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Os que estão em negação.

por Nuno Resende, em 12.03.21

A realidade da pandemia mostrou dissensões que, em tempos de catástrofe, afloram mais rapidamente. Posto à prova, o Homem torna-se rato ou leão, com respeito para a diversidade do reino animal, sem distinções que hoje possam suscitar acusações de xenofobia ou, neste caso, “animalofobia”.
Tais dissensões levaram à formação de posições, naturalmente extremadas, e devidamente baptizadas pela vox populi: os covideiros, grosso modo os hipocondríacos e, do outro lado os negacionistas, todo aquele que nega, se opõe ou desvaloriza a pandemia de sars-cov-2.
Mas, muito embora, a designação negacionista tenha sido aproveitada do termo que designa os que recusavam a acreditar no Holocausto, a expressão é diferente quando aplicada no presente por ser mais heterógena do que quando aplicada a alguém que nega a História. Uma coisa é negar o que não vemos, aquilo do qual nos afastamos no tempo, outra é negar a evidência do que vemos e vivemos. Há gente a morrer à nossa volta e existimos (a palavra é esta, não vivemos, nem sobrevivemos, existimos, apenas) num tempo de suspensão de liberdades individuais que, dizem-nos, se justifica como principal estratégia sanitária.
Mas há ainda outro tipo de negacionistas: os que vivem em negação, os que acham que vai ficar tudo bem, os que consideram que o vírus desaparecerá (como se algum vírus, algum dia, alguma vez tivesse desaparecido) e os que acreditam verdadeiramente que daqui a 2, 3 ou 10 anos, o mundo voltará ao normal anterior. Não é por nada que se utiliza já, e bem quanto a mim, a expressão “novo normal”. O novo normal é a normalização do controlo das massas, a higienização do pensamento individual e o recuo em relação a modos de vida anteriores a 2020, nomeadamente o turismo, os grandes eventos.
A Globalização sofre agora um rude golpe: parece não estar a sucumbir à mão de políticas proteccionistas, mas perante estratégias higienistas seculares de quarentena, confinamento e guetização. Voltamos ao longínquo ano de 1021.

publicado às 16:01

Parabéns ao PCP!

por Nuno Resende, em 06.03.21

O Partido Comunista Português, fundado em 1921, é um dos pilares essenciais para a construção da democracia em Portugal. Ninguém o pode negar. Foi fundamental para opor-se à ditadura e ao Estado Novo e, depois de 25 de Abril de 1974, tornou-se uma das forças essenciais para regular o equílibrio da democracia embora cedendo à vertigem do poder absoluto, característica genética da sua filosofia.

Posto isto, 100 anos depois da sua fundação ainda que o PCP mostre a decrepitude do seu conservadorismo, partido plenamente instalado no sistema e ainda há pouco tempo parte dele através da Geringonça, cada vez mais brando na sua forma de faz oposição, sobrevive. É natural. Cem anos pesam na mobilidade de qualquer um e das muletas já passou à cadeira de rodas. Não obstante querer trazer sangue novo com o recente candidato apresentado à presidência da república - vontade de mostrar sangue novo em corpo velho - tem vindo a ser punido pelo eleitorado, mesmo o mais fiel, como se viu pelos resultados das recentes eleições.

No entanto, num ano já cumprido de plena pandemia, não deixou de se fazer ouvir, lutando contra os embargos aleatórios que suspenderam a democracia e silenciaram os oponentes ao novo situacionismo. O Primeiro de Maio de 2020 cumpriu-se, assim como a Festa do Avante. Nem a Igreja Católica, com milénios de intervenção directa nas consciências dos indivíduos, levou a melhor frente ao vírus e aos estados de emergência, aceitando a asseptização social e deixando-se vencer pelo cientismo instalado. 

Perante o vírus, mais do que nunca, é certo que deus morreu. O PCP, embora esteja moribundo, não.

E por isso, os parabéns que lhe dirijo e as celebrações que animam as ruas (ainda que semidesertas das nossas principais cidades) são mais do que merecidos.

publicado às 11:29

O segundo confinamento e o ensino (II)

por Nuno Resende, em 21.01.21

Se o governo toma decisões aos bochechos por causa do mau aconselhamento dos cientistas que participam nas reuniões do Infarmed, ou ao sabor da opinião pública e dos comentadores de serviço, em qualquer dos casos talvez devesse parar para avaliar da sua função, autoridade e utilidade. Um governo que, numa semana diz que não fecha o comércio todo, depois fecha o comércio todo, que não fecha as escolas, depois fecha as escolas, só pode ser um caso grave de saúde mental.

E ao ouvirmos o presidente da república dizer que se pensava que a pandemia acabava em Outubro de 2020, temos completa esta nave dos loucos.

A vacina chegou primeiro que a noção a Portugal, infelizmente continuará facultativa  e circunscrita a um grupo reduzido de indivíduos - o que significa que nada ou muito pouco adiantará numa população maioritariamente não vacinada e sujeita ao contágio e disseminação do vírus (de que adianta fechar as escolas hoje, amanhã e depois, se o vírus continuar nas salas de aula?). Não custaria menos vacinar pelo menos 80% da população do que sujeitar o país a uma crise económica sem precedentes?

O que é pena é que entre tantos cientistas, comentadores televisivos, peritos em epidemiologia e saúde pública, nenhum tenha a coragem de nos dizer que não, não vai ficar tudo bem e que este segundo confinamento há-de ser um de muitos que no futuro ainda hão-de acontecer.

  

  

publicado às 19:30

O segundo confinamento e o ensino (I)

por Nuno Resende, em 17.01.21

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O segundo confinamento em Portugal deixou de fora todos os graus de ensino, o que levou a um coro de críticas por parte de sectores da ciência e da sociedade – sem que saiba muito bem quem constitui estes sectores.

O que a pandemia nos tem ensinado é que há poucas certezas, mesmo as que vêm acompanhadas por certificações de fiabilidade ou estudos científicos. Todos os dias a comunicação social embarca numa difusão de dados desactualizados, não validados ou ainda não devidamente revistos por pares, fazendo assunções generalistas e lançando confusão e pânico na opinião pública.

Sobre os técnicos ou cientistas que participam nas reuniões do INFARMED, sabemos pouco ou quase nada. O que é certo é que parecem faltar ali geógrafos, sociólogos, antropólogos, demógrafos e até filósofos, por que não? Faltam conhecer declarações de interesses de muitos dos comentadores e tudólogos que na televisão debitam opiniões.

E sobre os anónimos mais críticos em relação à abertura das escolas, pouco nos dizem as redes sociais quando fazemos uma leitura na diagonal dos comentários mais frequentes. Certamente que plataformas como o Facebook conseguem desenhar o perfil de grupos de indivíduos segundo as suas reações (os famosos botões de gosto etc.ª). Mas é possível vislumbrar por ali algumas explicações para a ânsia de fechar tudo, assentes quase todas na pouca capacidade crítica para filtrar a informação que todos os dias entra nos seus olhos e ouvidos, quer pelos media digitais, quer tradicionais. Medo puro, uns, inabilidades várias que o conforto do trabalho em casa permite colmatar, outros.

As escolas estão abertas desde Setembro, mas só em Janeiro os casos de contágio e morte por covid-19 dispararam. Muitos culparam o Natal, mas a verdade é que a curva ascendente começou em finais de Agosto e inícios de Setembro, muito antes de todos os graus de ensino estarem em pleno funcionamento (as Universidades públicas abriram quase no final de   Setembro) e basta olhar para um país não cristão, onde o Natal não tem o peso social e comercial para perceber que a tendência de crescimento contínua, por exemplo os Emiratos Árabes Unidos, com uma população e um calendário lectivo semelhante ao de Portugal. O vírus segue o seu caminho, provavelmente com um itinerário a outros vírus de infecção respiratória, de cariz sazonal. Todas as barreiras que se lhe põem no caminho são como travar água com uma peneira. Pode atrasar a passagem da água mas não a veda.

A 6 de Agosto de 2020 o ECDC europeu lançou um guia sobre a transmissão em contexto escolar que refere algumas das questões já conhecidas, como a reduzida prevalência de sintomas e desenvolvimento da doença COVID-19 em crianças. Não descarta a transmissão na comunidade escolar, mas refere «if appropriate physical distancing and hygiene measures are applied, schools are unlikely to be more effective propagating environments than other occupational or leisure settings with similar densities of people».  E acrescenta-se: «There is conflicting published evidence on the impact of school closure/re-opening on community transmission levels, although the evidence from contact tracing in schools, and observational data from a number of EU countries suggest that re-opening schools has not been associated with significant increases in community transmission».

É claro que, no caso de crianças nem sempre é possível conseguir cumprir as advertências de distanciamento, higienização, etc. Mas também já percebemos que, no caso de adultos será impossível garantir a longo prazo um controlo efectivo dos comportamentos humanos, obrigando à sua repetição durante meses ou anos, como se espera venha a acontecer com esta pandemia.

Mais à frente o mesmo documento conclui: «Closures of childcare and educational institutions are unlikely to be an effective single control measure for community transmission of COVID-19 and such closures would be unlikely to provide significant additional protection for the health of children». Faz, ainda, esta advertência: «A number of organisations have identified various negative impacts on children’s wellbeing, learning opportunities and safety caused by school closures. These range from the interruption of learning and the exacerbation of disparities and mental health issues to an increased risk of domestic violence. The negative impacts particularly affect children from vulnerable and marginalised population groups». O Diogo Martins do Ladrões de Bicicletas explicou isto e muito mais , assim como a Raquel Varela e ambos têm sido trucidados por medrosos primários.

No que se refere às Universidades, a sua população é maioritariamente adulta, reunindo faixas etárias dos 17 aos 66 anos. A população docente será mais vulnerável à doença, e a taxa da incidência é efectivamente mais elevada para indivíduos entre os 20 aos 29 anos. Todavia o risco de mortalidade só é verdadeiramente uma ameaça a partir dos 75 anos.

Os números não dizem nada se não forem tidos em conta outros aspectos que advêm da aplicação de medidas de confinamento em aprendizagem. A primeira experiência mostrou-nos que, num caso de emergência, foi possível lançar mão das tecnologias para minimizar os estragos de um fechamento completo das instituições de ensino, quando estas não estavam preparadas para um regresso adaptado à vida em pandemia. Aulas à distância que de repente pareceram um milagre, já existiam desde os cursos por correspondência, passando pela telescola e à Universidade Aberta, mas sempre como alternativa ou ferramenta paralela à aprendizagem presencial.

A ideia de Universidade assenta na de academia, na reunião, no diálogo presencial e gregário, não na transmissão impessoal de informação hoje em zeros e uns, imagem e som. As ferramentas digitais são importantíssimas, mas não substituem o contacto interpessoal. A própria União Europeia estava a investir, antes da pandemia, cada vez mais em formas de mobilidade a aproximação de estudantes, investigadores e professores. Ninguém participa num congresso internacional apenas para publicar um texto (há quem o faça, infelizmente), mas para viajar, conhecer outros investigadores e visitar outros lugares.

O confinamento é uma espécie de homeopatia, que a própria ciência combate. Vai dando a impressão da mitigação, de bálsamo quando as coisas correm mal, mas nunca trará a cura. É apenas uma forma de interrupção da vida. Neste momento sobrevivemos, não vivemos. E aplicar estas medidas à educação resultará a médio e longo prazo ou na abertura de um fosso maior entre privilegiados (os que acedem às ferramentas digitais) e os que por alguma razão não conseguem estar a par do a maior parte das vezes complexo mundo

Já uso ferramentas digitais em contexto pedagógico ao tempo suficiente para perceber o valor das mesmas. Mas elas trazem um presente envenenado: o seu manuseio necessita de formação complementar, nem sempre possível, nem sempre acessível e, sobretudo, quase sempre impossível de conciliar com os programas curriculares já estabelecidos. De resto, nem todos os cursos são teóricos, nem totalmente compatíveis com este tipo de aprendizagem em-linha.

Apesar de já manusear relativamente bem ferramentas como o Moodle, o ZOOM, o Google Team e outras plataformas e softwares para ensino à distância, eu e os meus colegas fizemos em Março-Abril um esforço notável para não deixarmos para trás o que já estava em andamento. Superamos muitos desafios, mas ficou clara a ideia de que aquilo foi um momento, uma excepção, não a regra.

Compreendido o vírus, o seu perigo e a forma de minimizar o contágio, foi possível estabelecer uma situação de compromisso que permitisse uma alternância entre ensino à distância e ensino presencial, uma espécie de ensino misto, que resultou perfeitamente bem durante o semestre. Mas num curso como o de História da Arte, ficaram de fora as aulas de campo, as idas aos museus, à maioria das bibliotecas e os arquivos. Por muito que se possa visitar um museu em-linha, descarregar livros ou documentos em PDF, todos nós sabemos que isso não substitui o contacto, a observação directa ou a apreciação sensorial.

Voltar atrás neste compromisso é por em risco um ano lectivo já marcado pela carga emocional de todos os dias sermos confrontados com números de mortos e infectados, obrigações e deveres que se alteram quinzenal ou semanalmente e sentirmo-nos observados e acusados de infracções no é que é, provavelmente, uma das maiores máquinas mais intensas de comunicação e propaganda alguma vez dirigida à Humanidade.

É de prever que os confinamentos se tornem regulares, integrando, talvez, uma rotina social, como as máscaras. Entrevê-se isso, por exemplo, na entrevista a Henrique Barros, da Universidade do Porto. Ano após ano seremos conduzidos a uma nova normalidade, justificada pelo possível colapso do SNS – como se a cada confinamento, os profissionais de saúde recuperassem prontos para mais um período de «acalmia». Já ninguém estranha que os confinamentos sejam pedidos como pão para a boca, mas as vacinas, facultativas, cheguem, apenas. Já ninguém estranha que as medidas aplicadas sejam, provavelmente ineficazes na sua maioria, mas a sua aplicação seja como um placebo ou uma terapêutica homeopática.

Já ninguém estranha muita coisa, até porque os tempos não são para estranhar, são para aguentar e calar. Alguns médicos são os novos torquemadas que em vez de ameaçaram com fogo e com a danação da alma, ameaçam com ventiladores e com a morte do corpo.

Mas que não nos tirem as escolas e a liberdade para ensinar e aprender, nos dias que correm o último reduto para se questionar. Pode ser que a próxima pandemia já não tenha que utilizar métodos medievais para a conter, mas se ainda for preciso utilizá-los, ao menos que os possamos discutir desassombradamente.

 

publicado às 20:00

A ficção da Razão

por Nuno Resende, em 21.12.20

 

«Creio que o rigor de Descartes é aparente ou fictício. E isso nota-se no facto de que ele parte de um pensamento rigoroso e, no final, chega a algo tão extraordinário como a fé católica. Parte do rigor e chega ...ao Vaticano».

Jorge Luís Borges

 

No início da pandemia foi-nos dito que deveríamos ficar em casa para aplanar a curva. Este aplanar a curva era tão só impedir que o SNS – Serviço Nacional de Saúde não colapsasse com a afluência de doentes. Já se conhecia o vírus e as mortes que ele provocava, mas o aviso era que as pessoas não se contagiassem nem contagiassem o outro e assim não terem que ser assistidas nos Hospitais.
Desde o início que a Ciência não soube comunicar e, se o soube, permitiu-se ser substituída pelos Políticos e pela Comunicação Social. Desautorizando-se, perdeu credibilidade. Pior: deixou que se relativizasse a vida em detrimento de mortes estatísticas todos os dias contabilizadas pelos media como «recordes» (termo odioso quando aplicado ao número de seres humanos falecidos), e tudo alimentando um crescendo de temor que levou a extremismos e a extremistas. Por um lado, os frágeis e amedrontados, para quem a vida é uma questão de sobrevivência, por outros os autodestrutivos e incautos, facilmente manipuláveis por teorias conspiracionistas. Este perigoso diálogo entre gente ignorante ou convencida da sua razão tem sido prejudicial ao controle da pandemia. Não podemos acreditar que, nem os mais hipocondríacos tomem todas as medidas para protegerem os outros, nem os incautos se preocupem, sequer, com eles próprios.
Eventualmente pagaremos este descontrolo, o desnorte na comunicação da Ciência e o cansaço que meses de uma intensiva campanha de medo difundiram. Provavelmente já o estaremos a pagar. Alguns cientistas, ao demonizarem quem os não compreende ou se lhes opõe, enveredaram por um caminho semelhante ao da Religião que, alguns séculos atrás, com base numa figura maior, invisível e omnisciente, anametizavam quem se lhes opusesse. Naquele tempo eram os seus, hoje a Saúde Pública.
Estranhamente as religiões foram as primeiras a venerar este novo deus da Razão. A Igreja Católica apressou-se a cancelar celebrações e actos litúrgicos, a afastar os seus sacerdotes da população e até, pasme-se, a eliminar o uso de água benta nas pias das igrejas ou em casos mais extravagantes a desinfectá-la. Um Igreja fundada na ideia de sacrifício, espiritual e corporal, abandonar-se assim à assepsia e à higienização do indivíduo, aceitando e promovendo a sua despersonalização e «segregação», parece agora, finalmente, destituída de qualquer fundamento
Por outro lado, o carácter necrófago da comunicação social aproveitou-se como pode da oportunidade para explorar a dor, o sofrimento e a morte. Tem-no feito e continuará a fazê-lo, segundo alguns, para satisfazer a curiosidade humana. Mas pode haver outra explicação: em constante desagregação pela transformação da notícia jornalística em boato digital, os media cavalgaram como puderam este rastilho, aproveitando a sua mudança para o mundo cibernético e potenciando os cliques nas suas páginas de publicidade. Uma comunicação social cada vez mais constituída por, ou precários, ou mercenários, só podia resultar nesta lógica de ataque em matilha.
Estranha-se, porém, que os media cedessem à elaboração de uma campanha sentimental, como nunca vista anteriormente, desenvolvendo o slogan: «vai ficar tudo bem». Tal ausência de imparcialidade, integridade ética marcada por umm desbragado moralismo, só pode compreender-se no que se seguiu: uma paulatina reflexão permitiu-nos constatar que tudo não ficou nem vai ficar bem. E nesse sentido, depois de uma eufórica campanha de falsa esperança a Comunicação Social atirou-se aos ossos, como uma hiena esfomeada.
Mau será se os interlocutores da Ciência, os Homens da Igreja e os arautos da Informação não saiam profundamente feridos desta pandemia, quando e como ela acabar. Contribuíram para, partindo da Razão, criar uma aparente ficção.
Talvez estejamos perante uma oportunidade da História, como as que o Homem conheceu pelos séculos XIV e XVIII e que alteraram substancialmente os paradigmas anteriores, provocando Revoluções quanto ao modo de sentir, pensar e agir no resto do presente século XXI.

 

publicado às 15:02

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Negacionismo foi a designação encontrada pelos meios de comunicação social para apontar todo aquele que nega ou não acredita na pandemia de SARS-COV-2. Para além destes existem, ainda, os conspiracionistas e os fascistas, designações mais antigas e correntes que apontam um largo espectro de cibernautas ou comentadores.
Estamos perante um fenómeno em nada novo. O espaço cibernético abriu caminho a uma longa trupe de indivíduos que encontrou o lugar ideal para defender, difundir e confirmar as suas teorias, muitas delas alimentadas ao longo dos anos pelo cinema de Hollywood e por nomes famosos da literatura esotérica, de consumo fácil e atractiva pelos elementos nela contidos: explicações simples para o misterioso, o incógnito ou o inexplicável.
Acreditar que a pandemia é, ou uma patranha, ou não acreditar nela é uma idiotice fácil de desmontar. Primeiro, ninguém acreditaria verdadeiramente que alguém produzisse um vírus para o «soltar» na humanidade, com intuito de prejudicar selectivamente países ou culturas. 
Depois, porque todos nós vivemos, desde Março, uma experiência que dificilmente poderia ser uma farsa. Todos vimos nas televisões os camiões com caixões em Itália, a contagem dos já milhões de óbitos, as urgências cheias, os profissionais de saúde exaustos e os confinamentos por todo o mundo. Não há imaginação que planeasse este panorama, nem as televisões mentiriam de uma forma tão consistente e abrangente. Neste mundo de inverdades digitais as televisões foram o grande recurso para saciar as nossas eventuais dúvidas.
Verdade: nunca esta palavra foi tão reclamada. A Verdade, coisa tão subjectiva como o seu contrário, tem sido invocada por alguns para desmascarar a situação em que vivemos. Para alguns há uma narrativa oficial, política, científica que mente e que deturpa o tempo em que vivemos. Uns insistem na estranha origem do vírus, outros recusam a sua letalidade, outros ainda que não passa de uma “gripezinha”. Como foi possível surgir esta frente, hoje aficandamente combatida pela comunicação social e por alguns médicos, como o Doutor Gustavo Carona?
Creio que a explicação poderá ser encontrada na forma como a comunicação da pandemia tem sido gerida quer pelos cientistas, quer pelos políticos, quer pelos media. Desde o início que todos conduziram errónea e erraticamente campanhas diversas: primeiro a do “vai ficar tudo bem”, mensagem que alimentou as parangonas de jornais e revistas e ocupou o tempo de antena de chorosos pivots televisivos . Nunca na história recente da Comunicação Social se viu tamanha campanha sentimentalista que deixou os media fragilizados na sua função de imparcialidade e objectividade pedida a uma ocasião como esta. Seguiu-se-lhe uma falsa sensação de acalmia que derivou num verão quase tranquilo, sem surtos ou casos graves. Excepções atrás de excepções, políticos e jornalistas contribuíram para um discurso confuso, errático, por vezes imperceptível e pouco sério: eis a uma das explicações para o exponencial crescimento de movimentos “pela verdade”. De facto, ninguém detém a Verdade nesta discussão entre fanáticos conspiracionistas e hipocondríacos esquizofrénicos, mas quer de um lado quer de outro, o desvario tomou proporções incontroláveis devido a meses de uma infrene campanha de desinformação.
Neste momento, uma pretensa segunda vaga (ou a continuação da primeira, acentuada pelo crescente número de testes) colocou os hospitais numa situação de ruptura. Fala-se já em escolher quem vive e quem morre, num twist macabro e irónico quando a discussão sobre a Eutanásia está na ordem do dia.
Mas o reflexo de outras escolhas já está na rua, nas manifestações de ontem, no Porto, e hoje em Lisboa. É que se os médicos, os cientistas e os políticos se responsabilizam directa ou indirectamente pelas escolhas de quem vive ou morre nos hospitais, certamente nunca se responsabilizarão pela destruição da vida individual e colectiva de jovens que vêm os seus empregos eliminados pelas políticas aplicadas na contenção de uma doença que avança desenfreadamente mesmo com o estabelecimento de várias formas de controlo. Nem a comunicação social será responsabilizada por alimentar e alimentar-se desta frenética campanha de desinformação. Um autêntico frenesi de desespero que lhes é devolvido pelos teóricos da conspiração e negação e que os media exploram como apenas mais um sensacionalismo dos muitos que lhe garantem sustento. Infelizmente os media tornaram-se um poder absoluto sem qualquer tipo de oposição ou resistência.
Ora, sem vacina ou terapêuticas adequadas conter o avanço da pandemia é como segurar uma fuga de água com uma peneira. E se, como a Comunicação Social tem divulgado abundantemente, houver sequelas nos doentes covid-19, vislumbra-se um futuro de milhões de inválidos que contribuirão para o enfraquecimento dos Serviços Nacionais de Saúde.
Até vacina chegar à maior parte da população do planeta (um, dois, três anos?) entre formas de aplanar as sucessivas curvas, muitos milhões serão aplicados nestas medidas que apenas remedeiam, durante semanas ou meses, a destruição do tecido social e económico. Até quando um estado como o da República Portuguesa aguentará este tipo de investimento?
Não se pode colocar o dilema entre a saúde e a economia, como se a saúde de uma população fosse apenas uma doença que se trata no dia de hoje, ou a curto e médio prazo. O empobrecimento social resultará em graves problemas sanitários que saem da esfera meramente biológica, como o que vivemos hoje, contribuindo ainda mais para o acima descrito enfraquecimentos dos sistemas de saúde.
Por isso, o leque de escolhas é, como escrevemos, muito mais alargado: não se decide apenas pela vida no imediato, nos cuidados intensivos, decide-se pela vida de milhões de pessoas, algumas delas tão jovens que, ou ainda em formação, ou no início do seu período de empregabilidade já viram truncadas as suas esperanças próximas futuras.
O panorama parece desolador e é-o de facto. Mas entre a desinformação e a errância dos actos, convinha respirar fundo e pensar a longo prazo. Pois o tempo que o vírus veio para ficar e as ondas de choque da sua chegada serão sentidas daqui a muitos anos. Era importante que começássemos a preparar um futuro mais saudável e não um presente remediado, investindo em mais recursos humanos e equipamentos sanitários. Bem vamos precisar destes quando já nos tivermos habituados à presença do Sars-cov-2 mas as consequências da sua chegada ainda se fizerem sentir entre nós. 

publicado às 19:45

O PRINCÍPIO DA IGNORÂNCIA SÁBIA

por Nuno Resende, em 26.09.20

O texto de um médico chamado Gustavo Carona, publicado no jornal Público circula nas redes sociais como uma espécie de grito de alerta contra «as campanhas de desinformação, conspiração e negação» em tempo de pandemia. O artigo, intitulado, «Resistam à estupidez» é uma espécie de puxão de orelhas a quem se atreva a questionar a gravidade da situação.
Em tom paternalista diz-nos que «quando a vontade é muita, somos capazes de acreditar nas coisas mais estúpidas e inverosímeis». Tem razão. E tem-na de tal forma que, no início de 2020 havia médicos como o Dr. Gustavo Carona que acreditavam em coisas estúpidas como o facto de um vírus já conhecido e potencialmente perigoso como o que fazia tremer a China, 1.º nunca chegaria à Europa, 2.º se chegasse seria inofensivo, 3.º tendo chegado, não seria preciso máscara, etc., etc, de coisa estúpida e inverosímil, em coisa estúpida e inverosímil até hoje!
O Dr. Gustavo Carona, que administra uma página de facebook intitulada Gustavo Carona - Humanitarian Doctor, onde promove abundantemente o seu humanitarismo, rebate em cinco pontos (1.“A ciência aos cientistas”, 2.“Morrem mais pessoas de cancro!” 2“Dinheiro e Felicidade” 3“Avante, Fátima, Futebol e 4. Discotecas” 5. “Numerologistas”) a trupe de estúpidos que circula pelas redes sociais, semeando discórdia e falsos rumores, coisa que parece dever-se única a exclusivamente a gente mal informada ou sem formação.
Qualquer dos pontos é difícil de rebater, mas é sobretudo difícil passar do primeiro, que inicia assim:

«Eu não imagino que alguém se levante do seu lugar num avião a passar por uma tempestade e tente tirar os pilotos do cockpit: “Sai daí! Eu é que sei aterrar este AirBus 380 no meio desta tempestade”. É isto que estamos a presenciar. Doutorados em patetices a dizer que sabem mais do que toda a comunidade científica.»

Suspeito que a maior parte dos cientistas também não saberá pilotar um avião nem, portanto, arrogar-se a isso em pleno voo. Mas duvido que a comunidade científica, à frente da qual fala o Dr. Carona, se pronuncie a uma só voz na questão da pandemia. E mantendo a alegoria do avião, pressinto que se a pandemia fosse um boeing 747 que exigisse uma aterragem segura, dependendo da tal comunidade científica a esta altura não só o avião já teria caído, como certamente teria destroçado uma cidade bastante populosa, causando o maior número de vítimas possível, tal a evolução da pandemia.
O avanço deste vírus trouxe ao de cima o melhor e o pior da humanidade face a uma situação destas: há os que, se não morrerem da doença, morrem de medo; os ignorantes para quem o perigo não existe; e os que pura e simplesmente tiram partido do momento.
Os primeiros persignam-se, barricam-se, sofrem os horrores dos números de mortos e infectados que a comunicação social, com um prazer diabólico, debita todos os dias.
Os segundos vociferam contra a Nova Ordem Mundial, o Club Bilderberg, os Illuminatti e outras quejandas parvoíces com que Hollywood os alimenta. Uns não acreditam, são os tais «negacionistas», outros acusam poderes invisíveis e outros, ainda, acham que é um plano maquiavélico e à vista de todos para controlar a humanidade pela vacina que virá.
Entre os terceiros há os que acham que o Mundo está a purificar-se, outros que o confinamento foi uma época deliciosa de leitura, música, artes e culinária e ainda outros que acreditam que vai ficar tudo bem.
Nesta ausência de serenidade e equilíbrio é muito difícil ser-se sério ou objectivo. É muito difícil comparar este vírus com outros, pesando o seu verdadeiro perigo para a saúde pública em geral; é muito difícil acreditar em mensagens fiáveis, seguras, definitivas quando tantas antes delas, transmitidas pela comunidade científica foram o seu oposto; é muito difícil contribuir para um discussão ampla, aberta e franca, quando há tanto ruído.
Estamos todos no mesmo barco, esta é uma verdade, médicos e não médicos, cientistas e não cientistas. Não há lugar para teorias da conspiração, que o bom senso desconstrói facilmente com a imagem de um mundo paralisado há vários meses – qualquer conspiração perderia o controlo sobre este cenário.
Mas se, felizmente, deixámos para trás um tempo em que a superstição, o misticismo, a idolatria e o pietismo controlavam as mentes, não podemos achar bem que os sacerdotes de outrora, guardadores dos mistérios da religião, sejam substituídos pelos cientistas e pelo cientificismo.
Tudo pode ser questionado. Tudo deve ser questionado e escrutinado. Mais ainda a Ciência a quem a Humanidade deve a sua sobrevivência e o seu progresso, preciosos bens que várias vezes alguns os mesmos cientistas lhe roubaram. O Dr. Gustavo Carona diz que a ciência é para os cientistas e eu fico, em parte satisfeito com este aviso, pois há anos que me vejo confrontado pela apropriação do meu campo científico de investigação – a História- por não cientistas ou até mesmo por colegas de profissão do Dr. Carona.
Mas a arrogância da expressão não contribui para acalmar o tempo de crispação que se vive. Nem isso, nem o bloqueio nas redes sociais método que alguns colegas do Dr. Carona usam amiúde para silenciar opiniões divergentes. Também não será a atribuir rótulos como “negacionista” ou “fascista” que alguém fará valer o seu ponto de vista. Pelo menos dignamente. E nem sequer é preciso invocar a ética ou deontologia que tem andado arredada da boca e da escrita de muitos médicos .
Sem tolerância ou paciência creio que a Ciência só produzirá ignorantes sábios.

publicado às 18:41

A matilha.

por Nuno Resende, em 29.06.20

O fenómeno ou comportamento de matilha é algo que tenho observado acontecer nas redes sociais, nomeadamente no Facebook, quando alguém com uma opinião contrária à maioria dos comentários é atacado em grupo por essa maioria. Geralmente este fenómeno observa-se nos comentários ao comentário, desenrolando-se, por vezes, uma extensa discussão até ou à desistência do atacado, ou ao cansaço do grupo.
Este fenómeno tem-se acirrado nos últimos meses, por causa da pandemia. Dada a larga escala e difusão constante de notícias, algumas contraditórias, as redes sociais replicam o eco geralmente catastrofista e ampliam-no em larga escala.
Tem-se ntoado uma diferença no opinismo digital: nas primeiras semanas no confinamento havia ânimo. Afinal, tudo ia ficar bem. O pânico crescia, no entanto, proporcionalmente ao número de infectados e de mortos e, à data do desconfinamento, o projecto da comunicação social para colaborar para travar a difusão da pandemia dera certo: poucos queriam sair de casa e os que saiam começaram a ser vistos como potenciais assassinos.
Neste tipo de difusão de mensagem não há lugar a nuances, ou se é ou bom ou se é mau. Da mesma forma que não há lugar para boas notícias. Como olhamos diariamente (eu diria mesmo quase de hora a hora) para os casos de COVID-19 dentro e fora de Portugal, não há margem para pensar em mais nada. Fora da pandemia, nesta altura, não existe vida.
Nas redes sociais, que em parte replicam comportamentos públicos, as pessoas mobilizam-se. Esta mobilização faz-se ou por mimetismo, ou por arregimentação. No caso do mimetismo: pânico gera pânico, medo gera medo. No caso da arregimentação, ela processa-se de forma solidária: os membros de um grupo ou partido, ideologia ou corporação arregimentam os seus e todos apontam ao alvo. Este tipo de mobilização é transversal a todas as questões candentes das redes sociais e estão geralmente associadas a páginas específicas, de figuras públicas, projectos de comunicação social.
Já fui várias vezes alvo dos dois tipos de ataque em matilha. Recentemente vi-me confrontado com uma situação verdadeiramente kafkiana: por comentar uma notícia a respeito de um título de um artigo de Pacheco Pereira (artigo que não li, apenas fazendo menção ás “gordas”) sobre o facto de o São João do Porto ter sido «domado» em tempo de pandemia vi-me encostado à parede por uma matilha de indivíduos que me acusou de ser um conspiracionista e até um disseminador da doença. Isto por eu ter escrito que se o Porto fora domado, o fora pelo medo – o que, continuo a afirmá-lo, é verdade e está à vista de todos. O medo tem-nos a todos reféns.
Apareceram comentadores de todos os lados e origens. Se é certo que a maioria não tinha dados suficientes para aferir, muitas vezes, sequer da sua identificação real, nota-se que há uma predominância de indivíduos pouco dotados para a escrita e para a argumentação. A partir de uma determinada altura o argumento é apenas o insulto e noutros casos a utilização de dados pessoais localizados na internet para tentar destruir o opinador e fazê-lo desistir, ou para embaraçá-lo no confronto com as suas próprias acções, profissão e até aspecto físico.
No caso que acima exemplifiquei o que me chocou particularmente foi o de um médico cujo método de ataque era recorrer a comentários de teor homofóbico para tentar, não só desviar o assunto, como rebaixar a opinião do outro pelo ridículo. Não contente, ameaçava com pena de prisão por advogar à disseminação da doença – como se alguém, por ter uma opinião diversa da maioria, fosse considerado um pária, ou, pior, um assassino em potência!
A Raquel Varela escreveu, recentemente, um texto sobre este tipo de ataques soezes e da necessidade de reflectirmos sobre eles. As redes sociais  permitiram, e felizmente bem, a possibilidade de mais vozes chegarem mais longe, mas ainda não conseguiram educar para a discussão sã e cordial que poderia ser alcançada, por exemplo, pela responsabilização dos proprietários dos perfis (o sistema de denúncia não funciona porque é feito através de «robots» que lêem palavras proibidas, mas não conseguem entender insultos «complexos») nomeadamente através da associação aos perfis de componentes de identificação credíveis (o cartão de cidadão, por exemplo).
Estou em crer que o problema das fake news poderia ser mitigado com estas formas de identificação credível, em vez de deixarmos as redes sociais entregues a perfis falsos criados para lançar rumores e ataques, trolls e toda uma panóplia de indivíduos sem qualquer capacidade crítica, alguns irresponsáveis sem o saberem ou disso terem consciência.

publicado às 09:03

Dois meses, uma semana e alguns dias após o início do confinamento e, entretanto desconfinamento, já sabemos o suficiente para podemos traçar um ponto de situação em que o Mundo se encontra no contexto de pandemia Sars-Covid-19.
Um vírus surgiu na China em Janeiro de 2020 que o Governo Chinês desvalorizou, não obstante ter construído de raiz, em dez 10 dias um hospital, para o conter e tratar. Apesar desta extraordinária capacidade construtiva pouco tempo depois da edificação do hospital desabou, no mesmo país, um hotel de cinco andares usado para doentes com o coronavírus, entretanto designado COVID-19, porque afinal fora produto do ano anterior.
Preocupante ou não, nem a China, nem a Organização Mundial de Saúde acharam que o vírus pudesse viajar tão rapidamente na era da globalização, de tal forma que só a 11 de Março esta organização achou por bem declarar situação de pandemia (sabendo já que o vírus poderia circular desde finais de 2019).
Pandemónio já o era quase por todo o Mundo, nomeadamente em Itália, em Março, quando na região da Lombardia os casos de COVID-19 surgiam em catadupa, com uma tal rapidez de contágio e mortes deles resultantes que ninguém diria como de Janeiro (?) a Março o planeta inteiro não ficara infectado e metade dele não tivesse ainda morrido.
Em Portugal - que geralmente sob governos do Partido Socialista costuma ser o menino bonito da Europa-, toda a gente entrou ordeiramente em confinamento e teletrabalho, só falecendo de COVID-19 e de mais nenhuma patologia desde 19 de Março, data da entrada em vigor do Estado de Emergência. Presidente da República, Governo e Oposição juntaram-se como uma voz uníssona em torno dos slogans #fiqueemcasa #vaificartudobem, que soariam bem durante o blitz na Segunda Guerra Mundial, ou durante uma guerra química, mas que no meio uma pandemia cuja família de vírus já é conhecida desde a década de 1960, parece um pouco estranho.
A comunicação social fez o seu trabalho empresarial: primeiro alinhou numa estratégia de jornalismo sentimental e choroso, dizendo que ia ficar tudo bem e, depois, alimentou o medo com parangonas, números e gráficos contabilizando mortos diários, de tal forma evidente era que numa questão de dias estaríamos todos mortos. Esta esquizofrenia resulta bem em qualquer venda: primeiro dizemos ao comprador que o chão está cheio de migalhas, depois vendemos-lhe uma vassoura. A vassoura não apanha as migalhas todas e a seguir vem o aspirador.
A D.G.S. lá veio conduzindo o assunto, ora com pezinhos de lá, ora com elefantes em lojas de cerâmica. Antes da pandemia chegar a Portugal a directora, Graça Freitas, dizia que nem cá chegava e se chegasse não era vírus que preocupasse. Chegou, dizendo que a única medida profiláctica era ficar em casa, de resto tomada por grande parte do mundo civilizado e burguês que, em 2020, encontrou numa estratégia medieval a única solução para combater uma doença. Muito me admira que alguns não tenham entaipado casas e atiçado fogo aos moradores lá dentro (a).
Depois disse que as máscaras eram contra produtivas assim como as luvas. Só o lavar de mãos era solução. Várias vezes aos dias, mesmo estando em casa, não fosse o diabo tecê-las! Em Abril as máscaras já eram obrigatórias e em Maio só não estava toda a gente na rua, para estimular a economia (é preciso vender aspiradores…), por que entretanto o medo veiculado pela comunicação social toldou o cérebro da maioria das pessoas.
Hoje os alunos do secundário têm aulas, mas os universitários não, os aviões podem ir lotados, mas os cinemas e teatros estão fechados, as bibliotecas põem os livros manuseados pelos leitores em quarentena, mas as livrarias e os alfarrabistas estão abertos e com os livros para manusear e folhear.
Só um pateta poderia embarcar nas ideias de guerra biológica ou das teorias da conspiração. Até na simples ideia de guerra. Nas guerras, protegiam-se os mais fracos e os mais fortes davam o corpo às balas. Não ficavam em casa agarrados ao TIK TOK ou à NETFLIX.
E ainda que muitos vissem, durante o confinamento, veados e unicórnios a passear nas ruas das cidades, ou golfinhos nos canais de Veneza, supostamente atraídos pela pureza original de um mundo sem gente – a quem os mesmos culpam pelo aparecimento do vírus – lembraremos sempre este ano, não pelos mortos, anónimos, como todos os números de óbitos, mas pelas ondas de choque que esta pandemia deixar, muito para além do seu desaparecimento, com vacina ou imunidade adquirida –se ambas algum dia chegarem a existir.
Por estes dias lembro-me frequentemente daqueles anos todos europeus e mundiais dedicados à Ciência, os prémios nobel, os avanços extraordinários na medicina, os desafios tecnológicos e digitais vencidos e penso e pergunto-me: como é possível que, em 2020, estejamos à mercê de um vírus como os homens de 1020 o estiveram também? Pelo menos esses milenaristas tinham um deus para os iludir. Hoje parece que nem a deusa ciência nos pode salvar.

(a) Não houve piras, nem tochas, mas a delação do vizinho, estratégia amíude utilizada na Idade Média e na época moderna para entregar bodes expiatórios à Inquisição, foi amplamente utilizada por quem considerava uma questão de saúde pública impedir o seu congénere de sair à rua. 

publicado às 18:12

Most things may never happen: this one will

por Samuel de Paiva Pires, em 28.04.20

Philippe de Champaigne - Still Life With A Skull (

(Philippe de Champaigne,  Vanité)

Os sinais vinham sendo emitidos há vários dias, pelo que dificilmente poderíamos ter sido surpreendidos pela decisão de terminar o estado de emergência e levantar o confinamento, ainda que passemos à situação de calamidade pública prevista na Lei de Bases da Protecção Civil. Ao contrário do que inicialmente pensei e advoguei, o Governo não teve engenho nem arte para reorientar a actividade económica, sendo apenas de esperar que, pelo menos, tenha conseguido assegurar o reforço da capacidade instalada do SNS para dar resposta à pandemia e aos restantes cuidados de saúde.

Por outro lado, as decisões titubeantes da União Europeia continuam a não ser especialmente tranquilizadoras, deixando a resposta à crise económica em grande medida do lado dos Estados. Setenta anos de paz, o desgaste da autoridade do Estado soberano, o peso exagerado do mercado nas decisões políticas, uma moeda única que é um colete-de-forças e a hegemonia alemã no processo decisório europeu deixaram-nos numa situação de fragilidade para lidar com o que actualmente enfrentamos.

Nesta crise originada pela pandemia, pelas suas particularidades, chegámos então ao momento que provavelmente levará a um aumento do número de casos e de mortes, a tal segunda vaga que eventualmente nos devolverá ao confinamento daqui a não muito tempo. Haverá uma solução óptima para os dilemas que enfrentamos? Provavelmente não. E como não podemos recriar em laboratório a totalidade da realidade social, resta-nos proceder por tentativa e erro, o que terá custos humanos e económicos - não sendo despiciendo recordar que todos os custos económicos são custos humanos e todos os custos humanos têm custos económicos. Muito provavelmente, acabará por sair mais caro, quer em vidas, quer financeiramente.

Diria um resignado que as coisas são o que são e que, numa altura em que o anormal começa a parecer um novo normal, é preciso tentar restaurar a normalidade do sistema (aquilo que em teoria dos sistemas se chama homeoestase). Talvez assim seja. Mas não deixa de me recordar a imagem de soldados a sair das trincheiras da I Guerra Mundial e a avançar para uma morte quase certa e o poema Aubade de Philip Larkin:

I work all day, and get half-drunk at night.   
Waking at four to soundless dark, I stare.   
In time the curtain-edges will grow light.   
Till then I see what’s really always there:   
Unresting death, a whole day nearer now,   
Making all thought impossible but how   
And where and when I shall myself die.   
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.

The mind blanks at the glare. Not in remorse   
—The good not done, the love not given, time   
Torn off unused—nor wretchedly because   
An only life can take so long to climb
Clear of its wrong beginnings, and may never;   
But at the total emptiness for ever,
The sure extinction that we travel to
And shall be lost in always. Not to be here,   
Not to be anywhere,
And soon; nothing more terrible, nothing more true.

This is a special way of being afraid
No trick dispels. Religion used to try,
That vast moth-eaten musical brocade
Created to pretend we never die,
And specious stuff that says No rational being
Can fear a thing it will not feel, not seeing
That this is what we fear—no sight, no sound,   
No touch or taste or smell, nothing to think with,   
Nothing to love or link with,
The anaesthetic from which none come round.

And so it stays just on the edge of vision,   
A small unfocused blur, a standing chill   
That slows each impulse down to indecision.   
Most things may never happen: this one will,   
And realisation of it rages out
In furnace-fear when we are caught without   
People or drink. Courage is no good:
It means not scaring others. Being brave   
Lets no one off the grave.
Death is no different whined at than withstood.

Slowly light strengthens, and the room takes shape.   
It stands plain as a wardrobe, what we know,   
Have always known, know that we can’t escape,   
Yet can’t accept. One side will have to go.
Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring   
In locked-up offices, and all the uncaring
Intricate rented world begins to rouse.
The sky is white as clay, with no sun.
Work has to be done.
Postmen like doctors go from house to house.

publicado às 20:54






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