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Do sistema político português

por Samuel de Paiva Pires, em 20.03.19

José Adelino Maltez, Metodologias da Ciência Política: Relatório das provas de agregação apresentado no Outono de 1996, Lisboa, ISCSP-UTL, 2007, p. 223:

“E eis que o processo de luta entre os grupos se transforma de luta aberta em luta oculta, no qual, na nebulosa e nas brumas, conspiram, já não sociedades secretas e sociedades discretas, mas, sobretudo, grupos de amigos e muitas outras minorias militantes e feudalizantes ao serviço de programas gnósticos, por onde circulam inúmeros idiotas úteis que executam sem saberem de programação.

“Os apoios e as reivindicações, assim instrumentalizados, tendem a favorecer um crescente indiferentismo, o qual é o principal input dos actuais sistemas políticos que não sabem manter relações de troca com os outros subsistemas sociais. Tudo se joga no tabuleiro de um esotérico, onde comunistas, ex-comunistas, maçónicos e antimaçónicos, anticomunistas e anti-ex-comunistas brincam ao jogo dos iniciados, sem estabelecerem comunicação com quem é cada vez mais abstencionista, mesmo que se procure inverter a disfunção com o recurso aos populismos e às vozes tribunícias.

“É por tudo isto que Portugal se dessangra em autonomia, em identidade e em consciência. Colonizado por forças exteriores e empobrecido por forças internas, tende para uma mediocracia. A classe política caminha para um rebaixamento de fins porque o nível dos apoios e das reivindicações tende a expressar-se, de modo dominante, por minorias militantes, essas que circulam no conúbio entre a classe política e a classe mediocrática. Surge, assim, um crescente volume de indiferença abstencionista como principal forma de entrada no sistema político, o qual tende apenas a produzir decisões para quem o provoca, correndo o risco de se desenraizar do ambiente, de entrar em disfunção, mesmo que, internamente, funcione de forma correcta.”

publicado às 00:46

Tradição, Razão e Mudança

por Samuel de Paiva Pires, em 14.12.18

11.jpg

Tendo sido sondado por várias pessoas a respeito de como adquirir o meu livro, e enquanto este não chega às livrarias, informo que, por ora, podem adquiri-lo directamente junto de mim, pela módica quantia de 18 euros, bastando para tal enviar-me uma mensagem ou e-mail (samuelppires@gmail.com). Posso entregá-lo pessoalmente em Lisboa ou na Covilhã ou enviar por correio (acrescendo os portes no valor de 4,73 euros). Saliento que já só tenho 25 exemplares, pelo que sugiro que se apressem se quiserem ser os orgulhosos proprietários de um exemplar da obra mais aborrecida do ano com dedicatória e autógrafo com a caligrafia esteticamente mais pavorosa que possam imaginar, defeitos compensados largamente pela beleza da capa, onde figura uma pintura do Nuno Castelo-Branco, dos prefácios dos Professores José Maltez e Cristina Montalvão Sarmento e do posfácio da Ana Rodrigues Bidarra.

publicado às 10:45

No seguimento do meu post anterior, renovo o convite para estarem presentes numa das sessões de lançamento do meu livro, desta feita deixando a imagem do convite para a sessão a ter lugar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade da Beira Interior, no dia 11 de Dezembro, pelas 14h30, no anfiteatro 7.22, bem como a ligação para a respectiva página do evento no Facebook

11Dez_TradicaoRazaoMudanca_UBI_Convites.jpg

(também publicado aqui.)

publicado às 14:45

A minha tese de doutoramento, subordinada à temática "Tradição, Razão e Mudança", conceitos abordados à luz de ideias liberais, conservadoras e comunitaristas, será publicada nos próximos dias pela Edições Esgotadas e terá uma sessão de lançamento em Lisboa, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, a 5 de Dezembro, pelas 19h00, e outra na Covilhã, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade da Beira Interior, a 11 de Dezembro, pelas 14h30.

 

É com muito gosto que vos convido a estarem presentes, aproveitando a oportunidade para vos persuadir com as apresentações a cargo do Professor Doutor José Adelino Maltez, da Professora Doutora Cristina Montalvão Sarmento e da Dr.ª Ana Rodrigues Bidarra, autores, respectivamente, dos dois prefácios e do posfácio, bem como com a belíssima ilustração da capa da obra, onde figura um quadro do Dr. Nuno Castelo-Branco apropriadamente intitulado "O Fim do Ocidente".

 

Aqui ficam a imagem e a ligação para página da primeira sessão de lançamento. Em breve partilharei a imagem e a página da segunda sessão.

05Dez_TradicaoRazaoMudanca_Lisboa_Convites.jpg

(também publicado aqui.)

publicado às 17:24

Programa para mais logo

por Samuel de Paiva Pires, em 09.01.17

José Adelino Maltez - Liberdade, Pátria e Honra.

publicado às 13:33

Programa para amanhã

por Samuel de Paiva Pires, em 29.11.16

convite do império por cumprir.jpg

 

Mais informações aqui ou aqui

publicado às 23:24

"Do Império por Cumprir"

por Samuel de Paiva Pires, em 05.09.16

É o título da nova obra da autoria do Professor José Adelino Maltez, que será publicada no próximo mês de Outubro pelo ISCSP. Por ora, podem consultar alguns textos no blog a título de pré-publicação.

publicado às 23:21

A vitória do Syriza e o futuro da Europa

por Samuel de Paiva Pires, em 22.01.15

Entrevista a José Adelino Maltez:

 

"Insisto: é possível a Tsipras levar para Bruxelas o discurso utilizado na campanha?

Por que não? Seria bom para os países ditos do sul. Seria a vingança dos PIIGS e o começo, por intermédio de um pequeno/médio país, digamos assim, daquilo que parecia estar proibido. Daria alento (em Itália, em Espanha e em Portugal) a uma alternativa dentro do modelo democrático e levaria a que deixasse de ser considerado como dogma aquilo que o senhor Schäuble diz.

Mas terá de haver algumas concessões de parte a parte. Consegue prever quais?

Não, porque quem as aproveitará imediatamente será a Itália, será Portugal, será Espanha. Acho que há reivindicações do Syriza que só por hipocrisia não são assumidas pelo governo de direita em Portugal. Acho que a vitória do Syriza em termos do interesse nacional português é o que mais nos convém."

publicado às 15:34

Não há democracia sem povo

por Samuel de Paiva Pires, em 16.10.13

José Adelino Maltez, "Democracia sem povo?":


O desafio que se apresenta à comunidade não é apenas uma questão financeira, mas antes um desafio total à própria democracia representativa, porque o representante não é apenas o que recebeu uma autorização para agir por outro, mesmo que seja o povo. Impõe-se que ele tenha uma responsabilização a posteriori, comaccountability, com prestação de contas em sentido amplo, porque há uma diferença entre o que o representante faz (acting for) e o que o representante é (standing for), para referirmos o que ensina Hanna Finichel Pitkin. O Orçamento pode ser aprovado em reuniões técnicas com a troika, ou com os agentes das forças vivas, nomeados para comissões técnicas de acompanhamento, mas uma democracia sem povo não passa de mera democratura.

publicado às 12:11

Tudo como dantes

por Samuel de Paiva Pires, em 22.07.13

José Adelino Maltez, Tudo como dantes, sem procura de uma república melhor:


«Em pouco menos de um quarto de hora, os portugueses, feitos auditores do comentário oficial, ficaram a saber que, sem nenhum actor pedir perdão pela ilusão de interrupção, o programa (de uma maioria, um governo e um presidente) segue dentro de momentos. Porque tudo continua como dantes, com o quartel-general nos directórios partidários da maioria formal da presente aritmética parlamentar. Não emergiu um autor, constitucionalmente autorizado, da geometria social capaz de reforçar a confiança pública no funcionamento regular das instituições, com poder de controlo democrático do dito "normal financiamento do Estado e da economia". O presidente preferiu o estático da mera sintonia entre dois dos três pilares do situacionismo da troika, com diminuição de arco, sem antecipação de um "novo ciclo político", melhor do que este, o que não se mostra aberto à "cultura política do compromisso". Até nesta "ocasião de emergência", ou "fase crucial", não ousou procurar aquele médio prazo que nos permitiria navegar para o porto seguro da pós-troika. Apenas se confirmou que o Presidente abdicou da solução que, categoricamente, considerou a melhor. O nosso futuro ficou, assim, limitado ao chamado pretérito imperfeito, o do "país imprevisível". Logo, face ao vazio político moderador do centro, capaz de ser realmente concêntrico face ao país, para que "o país possa ser administrado pelo país", ficou a resignação do "salvo-seja". Porque o presidente temeu sulcar o imprevisível, até com a mediação activa do risco, pela criatividade institucional, que parecia prometida. Esperemos que, pelo menos, "os cidadãos" tenham ficado "mais conscientes" e surjam novas forças vivas que antecipem a pilotagem do amanhã.»

publicado às 12:24

José Adelino Maltez, Iniciativa que vai além do arrastamento: 


«Não houve fuga, pântano, nem tabu. Muito menos, a pescada do segredinho, aquela que, antes de o ser, já o era. Afinal, no presente quadro parlamentar, não vai haver um novo governo, mas a continuidade, não renovada, do que foi presidencialmente qualificado como o atual Governo, desde já condenado a não pilotar o futuro, marcado para o início de 2014. Por outras palavras, o maquiavelismo da retórica, aquele que, no curto prazo, parecia ter, com ele, a razão da história dos vencedores da espuma, não pode alcançar o médio prazo. Porque tanto é uma má moral como uma péssima política. O economista-Presidente sabe, de ciência certa, mas sem poder absoluto, que, a longo prazo, poderemos estar todos mortos. É evidente que, perante a ditadura do estado de exceção, o normal é haver anormais, até porque, em democracia, governar é gerir crises. Por outras palavras, o Presidente não quis ser, para já, a iniciativa presidencial, nomeadamente pela constituição de um governo provisório criativo e a antecipação das necessárias eleições. Mas também não se ficou pelo mero arrastamento presidencial. Apenas lançou um ultimato ao que considerou como políticos, proclamando que chegou a era da responsabilidade e reconhecendo que a atual coligação não é união sagrada. Guardou a bomba atómica para antes do pós-troika, no caso de não haver acordo de salvação nacional, e até disse que não pretende arbitrar a negociação. Em conclusão: coisas novas. Com a incerteza de poder emergir algo que vá além da velha dialética de "uma maioria, um governo e um presidente", o qual, de forma minimalista, seria mera consequência desses poderes fácticos. A política já não pode continuar a ser o que foi nem voltar a ser o que era. O que vai ser, só Deus sabe, mesmo que Deus exista.»

publicado às 11:45

Pensar é dizer não

por Samuel de Paiva Pires, em 10.02.13

 

José Adelino Maltez, Breviário de um Repúblico, 29 de Janeiro:

 

«Pensar é dizer não. A realidade sempre foi subvertida pelas autonomias, pessoais e comunitárias, quando estas assumem que, no princípio, tem de estar o fim, o tal dever ser que é, das essências que apenas se realizam pelas existências. Todos os decretinos processadores, em nome da ideologia ou do vértice hierárquico, do ministerialismo, com os seus sucedâneos, directoristas, presidencialistas ou rectorísticos, temem os que praticam o pensar é dizer não, como dizia Alain. Ou que a revolta é bem mais fecunda que a revolução, como vai acrescentar Albert Camus (2011).

 

Resistência individual. Quem experimentou as garras do saneamento e do processamento da persiganga não pode admitir que o rolo unidimensional do conformismo nos faça enjoar, sobretudo nesta praia da Europa que sempre foi partida para todas as sete partidas. O sinal do nosso futuro continua a passar pela resistência individual e pelo pensamento crítico da liberdade. A essência do homem ocidental sempre foi o individual do indiviso, que é expressão da fundamental dignidade da pessoa humana. Mesmo quando se rejeitam as normalizações impostas pelos pretensos antidogmáticos, neodogmáticos, como esses que, perante certo situacionismo, proclamam que têm o monopólio da contestação e assim nos desmobilizam. Os bobos da demagogia, da tirania e da mentira podem alimentar-se desses irmãos-inimigos. Quem quiser continuar mesmo do contra tem que procurar o mais além e antecipar o tempo da revolta (2011).»

publicado às 15:36

É já amanhã, dia 31 de Janeiro, pelas 18:30, na livraria Ferin, no Chiado, que será lançada a mais recente obra do Professor José Adelino Maltez, Breviário de um Repúblico. A apresentação ficará a cargo da Professora Cristina Montalvão Sarmento. Trata-se de um sublime exercício estilístico com um conteúdo inimitável, em que nos são revelados diversos escritos públicos dos últimos anos, organizados por dias, introduzidos por deliciosas efemérides criteriosamente escolhidas por quem domina como poucos a ironia, e a que o Professor retirou a carga efémera da espuma dos dias, fazendo-os alcançar aquele domínio das coisas eternas, o que tornará esta obra numa ferramenta intemporal para compreender Portugal. Podem ler algumas entradas no site da Gradiva e aconselho também a leitura deste post no Macroscopio.

 

Deixo ainda uma das primeiras entradas, de dia 17 de Janeiro, escrita em 2006:

 

«Símbolo e cultura. A pátria não é apenas a ideologia que justifica a ordem estabelecida, ou a utopia que a subverte, mas a terceira potência da alma (Platão), a imaginação, que vai além da razão e da vontade. Porque o tal imaginário atravessa o discurso racional, ordena o respectivo simbolismo e desconstrói a sua pretensa lógica. Porque quando penso que penso, não sou apenas o eu que pensa, mas também os que pensaram antes de mim, para que eu me sinta pequena onda de uma corrente que me ultrapassa.»

 

publicado às 22:29

Da heresia e da rebeldia

por Samuel de Paiva Pires, em 19.01.13

José Adelino Maltez, O homem é um ser que nunca se repete... viva a heresia!:


«Há um Deus que pode nascer todos os dias dentro de quem somos. Porque, às vezes, é na rebeldia que está a lealdade, nessa suprema ortodoxia do heterodoxo, e não na diluição no rebanho seguidista. Deus pode ser o mundo e haver mais mundos, sobretudo aqueles que continuam a criação, dando novos mundos ao mundo. As seitas sempre foram a própria negação da verdade. Não passam de rebanhos de dilectos que apenas reagem aos exoterismos, mesmo que se disfarcem em rituais, sobretudo quando estes perderam o sentido dos gestos. 

(...)

Odeio todos os grupos e movimentos que procuram assumir o monopólio da verdade, do espírito, da vida e do próprio bem, só porque alguns exibem uma contrafacção da chave da verdade e dizem ser o caminho. Odeio catecismos e formulários, bem como os seminaristas de cordel que procuram transformar-se nos cardeais da propaganda da falsa fé e nos comandantes de uma nova Inquisição que nos quer a todos relaxar para o braço secular da persiganga. Os que retomam a hermenêutica disciplinada da unicidade preferem a liturgia da subserviência à religiosidade da libertação. Até nem compreendem que só há pátria quando se cultivam as complexas heranças que nos sagraram a terra das árvores, dos rios e dos montes. Eles nunca entenderão que é possível o não através do sim e o sim através do não. A heresia continua a ser a única foram criativa de fecundarmos este caminho repleto de dejectos, ditos os filhos dilectos, mas que sabem que a revolta individual dos que procuram é o que mais se aproxima de sua imagem e semelhança. O homem é um ser que nunca se repete.»

publicado às 22:13

Programa para hoje

por Samuel de Paiva Pires, em 29.11.12

No âmbito do projecto "Educar", promovido pela Causa Real, decorrerá hoje, pelas 16h30m, na Escola Superior de Educação João de Deus, a primeira de uma série de conferências e debates dedicados às temáticas da democracia, regime político e cidadania em Portugal no século XXI. Os oradores serão o Professor José Adelino Maltez e eu próprio. Naturalmente, a conferência é aberta ao público e a entrada é livre.



publicado às 11:36

É já amanhã

por Samuel de Paiva Pires, em 28.11.12

No âmbito do projecto "Educar", promovido pela Causa Real, decorrerá amanhã, pelas 16h30m, na Escola Superior de Educação João de Deus, a primeira de uma série de conferências e debates dedicados às temáticas da democracia, regime político e cidadania em Portugal no século XXI. Os oradores serão o Professor José Adelino Maltez e eu próprio. Naturalmente, a conferência é aberta ao público e a entrada é livre.

 

publicado às 12:21

A melhor ideia de sempre: a liberdade

por Samuel de Paiva Pires, em 29.06.12

José Adelino Maltez no The Next Big Idea da Sic Notícias:

 

publicado às 21:33

Old whiggism

por Samuel de Paiva Pires, em 27.02.12

José Adelino Maltez, Reflexões de um herético, adepto da revolução:

 

«O destino de um "whig" é como o de um "girondin". Os "tories" consideram-nos jacobinos e estes utilizam contra eles a guilhotina, acusando-os de "contra-revolucionários". Eles, como liberais, contra o construtivismo das revoluções, apenas querem uma revolução evitada, isto é, querem conservar o que deve ser, com metodologias reformistas e objectivos revolucionários. Apenas são velhos liberais, contra "neocons", "neolibs" e revolucionários frustrados, incluindo os que se transformaram em situacionistas. Detestam as "révolutions d'en haut", incluindo as dos déspotas esclarecidos, a partir do ministerialismo.

 

Alguns ainda vão dizer que isto é maçónico. Quando é apenas paleio do Friedrich Augustus e do Karl Raimund. Isto é, liberal e iluminista. E muito austríaco. Apesar de só a partir de Londres, o terem dissertado. Meras marcas identitárias de uma concepção do mundo e da vida. Friedrich Augustus von Hayek. Karl Raimund Popper. Ou a sociedade aberta e os seus inimigos, os do caminho para a servidão.»

publicado às 11:21

Por um patriotismo científico

por Samuel de Paiva Pires, em 30.01.12

Recomenda-se a leitura do post de José Adelino Maltez. Quem tiver oportunidade, pode assistir mais logo à palestra no IST.

 

publicado às 13:10

Da tradição em José Adelino Maltez

por Samuel de Paiva Pires, em 16.01.12

Com a devida autorização do Professor José Adelino Maltez, transcrevo na íntegra a sublime entrada "Tradição" do seu Abecedário Simbiótico (pp. 509-512):

 

 

«Do latim traditio, paradosis, em grego. Não vemos as coisas como elas são, mas antes como nós somos (Anais Nin). Etimologicamente, qualquer coisa que passa de uma pessoa para outra. A própria Antígona, se se revolta, é em nome da tradição, para que seus irmãos encontrem a paz na sepultura e os ritos sejam observados (Albert Camus, HR, 47). Para Chesterton, tradição é uma democracia dos mortos e Evola salienta que há um conceito moderno de tradição, assumido pelo nacionalismo: a dimensão da transcendência, do que é superior à história, está completamente ausente dessa tradição (RCMM, p. 439). Porque não corresponde a essa palavra existente nas civilizações antigas: trata-se antes de um mito ou de uma comunidade fictícia, assente num menor denominador comum, dado pelo simples facto de se pertencer a um determinado grupo (id. 439). Porque o Sacro Império e a civilização feudal foram as últimas manifestações desse tipo de conceito de tradição. Porque o Império foi sentido como uma realidade já supra-política, como uma instituição de origem sobre-natural que formava um poder único com o rei divino (id. 403.) E se, depois do fim do mundo antigo, houve uma civilização que tenha merecido nome de Renascimento, foi precisamente a Idade Média (id. 403). Logo, teoricamente, o Ocidente aceitou o cristianismo, mas, na prática, o Ocidente permaneceu pagão (id. 377). E o resultado foi um hibridismo: o que no catolicismo tem um carácter realmente tradicional é bem pouco cristão e o que nele é cristão é bem pouco tradicional (id. 379). Teologicamente, a tradição é um ensinamento passado a outro, principalmente de um mestre a um discípulo. Segundo as escolas desenvolvimentistas, é um conjunto de traços culturais, sociais, políticos e económicos que caracterizam as sociedades rurais pré-industriais, traços permanentes que contrariam as exigências de modernização. Ser pela tradição é saber recuar, em pensamento e em entusiasmo, para, aprofundando o presente, dar raízes ao futuro, e melhor se poder avançar, negando a falsa dialéctica do antigo contra o moderno. Tradição tanto é o acto de transmissão de um conjunto de valores morais e espirituais, como integra cada um deles numa corrente de conhecimento e de sabedoria provindas de plurais fontes culturais. Porque o homem só é capaz de construir-se quando procura a perfeição, referindo-se e enraizando-se num património, ou numa herança, cujos valores podem ser referenciados através de um experiência iniciática. Porque só é novo aquilo que se esqueceu (Le Play), ao contrário do que continua a propalar certa visão tacanha do progressismo. Porque o moderno já foi antigo de que o antigo há-de ser moderno, segundo as palavras do Padre António Vieira. Porque só é novo aquilo que vem de trás, reelaborado para um novo fim. Só há o verdadeiro fora do tempo que nos prende, mas desde que se tenha tempo e lugar: os olhos nas estrelas do transcendente e os pés, no chão pisado do dia-a-dia. A autêntica tradição sempre admitiu o verdadeiro progresso, porque este nunca pode ser visto decepadamente, como um mito desprendido das origens, para utilizarmos uma análise tão cara ao magistério de Henrique Barrilaro Ruas. A tradição nada tem a ver com esse sucedâneo do mito pagão do eterno retorno, entendido como um simples círculo fechado, totalmente contrário ao conceito de tempo linear, assumido pelo libertacionismo judaico-cristão. Porque contra os sucessivos milenarismos do fim da história, há que proclamar, como Santo Agostinho, que não é o mundo que acaba, é um novo mundo que começa. Não pode haver tradição sem inovação, sem aquele movimento que passa por uma realidade viva, bem concreta, e não por um simples espaço vazio. Reagindo contra o que foi segregado pela história, e que se manifesta nos situacionismos que cedem à ditadura do statu quo, tanto surgem aqueles pretensos revolucionários, seguidores de um modelo de pronto-a-vestir ideológico que se pretende encaixar na realidade de um qualquer lugar e de um qualquer tempo, como, do outro lado, os tradicionalistas, os que, romanticamente se opõem ao que está, para poderem conservar o que deve-ser, apostando na superação da ordem estabelecida em nome do sonho realizável. Se tais revolucionários anseiam por reconstruir o todo geometricamente, porque a utopia que os mobiliza contém todas as receitas do futuro cozinhado social, já os tradicionalistas reconhecem a docta ignorantia do bom senso e tratam de submeter-se ao mistério de certas constâncias sociais, optando pela reforma gradual de algumas parcelas do todo, em nome da defesa do património cultural herdado. Neste sentido, não confundimos o tradicionalismo com a legitimidade tradicional de Max Weber (1864-1920), para quem a acção tradicional é considerada como uma conduta mecânica, na qual o indivíduo obedece inconscientemente a valores considerados evidentes e que daria origem à chamada legitimidade tradicional, onde emergem os fiéis como seria timbre do patriarcalismo, da gerontocracia, do patrimonialismo e do sultanismo, e que seria baseada na crença quotidiana na santidade das tradições vigentes desde sempre e na legitimidade daqueles que, em virtude dessas tradições, representam a autoridade. Também não diluímos o tradicionalismo na acção emocional ou afectiva, a que é marcada pelo instinto e pela emoção, onde há confiança total no valor pessoal de um homem e no seu destino, uma acção fundada na santidade, no heroísmo e na infalibilidade, onde seria marcante a legitimidade carismática. De um lado, o chefe, o profeta, o herói ou o demagogo. Do outro, os adeptos ou os leais, os discípulos ou seguidores. A mesma seria baseada na veneração extra-quotidiana da santidade, do poder heróico ou do carácter exemplar de uma pessoa e das ordens por ela reveladas ou criadas. Tudo depende do carisma, isto é, de uma qualidade pessoal considerada extra-quotidiana (…) e em virtude da qual se atribuem a uma pessoa poderes ou qualidades sobrenaturais, sobre-humanos ou, pelo menos, extra-quotidianos específicos ou então se a toma como enviada por Deus, como exemplar e, portanto, como líder. Contudo, o mesmo Max Weber salienta que uma das formas de legitimidade carismática aparece na democracia de líderes, com um demagogo a aproveitar-se da democracia plebiscitária, surgindo uma legitimidade carismática oculta sob a forma de legitimidade que deriva da vontade dos governados. Em terceiro lugar, distanciamos o tradicionalismo da acção racional referente a fins (Zweckrational), onde os indivíduos são capazes tanto de definir os objectivos como de avaliar os meios mais adequados para a realização desses objectivos, uma acção social marcada pela moral de responsabilidade, onde o valor predominante seria a competência. Aqui já nos situaríamos no campo do Estado racional-normativo ou do Estado-razão, onde domina a acção burocrática, aquela que faz nascer o poder burocrático, o poder especializado na elaboração do formalismo legal e na conservação da lei escrita e dos seus regulamentos, onde dominam a publicização, a legalização, e a burocracia. Para nós, o tradicionalismo corresponde à weberiana acção racional referente a valores (Wertrational), a racionalidade em valor, onde os indivíduos se inspiram na convicção e não encaram as consequências previsíveis dos seus actos. A tal forma de actividade política inspirada por sistemas de valores universalistas, onde o agente actua de acordo com a moral da convicção, vivendo como pensa sem pensar como vive, em nome da honra, isto é, sem ter em conta as consequências previsíveis dos seus actos. Aquele agente que é comandado pela dignidade, pela beleza ou pelas directivas religiosas. Há um tradicionalismo que readquiriu o sentido da dialéctica clássica, onde, etimologicamente, há uma conversa, com alternância no discurso dos interlocutores, passando-se a um tema comum que se percorre, pelo que só pode haver diálogo, quando entre os dialogantes se reconhecem lugares comuns, pontos de passagem que permitem a troca de ideias e experiências de vida. A tradição consensualista nunca foi uma tese, contra a qual se assumiu a antítese liberalista, para, depois, se desaguar na oceânica maravilha da síntese pseudo-futurista, com muita palha de modernidade, pós-modernidade ou vanguarda, mesmo daqueles que, muito exogenamente se dizem conservadores, ou dos que continuam a traduzir nacionalismos em calão de État-Nation ou de national interest. O tempo pós revolucionário que vamos vivendo continua a ser de complexidade crescente, onde a convergência do antigo continua em dialéctica com a divergência do actual. As raízes do passado sustentam tanto o tempo presente como as saudades de futuro. Os divergentes continuam em diálogo com os convergentes, a liberdade, com a ordem e a justiça, com a segurança. É essa a inevitável emergência da liberdade vivida, onde não há reaccionários fins da história nem repristinações revolucionárias. É esse o eterno regresso da história, onde importa recuperar a concepção clássica de política e a consequente democracia, onde é o homem que faz a história, mesmo sem saber que história vai fazendo. Há uma complexidade bem heterodoxa de ser-se tradicionalista, nos princípios, liberal, nas metodologias, e radical, nos objectivos. Mas outra tem que ser a postura de qualquer pretenso moderado do politicamente correcto, que procure submeter-se aos ditames de uma falsa ideia de opinião comum, só porque quer ser candidato ao sindicato das citações mútuas e estar disponível para uma carreira política de sucesso, mesmo que seja através de um cargo de institucional opinion maker, para que se mantenha intacto o estado a que chegámos, e apenas se finja mudar alguma coisa, para que tudo fique na mesma. Mas o fervilhar das ideias não se pauta pelo um, dois, três das caricaturas dialécticas, onde uma certa tese gera sempre o mero simétrico da antítese, feita à imagem e contra-semelhança da primeira, para que um autoritário distribuidor de valores possa chegar, ver e vencer, decretando a pretensa solução de uma síntese, com que, de forma dogmática, se pretende esmagar o outro, o tal que, por ser diferente, importa silenciar, diabolizar e, quiçá, exterminar. Sobretudo se for um irmão-inimigo. Para que se mantenha o movimento perpétuo da luta de invejas. Tal pode ser o preço a pagar pela fama que pensa deter a serôdia garotada dos que nunca entenderam o profundo sentido do diálogo, através dos lugares comuns da verdade, da força das convicções e daquela lealdade básica que admite as regras do jogo da moral e do direito. E para quem ainda acredita nas tradições clássicas, talvez o antigo três, dois, um seja bem mais circular, bem mais revolucionário, à maneira de Platão. A tradição admite todos os aspectos da verdade. Não se opõe a qualquer adaptação legítima. Permite, aos que a compreendem, concepções tão vastas quanto os sonhos dos filósofos… abre à inteligência possibilidades ilimitadas com a própria verdade em si mesma (René Guénon, SMP 24).

 

O mister de recordar o passado é uma espécie de magistratura moral. Alexandre Herculano, in O Bobo.»

publicado às 00:27






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