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Deve ter sido num dos corredores da sede do Bloco de Esquerda (BE) que a coisa aconteceu. Estavam para lá uns andaimes montados, um dos pintores com o rolo já mergulhado na bandeja de tinta de água para dar uma segunda demão à parede quando zás - sai um piropo. Por azar do destino, o pintor nem sequer imaginava que a garota a quem ele mirava o decote, a quem dirigia a boca, era, nem mais nem menos, a Catarina Martins. A co-dirigente, embora quisesse responder à letra (estava raivosa, a espumar pelos cantos da boca), lembrou-se do sentido de Estado e aproveitou a deixa, a sugestão - "marchava já" -, e pensou: "porque não tornar o piropo num dossier político?". E assim, sem mais nem menos, e à falta de assuntos políticos por tratar, a agenda ficou preenchida. Para Catarina Martins o debate sobre piropos deveria ser aberto e não engolido pela conveniência machista. Acontece que as feministas não detêm a licença de exclusividade sobre os limites da graça ou a fronteira do assédio. Ao restringirem o debate ao género feminino, demonstram um sectarismo típico de regimes fundamentalistas, de tudo ou nada. O BE que se apresenta como intérprete das pulsações humanas, parece ter tido a sua génese num país não latino, pouco mediterrânico. O piropo que nasce com o olhar e evoluiu para o assobio, para a frase fei(t)a, tem origem na arte dos trovadores - eu sei, perdeu-se a guitarra e apenas ficou o sado-fado. A cultura do galanteio que roça o explícito faz parte da matriz dos países de sol, da bandeira do suor e das garotas de clima ameno, estilo Ipanema; Itália, Espanha, Grécia e Portugal. Ao pretender levar para a conferência académica o que decorre no passeio, na pausa de almoço dos pedreiros e serventes, os intelectuais do bloco demonstram que não entendem que a boca lançada à rapariga funciona como um pequeno orgasmo virtual, uma picada para aliviar a amargura da solidão. Os praticantes da modalidade espontânea não sabem fazê-lo de outro modo, e infelizmente acreditam que nunca terão acesso a esse escalão de beleza passageira, à dama perfumada pelo olhar altivo - o desdém pela classe inferior. Se calhar a luta feminista do BE é mais uma luta de classes, mas parece que se serviram do manual de insinuações errado, o código do assédio sexual. A mulher, alvitrada em mau Português, é uma intocável ao alcance de muitos-poucos trolhas. O país também se define nessa estratificação sócio-sexual. Esta é uma das dimensões da análise, mas há outras que nao foram arrastadas para a mesa pelas sociólogas de Semedo. As bocas mandadas aos homossexuais e aos negros não contam nessa contabilidade? A linguagem suja deitada ao cigano também não? Ou seja, gostaria de saber se o conceito de assédio que o Bloco de Esquerda refere tem um sentido restritivo. Gostaria de saber se para além de desejarem a reforma do Estado, pretendem corrigir a cultura de rua dos Portugueses? Quando se levanta uma lebre desta natureza é melhor tornar a questão mais abrangente. Se é a piropotecnia que está em causa, não me parece que seja um sector que possa ser regulado.