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Há animais mais nobres que certos bípedes

por Samuel de Paiva Pires, em 02.09.12

Como há tempos escrevi, nutro apenas indiferença pelo espectáculo tauromáquico. Não deixo, contudo, de o compreender na sua dimensão cultural e social como sendo uma tradição portuguesa que não deve ser eliminada apenas porque um movimento de reduzidíssima expressão social o queira. Da mesma maneira que, sendo agnóstico, obviamente compreendo a herança judaico-cristã enquanto expressão da identidade ocidental. Infelizmente, há quem não conceba o conceito de tolerância, bastas vezes não se coibindo de mostrar à saciedade que talvez não devesse partilhar a mesma categoria moral dos demais bípedes. 

 

Perante o sucedido com o forcado Nuno Carvalho, que corre o risco de ficar paraplégico após ter sido colhido por um touro, certos ditos defensores dos animais, que pretendem impor aos outros, por via da coerção, a sua visão quanto à existência de touradas, aproveitaram ou para utilizar o sofrimento do forcado para dar força às suas convicções, demonstrando lapalissianamente que além dos animais, os humanos que participam em touradas também se sujeitam a lesões graves - como se eles não soubessem -, ou para se regozijarem com o que potencialmente lhe virá a acontecer. Se dúvidas houvesse quanto à falta de nobreza de carácter dos ditos cujos, ficariam agora desfeitas.

 

Leitura complementar: Os animais que um forcado tem de pegar (JCS).

publicado às 22:52

A quem possa interessar

por Samuel de Paiva Pires, em 17.07.12

Aqui e agora, neste cantinho à beira-mar plantado, para ser liberal tenho que subscrever John Gray quando diz que um conservador moderno tem também que ser um radical moral e intelectual, ainda que o ser radical implique apenas viver como penso em vez de pensar como vivo, isto é, rejeitando o consequencialismo dos situacionistas aprendizes de Maquiavel que nos pretendem enrodilhar nas falinhas mansas que outrora eram dos agora oposicionistas. A nobreza de carácter não se herda nem se reflecte naquilo que se diz que se faz; é apenas e só produto das nossas atitudes obedecendo a uma ideia de verticalidade moral que nos responsabiliza perante a nossa própria consciência, o que não pode nunca depender de caninas fidelidades partidárias ou afins. Por isso não estou disponível para me calar, pois ao contrário de certas ervas daninhas, não só aprecio como faço questão de ter a consciência tranquila, o que depende apenas e só de exercer as liberdades de pensamento e expressão. Porque como diria Herculano, "Há uma cousa em que supponho que ate os meus mais entranhaveis inimigos me fazem justiça; e é que não costumo calar nem attenuar as proprias opiniões onde e quando, por dever moral ou juridico, tenho de manifestá-las".

publicado às 00:24

Nobreza de carácter

por Samuel de Paiva Pires, em 08.06.12

O Dragão, "Introdução ao Paradoxo - III.A nobreza do carácter antes da pureza do sangue":

 

"«Por nobre entendo aquele cujas virtudes são inerentes a uma estirpe; por de nobre carácter entendo aquele que não perde as suas qualidades naturais. Ora, a maior parte das vezes, não é isso que acontece com os nobres, pelo contrário, muitos deles são de vil carácter. Nas gerações humanas há uma espécie de colheita, tal como nos produtos da terra e, algumas vezes, se a linhagem é boa, nascem durante algum tempo homens extraordinários, depois vem a decadência. As famílias de boa estirpe degeneram em caracteres tresloucados, como os descendentes de Alcibíades e de Dionísio, o Antigo; as que são dotadas de um carácter firme degeneram em estupidez e excesso (hubris), como os descendentes de Cimon, de Péricles e de Sócrates.»


- Aristóteles, "Retórica"

"Aquele que não perde as suas qualidades" é, dito muito sucintamente (e bem adaptado aos nossos tempos) aquele que não se deixa corromper. É aquele que permanece fiel aos princípios e perseverante nos fins que esses princípios autorizam. É por isso que a nobreza é, mais que um mero existir (enquanto fruto ocasional de uma estirpe ou linhagem) , um deliberado agir. E como o acto puro está reservado para Deus, ao homem de carácter nobre resta-lhe o acto virtuoso (a coragem, a magnanimidade, a generosidade, a temperança, a equidade, etc ):. Não vou alongar-me para aqui num tratado sobre Aristóteles (assunto em que dando-me  corda correríamos o risco de só me calar por interrupção da morte), mas sempre adianto que tudo isto tem um consequência muito simples tanto quanto inexorável: a nobreza é uma característica indivídual, não é um qualidade específica suscetível de produção em série. Na verdade, não há hereditariedade garantida na própria nobreza enquanto estirpe. Não é possível, para Aristóteles, treinar ou produzir espécies (raças, traduzindo para categorias o século XIX) nobres. E a principal razão porque não é possível é porque mão é natural. As regras da fusis  são as regras do antropos. Este não está separado daquela. Apenas é possível, no melhor dos casos, instruir indivíduos. Alexandre o Grande foi a prova cabal e exemplar  disso mesmo. 

Porém, qual o termo na língua grega com que Aristóteles (e a antiguidade) designava "nobreza"?  Eugenia, nem mais. Uma palavra que, como calculam, irá fazer uma grande - e abissal - viagem..."

publicado às 10:36






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