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A fuga à sabedoria convencional

por João Pinto Bastos, em 30.04.13

Quantas vezes as televisões nacionais dão palco aos verdadeiros hermeneutas do presente? Os caríssimos leitores responderão, e bem, que quase nunca. De facto, é raro vislumbrar um arremedo de reflexão nos noticiários das tricas e intrigas dos canais regimentais. É mesmo muito raro. Porém, nem sempre é assim. A edição da semana passada do programa "Olhos nos Olhos" de Henrique Medina Carreira é disso um bom exemplo. Sim, Medina tem dias em que deixa de lado a brejeirice biliosa para se concentrar apenas na fina análise da contemporaneidade nacional. O convidado da semana passada, José Félix Ribeiro, desconhecido de muitos, trouxe um óbvio acrescento à qualidade do debate. Culto, informado e arguto, o ex-funcionário do Departamento de Prospectiva e Planeamento do Ministério da Economia, sabe bem o que diz. E entre as coisas que disse no programa, salientaria três: 1) Portugal deve repensar o seu posicionamento estratégico no seio da arquitectura económica europeia ( a meu ver, essa interpretação implica a saída do euro, mas isso são outros quinhentos), 2) Portugal deve manter boas relações com a Alemanha, 3) Portugal deve retornar ao atlantismo de antanho, isto é, a relação com os EUA deve ser fortalecida. Por fim, e como corolário da sua intervenção, Félix Ribeiro defendeu que Portugal tem forçosamente de procurar "novos amigos", enlaçando este desiderato com os três objectivos mencionados nas alíneas anteriores. Neste blogue, e creio que posso falar no plural dado que não sou o único a defender o retorno a essa matriz política identitária, há muito que se preconiza o regresso ao atlantismo. É certo que, e aqui tenho de fazer uma ressalva, o atlantismo que perfilho não se reduz unicamente ao redireccionamento estratégico para os EUA. Sem embargo, a posição de Félix Ribeiro, ainda que, a meu ver, incompleta, é assaz corajosa. Não é muito corrente ver e ouvir alguém, ainda para mais quando se tem uma Dona Judite ao lado, afirmar que Portugal deve paulatinamente autonomizar-se da Europa, recobrando o vector atlantista. A raridade deste fenómeno tem, pois, o seu quê de surpreendente. As rupturas que se exigem com o presente e o passado financeiramente candongueiros do país levarão necessariamente à discussão em torno das aporias do regime, entre as quais aquela ideia peregrina de que o país só sobreviverá relacionando-se exclusivamente com o hinterland europeu. Conceitos como Europa, euro, solidariedade europeia e modelo social, terão de ser limados, sob pena de a realidade engolir os parcos destroços que ainda sobrenadam na superfície das águas turvas da insolvência colectiva. Félix Ribeiro deu uma achega para o debate. Seria bom que as grandes cabeças que, como ele, conhecem e pensam o Portugal do futuro delineassem, com maior liberdade e audiência, o porvir colectivo. A escolha será nossa.

 

Nota: segue em baixo o link do programa.

http://www.tvi24.iol.pt/programa/4407/77

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publicado às 16:03






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