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A destruição do Palácio da Ajuda

por Nuno Castelo-Branco, em 04.09.18

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Definitivamente liquidado o seu parente carioca, o que neste momento está a suceder na Ajuda, embora nem de longe possamos comparar com o desastre de ontem, merece contudo um rápido comentário. A adulteração arquitectónica do maior e mais conseguido edifício neoclássico de Lisboa, consiste num erro e num abuso de confiança. 


O erro consiste no querer mostrar obra seja da forma que for, nem sequer tomando em consideração a dignidade que aquele vasto conjunto mereceria num país com mais de oitocentos anos de história. Já tendo sido despojado de uma parte do seu espólio mercê de algumas vicissitudes quando nele se encerrou a vigência da mais longeva e significativa forma de representação do Estado português - precisamente aquela que o fundou, consolidou, expandiu e espalhou o nome Portugal de Ceuta a Nagasáqui -, esteve longas décadas fechado, mantendo longe da vista de nacionais ou turistas estrangeiros, preciosidades que no seu conjunto oferecem uma visão muito consistente dos interiores palacianos do século XIX, para além de conter algum mobiliário que sendo anterior, pode ser facilmente identificado como tendo participado em alguns eventos bem conhecidos. Cabe neste âmbito, por exemplo, o conjunto de cadeirões que terão adornado os aposentos do Príncipe Regente na nau que levou a bom e seguro porto, a sede da soberania portuguesa para a sua então enorme possessão ultramarina além-Atlântico.

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Nem sequer dando especial destaque a trágicos episódios como o estranhamente escabroso roubo das Jóias da Coroa, sabe-se que durante a 2ª república o regime retirou algumas peças que foram decorar embaixadas portuguesas, numa atitude consentânea com a tradicional displicência com que as nossas autoridades tratam o património que é de todos, mesmo daqueles que o desconhecem. 

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Hoje o espaço conta com uma direcção-conservadoria que para além de uma rotineira carência de verbas, tudo tem feito para o prestigiar, embora o entorno mantenha aquele típico aspecto de semi-abandono que mesmo visivelmente reconhecido como tal, ainda oferece cenários de que o regime das auto-estradas e dos centros comericiais se aproveita para as suas ocasiões especiais onde se alaparda numa grandeza postiça, que nunca teve. Vivemos tempos de mero exibicionismo e como tal deve ser entendido o acrescento que está a erguer-se a poente, onde o projecto cada vez mais nos fará lembrar um enorme radiador para dias invernosos, ou aquele poste que desde logo chama a atenção do ocasional canídeo que no seu giro higiénico, ali deixa a sua mensagem molhada para que outros a farejem. Muitas formas há de destruir um edifício, especialmente se este fizer parte da história. A adulteração arquitectónica é uma delas, talvez a pior de todas, um abuso de confiança.


Mentem, mentem e mentem, mesmo que isso signifique o esbanjar de milhões que irão buscar aos bolsos habituais, sejam eles portugueses ou de visitantes estrangeiros e neste último caso, as famosas taxas e taxinhas. Uma anunciada despesa de dúzia e meia de milhões para uma enorme fachada a forrar com pedra, vidraria, três ou quatro andares, sistemas de segurança anti-roubo e contra incêndios, iluminação, dois cofres-fortes que protegerão o que resta das peças de joalharia e a prataria outrora de serviço à Casa Real, elevadores e monta-cargas, o que quiserem imaginar. Tudo como se fosse adquirido na loja chinesa do bairro, ao preço de mega-saldo. Isto para nem sequer abordarmos o pagamento devido à mão de obra especializada para as mais diversas tarefas a executar. 

Quem acredita nisto? Dois tipos de pessoas: os tolos e os arregimentados participantes ou não em esquemas mais ou menos nebulosos. 

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publicado às 21:48

Fachada poente a precisar de Ajuda

por Nuno Castelo-Branco, em 17.09.16

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 Ficou hoje a conhecer-se mais um dos muitos projectos apresentados para o remate da fachada poente daquele que é o maior e mais imponente edifício público da capital portuguesa.


Dispensando quaisquer comentários a respeito do gosto ou desgosto que os esboços mostraram, esta construção, mesmo com o previsível isco dos fundos do Turismo e da apresentação em exposição permanente das muito desfalcadas Jóias da Coroa, não pode ser iniciada sem a prévia consulta a quem mais interessa, ou seja, os habitantes de Lisboa.  

O Palácio da Ajuda não é uma construção da qual se possa dispor à la carte, não pode estar à diposição de um projecto de promoção pessoal, ou de qualquer partido Desde que se ergueu tem sido uma sede de  poder, seja ele o monárquico ou o republicano. Nele se pavoneiam vaidades na recepção do corpo diplomático e ali se inauguram presidências e governos, por muito efémeros que sejam. É um local emprestado pela nossa história, um eco de um passado relativamente glorioso. Aqueles brilhos dos adamascados e dourados, as pratas e porcelanas, as pinturas e tapeçarias, os bibelots assinados, os torneados do mobiliário daquela mescla de estilos, o bric-a-brac de Dª Maria Pia de Sabóia, impressiona os nacionais e os estrangeiros. Não é nenhuma novidade, aquela colecção marcou uma época e por milagre praticamente íntegra - apesar dos acontecimentos da 1ª república, da visita recolectora da aventureira com quem o infante D. Afonso se casou, da retirada de mobiliário e peças decorativas que o regime da 2ª república colocou em embaixadas -, é um cenário infinitamente superior em termos de prestígio e harmonia, a uma banal construção que qualquer um dos regimes que sucedeu ao ciclone de 1910, tenha erguido nas respectivas Expo. Das pedras lavradas e pinturas murais da Ajuda à bela pala de betão armado do antigo Pavilhão de Portugal, vai uma boa distância e os nossos senhores não hesitam na escolha do decor. Sejam então coerentes.

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 Poderá a entidade mais ansiosa, a Câmara Municipal, esgrimir argumentos a favor da "rápida conclusão de uma obra que já tarda e é urgente", mas estas atitudes em nada abonam quem decide e muito dependerá da confiança de uma população muito desconfiada por este inesperado inferno eleitoral de ciclovias, alargamento de passeios, demolições a eito e sem consulta, desrespeito pelo próprio inventário municipal e outras habituais habilidades comezinhas. Bem poderá então escudar-se atrás do MC e do Turismo, mas o protagonismo é totalmente seu, nada de manobras de ilusionismo. O protagonismo e o interesse.


O projecto existe há bastante mais de meio século e é da autoria do arquitecto Raul Lino que se manteve fiel à ínfima parte construída do risco original que a Ajuda teve nos finais do século XVIII e alvorada de oitocentos. O Palácio jamais foi concluído e será supérfluo inventariarmos as razões para tal incúria sobretudo devida às vicissitudes da política, às mudanças e de regime e à sempre latente penúria financeira. Anos após a sua concepção, Salazar, a braços com uma guerra em três frentes africanas e assoberbado pela construção da Ponte, não pôde dar andamento a este projecto que hoje, a ter sido concluído, já teria beneficiado da patine da passagem de meio século e muito provavelmente, com interiores a condizerem com a fachada. Seria parte da paisagem urbana. Não se fez, paciência, outros valores se levantaram, mesmo quando alguém teve a ideia de construir de raiz um Centro Cultural em Belém, nem sequer aproveitando o que já existia no alto do bairro lisboeta da Ajuda. Idem quanto ao Museu dos Coches, naquelas cíclicas, bastante oportunas para uns tantos e previsíveis derrapagens orçamentais que em muito lesaram o crédito e a respeitabilidade de quem decidiu e ordenou. Este é o país em que os cidadãos enviam cartas registadas aos governantes e estes, nada preocupados, nem sequer se dão ao trabalho de acusar a recepção. Foi o que sucedeu há perto de três décadas, quando do anúncio da construção do CCB e alguém lhes terá chamado a atenção para o aproveitamento da parte a reconstruir do Palácio da Ajuda. Pelos vistos, continuamos neste estranho caminho da surda arrogância. O mesmo se pode dizer a fundos esfumados, como aqueles deixados pela Sra. Reagan que também terá apreciado o potencial do edifício. 

Mais próximo de nós, ainda está o embaraço nacional acerca da retirada russa da exposição do Hermitage na Ajuda, pois consideraram o palácio na sua secção poente, impróprio para a apresentação das periódicas colecções imperiais. Não valerá a pena o recurso a subterfúgios lava-faces, pois foi isto mesmo o que aconteceu.

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 Este edifício não pode ser mais um passageiro pasto de modas e vaidades. Não pode, é campo interdito. Esperava-se a abertura de um concurso público e internacional, mas recorreu-se ao expediente já bem conhecido, da decisão sem dar cavaco. Fizeram mal, como se tornou costume. Mal, e, suspeitamos, de forma ilegal.

Bem vistos os factos, este anúncio de surpresa é mais um exercício de vanitas política embrulhada caprichosamente em argumentos apenas válidos, porque óbvios ao longo de mais de duzentos anos. O Palácio Real ou Nacional, como queiram, consiste num património que condensa a história de um século pleno de acontecimentos e que está recheado de uma inestimável colecção de época, embora, tal como as Jóias da Coroa, privada, como acima dissemos, de inúmeros elementos que a queda da Monarquia fez por vários meios sumir. Há que valorizá-lo e para isso podem e devem ser despendidas quantias necessárias que estimularão a criatividade, a arte de bem fazer, o labor dos artesãos nacionais e o interesse de uma miríade de pequenas e médias empresas de construção. A cultura não é despesa, por muitos fundos que nela se vertam sob supervisão e criteriosamente. Trata-se de um investimento e para mais, da garantia da identidade nacional que é pontilhada por um certo sentido de orgulho. 

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 Os decisores podem pensar o que entenderem acerca das suas excelsas personalidades, mas não vivem num exclusivo Olimpo. Desçam à terra e procedam então a uma consulta popular que decida a viabilidade do projecto de Raul Lino ou a alternativa hoje apresentada. Num país onde a palavra mais usada pelos agentes da política é democracia! democracia! democracia!, do que que têm medo os senhores da nossa situação?





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publicado às 19:16

Mais um passeio do governo

por John Wolf, em 08.05.14

Foram todos ao Palácio da Ajuda dar uma voltinha no helicóptero da Joana Vasconcelos.

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publicado às 09:26






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