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Ainda o marxismo cultural

por Samuel de Paiva Pires, em 10.04.19

Francisco Mendes da Silva:

Para além disso, não percebo bem em que é que o "Marxismo cultural" é uma ameaça assim tão assustadora, ao ponto de em 2019 alguma direita achar que vive numa luta mortal contra o dito.

Nada disto é novo. Já no início do século XX Gramci tentou engendrar nos seus escritos "a longa marcha" do Marxismo "através das instituições". Mais tarde essa estratégia foi desenvolvida na Escola de Frankfurt de Marcuse e outros. Marcuse defendia "uma coligação de negros, estudantes, mulheres feministas e homossexuais", supostamente para destruir a civilização ocidental. Seguiram-se décadas, até hoje, em que as universidades do Ocidente foram ocupadas por departamentos de "culture studies" inspirados em Frankfurt.

Mas talvez fosse bom lembrar à direita mais stressada que as ideias sobre o avanço do Marxismo por via cultural partiram sempre da confissão de que o Marxismo, enquanto sistema económico, não era naturalmente aceite pelas pessoas. O argumento era o de que os proletários não aderiam à revolução porque as suas cabecinhas estavam formatadas pela ordem tradicional do capitalismo e da repressão sexual. Se os Marxistas acham que têm de mudar a cultura, é porque reconhecem a sua fragilidade original.

E, de facto, o que é que os "Marxistas culturais" conseguiram? Ao que se sabe o capitalismo ainda anda por aí. Com avanços e recuos, com méritos e erros, mas ainda assim a espalhar-se pelo mundo, galgando terreno ao Marxismo, que é mais forte na caserna académica do que no coração dos povos e no cérebro dos governantes.

Quanto às "marchas" e "coligações" de Gramci e Marcuse, o que mais há são estudantes, trabalhadores e minorias a querer casar, ter filhos e ganhar dinheiro honestamente. A ordem tradicional, baseada socialmente na família e economicamente no capitalismo, tem uma grande capacidade de conquistar e absorver as vanguardas dos "marxistas-culturais". E isso só prova a sua inultrapassável validade civilizacional.

 

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publicado às 00:03

Marxismo cultural e preguiça mental

por Samuel de Paiva Pires, em 09.04.19

Pessoas indignadas com o artigo do Adolfo Mesquita Nunes sobre o marxismo cultural e que vislumbram o declínio da civilização Ocidental já amanhã (um tema que é quase um fetiche de ocidentais diletantes) em resultado de exageros e delírios pós-modernistas (a acontecer, será pela demissão do Ocidente de líder da ordem internacional, pasme-se, graças à tal direita musculada de Trump, Bolsonaro, Farage, Orbán e afins, e pela ascensão de uma potência revisionista como a China, e estejam descansados que nessa altura vão poder preocupar-se com coisas sérias como o fim da democracia liberal e das liberdades que lhe são inerentes): levantem-se da cadeira, larguem a Internet, especialmente as vossas bolhas e câmaras de eco nas redes sociais, e vão ver que as teorias da conspiração que meteram na cabeça acabam por passar. Ou talvez não, porque já Karl Popper explicava a atracção de certas mentes por estas teorias, por serem incapazes de percepcionar a complexidade e o pluralismo da realidade social, especialmente de sociedades abertas, daí o seu pensamento de carácter maniqueísta ancorado em absolutos, que é, na verdade, contrário ao liberalismo, também ele tantas vezes proclamado morto, ainda que continue a ser a teoria mais adequada precisamente às sociedades Ocidentais, abertas e plurais, porque pautado pelo anti-dogmatismo que permeia o decálogo liberal de Bertrand Russell,  porque se fundamenta na tradição, no racionalismo crítico e numa concepção evolucionista de mudança social e política, porque valoriza e respeita a existência de diferentes concepções de vida boa numa mesma sociedade, e porque, ao contrário do que muitos ditos liberais acreditam, assenta na moderação. Em todo o caso, com o tempo livre com que vão ficar por passarem menos tempo no Facebook, aproveitem e dêem uma vista de olhos neste livro, em que são abordados Raymond Aron, Isaiah Berlin, Norberto Bobbio e Michael Oakeshott enquanto expoentes da virtude da moderação - todos eles, como se sabe, perigosos marxistas culturais. 

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publicado às 22:27

Da direita mais estúpida do mundo

por Samuel de Paiva Pires, em 08.04.19

Adolfo Mesquita Nunes:

(..) a estratégia dessa suposta direita musculada, cheia de testosterona, que se julga única, legítima, verdadeira, passa por fazer de qualquer questão, de qualquer assunto, um caso de fim de civilização, um choque entre o bem e o mal, uma opção derradeira, binária.

(...).

“E, partindo de uma justíssima recusa do politicamente correto, cavalgam a imposição de um novo código, que é o do combate ao marxismo cultural. A conversa do marxismo cultural não é senão a substituição de um politicamente correto por outro, e que serve, como aquele, para perseguir, criticar, isolar quem ousa sair do cânone. Marxismo cultural, gritam, ao menor sinal, ao menor gesto, apontando, julgando: se não concordas connosco, és um marxista.

“A ignorância desse estilo de acusações é gritante, como se à democracia liberal, a minha, não lhe restasse senão deitar-se com os seus doces inimigos para acordar aniquilada. Como se não nos restasse alternativa senão aceitar ataques à liberdade de expressão, à liberdade académica, à liberdade religiosa, à liberdade política, tudo em nome da aniquilação da conspiração esquerdista ou judaica ou globalista ou vinda de um qualquer outro delírio que sirva o propósito polarizador. A lista de desculpas para aceitar esses ataques está a engrossar, e é natural que engrosse, porque a redução do mundo a dois polos a isso obriga, mas não deixo de me espantar com a facilidade com que a gente aceita a ideia de que é legítimo encerrar universidades se o propósito for o de combater o marxismo cultural.

A manipulação dos conceitos que essa direita faz é manifesta, como se houvesse qualquer coisa de cristão nessa ideia de que há pessoas superiores a outras, de que há coisas mais importantes do que o amor ao outro, de que há nas escrituras uma instrução codificada para discriminar, violentar, agredir. Como se fosse possível aceitar que um partido, uma associação, uma pessoa qualquer, pudesse arrogar-se de uma autoridade superior à da própria igreja ou até substituir-se a ela, quando esta dá ares colaboracionistas, distribuindo certificados de pureza cristã, julgando, apontando.

(...).

Mas o engraçado é que essa direita armada em musculada ainda não se apercebeu de que é ela o seguro de vida da extrema-esquerda. A extrema-esquerda precisa, deseja, chama, até, pela direita musculada, para justificar a sua existência; o que na prática transforma tal direita, e não deixa de ser irónico, na idiota útil disto tudo.”

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publicado às 19:46

Do marxismo cultural feminista eurocrático (2)

por Samuel de Paiva Pires, em 06.03.12

A tendência para a imposição de regulamentações totalitárias originadas pelo feminismo de cariz marxista ainda vai fazer com que tenhamos que promover o machismo para podermos ser livres, homens e mulheres, porque a essência do homem livre é ser do contra, especialmente contra qualquer tipo de redis escravizantes em que nos queiram aprisionar à força. 

 

A uma concepção da vida e do mundo totalitarista, baseada numa espúria e artificial divisão entre sexos, basta contrapor o seu simétrico alegado contrário, na realidade irmão-inimigo, para mostrar como a nenhum pertence o monopólio da verdade absoluta, e muito menos a legitimidade de se impor como concepção dominante da vida em sociedade, contrariando a natureza humana, como se esta fosse transformável, e a acção livre de indivíduos únicos e irrepetíveis, que são bem mais do que os seus sexos.

 

A vivência em sociedade deve fazer-se por uma gestão equilibrada de reivindicações e compromissos, em que as prioridades estabelecidas não devem ser finais ou absolutas. Como assinala Isaiah Berlin em "The Pursuit of the Ideal", "o melhor que se pode fazer, como regra geral, é manter um equilíbrio precário que previna a ocorrência de situações desesperadas, de escolhas intoleráveis – é este o primeiro requisito para uma sociedade decente; uma pela qual podemos sempre lutar, à luz do leque limitado do nosso conhecimento, e até mesmo do nosso entendimento imperfeito dos indivíduos e das sociedades. Uma certa humildade nestas matérias é muito necessária."

 

Leitura complementar: O Marxismo Cultural Feminista de Bruxelas (Daniela Silva).

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publicado às 20:46

Do marxismo cultural feminista eurocrático (1)

por Samuel de Paiva Pires, em 06.03.12

Aqui fica um excerto de um brilhante artigo de Daniela Silva, O Marxismo Cultural Feminista de Bruxelas, cuja leitura integral fortemente recomendo:

 

"A ideia de que é necessário procurar uma proporcionalidade estatística como ponto de equilíbrio é negar que existem desigualdades em consequência de diferentes características pessoais e de desempenho e pretende, somente, usar o discurso igualitário para fazer avançar legislação favorável, envolta na típica justificação de complexidade social que só a burocracia do Estado pode vencer. Numa sociedade livre, cabe ao proprietário escolher contratações e demissões, no sentido que potencie mais a sua vantagem competitiva no mercado, enquanto o pretensioso discurso oficial do "longo caminho a percorrer" incorre somente em desperdícios ao tentar aplicar receitas contra a divisão do trabalho e diversidade voluntária. As quotas por género, ao ignorarem indivíduos e circunstâncias concretas, no tempo e no espaço, soam como reparações de guerra que o sexo oposto parece estar obrigado perpetuamente a pagar."

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publicado às 20:07






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