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Um recuo civilizacional sem precedentes

por João Quaresma, em 12.10.13

«A liberdade com roupagem de opulência, consumo, "conforto" e prazer escondia, pois, indústrias milionárias de alienação, a destruição sistemática das instituições inculcadoras da ordem social, cultural, e política. Foi com a benção do consumismo, do crédito para todos, do dinheiro barato que se semeou a crença que a felicidade individual só se realizaria com a substituição do dever pelo prazer e quando todas as formas de autoridade fossem substituídas pela cultura do lúdico. Certamente que ao cerrado combate para a destruição da escola e da cultura na sua expressão mais latitudinal - hoje transformadas em negócio e consumo - implicaria ipso facto o fim da própria ideia de cultura. Pensaram os ingénuos que se abria uma nova era de ilimitado experimentalismo e busca de um novo tipo de homem. Compreende-se agora o mito da "classe média", solução engenhosa para desagregar a cultura de classe (inerente a cada grupo social) e sobre ela criar uma só classe de consumistas, angariadores de crédito e prazer. A bolha imobiliária (como a bolha do automóvel para todos, a bolha das PPP's para abrir estradas levando às "novas urbanizações") - tudo isso um negócio que requeria mais mercado.

A verdade é que o capitalismo libertário se desfez deliberadamente de todas as formas de limitação - por via da moral, da ética, da responsabilidade - para, assim, implantar, não o contrário da velha ordem burguesa, mas uma sociedade sem centro, um não-Estado, uma anti-economia. Assim se explica a continuada mutilação da dimensão integradora do Estado - assistencial, educadora, codificadora, policiadora - ao longo das últimas três ou quadro décadas. Assim fica explicado o derrube da ideia de fronteira política e económica, a desvalorização moral do trabalho, a exaltação do protestarismo, o culto do "Outro" (multiculturalismo), o combate cerrado contra o patriotismo, as forças armadas e a "educação autoritária". Neste combate, a esquerda divulgou, vulgarizou, legitimou os chamados "sentimentos nobres", enquanto aderia sem reserva alguma à globalização, às migrações, à "cidadania universal". A "cidadania universal" queria apenas dizer mais imigrantes, derrube do sistema social europeu, deslocalização do aparelho produtivo. A Europa, que por via dos fascismos e do comunismo, se armara de dispositivos para regular o desespero dos pequenos, assistiu ao longo dos últimos anos a um recuo civilizacional sem precedentes. Para iludir o vazio, o liberalismo libertário inventou a ilusão da participação, estimulando o convivialismo das internets, as tribunas opinadoras, as causas que - tantas são - dispersam a angústia e compensam psicologicamente os cidadãos pela perda efectiva de capacidade interventora.»

 

Miguel Castelo-Branco, no Combustões.

publicado às 06:14

No sentido de contribuir para a discussão iniciada pelo Samuel num ciclo de posts neste mesmo espaço, apresento as seguintes questões às ideias e respectiva aplicabilidade provenientes da obra citada de Milton Friedman. No entanto, queria antes ressalvar que, na minha opinião, o Estado deve ser uma autoridade a ter em conta pelo mercado, no seu aspecto jurídico e constitucional. Estes, por sua vez, devem exercer a sua autoridade tendo como fim a defesa da soberania e dos princípios da moral cristã-católica e não quimeras igualitárias nem papel redistributivo da riqueza.

 

A grande vantagem é que o mercado concretiza a liberdade económica de forma impessoal e sem a necessidade de uma autoridade centralizada, dando aos indivíduos a possibilidade de escolherem os seus fins e não os obrigando a prosseguir os que um determinado grupo considere que eles querem ou devem querer (Milton Friedman, op cit.)

 

Não acredito que a Liberdade, seja ela económica ou doutra espécie - aliás torna-se complexo por vezes estabelecer fronteiras entre a liberdade económica ou a individual - possa prosseguir seus meios e fins sem Autoridade, seja ela centralizada ou não. Aliás, o que é autoridade centralizada? O indivíduo não terá sua liberdade dependente da permissão do governo central, mas se for o seu município, cooperativa ou paróquia já poderá perder as suas asas?

 

Importa, no entanto, ressalvar que o mercado não elimina o Governo, até porque, como consideram os liberais, este é um instrumento necessário para determinar e garantir as “regras do jogo”. Assentando a liberdade política na liberdade económica, a preservação da primeira requer, porém, a eliminação de elevadas concentrações de poder e a distribuição do poder que não puder ser eliminado – trata-se da clássica separação de poderes e doschecks and balances. (Milton Friedman, op cit.)

 

Aqui Friedman acaba por entrar em contradição, pois se o "Governo é um instrumento necessário para determinar e garantir as regras do jogo", essas regras podem sempre mudar de mãos e dirigirem-se a caminhos contrários ao da propalada liberdade. E aí, afinal, como pode o mercado ser algo "sem a necessidade de uma autoridade centralizada"? Como se pode prescindir dessa autoridade se é ela que "determina" as regras do jogo?


 

Ao retirar ao Governo a organização da actividade económica, o mercado elimina outra fonte de coerção, permitindo que o sistema económico seja um contrapeso ao poder político e não um reforço deste. (Milton Friedman, op cit.)

 

A coerção não é um atributo exclusivo do governo nem do poder político. O mercado, por si próprio, pode dar origem a várias formas coercivas. A concentração de poder e os monopólios são um exemplo, pois têm todo o interesse em misturar-se com o poder político, de modo a que este não seja um obstáculo. Assim, pode chegar-se ao capitalismo de Estado e à coerção da liberdade no mercado e da iniciativa privada. Portugal chegou aí através de outro caminho. Mas são vários os caminhos para a servidão...

 

publicado às 15:46

Nacionalismo e liberdade económica

por P.F., em 10.01.10

Numa versão livre de degenerações datadas e localizáveis, o Nacionalismo é o ideário que melhor protege a propriedade e a iniciativa privada. Apenas um Estado forte na sua autoridade e no prestígio e seriedade que transmite pode pôr cobro ao nepotismo da banca, de monopólios e de outros grupos de pressão, tais como as diversas máfias, que coarctam a iniciativa privada e viciam e manipulam o mercado livre. A propriedade privada não existe sem autoridade do Estado, isto é a entidade que garantirá o cumprimento de uma Constituição que salvaguarde princípios e valores na defesa de Portugal e dos Portugueses, para lá de qualquer carga ideológica ou classista, assim como de um corpo de leis que lhe sejam de feição.

A tradição nacionalista portuguesa, antes de as neologias anticristãs surgirem nos anos 80, caracterizada pela observância dos princípios históricos do municipalismo e do ecumenismo católico, não vai ao encontro de um Estado centralizador e macrocéfalo, típicos do socialismo, do fascismo e de outros ismos tais, nem tampouco de regionalismos artificiais, mas sim do princípio do autogoverno local.

De resto, a História pode ensinar aos mais livres de preconceitos que a temperança a partir da qual, e apenas da qual,  florescem as economias nacionais, a paz social e uma classe intelectual instruída e interveniente provém de governos que tiveram como prioridade principal a defesa da soberania e  como guia de orientação os valores dos seus países e da tradição cristã que lhes era subjacente.

publicado às 02:09

O regabofe acabou?

por Nuno Castelo-Branco, em 30.09.08

 

No passado dia 15 de Setembro, aqui deixei um post em referência ao discurso de Bento XVI contra a plutocracia. Apenas duas semanas depois, chegamos a esta situação, com notícias de desastres a chegar hora a hora, quase nos remetendo para a Invasão marciana  daquele programa radiofónico que tendo como base A Guerra dos Mundos de H.G. Wells, há décadas espalhou o pânico na América. 

 

A crise que se vive era previsível e já muitos se tinham apercebido da total irrealidade de uma economia fictícia, feita de gases tão rarefeitos como aqueles encontrados na estratosfera. Especulação, manipulação de números não correspondentes à realidade material, eis o que temos há muitos, demasiados anos. As implicações são fáceis de prever e julgo que podemos esperar o seguinte:

1. Fim das ilusões quanto à descida de impostos, pois os Estados serão forçados a intervir, urgindo obter mais receitas.

2. Fim da grande farra dos empréstimos para fins tão relevantes, como aquisição de electrodomésticos, férias em resorts exóticos nas Caraíbas,  automóveis de gama muito acima das possibilidades dos deslumbrados compradores, apartamentos que nada valem no mercado real e que mais que nunca precipitarão em breve a indústria da construção civil para o buraco da falência. Vão acabar os regabofes dos cartões de crédito oferecidos à porta de centros comerciais e aqueles termos esquisitos como leasings, spreads, etc, que serão aplicáveis a uma minoria.

3. As pessoas terão de viver de forma mais comedida, sem 4 televisões de ecrã plano-plasma em cada divisão da casa e uma infinidade de inutilidades como 6 play-stations, dois leitores de dvd - um antigo, com dois anos e um novo, comprado ontem . E poderiamos continuar indefinidamente.

4. No plano político, assiste-se hoje à inacreditável indignação dos comentadores televisivos da economia , que agora incrédulos pela alegada politiquice dos governos e parlamentos do Ocidente, se insurgem contra o laxismo, pois ... "os Estados têm mesmo de intervir!"... (SIC). São os mesmos que ainda há dias pretendiam a privatização de tudo o que resta do sector público e ..."deixar o mercado funcionar"... Obcecados com jogos virtuais de bolsa, agora não sabem o que dizer e pior, o programa a apresentar para a salvação do sistema. 

Que bela oportunidade para os partidos dos extremos políticos. É que, ou muito me engano, ou dentro em pouco as eleições tornarão bastante audíveis vozes sieg heil! um pouco por toda a parte. Ditas com um fundo musical menos marcial, como na Rússia, mas sem dúvida não deixarão de se fazer escutar por muitos. Em Portugal, na melhor das hipóteses, voltámos a 1908, com a decadência absoluta e definitiva do rotativismo. Estamos a dois anos de 1910, ano de todas as oportunidades. Quem dará o primeiro passo?

publicado às 08:54






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