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É certo e sabido que a sociedade portuguesa já não se espanta e pouco se indigna com casos de cunhas, tráfico de influências, corrupção e afins. Por aqui, o John Wolf escreveu um post amplamente partilhado nas redes sociais ao longo do dia de ontem, e muitos foram os jornais e blogs que deram conta deste caso - curiosamente, no Observador, onde tanto se tem defendido a necessidade imperiosa de avaliar os professores, com a qual concordo, não encontramos uma única palavra sobre o assunto. Mas, como é habitual, a indignação acabará por se desvanecer e o filho de Durão Barroso continuará alegremente a exercer actividade profissional nos quadros do Banco de Portugal. 

 

Desconheço Luís Durão Barroso, o seu percurso profissional e a eventual comprovada competência que permite ao Banco de Portugal contratá-lo dispensando a necessidade de concurso público. Mas vamos partir do pressuposto que é realmente tão competente que o Banco de Portugal nem se quer dar ao trabalho de abrir um concurso ao qual poderiam concorrer candidatos ainda mais competentes e muito menos pretende perder tempo a promover um concurso público de fachada, como é prática comum em Portugal. Ainda assim, o que este caso revela é a miséria moral dos seus intervenientes, que é facilitada e possibilitada pela miséria moral generalizada no nosso país:

 

i) Banco de Portugal: ignorando que nem tudo o que é legal é legítimo e que nem tudo o que é lícito é honesto, evidencia como aqui e agora impera a sociedade de corte onde o que importa é ser filho de algo e a meritocracia assente na igualdade de oportunidades é apenas propaganda para enganar papalvos; 

 

ii) Durão Barroso: sabe que esta situação até o poderia prejudicar pessoal e politicamente, mas também sabe que estamos em Portugal, pelo que basta aguentar a pressão durante uns dias e logo todos se esquecerão do caso e só por isto é que se atreve a deixar e/ou incentivar que o filho seja contratado nestes termos. No fundo, relembremos que "todo o homem que tem poder sente inclinação para abusar dele, indo até onde encontra limites", como escreveu Montesquieu, e procuremos não nos esquecer que estamos perante alguém cuja ambição o levou a trocar o cargo de Primeiro-Ministro pelo de Presidente da Comissão Europeia, abrindo a porta ao consulado socrático, e que ainda pretende ser Presidente da República;

 

iii) Luís Durão Barroso: pode até ser realmente muito competente, mas nunca se livrará da fama de ter sido contratado pelo Banco de Portugal apenas por ser filho de quem é. Também não se pode livrar desta condição, mas se fosse moralmente íntegro não se sujeitaria a ser contratado nestes termos. Provavelmente já terá passado por situações idênticas, pelo que possivelmente nem sequer compreenderia que isto lhe fosse exigido, ou seja, que o próprio tivesse a exigência moral, a autonomia e a capacidade de rejeitar ser contratado nestes termos e preferir submeter-se a um concurso público em condições de igualdade com outros candidatos, ou não ser contratado de todo pelo Banco de Portugal.

 

O que isto nos mostra é que mais vale ser esperto do que íntegro, porque a integridade moral não enche a conta bancária e a moral social poucos limites consegue colocar a estas situações. Continuamos em regime de neo-feudalismo onde manda quem pode e obedece quem deve, onde há uma lei para quem governa e outra para quem é governado, onde quem é rico e/ou filho de algo tem a vida feita e quem é pobre e/ou não é fidalgo tem de deixar-se ser enganado pela ilusão da meritocracia. 

publicado às 11:00






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