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A tentação da carne

por João Quaresma, em 31.03.13

Em terra de pescadores, à conversa com dois veteranos:

«E como é que faziam para trazer a baleia para terra?» - pergunto eu.

«Dava à costa e depois era puxada para a praia por bois durante a maré-cheia e ficava a sêco quando a maré baixava. Abria-se e desmanchava-se tudo rapidamente antes que a maré subisse. O fígado era para óleo, a banha era para derreter e fazer óleo de queima.»
«E dava carne para famílias inteiras, não era?» - pergunto eu.
«Carne? Ohsss... Dava mais carne do qu'aquela que se podia comer! Salgava-se e guardava-se ou vendia-se.»
«Naquele tempo era assim. Não havia arcas congeladoras» - diz o outro.
«E era boa?» - pergunto eu.
«Era boa. Mas a boa, boa é a de toninha. Bife de toninha de cebolada...»
«Toninha é a mesma coisa que golfinho» - diz o outro enquanto dá um golo de aguardente.
«Mas não se pode, é proibido. Mas é tão bom! Um bifinho de toninha com molho de cebolada e batatas cozidas!» - diz o primeiro esfregando as mãos.
«É bom mas é proibido» - diz o outro.
«Proibiram há uns anos. Eu comi quando ainda era permitido.»
«Toninha e golfinho é a mesma coisa» - diz o outro, dando mais o golo de bagaço. 
«Mas há por aí quem coma. Ah, pois há!»
«Há mas é proibido» - diz o outro.
«Parece carne de vaca mas branquinha, suculenta, sem nervos. Muito tenra.. Ah, aquilo na frigideira com cebolada!..»
DIz o outro: «O que também é muito bom é aquele choco pequenino que vem na rede, que não se pode pescar mas vem à mesma na rede, e que morre antes que se possa deitar ao mar.»
«Ah, sim.. Aquilo grelhado também é muito bom.» - diz o primeiro.
«..Ou frito, com piri-piri.»
«Mas isso é proibido» - diz o primeiro.
«É, mas se já morreram vai-se deitar ao mar para quê? Para dar de comer às toninhas?»
«Ah.. Bife de toninha é que era...»
Diz o outro, depois de mais um golo de aguardente: «Toninha ou golfinho é a mesma coisa».

publicado às 13:15

Respeito pelo peixinho, por favor!

por John Wolf, em 04.01.13

 

 

A Sílvia Alberto esforça-se por demonstrar que tem "respeito" pelos pescadores. É uma atitude do género; "até gosto de peixe, mas não gramo o cheiro, não lhe toco. Por isso peço à Amélia da praça para amanhar o Robalo...com respeito, por favor". Que caldeirada é esta? Se a intenção era fazer "render o peixe", enganáram-se com estas postas, pescadas da televisão, das redes apertadas onde as celebridades são capturadas. E há calinadas pelo meio - "Não conseguia viver na Alemanha porque não tem mar" - a Alemanha não tem mar? E foram os pescadores que chegaram à Índia? Mas há requinte em tudo isto. São pormenores que nos distraem das bocas formadas à meia-volta. São fait-divers enrolados pela passadeira vermelha, quase ofensivos para a já mui sofrida indústria pesqueira. Será a Sílvia Alberto a nova embaixadora do Carapau? As palavras que profere são anzóis que servem para pescar peixinhos da horta. O resto são detalhes de design que não escapam ao meu olho de linguado, de linguareiro. O sinal de beleza da face, imagem de marca da Marilyn Monroe, encontra conforto na repetição. No cardume de pontos colados no uniforme da menina. Eu sei que estamos todos desesperados, mas não valia a pena um ensopado de esguia tão aguado, tão carente de nutrientes. 

publicado às 14:59






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