Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Foi você que encomendou um estado?

por Samuel de Paiva Pires, em 12.09.08

Devidamente alertado pela minha amiga Inês Narciso, que preferia que eu tivesse dado a este post o título "Está tudo doido" (desculpa-me pelo não acatar da sugestão :p):

 

 

Eduard Kokoiti, Presidente da Ossétia do Sul, anunciou que este território tenciona juntar-se à Ossétia do Norte e integrar a Federação da Rússia.

«Sem dúvida que faremos parte da Rússia e não tencionamos construir Ossétia independente alguma, porque historicamente as coisas aconteceram assim, os nossos antepassados fizeram essa opção», adiantou Kokoiti, num encontro com os membros do Clube Internacional de Discussão «Valdai».

 

Para uma hora mais tarde, ao que parece, segundo a Lusa, devido a um alegado telefonema de Moscovo, alterar o discurso:

 

 

«Talvez não me tenham compreendido correctamente. Não tencionamos renunciar à nossa independência, que pagámos com um número colossal de vítimas, e também não pensamos aderir à Rússia», precisou numa entrevista à Interfax.

«Muita gente na Ossétia do Sul manifestou-se pela entrada da república na federação Russa e ninguém os pode proibir de defender essa ideia. Mas a Ossétia do Sul não tenciona entrar na Rússia, mas estabelecer relações civilizadas com todos os Estados em conformidade com o Direito Internacional», acrescentou.

 

Ainda gostava de entender qual é mesmo a interpretação correcta para a extremamente ambígua afirmação "faremos parte da Rússia e não tencionamos construir Ossétia independente alguma"...

 

Parece que o estratega Putin tem muito com que se preocupar quanto à falta de bom senso político-diplomático dos vizinhos...

 

 

publicado às 01:06

Quando a diplomacia pública funciona melhor e os jovens dão uma lição aos mais velhos, nomeadamente através dos seminários, conferências e eventos que têm juntado nacionais dos estados membros da NATO para além de Parceiros para a Paz, sob a égide da Atlantic Treaty Association e da Youth Atlantic Treaty Association (o negrito é meu):

 

The International Board of the Youth Atlantic Treaty Association is gravely concerned about the current situation in the Caucasus.  Together with our friends  in the region, we grieve for the victims of this avoidable conflict and strongly urge the importance of peaceful relations in the region. The ongoing conflict illustrates the futility of unilateral and illegal force as a means to resolve conflict and is fundamentally contrary to universal respect of human rights embraced by the Atlantic Community and international legal norms.
 
The territorial sovereignty of each nation must universally respected, as a principle of the United Nations Charter in accordance with international law. Respect for minorities, human rights, and pluralism are the core of a stable and democratic country and paramount values of the Atlantic Community.  We call all those that are fighting to refrain from the needless killing and to engage in an extensive dialogue with their counterparts to overcome mistrust, anger and the mutually defeating accusations that have lead to the current violence.
 
Even in the present situation, the youth of Georgia, South and North Ossetia, Abkahzia and Russia, have shown their unwavering commitment to peace through dialogue, to halth the deadly use of force by the parties involved. The YATA Board urges these young leaders to take on this challenge with patience and passion, to ensure that a democratic and stable future can be secured in the region.
 
YATA reafirms its steadfast commitment to stability, dialogue, and the protection of human rights, especially when they are threthened by fruitless violence.  We will do everything is in our hands to help our fellow young leaders to convince current leaders and national communities that differences must be overcome through dialogue and trust, not fighting and killing.
 
In the spirit of the YATA family and in sympathy and friendship with our young partners in the Caucasus who wish to live in a peaceful and democratic country, we call on their leaders to respect the will and values of the people whose future they are fighting for, to cease their actions and to work with the international community and international institutions to seek a long-term peace.
 
The YATA Board

 

Se conseguimos que os jovens líderes de diferentes países e regiões com disputas e conflitos históricos consigam alcançar posições comuns assentes em valores partilhados por todos é porque andamos a fazer algum coisa de jeito. Talvez um dia ainda se prove que a teoria de que os que não experienciaram o fenómeno da guerra mais facilmente recorrerão a esse instrumento não é assim tão verdadeira quanto isso.

publicado às 23:31

Geórgia (3)

por Samuel de Paiva Pires, em 11.08.08

Há 2 anos atrás participei no seminário da Juventude Dinamarquesa do Atlântico, do qual se tornou uma constante a simulação de uma situação de crise. No caso, desde há 3 ou 4 anos a esta parte que a situação se repete, nomeadamente uma crise generalizada no Caúcaso, mais especificamente na Abkhazia, na Ossétia do Sul, na Tchetchénia e em Nagorno-Karabakh. Em 2006 coube-me o papel de Presidente da Federação Russa. É fácil prever o resultado. Para a região enviámos um enorme dispositivo militar. Rejeitei qualquer negociação com a NATO ou os Estados Unidos com o simples argumento de que aquela é uma área de tradicional influência russa na senda de que também a América Latina o é para os norte-americanos e os russos não se intrometem. Enquanto isso, o meu colega de equipa delegado ao Conselho de Segurança tratou de vetar qualquer avanço de forças internacionais especialmente impulsionado pelos norte-americanos. Quanto à União Europeia ficámo-nos por um acordo de apoio dos europeus à reconstrução no pós-estabilização da região. Há qualquer coisa de déjà vu e de surreal na situação actual...

 

 

 

Entretanto parece-me evidente que os norte-americanos (especialmente George Bush e a sua ânsia expansionista) e os europeus são os grandes culpados pelos maus lençóis em que se encontram os georgianos, que provavelmente não estavam a contar com tamanha passividade dos seus alegados aliados, assim ficando demonstrada alguma ingenuidade por parte de Saakashvili. Imaginem agora se a Geórgia já fizesse parte da NATO, com um tal ataque naturalmente invocaria o Art.º 5.º e lá iríamos todos contentes entrar em guerra com a Rússia.

 

 

 

Anda a faltar bom senso a muita gente e pelo menos aplicar qualquer coisa das lições de História e de Geopolítica para colocarem finalmente na cabeça que a Rússia será sempre um portento internacional, a sua própria dimensão é a causa da sua propensão para o controlo dos territórios próximos das suas fronteiras, e por mais amanhãs que cantem e profetizem o declínio russo, é uma daquelas nações que rapidamente recuperará o status quo, à semelhança dos alemães. Entretanto ainda há quem continue a achar que podemos alargar a NATO indefinidamente para a Ucrânia e Geórgia. Parece-me evidente que tal só será possível se a própria Rússia fizesse parte da Aliança Atlântica, o que não se me afigura como viável no curto ou médio prazo, e mesmo a longo prazo tenho dúvidas.

 

Porém, ainda que seja engraçado estudar e ler sobre este tipo de coisas e sobre fenómenos como a guerra, essa ganha contornos estranhos e perde-se qualquer tipo de racionalidade quando uma amiga em contacto com uma georgiana que conhecemos este ano (ainda no sábado estava em Portugal), me diz que ela acabou de ficar sem net logo após ter dito que estava algo a sobrevoar-lhe a casa, isto em Tbilisi....

publicado às 21:34

Geórgia (2)

por Samuel de Paiva Pires, em 11.08.08

A BBC tem feito um resumo factual dos acontecimentos dia por dia.

 

O António de Almeida tem escrito o que de melhor tenho encontrado na blogosfera, isto é, ao encontro daquilo que eu próprio penso. Ver a série Hipocrisia Internacional I, II, III e IV.

publicado às 20:40

Geórgia (1)

por Samuel de Paiva Pires, em 11.08.08

O sr. Almirante Alexandre Reis Rodrigues escreveu aqui um excelente artigo do qual destaco (os negritos também são meus):

 

 

Moscovo não poderia perder a oportunidade de mostrar de forma “exemplar” que, um dia, teria que fazer parar as sucessivas reduções da sua área de influência. Saakashvili deu-lhe a oportunidade e, dessa forma, comprometeu, talvez irremediavelmente, as hipóteses de manter em aberto a possibilidade de reunificar o país e manter as pretensões de que fez a bandeira do seu mandato presidencial. Foi irresponsável; mas desse mal também são culpados os que sempre o incentivaram a desafiar a Rússia, sem cuidarem de verificar estarem preparados para dar ajuda concreta se surgissem momentos difíceis.

Ao ceder à pressão americana, para dar luz verde a uma futura entrada da Geórgia na NATO, os europeus solidarizaram-se formalmente com esse processo mas o que ficou subjacente no espírito de muitos observadores foi a ideia de que o consenso só tinha sido possível por a decisão não referir uma data-limite para a sua concretização. Isso permitiria aos que sempre mostraram reservas à proposta dos EUA ir adiando sucessivamente a decisão final. Tendo agora mais motivos para não facilitar a adesão, não é de esperar que essa possibilidade esteja no horizonte.

Em qualquer caso, a evolução que a situação sofreu desde o passado dia 8 de Agosto ainda está longe de estabilizada; a Rússia não aceita o simples pedido de cessar-fogo pedido pelo Presidente Saakashvili; exige a retirada total do Exército georgiano da Ossétia do Sul e o compromisso de que não tornará a invadir a província separatista.

O que quer que a OSCE ou a UE consigam nos esforços de mediação em curso dificilmente retirará à Rússia a posição de vantagem com que sai deste conflito, não se sabendo sequer aonde parará a sua acção. Tudo isto poderia ter sido evitado com alguma moderação e bom senso; mas isso não são o tipo de atributos de que se pode orgulhar o Presidente da Geórgia.

publicado às 20:05






Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D

Links

Estados protegidos

  •  
  • Estados amigos

  •  
  • Estados soberanos

  •  
  • Estados soberanos de outras línguas

  •  
  • Monarquia

  •  
  • Monarquia em outras línguas

  •  
  • Think tanks e organizações nacionais

  •  
  • Think tanks e organizações estrangeiros

  •  
  • Informação nacional

  •  
  • Informação internacional

  •  
  • Revistas