ou de equidade. É esta a sina que sentimos, de um modo mais dermatológico ou no âmago da coluna política fissurada. A perda não é qualificável, assim como a dor que não é congnoscível. O torpor é uma vibração que atravessa os fusos humanos, percorre os vasos que canalizam a esperança que muitos dizem ser a última a querer morrer. E somos obrigados. Somos obrigados à arqueologia de razões, em busca de argumentos, de axiomas falidos que ditaram outros declínios, porque quisemos sempre imperar quando deveríamos singrar. A melodia sincopada navega o luto em luta, o esforço quiçá infrutífero que apenas nos levanta do chão naufragado para tornarmos a tombar com a mesma récita auspiciosa que passa de pais para filhos, e de filhos para tribos inteiras, num ritual bélico que almeja a obliteração da escuridão — que imagem críptica adequada. Mas não é o fim em si, nem a intromissão. Perguntemos; que deuses invocaremos para retornarmos à terra enrolados num imenso manto de pudor? Eis. Eis-nos. Earth.

O Partido Comunista Português (PCP) sempre foi o moralista supremo, o campeão da ética, a auto-proclamada voz da verdade, o exemplo de justiça, o símbolo-maior de liberdade, a bandeira do universalismo dos valores humanos, o farol dos direitos dos trabalhadores, o adversário dos capitalistas, o dono da isenção ideológica, o santo padroeiro da inovação política, o exemplo-maior de fulgor existencial, o muso inspirador do cancioneiro nacional e da estrofe lusa, o intérprete exclusivo da ideia de governação, a excelsa repartição de pensamento e filosofia, o único agente da transformação civilizacional, o derradeiro instigador de revoluções e mudança de paradigmas, o timoneiro do pacifismo, o libertador das correntes do colonialismo e da opressão...e, mesmo dispondo desse património rico, bastou um genro e uma rosca para deitar abaixo tanta presunção e água-benta.

O ministro dos negócios estrangeiros de Portugal teve uma "conversa dura" com o seu homólogo venezuelano à margem do festival da ONU - ameaçou o acervo jurídico de uma nação inteira. Santos Silva parece ter sido mais aluno de Sócrates e muitos menos de Joana Marques Vidal. Invadindo o domínio jurisdicional da Venezuela, transgredindo territórios de soberania, o menê português demonstra a sua falta de fé no sistema policial e de justiça daquele país, aclamado glorioso e triunfante pelos camaradas revolucionários do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista Português. Se os Pingaderos Doceros portugueses daquele país praticaram dumping ou outra modalidade de concorrência desleal, cabe à Venezuela inicar su processo Marquez. Santos Silva parece esquecer que deve proteger os interesses de 250.000 portugueses que pernoitam naquele país em demolição acelerada, e não criar um efeito de bola de neve a partir da deliquência de meia-dúzia de batatas podres. Ou seja, ao querer mostrar serviço e que é patrioso, para consumo doméstico e quiçá para fazer boa figura em Nova Iorque, Santos Silva arrisca ser esmagado por medidas mais drásticas de securitização daquele país. Se Maduro é uma espécie de Putin dos pobres, Santos Silva é o gerente de uma cadeia de supermercados especializada na distribuição de bananas. Por vezes se torna difícil distinguir as repúblicas dos bananas.

António Costa é europeísta. Por isso decidiu vestir calças de Nimes (Denim, De Nimes, vide origem da ganga, googlem...) para ser recebido no aeroporto de Luanda por Manuel Augusto Domingos, ministro dos negócios estrangeiros de Angola. Mas o primeiro-ministro de Portugal também pode ser atlanticista - as blues jeans tanto podem ser da Levi´s ou da marca Lee - ou seja, nada contra John Wayne e os cowboys americanos. No entanto, o primeiro-ministro quebrou o protocolo. Passou a ferro e deixou queimar o único protocolo que verdadeiramente interessa. A qualidade da abstracção representativa, a dignidade que os Portugueses merecem que seja espelhada no principal e mais importante embaixador de Portugal - os Portugueses não gostaram de ver o desfile na passerelle. Mesmo a família mais remediada de Portugal, quando convidada para o baptizado da vizinha coxa e vesga, veste a melhor camisa que tem e calça o único par de sapatos de ocasião que tem. Mas não, António Costa entrou em modo relax, chill-out, a fazer bluff - a fingir não dar grande importância a Angola e a fatia grossa que pode ser talhada para Portugal e alguns socialistas mais empreiteiros do que outros. Eu entendo que a Geringonça que o colocou em tal posição de autoridade e titularidade pública é, em si, uma manta de retalhos. Nesse caso, serviu mal aqueles partidos que o levantaram em ombros de governação. As calças de ganga têm uma conotação mais UNITA do que MPLA, mais colonizadora do que nativa, e isso já não se usa. O pós-colonialismo é doutrina com falhas conceptuais graves. Se Costa quisesse espelhar as Catarinas e os Jerónimos da sua praça parlamentar, levava consigo alguma "merda na algibeira" e uma tê-shert com a cara estampada de Che ou Maduro. Assim, com a farda a meio-gás, dá ares de pertencer a um gangue com jogadas espertas e truques na manga. Esta política da ganga, gangolana, não serve. Não tem a medida certa. O respeitinho é muito bonito.

Apenas para relembrar certos tema-bandeira que serviram para tantos lançamentos políticos. Ora bem, temos a OTA e o novo aeroporto inter-galáctico; tivemos o TGV e a viagem relâmpago a Madrid em 25 minutos; e agora, como pobre remediado, de solas gastas, lá aparece o super-ministro do Planeamento (planeamento do quê?) Pedro Marques a fazer gala do anúncio da compra de 22 comboios para a falida CP, que traduzido em linguagem de geringonça, - "no valor de 168,21 milhões de euros, considerando o ministro da tutela que este "é um marco histórico". Marco histórico de atrasos, de mordomias de sucessivos conselhos de administração incompetentes, de nomeações políticas para cargos de direcção, de composições prontas para a sucata, de linhas que não nos levam a parte alguma, de dinheiro deitado fora, e que, ainda por cima, nem sequer agitam as águas daquele chavão socialista de apeadeiro: o famoso "desenvolvimento do interior e a regionalização". A CP é a Lehman Brothers de Portugal - é tóxico e pouco recomendável. Não há volta a dar. O bilhete é de ida apenas. Para o descalabro total - socialismo sobre rodas.

O senador John McCain fez mais oposição política nas suas exéquias fúnebres do que Rui Rio em toda sua vida partidária. António Costa tem muita sorte em não ter um morto-vivo deste calibre para lhe fazer a vida negra. O senador republicano, na sua hora final, reivindicou o espírito da América. Proclamou, do termo dos seus sete palmos de terra, que existe vida para além da fractura, esperança para além da ganância e um destino maior do que aquele promulgado por passageiros clandestinos. Mas existem semelhanças entre John McCain e Rui Rio. Um foi prisioneiro de guerra e o outro foi tomado como refém pelo Partido Socialista. Para todos os efeitos práticos, o Partido Social Democrata foi anulado pela toada autofágica de Rio. No entanto, um lider partidário que se agarra a um lenho de Monchique e dispara pólvora sêca, embora inconscientemente, e por não existir no firmamento político, deixa a porta escancarada para que a Geringonça se estatele no asfalto. Sem oposição digna desse nome, os socialistas mais rapidamente executam a sua própria sentença. Não me surpreende que até Santana Lopes se faça ao piso, com todos os riscos e escorregadelas que isso comporta. O vácuo deixado pelo assoreamento do Rio deixa o caminho aberto para propostas mais interessantes, de sangue novo, audaz e destemido. Na ala liberal já nasceram forças a ter em conta. E por defeito de percepção e prática desviante, os ideais liberais encontram agora terreno fértil para a sua refundação, para o enunciar do espírito dos filósofos originais, fundadores. À esquerda, a regeneração não acontece. Os socialistas voltam sempre à mesma equação inchada de ficção e facilidades. Mas serão as intermitências da vida e morte que permitirão discernir os pequenos dos grandes, os políticos de algibeira dos estadistas. McCain representou bem esses ideais de grandeza. Veremos se o seu legado servirá para distribuir lições válidas. Aqui ou acolá.

O relógio democrático da União Europeia determinou que não deve haver mudança da hora de Verão para aquela de Inverno. Para dizer a verdade, estou verdadeiramente a borrifar-me para a matéria, especialmente tendo em conta que me encontro em Portugal. Sarcasmos, cinismos ou entropias à parte, este país vive no seu próprio fuso horário. A tal reunião marcada na sede com o director do departamento de comunicação estava agendada para as 10h de terça, mas o Sr. dr. (dr. da treta, da tanga, da cueca...ou do raio que quiserem) chega ao meio-dia e um quarto - não esboça arrependimento nem roga perdão - siga para bingo. Sinto aqui mandrionice à mistura; sair de casa quando ainda está escuro? Oh, raio! Cresçam e apareçam. Daqui a nada inventam uma ponte cronológica e uma tolerância de hora morta. Para não falar de Agosto, o lindo mês de Agosto em que nada há a fazer - o serviço apenas reabre a 17 de Setembro. A Geringonça, e em particular o Bloco de Esquerda, gosta de pegar neste tipo de bicho pelos chifres para lançar teses sociológicas respeitantes ao direito ao descanso e rituais de acasalamento. Quando a malta quer, arranja sempre tempo. E esse tempo geralmente acontece à custa da pontualidade alheia, nativa ou exógena. Não se esqueçam - um relógio avariado oferece a hora certa duas vezes ao dia. É aproveitar.

Como estaria Portugal com António Costa a 50% de demagogia? A pseudo-promessa de redução para metade do IRS aos emigrantes que decidirem retornar a Portugal não passa de uma artimanha de campanha. Em primeiro lugar, esses jovens ganham três vezes mais do que ganham em Portugal e inserem-se em sociedades baseadas no mérito e no desempenho. O que tem este país, do turismo à beira-mar plantado, para oferecer a esta geração? Pouco, diria. Muito pouco. Para além do mais, a medida levanta algumas questões constitucionais. Pode um decreto de governo conceder tratamento discriminatório a uns em detrimento de outros? São deficientes motores? Veteranos de guerra? Ou será que têm saudades do cozido à portuguesa? O facto de apontar a mira sobretudo a emigrados do período de 2011 a 2015 é um modo de levantar a poeira do mandato de Passos Coelho para proveito eleitoral - aquela coligação da Troika ainda pode ser espremida. E os emigrantes saídos nos anos sessenta? Valerão menos do que a geração Sudoeste? Para além do descrito, existe uma outra dimensão fiscal a ter em conta - a tributação de rendimentos de portugueses auferidos no estrangeiro (?) Chamemos à coisa uma espécie de panfletos Panamá - não chegam a ser papers. Com quase 6 milhões de portugueses por esse mundo fora, Costa não ousa tocar no assunto. Marcelo tem família no Brasil, não tem? Ah, mas há mais. Se esses emigrantes voltarem ainda têm direito a ajudas de custo para o enxoval e a máquina de lavar loiça. Mas o copo está sempre meio sujo.

Não sou turista inglês, nem sou turista para inglês ver. Estou cá há valentes décadas para o bem e para os males de Portugal. Não chegámos atraídos pela cerveja barata e o sol de inverno. Viemos para ficar. Viemos para infelizmente testemunhar a delapidação da identidade nacional perpetrada por actores nativos. Em nome do ganho rápido e sucessivo, uma série de embustes são servidos. Pratos gastronómicos, e outros de natureza porcelanosa, vendidos no limite explorador da falsa noção de que o cliente seguinte virá ao mesmo engano para tomar o lugar daquele que partiu e que não volta. Pois bem, assistimos aos primeiros indicadores da inversão de marcha da galinha de ovos de ouro do turismo. A medida de gin a 12 euros e o tuk-tuk da tanga a sessenta obedecem ao mesmo princípio da gula turística. O turista alemão e os britânicos brexitianos começam a abandonar as asas do desejo de Lisboa e arredores. Os eventos ad-hoc, unitários, de grande impacto, como o festival cancioneira da Eurovisão ou o Web Summit não deixam grandes marcas residentes - não são o MOMA, nem o Prado...São, à laia das especiarias e ouro dos Descobrimentos, para estoiro rápido. O operador turístico tem vistas curtas e não está a saber apostar nos horizontes largos da fidelização. Cliente enganado não torna - foge. Elege a Croácia ou vira-se para a Tunísia. Os fogos que ardem em sucessivas temporadas, aclamados como sucesso de governação e habeas corpus, também imprimem um tom derrogatório à efeméride ganhadora do turismo. Em tempos tive como interlocutor, no meu clube de Facebook, o Director do Turismo de Portugal, mas a minha conversa crítica e apaixonada por Portugal não lhe caiu no goto e, sem contemplações, comecei a ser alvo de tiradas visando a minha alegada estirpe de cowboy americano. Para evitar males maiores e dissabores retóricos, tive de bloquear o chefe. Por estas e por outras, como o que acontece na Turquia, Portugal enfrenta perigos que nem a melhor das geringonças consegue dissimular. Fiquem atentos. Agosto está mais perto do fim do que imaginam.

A tragédia de Pedrógão de 2017 não foi uma tragédia. Resultou inequivocamente de décadas de desgoverno da base geográfica de Portugal. Foi a matriz cultural e é a matriz cultural que impede um genuíno ordenamento do território. A ciência e o saber técnico respeitantes aos fogos e ao seu combate residem em Portugal ao mais alto nível. Tem sido o poder político o principal adversário da paz e ordem sociais. Foram sucessivos governos, formados a partir de partidos de todo o espectro ideológico, que alimentaram o sectarismo, a divisão, a promulgação de interesses parcelares contrários à defesa da integridade e sustentabilidade florestal do país. Assistimos ao descalabro administrativo, à discussão de chefias e forças de intervenção, ao caos burocrático e processual - estão todos em pânico pela putativa perda de vantagens e subvenções. Mas assistimos também à incapacidade de disciplinar as populações que desobedecem sem reservas às ordens das autoridades. Confirmamos também, este ano, à luz das perdas humanas de Pedrógão em 2017, o medo irrascível e desesperado para salvar vidas humanas, deixando o pasto e o mato à mercê do fogo. Ou seja, o cadastro intensamente negativo da perda de vidas humanas do ano passado será saneado pela possível poupança das mesmas no cenário de operações de este ano. O governo de António Costa parece ter colocado a tónica nessa dimensão para poder reclamar o grande sucesso da protecção das populações - ardeu tudo, mas ninguém foi carbonizado. Falamos da síndrome pós-traumática de Pedrógão. Testemunhamos, incredulamente, a contradição consubstanciada no avolumar de meios humanos e técnicos de combate ao fogo que de pouco tem servido para inverter a tendência de ganho do fogo - mais meios e mais homens para combater as labaredas não se traduz em vitórias certas. A noite será longa, assim como as discussões infrutíferas sobre responsabilidades a atribuir. Eucaliptos dizem uns, vento sopram outros.

Sobre a legitimidade da resistência armada do povo venezuelano aos grilhões do regime de Maduro, o presente arranjo governativo da República Portuguesa parece ter memória curta. Portugal também realizou um atentado a 25 de Abril de 1974, em nome da liberdade e dos princípios democráticos que tanto apregoa. Talvez devido ao facto de Portugal ser refém das centenas de milhares de portugueses que vivem nesse Estado, o ministério dos negócios estrangeiros tome o partido errado e se coloque ao lado de um ditador que mata à fome o seu povo. Na própria Constituição da República Portuguesa a figura de acção directa e defesa contra agressões estão contempladas. Embora as mesmas aludam ao conceito de ameaça e violação da integridade soberana perpetrada por forças estrangeiras, a verdade é que a História já demonstrou de um modo inequívoco que muitas vezes os maiores inimigos são de origem nativa. Maduro deve ser considerado um traidor do seu povo. O resto é conversa política e normativamente correcta. Mas a política e a História não estão escritas em manuais. É na rua que elas acontecem. Viva o povo de Venezuela!

Mesmo que o tanso metesse ao bolso €2M (dois milhões de euros após pagamento de imposto de mais-valias e demais taxas) e a irmã outros €2M, aposto que estoiravam o guito em pouco tempo na senda daquilo que é habitual acontecer a quem ganha o Euromilhões. Que eu saiba, o Robles e irmã não estão habituados a esse tipo de dinheiro, não passando de uns deslumbrados. Ou seja, nem seriam capazes de montar um portefólio de veículos de investimentos saudável (um cabaz com ETF´s, Government Bonds, REITS, Fixed Income Investment Funds, Dividend Yield Funds ou Mutual Funds) porque um não passa de um reles vereador e a irmã aposto uns trocos que é artista. Por outras palavras, seriam (ou são) dois burros a olhar para um museu. O museu do Bloco de Esquerda. O mesmo se aplica a um Barroso que está na Goldman Sachs apenas a vender ligações políticas. De gráficos e mercados percebem pouco. Ou nada.
créditos fotográficos: Jornal de Notícias

Catarina Martins não pode decidir o que quer que seja e muito menos que o assunto Robles esteja encerrado. Catarina Martins não pode determinar o fim do cinismo. Catarina Martins não tem autoridade moral para discorrer sobre hipocrisia. A lider do Bloco de Esquerda enfrenta uma enorme contradição conceptual, ideológica. Ricardo Robles é uma toupeira, um agente-duplo plantado naquele partido por Passos Coelho para corroer os fundamentos e princípios que apregoam de viva-voz e a toda a hora. O neo-liberal especulador e capitalista feroz Robles, à laia do imobiliário Trump ou do quebrador do Banco de Inglaterra Soros, está para ficar - o BE ficou refém da sua natureza multi-cultural de acampamento integrativo de verão: há lugar para todos - the boy must stay. Expulsar Robles do Bloco seria equivalente a impedir a entrada a refugiados ou a mudar de opinião em relação à eutanásia. Em nome da grande tolerância que grassa naquele partido, Robles terá cama e roupa lavada enquanto quiser. No entanto, o operador do mercado imobiliário Ricardo Robles enfrenta os seus próprios dilemas. Resta saber se no momento da compra do imóvel o mesmo foi sub-avaliado para favorecer certas partes. Agora aparece a dizer que afinal não venderá o prédio, que essa não era a sua intenção. Mas pelos meus cálculos, e de tantos analistas de mercados financeiros muito mais avisados do que eu, a sua janela de oportunidade para ganhar milhões é curta. Na melhor das hipóteses a bolha imobiliária ainda tem hélio para flutuar um pouco mais. Depois teremos o estoiro à laia de 2008 e o menino Robles verá os seus encargos crescer. A saber; as taxas de juro sobre empréstimos, uma hipotética subida do Imposto Municipal sobre Imóveis, sem contar com seguros obrigatórios, despesas correntes de manutenção e aquelas contas-surpresa que não excluem vereadores. Por exemplo, uma infiltração de água resultante de uma secção de telhado reconstruída de um modo deficiente. Ou seja, por outras palavras, não obstante eventuais averiguações sobre processos questionáveis de licenciamento de obras, será o Karma a resolver o assunto. O destino encarregar-se-á de entregar a sentença a quem praticou o pecado da contradição ideológica e moral. A ver se nos entendemos: se Robles fosse um ás de Wall Street, tudo isto não passaria de um não-assunto, mas sendo membro da irmandade da justiça social anti-capitalista a coisa não cai bem no goto dos portugueses. E estão a ver com os seus lindos olhos.

Triste visão de negócios em Portugal. Apenas sabem vender Gins a 12 euros ou especular com casas. O país que descobriu o mundo não tem ideias. Tem fome de ganhar tudo de uma assentada. O Robles & companhia representam algo de mais profundo e transversal. A ambição de ser como o Gordon Gekko e conduzir um Ferrari vermelho PC ou negro BE. Arrivistas mal amanhados. Mas o que causa mais comichão ao cidadão nacional não é o ganho, ou o lucro oportunista. É a hipocrisia de quem afirma categoricamente não praticar a religião capitalista, mas depois é apanhado a arrombar a caixa de esmolas. Quem Robles a ladrão tem cem blocos de perdão...

Imaginem que Marcelo Rebelo de Sousa acordava alegre e contente, cheio de genica selfie, e decidia entregar a ilha da Madeira a Espanha. Seria interessante, para dizer o mínimo. O que Trump acaba de fazer não anda longe disso. O presidente dos EUA entregou o Uncle Sam a Putin. A loucura a que assistimos é inédita na história dos EUA. A negação categórica do envolvimento russo no processo eleitoral americano (não obstante a reunião de provas realizada pelo special counsel Robert Mueller), o ataque aos serviços de inteligência dos EUA, ao próprio sistema de justiça, e às demais instituições de credibilização democrática dos EUA deve ser interpretado sem reservas como um acto de traição. Servindo-nos de uma lógica relativamente simples, tudo isto significa que Putin dispõe de meios para eleger presidentes norte-americanos, mas também para deselegê-los. Será esse facto que terá sustentado a linha de defesa que Trump montou em relação a Putin. Os russos, segundo Trump, estão pejados de belas intenções e não desenvolvem as diversas frentes da sua guerra híbrida. The russians aren´t coming. Já lá está o Trump.

Não existe uma estirpe de Populismo que possa ser considerada benigna. O hino "a minha alegre casinha" adjudicado pelos Xutos & Pontapés ao coro da Santa Geringonça não pode escapar à doutrina que postula a apropriação de símbolos avulso para fins propagandistas, políticos. A subida ao palco do Rock in Rio de diversas representações soberanas não é um populismo melhor do que o nacionalismo de Orbán ou o Trumpismo da Casa Branca. Com a aparente candura e inocência da bochecha rosadinha, Marcelo, Costa, Ferro e Martins (entre outros bivalves da comitiva mandante, consortes ou nem por isso) lá entoaram a versão pimba da melodia, já de si questionável em termos ideológicos, por ser uma faixa remanescente do Antigo Regime. É nessa pequena e alegre casinha onde deve pernoitar o cidadão português - quietinho e sem causar alarido - é essa a mensagem apaziguadora que passa em rodapé. Fernando Santos também lá podia estar a rufar versos da mesma melodia com a sua noção de desígnio-maior, assente no endeusamento intocável de Cristiano Ronaldo. Essa fé, repelente da objectividade analítica, é uma praga que tem vindo a atraiçoar a falsa-brandura dos costumes de Portugal. Sob a pretensa aura-suave da chefia das migrações ou da Organização das Nações Unidas, o país recruta e confirma o serviço de limpa-vidros tão útil para aliterar percepções e paixões. A graxa interna é semelhante à pomada esfregada no exterior. Com a ingenuidade da decoração atribuída, Portugal coloca-se a jeito da sua auto-valoração. A agência de rating política suprema passou a ser o Rock in Rio. Os tronos "branco-bronco" assentes sobre rodinhas, amestrados no palanque da realeza-selfie, atestam sem margem para dúvida o grau de sordidez que traja o poder em Portugal. O que o povo precisa é de circo. Um grande circo volante que dê guinadas para encobrir a falência do Serviço Nacional de Saúde, assim como a crónica e paliativa doença da Educação em Portugal e a nova crise financeira que não tardará a eclodir à luz da feroz guerra de tarifas entre a União Europeia e os Estados Unidos. Portugal não é os Estados Unidos. Mas aposto que Cristiano Ronaldo ainda se torna Presidente do Governo Regional da Madeira deixando os demais daquele coro com dor de corno. E sim, Cristiano, já o sendo, seria ainda mais populista do que é, e do que aquela cambada que diz que não sabe de nada sobre aventurismos políticos e perfis extremados. A pergunta colocada por Donald Trump é pertinente.

O Bloco de Esquerda é accionista maioritário da empresa do preconceito em Portugal. Destaca diversos espaços de regalia paradoxal e do efémero do absurdo. Contribui para a anormalidade ao sublinhar a etnicidade sociológica da homo-diversidade, e eterniza uma certa noção de pseudo-provincianismo - oferece conceitos e definições exactas, absolutas. Temos a barraca Queer ou a tenda Feminista. Temos o Boicote a Israel e a celebração da Palestina. E temos a opção Vegan. São compartimentalizações sectárias desta índole que confirmam os nossos piores receios. O homem não é livre. Leva um rótulo na testa e um pontapé no traseiro se optar por planos que faltam gizar. Daqui a 100 anos quando arqueólogos políticos esbarrarem com os panfletos e a propaganda, os mesmos terão sido comidos pelo bicho da intransigência autofágica. Que tristeza de festa.


Se é para ser, que seja. Rui Rio entra à matador. Arrasa com uma bondosa e uma catrapila os sonhos molhados dos socialistas. Campeão antecipado do certame das mãos largas, existe pouco que o Partido Socialista possa fazer para subir a parada desta aposta. Perdido por mil, perdido por dez mil...euros. No entanto, existe algo de intensamente estratégico e correcto na receita. Um país toldado pela velhice, distraído por tira-teimas e rábulas paliativas e promessas de eutanásia, sem reprodutores à vista, pejado de géneros para todos os gostos e feitios, racistas de feira e editoras sobranceiras, presidentes da bola que perderam a bola - Portugal merece isto e muito mais. A extravagância da ficção monetária, fiscal e política. A ousadia de um lance auspicioso, a jogada que finta tudo e rompe a rede. Que grande pacote que Rui Rio avença e avança para que os outros da geringonça possam levar na pacotilha. E depois admirem-se que os meninos não saibam para onde está virado Portugal. Que grande prova de aflição. Viva a Revelação! Viva o híper-socialismo!

Se me permitem, também gostaria de oferecer alguns considerandos sobre o debate binário que corre em relação à Eutanásia. O interruptor on/off parece ser a única dimensão da discussão. Numa primeira análise e leitura da opinião pública, as hostes dividem-se fervorosamente entre a cessação do sofrimento e o respeito pela ordem natural da vida - sem uma mão humana a desligar a ficha. Esqueçamos essa matriz por uns instantes e concentremo-nos em algo um pouco mais cínico - o negócio. O que sai mais em conta ao Estado e ao Serviço Nacional de Saúde? Cuidados paliativos continuados ou a droga da morte assistida? O debate proposto por bancadas partidárias não é ingénuo - tem razão monetária de ser. Inscreve-se no Orçamento de Estado. Por detrás da verborreia existencial com laivos de filosofia de bolso, choradeiras de liberdades e garantias, o corpo é meu, a vida é minha, lá no fundo dos ministérios, depois daquele longo corredor resfriado pela marmorite aguda, encontramos os gabinetes de cálculo e folhas Excel. Esta história da Eutanásia é uma nova oportunidade do caraças - de negócio. É quase um Simplex. Por quê não pensamos nisto antes? Deixemo-nos de lamechices e atiremos à arena parlamentar e ao executivo do bem comum este caderno de encargos. Eles hão-de encontrar a veia para a execução. Sofrimento. Death and Taxes.