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A expressão "à política o que é da política, à justiça o que é da justiça", recorrentemente utilizada por António Costa, bem como a frequente recusa de julgamentos morais ou de carácter, não passam de habilidades retóricas a que um PS permeado por casos de corrupção e de duvidosa moralidade tem recorrido nos últimos anos com o objectivo de os afastar do debate político. Estas habilidades têm obtido bons resultados, talvez porque boa parte da oposição não tenha engenho para as denunciar e também porque o temor reverencial de grande parte da comunicação social se encarrega de fazer com que esta as reproduza acriticamente e acabe por criar na opinião pública a percepção de que serão válidas. Ora, na verdade não passam de habilidades retóricas que certas acções do PS, quando no governo, se têm encarregado de demonstrar serem falsas, quer pela interferência na justiça, quer pelos julgamentos de carácter que fazem dos adversários políticos, evidenciando à saciedade a hipocrisia de muitos militantes da agremiação do Largo do Rato.

De resto, nestas coisas, pese embora muitos não hesitem em salientar o duplo processo de judicialização da política e de politização da justiça, cujos contornos não conseguem precisar, a separação de poderes não implica que uma questão não tenha ambas as dimensões e possam ser retiradas consequências nos respectivos domínios. Veja-se, a este respeito, a forma como os poderes estão separados mas fundidos na Constituição dos EUA e como no caso do processo de impeachment de Donald Trump estão em causa consequências políticas para uma acção que poderá também ser alvo de julgamento pelo poder judicial.

Ademais, no que concerne aos julgamentos morais ou de carácter, estes fazem e sempre fizeram parte da política. São, aliás, parte essencial dela, ao contrário do que o Primeiro-ministro nos quer fazer crer, particularmente num país como o nosso, em que se discute muito mais politics, o jogo político-partidário quotidiano, do que policies, as políticas públicas. Dado que o jogo político-partidário é protagonizado por indivíduos, a avaliação do seu carácter é uma componente central da política, especialmente em momentos eleitorais, e é precisamente por o saber que António Costa declara publicamente a sua recusa. Ninguém gosta de tirar uma fotografia em que sabe logo à partida que ficará mal.

publicado às 17:31

A SIC(k) já começou

por Nuno Castelo-Branco, em 14.10.13

Pelava-me por ter de sobreviver * com 2.000€ mensais.

 

Daquilo que ontem foi decidido e jurado ao país, apenas se retém algo que fica tão firme como o monte Pão de Açúcar: vão mesmo aos bolsos de Soares, de Sampaio, de Cavaco, de Ferreira Leite - neste caso uma pochette Gucci -, do Almeida "tantos" e claro está, do mais famoso caçador-recolector de maningues, selectos e bem regados serões de charutadas poéticas. Apenas alguns nomes entre centos de outros. Centos, para não dizermos milhares.

 

Era de esperar o estupor das preclaras entidades da plutocracia e o primeiro ataque começou precisamente pouco depois das cinco da tarde, quando a gralha de serviço deu início ao "opinião pública". Após desvanecidas considerações a respeito dos dois impantes comensais activos que foram ex-residentes em Belém, deu voz a um dos tais pachiças ocasionalmente ajaezados como politólogos, aproveitando este para perorar as habituais banalidades de reconhecida encomenda. É claro que há quem saia sempre em enervadíssimas e patrioteiras considerações quanto à Constituição que deve ser respeitada com o dinheiro sacado na árvore das patacas pertencente aos contribuintes estrangeiros. No entanto e como também seria previsível, houve alguns intervenientes que disseram aquilo que todos sabemos, grosso modo alguns temas incontornáveis:

 

a) o golpe de Estado constitucional protagonizado pelo inenarrável Sampaio que preside a tudo e mais alguma coisa, abrindo o caminho à "fraude técnica" institucionalizada durante seis anos e à qual não prestou a menor atenção ou controlo.

 

b) a inépcia soarista durante os seus mandatos como 1º ministro e a hoje bastante esquecida chamada do FMI.

 

c) um claro apontar do dedo a um certo estranho caso que envolveu o apelido Soares e um grupo que actuava em Angola.

 

c) a temática mais difícil e sempre escondida pelos empregados do sr. Balsemão, ou seja, aquele absurdo período a que a vulgata regimental apoda de descolonização.

 

Pois bem, à SIC saiu-lhe o tiro pela culatra e não podendo desavergonhadamente cortar a palavra a quem não lhes interessava, notou-se a ânsia pelo chegar do fim desta "opinião pública". Que alívio!

 

* O PS, o PC, o BE e a UGT já saíram em auxílio da sobrevivência de ACS, MS, JS, MFL, AS e dos outros centos de pedintes acima enunciados. É comovedor, o Minipreço ficará extremamente prejudicado.  

 

publicado às 17:50

Da recusa do jargão ao isolamento

por Samuel de Paiva Pires, em 09.06.12

João Gonçalves, Libertem-se do jargão:

 

«Recusar o jargão, a vasta escola do ressentimento e, sobretudo, não lamber as patas à referida matilha tem como preço o isolamento. Em certo sentido, acaba por ser um triunfo sobre uma visão shallow da existência que é aquela que ressuma do muito que nos chega pelas vias "normais" da comunicação social e cultural. Porque estas vias só dão a ver ou a ler o que querem dar a ver ou a ler, em suma, o jargão do "meio". Expressões como "experiência" ou "referência", neste contexto, não passam de mistificações grotescas. É caso para recomendar a estes prosélitos que se imaginam sublimes e donos da opinião pública: libertem-se do jargão.»

publicado às 13:54






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